Uma mulher contra o novo Mefisto

O filme “O outro lado das redes”, presente na 50ª mostra, narra a luta de uma ex-funcionária do Facebook para expor a atuação criminosa de Mark Zuckerberg 

Jeremy Strong como Mark Zuckerberg em
“O outro lado das redes”: robô impiedoso

Ao final da sessão deste filme que se seguiu à coletiva de imprensa da 50ª Mostra Internacional de Cinema, o auditório lotado de jornalistas aplaudiu. Pensei se seria para tanto, mas não luto contra a preferência popular. Cinema tem muitas faces, até mesmo a noveleira destes tempos. E é isto. Entendi “O outro lado das redes” como um bom episódio de série de tevê. Apenas concluí, considerada a ovação, que as séries (raramente vistas hoje em dia por mim) não têm sido tão boas assim…

Aaron Sorkin, roteirista vencedor do Oscar por “A rede social” (2010), precisou de 16 anos para se aprofundar na questão Zuckerberg. Ele agora escreve e dirige “O outro lado das redes”, em ritmo de entretenimento, para caricaturizar o criador do Facebook (interpretado pelo ótimo Jeremy Strong) como um robô impiedoso, programado para empilhar dinheiro e nada mais.

A narrativa, sustentada por diálogos arredondados, eletrizantes, algo inverossímeis de tão bem-humorados, caminha para o desfecho redentor da atuação da ex-funcionária e delatora das ações do Facebook Frances Haugen, interpretada por Mikey Madison (Oscar de melhor atriz por “Anora”). 

A heróina Frances Haugen, interpretada por Mikey Madison, antes de depor no Senado dos EUA

Frances Haugen é a engenheira que, em outubro de 2021, levou ao Subcomitê de Proteção ao Consumidor, Segurança de Produtos e Segurança de Dados do Senado dos Estados Unidos (e, em sequência, ao parlamento britânico, em Londres, e ao parlamento europeu, em Bruxelas) milhares de documentos internos para comprovar que o Facebook priorizava o lucro em detrimento da segurança dos usuários, da democracia e da saúde mental de adolescentes.

No início de sua atuação corporativa, Haugen se considerava apaixonada pelo que entendia ser a missão facebookiana, a de unir e visibilizar os introvertidos como ela. Aos poucos, contudo, a jovem percebe que o Facebook nada tem de comprometido com a civilidade e a paz relacional. Tenta alertar seus superiores para o fato, mas eles a rechaçam e isolam. 

Haugen vê uma possibilidade de mudar esse culto ao mal quando o jornalista do Wall Street Journal Jeff Horwitz (interpretado por Jeremy Allen White) a procura em off para suas reportagens em série, futuramente responsáveis por desmascarar Zuckerberg. Enquanto isso, nos porões da empresa, nosso Mefisto-robô hilariamente se submete a um media training para responder às perguntas da imprensa, dos congressistas e da lei…

Jeremy Allen White vive Jeff Horwitz,
o jornalista que recebe a documentação
fornecida pela informante maquiada

Para caracterizar Haugen, Sorkin permitiu-se liberdades. Não buscou semelhança física entre a engenheira e sua intérprete (por exemplo, Madison manteve o cabelo castanho, quando o de Haugen é loiro). Igualmente, o filme exagerou na maquiagem e colocou roupas sensuais na atriz em situações nas quais ela se encontrava com o repórter do Wall Street Journal Jeff Horwitz (vivido por Jeremy Allen White). Os ares de date enganariam eventuais conhecidos sobre suas saídas, durante as quais, em verdade, ela fazia o trabalho de informante. Imperdoável essa decisão cinematográfica sexista, mas efetiva comercialmente, certo? Forçou a protagonista, que em verdade nunca se apresentou assim diante do repórter, a surgir gostosa no imaginário do espectador.

O filme impacta ao exibir os meandros da atuação corporativa criminosa de Zuckerberg, que no final das contas nunca foi punido por seus malfeitos. Contudo, a meu ver, sua abordagem sofre de um senão. O diretor nos faz crer que o dono da Meta (o nome da empresa foi mudado no decurso da publicação das reportagens) tenha apenas um perverso intuito financeiro ao gerir seu empreendimento. Mas é  possível supor que ele também atue intensamente para fortalecer a misoginia, a exclusão social, a concentração de recursos naturais e o racismo, entre outros horrores defendidos pela extrema-direita mundial. Quem sabe vejamos tudo isto explicitado em um terceiro filme?

O diretor Aaron Sorkin

O OUTRO LADO DAS REDES

Dir. Aaron Sorkin

Estados Unidos, 2026

112 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Belas Artes 1, 19 de outubro, 18h15

Solar Sala Petrobras, 21 de outubro, 19h30

O chá, o detetive e o samurai

Um filme do gênero chanbara, dirigido por Kiyoshi Kurosawa e presente na 50ª mostra, adentra o romance policial 

Em “O samurai e o prisioneiro”, o senhor feudal
Araki Murashige tenta manter o ânimo da tropa

Para quem porventura o desconheça, Kiyoshi Kurosawa não tem parentesco com Akira Kurosawa. É um diretor japonês de 71 anos que, vindo do pornô (pinku eiga), ao qual dedicou nove anos de atividade até 1989, passou a encenar o suspense e o horror com sucesso crítico e de público. “A Cura”, de 1997, consolidou internacionalmente seu trabalho no gênero. Em 2020, ele empreendeu o drama histórico “A mulher de um espião”.

O diretor, para quem música e silêncio são de grande valor quando aplicados sabiamente à narrativa, aventura-se agora por outro gênero, o chanbara, em torno dos samurais e suas lutas de espadachim. “O samurai e o prisioneiro”, presente na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, fez muito barulho no mundo. Mas o filme de mais de duas horas, exigente da atenção do público para os meandros da história, não é o que se espera.

Certamente, aqui não se verá a coreografia encantadora das lutas, presente em filmes do outro Kurosawa como “Yojimbo” e “Sanjuro”. Muitos atores importantes, como o próprio Toshiro Mifune, protagonista dos dois filmes, alertaram para o declínio do gênero a partir da década de 1960. Os produtores passaram a relegá-lo em favor de ficções mais baratas sobre a vida contemporânea, exibidas na tevê. Mifune chegou a fundar uma produtora independente de modo a manter o gênero com honradez. A Mifune Productions foi bem-sucedida de 1962 a 1984, mas novas iniciativas não apareceram para continuá-la.

Então, uma das razões para que o chanbara “O samurai e o prisioneiro” exiba escassez de lutas com armas brancas em favor de bastões, pedaços de pau e arco e flecha (o primeiro enfrentamento com lâminas surge aos 45 minutos do filme) talvez resida na inexistência, por assim dizer, de know how para tal.

Kiyoshi Kurosawa e seus atores não parecem saber empreender essas coreografias complicadas. Mas a razão principal do cineasta para deixar de exibi-las em favor, às vezes, de simples marretadas, deve residir igualmente na natureza deste filme, o primeiro do diretor a arrancar 1 bilhão de ienes (cerca de 32 milhões de reais) em bilheteria no Japão.

Baseado no romance policial e drama histórico “Kokurōjō”, de Honobu Yonezawa, lançado em 2021 e vencedor do prestigiado prêmio literário Naoki, o filme “O samurai e o prisioneiro” se passa durante o período Sengoku (1578-1579), no Castelo de Arioka. O senhor feudal (daimyo) Araki Murashige, que realmente existiu, rebela-se contra o tirano Oda Nobunaga. Sabedor de que o cerco de Nobunaga ao castelo durará meses, ele precisará segurar o moral e a lealdade de seus generais e súditos. Principalmente, necessitará mantê-los vivos, dispensando a usual cartilha de sentenças de morte a quem porventura tenha cometido deslealdades.

O prisioneiro interpretado por Masaki Suda
fornece ao lorde de Masahiro Motoki os caminhos para deduzir a autoria dos crimes

Eis que Murashige se vê como inesperado pacifista, ou, na linguagem dos inimigos e de alguns de seus vassalos, um simples covarde. O problema aumenta quando mortes inexplicáveis começam a acontecer dentro da fortaleza. Decidido a não perder o controle da corte, o samurai desce às masmorras para consultar um prisioneiro de guerra, o estrategista enviado por Nobunaga que ele mantém cativo.

Adentramos então o terreno dos whodunnit, ficções detetivescas que partem de indícios para a resolução da autoria dos crimes. Mas não será uma tarefa individual. Murashige precisará do cérebro, dos olhos e ouvidos do preso Kanbei, interpretado por Masaki Suda, para descobrir a surpreendente autoria dos assassinatos e sua motivação. 

O lorde vivido por Masahiro Motoki, vestido acuradamente com o denim tradicional, tampouco se parece com personagens interpretados por Mifune ou outro grande ator japonês, como Tatsuya Nakadai. Ele fala baixo. Move-se desesperadamente à melancolia. Sabe que é um líder incapaz. Principalmente, ele se tornará um mestre da cerimônia do chá (chanoyu). Um discípulo e seguidor de Sen no Rikyū, o personagem histórico mais importante, revolucionário e reverenciado dessa arte, interpretado por Toshiro Mifune no filme “Morte de um mestre da cerimônia do chá”, de Kei Kumai, em 1989.

O diretor Kiyoshi Kurosawa

O SAMURAI E O PRISIONEIRO

Dir. Kiyoshi Kurosawa

Japão, 2026

147 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Sato Cinema, 25 de outubro, 19h25

Cultura Artística, 26 de outubro, 16h15

Reserva Cultural 1, 28 de outubro, 17h30

A difícil paternidade literária

Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema, “A terra do meu pai” explora a viagem feita por Thomas Mann à Alemanha em 1949, certo de que contribuiria para apagar as cinzas da guerra 

Sandra Hüller é Érika e Hanns Zischler, Thomas:
o duro empreendimento da família Mann

O ritmo teatral ditado por três atuações secas: a de Hanns Zischler como o escritor alemão Thomas Mann; a de Sandra Hüller (“Anatomia de uma Queda”) como sua filha, a atriz Érika; e a de August Diehl como o filho e escritor Klaus. A reconstituição parcial do cenário ainda em ruínas das duas Alemanhas, quatro anos depois da derrota nazista. O bom humor inserido em assunto difícil (isto é, quando menos se espera por ele). A densa fotografia em preto e branco a respeitar a aspereza social e política do pós-guerra.

Estas são algumas razões para recomendar ao público da mostra a coprodução polonesa, alemã, francesa e italiana intitulada “A terra do meu pai”. Dirigido pelo polonês Pawel Pawlikovski (“Ida”, 2013), o filme narra de forma dialogada e breve a viagem de carro empreendida em 1949 por Thomas Mann (1875-1955) entre duas cidades alemãs: Frankfurt, então controlada pela CIA estadunidense, e Weimar, sob direção soviética.

Em “A terra do meu pai”, um road
movie pela história e pela literatura

Dono de um Nobel, exilado nos Estados Unidos, distante do país natal desde a ascensão de Adolf Hitler, em 1933, e desejoso de estabelecer sua palavra em territórios antagônicos, Mann surge aqui seguro da serventia à Alemanha da própria fama literária, que contudo se vê criticada, até ironizada, tanto por Érika, sua acompanhante na viagem, quanto por Klaus Mann. O autor de “Mefisto”, aliás, em eterno conflito com o pai famoso, não poderia estar mais descontente com os alemães e sua língua, esta nascida, segundo ele diz, para tecer “mentiras”.

Muitas baforadas pela reconstrução

Eis um filme quase didático sobre duas grandes distopias do século 20, o fascismo e o stalinismo, aos quais o auto-intitulado burguês Thomas Mann devotou o olhar maduro. Igualmente, uma obra a gravitar sobre a responsabilidade social e a paternidade da literatura, tanto de Mann quanto de seu ídolo J. W. Goethe, cujo leito de morte o autor de “A Montanha Mágica” conhece em uma visita guiada pela burocracia comunista a Weimar.

O diretor Pawel Pawlikovski

A TERRA DO MEU PAI

Dir. Pawel Pawlikovski

Polônia, 2026

82 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Reserva Cultural 1, 18 de outubro, 15h10

Cinesesc, 19 de outubro, 21h30

Solar Sala Petrobras, 20 de outubro, 17h15