Carlos Moreira, o ouro nas linhas

Neste 30 de setembro de 2026 em que o grande fotógrafo brasileiro completaria 90 anos de idade, reapresento a reportagem que fiz por ocasião do lançamento de seu livro “São Paulo”.

Após ler este texto, publicado em 2014 numa revista semanal brasileira, Carlos decidiu que eu seria a pessoa a quem ele contaria sua vida, a ser transformada, imaginávamos, em uma biografia literária. Marcamos seguidas conversas no ateliê do artista, situado no prédio de sua propriedade no bairro paulistano da Barra Funda, onde ele também morava. Guardo as fitas contendo muitas horas de suas palavras. O livro nunca saiu.

Neste post, incluo algumas imagens de sua autoria que ele me mandou por email.

E aqui publico igualmente alguns dos tantos retratos fotográficos que ousei fazer dele no decorrer dos anos. Uma dessas imagens, o fotógrafo sugeriu que fosse a capa de sua biografia. Mas, como o livro não existe, ainda a guardo em minhas gavetas.

Carlos Moreira era um dos meus melhores amigos.

Um mestre.

Inspiração sem fim.

No ateliê na Barra Funda, o menino


Chamem-no Carlos Moreira. Cinquenta anos atrás, em 1964, ele decidiu desfazer de um golpe o inverno da alma e a inadequação ao mundo. Abandonou a economia, apenas cursada para acalmar os pais sobre seus destinos, e partiu para a aventura nas ruas. Flanou por São Paulo atrás de vestígios dos homens nas calçadas e nos cemitérios. E fez as fotos de tudo o que lhe saltou aos olhos, sem nunca, a partir daí, pausar. Eis que representaria o existente enquanto revelasse as sombras do outrora grande centro da cidade, navegando em oscilante baleeiro rumo à caça de personagens. No decisivo ano de 1964, daquele seu convés de metáforas, combateu o Leviatã sem bala ou alçapão.

 

A rua, para Carlos Moreira, significou esse oceano de inconsciência e espiritualidade retratado à perfeição no Moby Dick de Herman Melville. Tão logo uma Leica lhe caiu nas mãos, viu-se entranhado em um novo e duro ofício, mas, na contramão dos tempos vigentes, não guerrilhou por ele. Foi, em lugar disso, o fotógrafo para quem caçar, de modo a revelar-se, representou o principal sentido de viver. Nada do condicionamento dos estúdios, nada de fotojornalismo. Distante da quentura dos fatos, ele roubou da vida uns instantes eternos, elegante como o gato, atento como o pássaro ao fugir. Essencialmente, olhou para os lados, como ensinou o francês Henri-Cartier Bresson, jamais esquecido da linha de ouro que guiava a um só tempo sua cabeça, o olho e o coração.

Em Santos, capricho, mistério e liberdade

Agora que a editora Tempo d’Imagem, associada às Edições Sesc, lança São Paulo (204 págs.), sob a curadoria de Rosely Nakagawa, o fotógrafo aparece ao grande público com a inteireza de sua poesia geométrica, iniciada após a desilusão com a frieza normativa do Foto Cine Clube Bandeirante, mas muito próxima da proposição livre do grupo Novo Ângulo, que o iniciou caçador. O volume organiza 50 imagens de 700 mil por ele colhidas desde os tempos em que somente seria possível ao escritor Júlio Verne compreender a máquina fotográfica sem filme. O livro representa um grande momento para este artista de imagens definitivas que ainda fotografa todos os dias, em São Paulo, Santos ou Buenos Aires, muito alegre, sem jamais lamentar a possível inexistência de homenagens, exposições ou edições de Prêmio Jabuti para suas descobertas. É a fotografia, especialmente o que o artista entende por ela, o que faz Carlos Moreira, como diz sua conselheira e assistente de três décadas, Regina Martins, “acordar embriagado”, sem se dar conta do que pensam de sua embriaguez.

Eterna luz na praia santista revisitada

 

“Quando cheguei aos meus 50 anos de trabalho, temi estar morto”, diz em seu barracão na Barra Funda, no mesmo prédio onde ele e Regina ocupam dois apartamentos residenciais. Desde quando, consagrado, significaria que não vive? Moreira pensa muito, começa e termina um raciocínio com a perfeição do círculo, sempre sem se iludir. Principalmente, agita-se na poltrona vermelha de seu misterioso e pouco iluminado andar térreo. Ele não tem as respostas, porque está no mundo para perguntar. Ainda hoje, mal começa um caminho, percebe outro a percorrer. As tantas ideias contrastam com seu ambiente de trabalho e reflexão, nunca iluminado ao excesso, os móveis onde quase sempre estiveram. É ali que, semanalmente, manta ao colo, ele traça aos fotógrafos e candidatos à fotografia sua particular história do ofício, a única muitas vezes feita por qualquer um em qualquer tempo.

Parque Ibirapuera, doce reflexão da vida

Cores para o duro vislumbre do Minhocão

O centro de São Paulo, campo de si mesmo

A geometria das linhas, sua assinatura

Seus toques de mestre tiveram início nos anos 1970, quando, professor de Fotografia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, passou a refinar com prazer o olhar dos outros e, de quebra, o seu próprio. Houve tempo em que imaginou abandonar os alunos para apenas se dedicar àquilo que é. Mas, reviravolta esperada, neste momento não pensa mais assim. Agora, além de fotografar, quer dar aulas até morrer, ali mesmo na gruta de sabedoria onde se acumulam seus livros sobre os grandes da imagem, de Cartier-Bresson a Robert Frank, de Ernst Haas a André Kertész, e também aqueles inúmeros sobre pintura, colocados em estantes de aço sob ordem rigorosa e particular. Os desenhos e as telas de autoria dele próprio se espalham entre as lembranças naquele térreo. A câmera com fole, a velhíssima tevê, a manta sobre o colo nos dias não raro frios e, claro, as fotos, como a de Cartier-Bresson com a xícara aos lábios, somam-se na decoração ao pequeno ventilador.

Havia o celular, mas, principalmente, havia os livros

Um Cartier-Bresson sempre à mão

 

Os olhos de um visitante, portanto, enchem-se de serviço enquanto o fotógrafo jamais descansa. Se muitas vezes chega a uma definição sobre o ofício, pode no dia seguinte rejeitá-la. Tendo aprendido a meditar na maravilhosa e sofrida Índia, usufruído as maravilhas americanas entre Miami e Nova York e pausado algum tempo em Tóquio, pratica o raciocínio como um  vinho saboreado em goles de gravidade. Neto de pintora que estudou em Florença mal terminado o século XIX, filho da mulher sensível e observadora que a seu lado, dentro do carro, observava os passantes enquanto seu pai fazia visitas médicas, Carlos Moreira surge longevo e inquieto como quase todos os grandes fotógrafos do século XX. Mesmo agora, em 2014, aos 77 anos, passa por menino.  

O mestre, a companheira

 

Anda aborrecido com a transcendência que ele mesmo, e sempre, perseguiu. É um fotógrafo apolíneo, visualiza as linhas perfeitas, mas crê que uma mudança sem volta se encarna nele em direção ao que desce. Foi-se o tempo em que se realizava ao imitar a lua clássica no céu claro. Agora, ele a quer refletida na água trêmula. Menos inspirado no suíço-americano Robert Frank, que a certa altura de seu trabalho canônico, com a morte dos filhos, pintou o sangue nas paredes, e mais como o russo Alexey Brodovitch, que rompeu a norma ao fazer o movimento fluir no balé, em lugar de congelá-lo, Carlos Moreira quer seguir uma ideia de D. H. Lawrence sobre a poesia. O romancista inglês a via em dois tipos, a tradicional e a do presente. A primeira, cristalina, completa, infundia-se no artista com um senso de eternidade. A segunda, imperfeita, nada consumava. Sua opção é clara entre as duas. “Busco a imanência não pela vontade, mas em razão de uma dinâmica psicológica”, ele explica. “Em vez de andar atrás da luz transcendente, branca, procuro a luz enterrada, colorida, porque me convenci de que há perfeição na profundeza.” Carlos Moreira vencerá o enigma estético? O certo é que tudo fará rumo a uma categoria superior de alegria.

Um dos dias finais, em seu apartamento

 

 

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