apartem-nos

saudades do meu pai, sinceramente.
um homem pouco adaptado ao mundo.
um ingênuo, transparente na sua humildade.
creio que mal soubesse o significado de ser contrário, de ser de esquerda.
mas era um homem bom.
bom a ponto de sacrificar o que quer que fosse seu
por nós.
modos e bigodes de tempos em que tudo isto compunha elegância, refinamento simples.
hoje vejo esses sujeitos que se creem adultos desfilando com graxa no olhar, pisando sobre todos.
não, meu pai não era um homem assim.
tão límpido como um riacho antigo, coitado!
um menino.
o pulo, a graça, a vitalidade infantis.
o respeito profundo pelas brincadeiras, pelos lápis de cor.
hoje entendo uma boa parte de você, pai, antes tão inalcançável.
acho que pertenço a seu imaginário e a seu sorriso bom.
tudo o mais me assusta e estupidifica.
os exageros, as contenções.
das desmedidas às menores, as ambições me causam estupor!
esse silenciar o afeto para se submeter aos números…
esse não ser o que se é, em busca de aceitação…
quis tanto que a vida desse certo pra você!
como quis que desse pra mim.
que nos deixassem no fim do arco-íris, pois nosso interesse não estava nas moedas, mas nas luzes.
ninguém vai compartilhar conosco esse sentimento, vai?
e o que teremos nós a ver com isso, pensando bem?
apartem-nos do que vocês construíram!
estamos no lamaçal brincando de escorregar.

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