Todorov, um quase-elogio ao país dos tropicalistas

Em 1995, subeditora do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, eu me colocava a difícil tarefa de entrevistar Tzvetan Todorov. Ele participava de um desses encontros de pensadores com o público, fenômeno inicial naquela década paulistana. Eu suspeitava que me ofereciam a entrevista exclusiva apenas porque ninguém mais desejava fazê-la. Sempre trabalhei em meios de comunicação de público relativamente pequeno, para os quais os organizadores de eventos culturais e as editoras davam uma importância secundária. E nunca me foi fácil ou imediata a chance de estar com os grandes de pensamento. Todorov talvez fosse entendido como um número dois pela imprensa, candidato, portanto, a habitar minhas margens…

Ao contrário dos palestrantes dos cafés atuais, ele não era um divulgador de filosofias. Era a própria filosofia, sustentada pela história. E eu temia pelas dificuldades de entendimento entre nós. Nem todos os seus livros, como A Conquista da América, seriam aceitos com facilidade pelo leitor médio, meu público naquele caderno cultural. E se ele não quisesse tergiversar sobre as coisas terrenas, até triviais, essas que ajudam a temperar as conversas jornalísticas? E se ignorasse por completo o Brasil?

Medos infundados. Os grandes, em geral, teimam em ser humanos… Não só jamais ignorara este país, como aqui estivera durante a ditadura, observando com humor certas ignorâncias da censura no poder. Tinha, por nós, uma inusitada consideração. “No Brasil, a mentalidade tropicalista, do tipo descuidada, restringiu o controle dos governos”, disse, com delicada ironia. Conversamos por quase três horas no saguão do hotel onde se hospedara, o Caesar Park da rua Augusta, fechado em 2006. Falamos sobre muitos assuntos, entre eles a guerra originada por extremos nacionalismos e a impossibilidade de união entre nações e povos tão próximos.

Enquanto conversávamos, ele era fotografado por Monica Zarattini entre os livros (sim, livros eram então atrações para turistas) presentes no lobby. Todorov aproveitou para folhear os volumes de arte. Parou em uma encadernação que exibia a obra dos holandeses do século XVII. Fascinava-o A Lição de Música, de Gerard Terborch. “Não há inocência nos quadros desse período”, ressaltou. A posição das mãos, a quase antever uma carícia, e a inclinação do professor diante de sua aluna absorta no instrumento sinalizariam as intenções escondidas. A cada quadro, suas observações serenas e sorridentes ampliavam as possibilidades interpretativas de determinado pintor. Um testemunho do prazer no livre-pensar. Uma das melhores, despretensiosas e instigantes conversas que tive com um intelectual em minha carreira de jornalista.

Quando Todorov morreu, em fevereiro deste ano, busquei por esta entrevista no Google. Claro, não a encontrei. Sou a senhora dos veículos pequenos, desprestigiados, até extintos… Mas, durante o fim de semana, fui presenteada com este xerox por meu marido. Ele guardara organizadamente muitos trabalhos do meu passado, que oferecerei aos poucos dentro do blog.

Eis por que, agora, posso mostrar este Tzvetan Todorov com sabor de inédito a vocês.

Por Rosane Pavam

(A imagem em destaque, publicada pela Wikipedia, foi realizada durante palestra do pensador em Estrasburgo, em 2011.)