O chá, o detetive e o samurai

Um filme do gênero chanbara, dirigido por Kiyoshi Kurosawa e presente na 50ª mostra, adentra o romance policial 

Em “O samurai e o prisioneiro”, o senhor feudal
Araki Murashige tenta manter o moral das tropas

Para quem porventura o desconheça, Kiyoshi Kurosawa não tem parentesco com Akira Kurosawa. É um diretor japonês de 71 anos que, vindo do pornô (pinku eiga), ao qual dedicou nove anos de atividade até 1989, passou a encenar o suspense e o horror com sucesso crítico e de público. “A Cura”, de 1997, consolidou internacionalmente seu trabalho no gênero. Em 2020, ele empreendeu o drama histórico “A mulher de um espião”.

O diretor, para quem música e silêncio são de grande valor quando aplicados sabiamente à ambiência narrativa, aventura-se agora por outro gênero, o chanbara, em torno dos samurais e suas lutas de espadachim. “O samurai e o prisioneiro”, presente na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, fez muito barulho no mundo. Mas o filme não é o que se espera.

Certamente, aqui não se verá a coreografia encantadora das lutas, presente em filmes do outro Kurosawa como “Yojimbo” e “Sanjuro”. Muitos atores importantes, como o próprio Toshiro Mifune, protagonista dos dois filmes, alertaram para o declínio do gênero a partir da década de 1960. Os produtores passaram a relegá-lo em favor de ficções mais baratas sobre a vida contemporânea, exibidas na tevê. Mifune chegou a fundar uma produtora independente de modo a manter o gênero com honradez. A Mifune Productions foi bem-sucedida de 1962 a 1984, mas novas iniciativas não apareceram para continuá-la.

Então, uma das razões para que o chanbara “O samurai e o prisioneiro” exiba escassez de lutas com armas brancas em favor de bastões, pedaços de pau e arco e flecha (o primeiro enfrentamento com lâminas surge aos 45 minutos do filme) talvez resida na inexistência, por assim dizer, de know how para tal.

Kiyoshi Kurosawa e seus atores não parecem saber empreender essas coreografias complicadas. Mas a razão do cineasta para deixar de exibi-las em favor, às vezes, de simples marretadas, deve residir igualmente na natureza deste filme, o primeiro do diretor a arrancar 1 bilhão de ienes (cerca de 32 milhões de reais) em bilheteria no Japão.

Baseado no romance policial e drama histórico “Kokurōjō”, de Honobu Yonezawa, lançado em 2021 e vencedor do prestigiado prêmio literário Naoki, o filme “O samurai e o prisioneiro” se passa durante o período Sengoku (1578-1579), no Castelo de Arioka. O senhor feudal (daimyo Araki Murashige, que realmente existiu, rebela-se contra o tirano Oda Nobunaga. Sabedor de que o cerco de Nobunaga ao castelo durará meses, ele precisará segurar o moral e a lealdade de seus generais e súditos. Principalmente, necessitará mantê-los vivos, dispensando a usual cartilha de sentenças de morte a quem porventura tenha cometido deslealdades.

O prisioneiro interpretado por Masaki Suda
fornece ao lorde de Masahiro Motoki os caminhos para deduzir a autoria dos crimes

Eis que Murashige se vê como inesperado pacifista, ou, na linguagem dos inimigos e de alguns de seus vassalos, um simples covarde. O problema aumenta quando mortes inexplicáveis começam a acontecer dentro da fortaleza. Decidido a não perder o controle da corte, o samurai desce às masmorras para consultar um prisioneiro de guerra, o estrategista enviado por Nobunaga que ele mantém cativo.

Adentramos então o terreno dos whodunnit, ficções detetivescas que partem de indícios para a resolução da autoria dos crimes. Mas não será uma tarefa individual. Murashige precisará do cérebro, dos olhos e ouvidos do preso Kanbei, interpretado por Masaki Suda, para descobrir a surpreendente autoria dos assassinatos e sua motivação. 

O lorde vivido por Masahiro Motoki, vestido acuradamente com o denim tradicional, tampouco se parece com personagens interpretados por Mifune ou outro grande ator japonês como Tatsuya Nakadai. Ele fala baixo. Move-se desesperadamente à melancolia. Sabe que é um líder incapaz. Principalmente, ele se tornará um mestre da cerimônia do chá (chanoyu). Um discípulo e seguidor de Sen no Rikyū, o personagem histórico mais importante, revolucionário e reverenciado dessa arte, interpretada por Toshiro Mifune no filme “Morte de um mestre da cerimônia do chá”, de Kei Kumai, em 1989.

O diretor Kiyoshi Kurosawa

O SAMURAI E O PRISIONEIRO

Dir. Kiyoshi Kurosawa

Japão, 2026

147 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Sato Cinema, 25 de outubro, 19h25

Cultura Artística, 26 de outubro, 16h15

Reserva Cultural 1, 28 de outubro, 17h30

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