Levados pelas marés

Um espetáculo a unir a paisagem humana à música (ou o cinema como ele poderia tão bem ser), no novo filme de Jia Zhang-Ke, presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Imagine se Wim Wenders fizesse ainda hoje o cinema que realizou até “Paris, Texas”. Aquele cinema. O cinema. E imagine o diretor alemão, na China, a contar a história recente do país a partir dos rostos exuberantes dos homens comuns, numa revivescência de duas décadas, com riqueza musical e, principalmente, com o ritmo narrativo fundado nessas melodias. 

Zhao Tao acaricia seu amigo, o robô

Se você pode imaginar coisa semelhante – a música não só como trilha sonora, mas como um chamado -, estará muito próximo de compreender o que o chinês Jia Zhang-Ke faz em seu “Levados pelas marés” (2024). Nossos ouvidos se conectam, nosso coração está a pulso desde que a banda chinesa dos anos 2000 Brain Failure toca a canção de abertura, “Underground”. A letra cita o verso de um poema famoso da Dinastia Tang: “Nem mesmo um incêndio florestal pode queimar todas as ervas daninhas, elas crescerão de volta na brisa da primavera”. O poema enfatiza, segundo Jia, “a resiliência da vida”.

Este filme quase sem diálogos e com alguns letreiros (uma feliz recuperação do cinema mudo) usa mais o olhar dos atores do que suas palavras para acompanhar a passagem do tempo.

É um filme, mas, principalmente, um espetáculo fundado na dramatização que Jia realizou de forma solta, por duas décadas, em Pequim e em Datong, uma localidade chinesa a viver das minas de carvão. Seus movimentos de câmera mais impressionantes são travellings que registram lentamente a paisagem humana na cidade. Eis a face da verdade, do deslumbre de viver, que o filme demonstra ora com pungência, ora com humor.

Todas as emoções em um rosto que não fala

Sua atriz-chave, Zhao Tao, volta a representar a personagem Qiaoqiao, introduzida por Jia no filme “Prazeres desconhecidos” (2002). Ela jamais fala (mas, neste filme, canta uma canção) e ama relacionar-se positivamente com robôs, entidades que tomam conta da vida chinesa ao oferecer serviços surpreendentes, como ler as emoções em um rosto e limpar o chão. Qiaoqiao busca seu amor desaparecido, Bin (interpretado por Li Zhubin), e por isso a acompanhamos pelos lugares alcançados por  trem. A mudança de modelos de trens a circular pelos trilhos sugere a mudança dos tempos. Principalmente, é pelos olhos de Qiaoqiao que vemos tudo se transformar, como se ela presenciasse o fluxo da vida com o fone de ouvido ligado no streaming musical, lá onde o rock faz poderosas aparições.

É cinema, é a resistência, é ver para crer.

O diretor Jia Zhang-Ke

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões no Cinesystem Frei Caneca 1 (19h40 do dia 25), Sato Cinema (19h do dia 27), Reserva Cultural 1 (14h30 do dia 28) e Cinesystem Frei Caneca 3 (22h do dia 29). 

Sobre o Caderno de Sábado, sobre Antonio Cícero

Nos anos 1990 eu era subeditora do suplemento cultural semanal do Jornal da Tarde. O Caderno de Sábado, primeiro do gênero na imprensa, findou pouco depois da minha demissão, ocorrida quando eu era recém-retornada da licença maternidade, em 1999 (o de sempre na vida de qualquer mãe que trabalha no Brasil).

Os jornalistas da redação detestavam o Caderno de Sábado e chegavam a vir até minha mesa de trabalho para expor seu inconformismo, isto quando não se indignavam por trás dos monitores mesmo, aos cochichos. Eu ficava na minha. Uma vez fui parar no consultório do comentarista esportivo Osmar de Oliveira, que também era ortopedista, e tive de ouvi-lo dizer, fumando, que um caderno como aquele não podia ser. Os jornalistas que me cercavam eram em grande maioria anti-intelectuais fervorosos. Na minha opinião, o caderno acabou por conta deles e de sua campanha contra qualquer ideia de cultura que extrapolasse o fait-divers da tevê, os livros ligeiros e o cinema schwarzenegger. Bolsonaro não venceu a eleição à toa, vocês me entendem?

Leão Serva comandou a redação por um tempo e pretendeu ignorar esse clima. Queria um caderno vibrante, com leitura, resenha e entrevista, de modo a competir com quem tinha melhores condições financeiras e favorecimentos das editoras para fazer isso – a Folha de S. Paulo, resumindo. Como eu acompanhava o lançamento de livros havia algum tempo, ele decidiu que eu abandonasse a cobertura diária de artes e espetáculos para me encaminhar ao posto de subeditora do caderno (o titular responsável pela publicação era um dos jornalistas do JT a escrever editoriais, leia-se a opinião do dono; sendo homem de confiança de Ruy Mesquita, me parecia incomum que agisse como um amigo e me deixasse trabalhar em paz). 

Só fui subeditora do Caderno de Sábado porque Leão, ao chegar no JT, ligou para Luis Schwarcz, o dono da Companhia das Letras, perguntando que jornalista brasileiro ele aconselhava contratar para o posto. Pouco tempo antes eu havia conseguido uma entrevista com o futuro Nobel de Literatura V.S. Naipaul, estrela internacional da Companhia, que adorou nossa conversa e disse saber, de antemão, que eu escreveria a melhor matéria sobre seu novo livro. “Olha, Leão, a melhor jornalista de livros do Brasil está aí na sua redação mesmo, é a Rosane Pavam”, respondeu o Schwarcz ao Serva. Estranho um editor de livros orientar a escolha de um profissional de caderno de cultura que no fim das contas acabará por avaliar seus livros, não? Pois se acontecia assim na Folha, seria o mesmo no JT.

Eu amava fazer o caderno. Adorava os colaboradores, procurava expandir suas ideias em textos mais longos. Propunha a escritores muito bons resenhar os novos. Uma vez, pedi a João Antônio, um escritor gentil e sempre necessitado de dinheiro, para resenhar o livro de estreia de Rodrigo Lacerda. João achou o livro criativo, escreveu isso e Rodrigo Lacerda vive até hoje de ser o dono do “assunto João Antonio”. Nunca me deu créditos por isso, jamais pedi e só me divirto ao lembrar.

Entre os colaboradores que Leão Serva trouxe para tornar o jornal mais moderno (mais Folha), estava Antonio Cícero. Eu publicava seus textos escritos especialmente para o caderno em torno da filosofia clássica. Ele não era assim tão fácil de ler, não concedia muito ao leitor, ao contrário de Antonio Medina, que escrevia sobre o mesmo assunto com o vigor do professor de cursinho empenhado em enfiar um motor nos cérebros lentos. Me contava casos até mais divertidos que João Antônio, e eu me sentia privilegiada ao ouvi-los.

Por seu lado, Cícero, sério, ético, gentil, comunicava suas intenções a mim quando simplesmente poderia impô-las ao Leão. Não me surpreendo que tenha sido racional ao decidir sobre a própria vida, afinal de contas fundada na razão. Querido, vá em paz.

Um homem em estado interessante

A comédia de 1973, exibida na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, recupera a suavidade demolidora do diretor francês Jacques Demy

Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni,
grandeza que bem se vê

Curioso que a historiografia ocidental tenha colocado o diretor francês Jacques Demy (1931-1990) em um pé de página. Percorro rapidamente a biblioteca aqui de casa e constato a indiferença e o não-me-toques dos livros que o desprezam: o diretor Jean-Luc Godard o menciona como amigo em um poema, e fica por isso; os estudiosos de Éric Rohmer pedem o favor de não confundirem seu maravilhoso diretor com o outro; a crítica Pauline Kael sentencia que Demy fez tudo errado ao produzir um musical estático, inspirado nos estadunidenses, em seu clássico “Os guarda-chuvas do amor”. Não há créditos para Demy, ou todos eles foram usados para o bem unicamente por Agnès Varda, a viúva que o cultivou e o filmou nos últimos dias, tendo renascido ela mesma como estrela após sua morte e se tornado um justo objeto de culto atual.

Mais curioso ainda é que isto aconteça mesmo Demy não aparentando longinquamente ser demi, ser metade. E o que dizer daquele um quinto em que o confinaram? “Um homem em estado interessante” (1973) prova que meteram o diretor no lugar errado. Comédia não é algo simples de ser feito, ainda mais quando parece simples de ser vista – simples e louca -, além disso contestadora do estado de coisas. No caso, aqui, quase imbatível quando mistura uma rara leveza cômica com a substância, com o peso de uma argumentação reflexiva.

Grande Catherine: terá sido
cabeleireira a vida inteira?

Em “Um homem em estado interessante” muitos universos cinematográficos se cruzam, da estranheza onírica assimilada como norma, originada em Luis Buñuel, ao desfilar do absurdo maquinário das ideias contemporâneas, na trilha de Jacques Tati. Demy é um demolidor suave. Para ele, neste filme, a confusão do Ocidente, sua grande ironia, está em determinar que toda fumaça de transformação possa sugerir a existência de um próximo passo, um fogo revolucionário (cinco anos se passaram desde 1968), embora essa rebeldia vá resultar no apagamento de sempre, o do consumo que destrói coisas belas. Ah, como é dolorosamente risível viver no capitalismo!

Marcello Mastroianni – há sempre Marcello nos tantos outros que interpreta – encarna o dono de uma auto-escola mal-sucedida em seu fundamento, o de ensinar os alunos a dirigir. Sua esposa, Catherine Deneuve, não é esposa, embora mãe de seu filho, uma cabeleireira com sonhos de subúrbio (e que grande atriz: terá nos enganado o tempo todo e sido cabeleireira a vida inteira?). Do nada Marcello começa a enjoar e sua barriga cresce demais, o que leva grandes especialistas médicos (uns empolados fumantes professorais) a constatarem que engravidou. 

Em “Um homem em estado interessante”,
a evocação de aspectos de uma vida a dois

Um parênteses aqui é que Demy parece evocar diretamente os atores Catherine e Marcello, na época pais de uma menina, mas nunca casados, no seu filme. O diretor Mario Monicelli ria ao contar que Marcello às vezes viajava no fim de semana para a Itália de modo a trazer um prato de comida como presente para Catherine, na França. Um prato de comida! Para Catherine! E então a barriga de Mastroianni passa a fazer mais sentido…

O fato é que a narrativa de Demy parte da conclusão médica para sua exploração pela imprensa (dos noticiários aos risíveis debates), pela publicidade e pelo próprio casal, feliz por negociar a um preço alto a novidade a lhes ocorrer, que, embora equiparável à descida do homem na Lua, nasceu, segundo um especialista, do consumo excessivo de alimentos processados com hormônios. O filme debocha de maneira avant-garde da condição de um homem grávido: logo o aborto será decretado uma normalidade indispensável, dizem as clientes do salão de beleza de Catherine…

Todo o cenário de cores vivas, o entorno urbano frenético, os pobres, os esnobes, os atores, os ricos, tudo neste filme fala e se agita, compondo um vigoroso painel documental de um tempo e de um lugar. Meus vivas inteiros para Demy, que após a sessão de cinema me fez ver com seus olhos a loucura da cidade onde vivo.

O diretor Jacques Demy, suave demolidor

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões no Espaço Augusta 2, 19h40 do dia 24, e no Espaço Augusta 1, às 15h50 do dia 28.

Três vidas e uma só morte

Restaurado, o filme de Raúl Ruiz presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo leva Marcello Mastroianni a um penúltimo tour de force

Marcello Mastroianni, o múltiplo

Embora classificado como comédia, o restaurado “Três vidas e só uma morte”, de Raúl Ruiz (1996), apresenta um tom a mais, que é o do sonho. Ou do pesadelo, aquele do qual não conseguimos escapar, a menos que nossos olhos se abram por muito querer. Os primeiros minutos desta longa ficção, narrados como seção de novela de rádio, não nos preparam para o pior.

É Marcello Mastroianni, em seu penúltimo filme, vencedor do prêmio de crítica da 20ª Mostra, quem comanda a série de reviravoltas, a oferecer a seus personagens – três em um – um show de expressões. E Chiara, sua filha, está lá, aos 24 anos, para levar a inocência impossível até as bochechas, sem lhe contrapor. Marcello pode ser bom, pode ser mau, engraçado, cínico: ele alterna estados de espírito, mas também muda de personagens como quem estala a vontade de transformar, devorar e lamber tudo.

Mario Monicelli, o diretor com quem trabalhou tantas vezes, costumava dizer que Marcello, assim como Totò, sempre andavam à frente. Chegavam ao estúdio com tudo decorado e aprendido, razão pela qual poderiam mudar o rumo de sua fala, improvisar, fazendo o filme crescer. No final de sua carreira e sua vida, nota-se Mastroianni perfeito ainda, cheio dos pequenos gestos que definem as três vidas representadas. É como se as diferenças não importassem quando está em ação, sendo ele Marcello, acima de tudo, sempre. O ator dita com os olhos os rumos das coisas, mesmo quando o resto de seu corpo parece responder com vagar.

Ruiz procurou reproduzir o clima onírico em tudo, e para isso dividiu a tela algumas vezes, lidando com as possibilidades gráficas da época para dar espaço a fadas terríveis e insuspeitas monstruosidades nos papéis de parede. Há vida e cor nesses sonambulismos, e é muito divertido o humor quando não prima pelo sentido – ou, melhor dizendo, quando o multiplica. Eram os anos 1990, depois que diretores como Terry Gilliam haviam aberto as portas às novas percepções (e se você gosta dos livros de Carlos Castañeda, vai chocar-se no transcorrer do filme). O mundo da arte saiu da era Reagan petrificado, e os bons filmes do período retrataram esse clima de horror.

“Três vidas e uma morte” traz ainda Marisa Paredes (“Tudo sobre minha mãe”) como uma das mulheres desse Mastroianni múltiplo. Isto é um sonho ou não?

O diretor Raúl Ruiz

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessão na Cinemateca Petrobras, 14h do dia 25.

Marcello mio

O filme de Christophe Honoré presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo viaja pelo reencontro de Chiara Mastroianni com a figura de seu pai

Chiara, a “Polpetta” do pai

Para os cinéfilos das celebridades europeias, parece ser motivo de curiosidade e admiração o fato de Chiara Mastroianni ter abraçado a profissão dos pais. Sabemos que Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni não são atores quaisquer, que flutuam na poeira de estrelas e que talvez tenham reinventado o cinema. Então, por que sua filha se aventuraria nessa direção, certa de que não poderia repeti-los? 

Isto, este longa ficcional não vai nos explicar. Mas a doce e leve Chiara quer nos fazer crer que, aos 52 anos, ainda busca a si mesma e que essa procura envolve bastante coisa – memória, convicções, história, psicologia – amarrada em névoa musical pelo diretor Christophe Honoré. 

A mãe Catherine, intensa presença

A mãe Catherine, viva, pulsante, opina sem dó em sua vida. Eis alguém presente, e pelo jeito não apenas no elenco deste filme, a ressaltar a brevidade de tudo. Pena que o pai se foi. Chiara, que muito sente sua falta, resolve reencarná-lo para suprir uma ausência que não aflige somente a ela, mas a todos ao redor. E também porque, atriz consolidada, ainda reclamam que ela seja um pouco daquilo que ele foi. Ser Marcello, por assim dizer, vai auxiliar seu reencontro consigo mesma – ela tão francesa, ao contrário do pai.

O filme, portanto, é muito mais “Chiara, io” que “Marcello mio”. Nesse caminho, a “Polpetta”, como a chamava o pai, vai penar. Ela o ressuscita em seus figurinos célebres, no rosto tão semelhante, nos gestos e encantos. Sabemos que não fala como ele, não apenas porque seu italiano é afrancesado. Não fala como ele porque não faz suas circunvoluções verbais, não tem o pensamento no ar. Mas algo de sua ironia, de sua leveza, de um erotismo que quer esconder-se, isso ela possui. Como ele, pode cantar acompanhada por um cão…

A face que é espelho

No périplo que é essa espécie de versão de Chiara para “Oito e meio”, ela vai encontrar os intensos amigos, o ex-marido Melvil Poupaud, por exemplo, que contracenara ao seu lado e de seu pai em “Três vidas & uma só morte”, dirigido por Raúl Ruiz (de 1996, penúltimo filme em que Mastroianni atuou, também presente na mostra) e os grandes do cinema, como a atriz Stefania Sandrelli, que atuou ao lado de Marcello em “Divórcio à italiana”, de Pietro Germi (1961). Eles ora aconselharão Chiara, ora a apoiarão ou a deixarão saber quão fantasmagórica se tornou ao encarnar o pai.

Hora de evocar “A Doce Vida”

“Marcello mio” evoca “A Doce Vida”, “Noites Brancas”, “Ginger e Fred” e “Dois Destinos”, entre outras obras de que ele participou. Especialmente, de maneira afrouxada, deixa-nos navegar pelas entrelinhas da vida familiar. Descobrimos assim que Catherine desconfiava muito de Marcello, de sua infidelidade pela noite, embora os dois nunca tivessem se casado. Ela esteve quase certa de que Marcello pegou Maria Callas quando o casal morava, com a filha, no andar acima daquele apartamento habitado pela cantora, em Paris…

O filme transcorre entre a representação de coisas como essas, mais ou menos pequenas, uma delas especialmente carinhosa: o ator adorava patinação e assistia ao lado da filha, pela tevê, aos torneios do esporte, duvidoso dos juízes. Saímos do filme convencidos de que Marcello era uma criança também, eterno para Chiara como para nós.

O diretor Christophe Honoré

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões no Cinesystem Frei Caneca 2 (17h do dia 22), Espaço Augusta sala 1 (19h30 do dia 23) e no Cinesystem Frei Caneca 1 (13h do dia 25).

Aviso aos navegantes

Amores, comecei hoje a comentar em meu blog alguns filmes da mostra. Decidi escrever textos rápidos, às vezes no saguão do cinema mesmo, para dar conta mínima da sensação tida por mim ao vê-los. Nenhum veículo de imprensa quer saber das minhas impressões, e minhas impressões são livres.

Principalmente, preciso esclarecer que não dou dicas de filmes. E não dou por uma razão simples. Minhas dicas podem não servir a ninguém. Busco no cinema coisas minhas. Vocês também, aposto! E raramente encontramos quem pense como nós, não é assim? Então, jamais ousaria dar dicas generalistas e impositivas. 

Não encarno um espírito de época, nem um pensamento em comum. Na minha vida, quando analisei cinema, logo os jornalistas brasileiros da área tentaram me esconder e anular. Tinham suas razões. Escrevo compromissada com minha busca pelo cinema, não para que um grande público me aprecie. 

Gosto e desgosto de filmes de um jeito que pode incomodar. Acolho os politicamente incorretos, por exemplo, desde que sejam bons filmes, a respeitar o cinema como uma categoria do narrar/pensar com ritmo. Raramente me interessam aqueles feitos para estimular de algum modo nossas vidas (se não me encanta a auto-ajuda nos livros, não buscaria isto nos filmes). Amo ver o cinema assumir riscos, passar por pontes estreitas, dizer por meio da montagem e da imagem, não quando ele é um novo meio de fazer tevê, por exemplo. Enfim, muitas das coisas que aprecio ninguém precisa gostar.

Tudo isto dito, sinto muita alegria quando vocês acompanham minhas publicações. Uma esperança danada, uma vontade de viver.

A vida é uma cadela

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o estranho humor de ataque de Xavier Seron

Pode-se ler “bitch” em lugar de “cadela”. O significado da palavra no título deste filme é dúbio como aquele sugerido pelo vocábulo inglês. No longa belga/francês “A vida é uma cadela” (2024), cadela será “cachorro” tanto quanto “aquela que nos trai”.

O filme encadeia situações em que a mulher se revela ora indiferente ao amor que lhe tem um cara, ora desprovida de qualquer sensibilidade humana, ora temerosa da amizade canina de seu amor. Nada vai bem para os homens vitimados da trama – tampouco, contudo, para as mulheres. E o que dizer dos cachorros? São espelhos, a repetir o inconsciente de quem se aproxima deles (como costumam ser os animais dentro das ficções).

Ao fim, eis uma crítica a nossa impotência como civilização. Com seu humor de ataque, “A vida é uma cadela” paralisa o riso conforme a trama se desenvolve, à moda francesa, crua. O diretor belga Xavier Seron parece perseguir a estética de estranhamento primitivo de Yorgos Lanthimos (“O Lagosta”), mas o faz numa espécie de ensaísmo de YouTube, em preto-e-branco. É um bom filme experimental, que se percorre até o fim, sem perceber.

O diretor Xavier Seron

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões na Cinemateca (Sala Oscarito, 15h do dia 30) e no Cine Satyros Bijou (18h do dia 28).

Quando o abuso é grande

Desde estudante sofri assédio sexual e moral. Como qualquer mulher, suponho.

Na universidade, um professor me reprovou duas vezes, e quase não me formei, porque ele me queria disponível. Dizia que eu escrevia bem, que a ideia do trabalho era boa, mas sempre me desestimulava em algum ponto, me fazendo recomeçar (um sujeito futuramente importante na hierarquia uspiana, devo dizer). 

Uma vez, no atendimento para o trabalho final, procurei-o em sala, como o exigido semanalmente a todos os alunos da graduação. Enquanto eu falava, precisei levantar, sobre a camisa, a alça do sutiã que havia descido. Ele achou nessa hora um caminho pra me desqualificar. “Não precisa disso pra passar comigo”, disse, como se levantar a alça do sutiã fosse um sinal de oferecimento sexual. 

Entendi na hora que, depois de muitos embates anteriores em torno da defesa de minha pesquisa, ele não mais dispunha de argumentos intelectuais para diminuir sua aluna e tentava a última cartada para derrubá-la. Saí da sala dele para não voltar. 

Precisava ainda passar pelo inominável, contudo, se quisesse tirar o diploma. Me inscrevi de novo na disciplina, mas fiquei sem coragem de cursar. Acabei reprovada pela segunda vez. Se isto acontecesse novamente eu seria jubilada, segundo o regimento da universidade então. Fui salva, na terceira tentativa de obter aprovação, pelos próprios colegas. O professor estabelecia a média do trabalho final a partir de duas notas, a dele e a dos alunos. Cientes então de meu problema, os colegas me deram nota 10 final e ele, zero. Passei. Muitos anos depois, o professor me encontrou por e-mail e passou a me mandar suas newsletters, sem mais.

No trabalho, foram assédios morais constantes. Humilhações e tramas de bastidores nascidas do simples fato de eu ser mulher e conseguir desempenhar a contento minhas funções (“homem escreve melhor” era um pensamento verbalizado em redações da minha juventude). Muitos homens e mulheres correram atrás do meu pequeno lugar. E houve assédio sexual também. Um belo dia, na redação de um jornal diário, recebi a mensagem do editor: “Não gostei de você hoje sem batom. Pinte esse bico, por favor.” Mandei ele me procurar na esquina e continuei a fazer meu trabalho sem mais importunações.

Tudo isto para dizer que as coisas mudaram bastante. Na juventude eu não acreditava no recurso da denúncia, que hoje se encontra mais facilmente disponível. Achava que ninguém se fiaria em mim se dissesse o que se passava, logo eu que usava saias curtas. E, se dissesse, eu teria de me desgastar pessoalmente, o que me parecia inconcebível: ou dava meus pontapés ou não fazia nada. Contudo, quando não fiz nada em um caso de constante assédio moral, ocorrido quando eu era já bem madura, sofri. Eu tinha dois filhos em idade escolar, difícil a situação financeira, o equilíbrio existencial. Errei ao me calar.

Hoje penso que, em caso de humilhação no trabalho ou na escola, a denúncia é um bom caminho. Mas se o sujeito tem a mesma hierarquia que você, dê-lhe um chute imediato naquele lugar, passe a denúncia a seus colegas hierárquicos e, principalmente, a seu superior. Você sofrerá menos pesadelos depois.

Monty era meu irmão

Liz e Monty: ele ficou surpreso
de se sentir excitado por uma mulher

“O que eu tinha com Montgomery Clift era o relacionamento ideal, a amizade ideal. Eu adorava seu talento e seu humor, e imitava sua raivosa lealdade. Eu tinha medo de me esforçar demais para ser atriz, porque não sou uma artista: não nasci para ser artista e não estudei (nem sei como estudar) para me tornar uma.

Monty era um artista puro, um gigante da atuação. Ele tinha medo de sets, diretores e equipamentos — lentes, câmeras, marcas no chão que nunca conseguia ver. Eu podia guiá-lo por um set, colocá-lo onde pudesse fazer sua mágica. E ele podia falar comigo, ajudar a me tornar um personagem, a entregar o material que me foi dado.

Ele era meu irmão.

Embora pensasse nele fraternalmente, o trabalho que realizei a seu lado em ‘Um lugar ao sol’ (George Stevens, 1951) foi terrivelmente erótico. Era uma dança de sexo. Um minueto das glândulas. Havia excitação naquelas cenas íntimas, mas era atuação. Monty ficou surpreso por estar excitado naquelas cenas — excitado por uma mulher —, e eu fiquei surpresa por estar sendo bom.

Presentes que demos um ao outro.”

Elizabeth Taylor em entrevista a James Grissom no hotel Carlyle, Nova York, 1991

via http://jamesgrissom.blogspot.com

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em
“Um lugar ao sol”, dirigido por
George Stevens em 1951

O que me salva

Às vezes, como hoje, me sinto a última criatura sobre a Terra, alguém para quem não parece haver salvação existencial ou física. Um sentimento nascido ocasionalmente não de uma ameaça particular, mas do pesar, que creio ser comum a todos, de habitar este mundo de cães famintos.

E então, porque também amo a vida, me esforço a existir.

Eis por que as roupas de alguns dias vão parar no varal e os vidros de azeitona, nos baldes com água, de onde saem nus, sem os feios rótulos de papel. Busco os filmes, qualquer chocolate, a água sobre a arruda, o secador.

Nada funciona a não ser a coisa de sempre. A coisa das coisas, da qual sempre me recordo no último momento. A coisa da fotografia em mim. Revisito os livros de imagens acumulados ferozmente nestes últimos anos (não tenho moral para condenar os consumistas, não). E quem me salva é
Eva Besnyö. Que fotógrafa! Os reflexos. Os ciganos. As crianças musicistas. A beleza que ela captava naquelas manhãs brilhantes entre as estações do ano.

Amanhã, não sei. Espero sempre me sentir melhor. De todo modo, deixo enganchadas sobre a mesa de meu escritório as flores que Robert Frank fotografou em Paris.

Por Eva Besnyö