A difícil paternidade literária

Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema, “A terra do meu pai” explora a viagem feita por Thomas Mann à Alemanha em 1949, certo de que contribuiria para apagar as cinzas da guerra 

Sandra Hüller é Érika e Hanns Zischler, Thomas:
o duro empreendimento da família Mann

O ritmo teatral ditado por três atuações secas: a de Hanns Zischler como o escritor alemão Thomas Mann; a de Sandra Hüller (“Anatomia de uma Queda”) como sua filha, a atriz Érika; e a de August Diehl como o filho e escritor Klaus. A reconstituição parcial do cenário ainda em ruínas das duas Alemanhas, quatro anos depois da derrota nazista. O bom humor inserido em assunto difícil (isto é, quando menos se espera por ele). A densa fotografia em preto e branco a respeitar a aspereza social e política do pós-guerra.

Estas são algumas razões para recomendar ao público da mostra a coprodução polonesa, alemã, francesa e italiana intitulada “A terra do meu pai”. Dirigido pelo polonês Pawel Pawlikovski (“Ida”, 2013), o filme narra de forma dialogada e breve a viagem de carro empreendida em 1949 por Thomas Mann (1875-1955) entre duas cidades alemãs: Frankfurt, então controlada pela CIA estadunidense, e Weimar, sob direção soviética.

Em “A terra do meu pai”, um road
movie pela história e pela literatura

Dono de um Nobel, exilado nos Estados Unidos, distante do país natal desde a ascensão de Adolf Hitler, em 1933, e desejoso de estabelecer sua palavra em territórios antagônicos, Mann surge aqui seguro da serventia à Alemanha da própria fama literária, que contudo se vê criticada, até ironizada, tanto por Érika, sua acompanhante na viagem, quanto por Klaus Mann. O autor de “Mefisto”, aliás, em eterno conflito com o pai famoso, não poderia estar mais descontente com os alemães e sua língua, esta nascida, segundo ele diz, para tecer “mentiras”.

Muitas baforadas pela reconstrução

Eis um filme quase didático sobre duas grandes distopias do século 20, o fascismo e o stalinismo, aos quais o auto-intitulado burguês Thomas Mann devotou o olhar maduro. Igualmente, uma obra a gravitar sobre a responsabilidade social e a paternidade da literatura, tanto de Mann quanto de seu ídolo J. W. Goethe, cujo leito de morte o autor de “A Montanha Mágica” conhece em uma visita guiada pela burocracia comunista a Weimar.

O diretor Pawel Pawlikovski

A TERRA DO MEU PAI

Dir. Pawel Pawlikovski

Polônia, 2026

82 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Reserva Cultural 1, 18 de outubro, 15h10

Cinesesc, 19 de outubro, 21h30

Solar Sala Petrobras, 20 de outubro, 17h15