Os meninos por detrás

Quase não saio de casa, e não culpo a pandemia por isso.
Tenho vivido e trabalhado sozinha faz cinco anos, longe da malandragem das ruas, essa da qual me dou conta apenas quando fotografo.
Antes da catástrofe virótica, só descia pela avenida onde moro por ocasião de biblioteca, exposição, filmes (raramente), festa e show, ainda assim, levada por convites.
E agora que os poderes municipais não se decidem a abrir as bibliotecas, que as exposições são raras e não há festa ou show possíveis (mas logo haverá), saio menos ainda.
Livros, filmes, pra que vos quero comigo?!
Mas hoje tive de pegar remédio numa farmácia de manipulação aqui do centro, mais barata que as outras, e me encapotei.
Deu tudo certo na farmácia, razão pela qual, no caminho de volta, decidi aproveitar que estava na rua para comprar o papel higiênico que faltava.
Parei num desses mercados expressos sem segurança na porta – muitos deles espalhados pelo centro, para o inferno dos empregados.
E entrei.
Entrei porque a pão-durice desses donos me enche da paz que os pobres funcionários não têm.
Minha paz reside no fato de que ninguém vai morrer, negro nenhum, nas mãos de um segurança no porão, porque se trata de mercados essencialmente inseguros, sem capatazes.
Tão feliz por isso!
Mas triste por só ter felicidade nesses momentos.
No mercado da rua 24 de Maio, você fica de costas pra rua quando vai digitar seu código de cartão.
E eu não me dei conta de que, uma vez de costas para tudo, sou colocada no centro das ocorrências.
Porque foi nesse momento que o menino entrou.
Tinha uns 16 anos aparentando 13, gorro de lã na cabeça, casaquinho demais para um dia até quente.
Negro.

– Tia, me deixa levar café?
O mercado é mais barato que os outros, pensei. Café por dez reais?

– Deixo.
Ele então salta feito louco pelos corredores, entremeando os clientes, mas demora mais do que a fila aguenta pra voltar.
Enquanto pago minha conta ele chega esbaforido com o café. Mas não só com o café. Com o óleo de milho também.
Vejo que ele é magro e se agita – está claro que quer sair dali correndo.

– Eita, menino, você não falou que era só o café? – pergunto.

– Eu sei, tia… Mas o óleo! – me diz, como quem faz um xis com o canivete.
O óleo fecha meus olhos.
O caixa me pergunta:

– Quer que eu tire?
E eu digo rápido que não.
O menino é tão pequeno e magro. Deve sustentar a família com esses serpenteios.
Penso que vim ao mercado pra economizar, mas que não tenho esse direito.
Se saí à rua, penso, preciso pagar por isso.
Pouco tempo antes, no caixa eletrônico, uma mulher branca com cara de crente havia enfiado uma pasta de limão no meu nariz exigindo que eu comprasse a gosma para a limpeza doméstica – e eu precisei gritar pra ela que não limpo minha casa todo dia.

– Leva, menino.
Ele nem se virou pra mim.

– Me dá uma sacola? – pediu ao caixa, que lhe deu o que pedia resignado, sem me cobrar.

– Deus abençoe, tia!
Garrafinha de óleo: 12 reais.
Café: 11.
Eu não fiz nada, nem queria ter feito nada, não tive rapidez de ação pra decidir coisa alguma, não conheço todos os truques dessas crianças trabalhadoras do dia, mas talvez tenha salvado o menino.
O menino e todos os meninos que andam ali por detrás.

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