Lorca no espelho

“Pipas 096”, 1997

Satisfatória. Assim muitas vezes German Lorca se refere a cada etapa de sua obra durante o minidocumentário dirigido pelo filho José Henrique e exibido na retrospectiva “German Lorca – Mosaico do Tempo, 70 anos de fotografia”, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Um artista que classifica como satisfatório cada passo de seu trabalho deve falar a verdade. Não se vive no mesmo patamar, alto ou baixo, quando se produz algo de valor indefinível como a arte. Satisfaz-se com ela. Ou não se satisfaz. E segue-se adiante. Sem que quase ninguém, exceto talvez o artista, consiga entender por quê. A arte está no futuro que dificilmente nos cabe ver.

“WTC Reflexo”, 1970

Em 96 anos de vida, 70 de fotografia, German Lorca segue sempre. Não só por São Paulo, vejam. São Paulo quase não está em jogo aqui. Sua cidade não é documental. O fotógrafo olha para si.

E está armado da ideia de satisfação. Se ela não existe ainda, eu devo procurá-la. Sorrio enquanto caminho. E devo seguir longevo, lúcido, agitado e feliz, mesmo se a procura é dura. A indefinível pirâmide, somente eu posso ver. E estou chegando lá!

“Vaticano colunas”, 1970

Apenas suas fotografias não sorriem. São sóbrias declarações da difícil permanência humana entre as quatro ou mais linhas do campo da vida em que se deve jogar.

Às vezes, são fotos que aspiram ao encaixe, à iluminação, à elevação, como esta do menino que empina pipas.

“Parque Dom Pedro”, 1949

Às vezes, são espelhos de desdobramentos, de inquietudes de quem se perde na cidade  e se fere por seus ângulos, ou busca clareiras.

Às vezes, ele queima por dentro, como quando adota o processo de solarização, aquele em que faz rápida exposição da imagem à luz durante o processamento do filme…

A hora em que o diabo entra!

“Diable au corps”, 1949

Lorca descreve linhas. Vive por elas. Tenta delimitá-las. Elas estão por toda parte, especialmente quando ele faz “arte”.

Sim, porque ele tem esse modo de dizer: quando não trabalho, quando não negocio, sou artista.

E, quando trabalho, tenho felicidade do mesmo modo.

“Moda”, 1960

Mas sempre procuro a linha. Preciso dela. Meu canteiro. Pra trabalhar, pra viver. Fujo dela enquanto a persigo. Gatos e ratinhos.

“Trópicos ou Homem com Guarda-Chuva”, 1951

Esta exposição começa com seus selfies, a provar o que todo mundo a esta altura já sabe, que os selfies, ou autorretratos, existem desde muito antes da internet, desde que o homem começou a fazer parte de um concerto (ou conserto) de ideias, de um ideário do capital. Quando o sistema, antes religioso e perene, disse ao homem “vire-se, você está só”, ele não teve jeito senão parar de olhar um pouco para deus, engolfando-se em si.

Selfies!

O intenso, em Lorca, é que ele faça essa autoprocura muito além dos selfies (que, me perdoe a curadoria, não deveriam começar a exposição, visto que no fim das contas se tratam de ilustrações rasas da personalidade do artista, brincadeiras de esconder).

Sua autoprocura tem, pelo contrário, algo de fé. Ela se expressa não só quando Lorca exibe homens e mulheres religiosos vestidos à maneira medieval, misturados em tarefas tão mundanas como atravessar a rua com uma criança ou pegar a barca enquanto lê um jornal.

“Irmã de caridade”, 1970

Lorca é religioso quando busca um princípio, uma devoção, um centro, quando deixa escapulir pelo Anhangabaú a girafa de um trabalho de publicidade e a coloca em um cercado à vista de todos.

“Ford Jeep Girafa”, 1962

Não é uma imagem fácil de ver.

Todos estão à volta se situam entre o sorrio e o calafrio.

A girafa pode fugir.

A girafa é ele. É seu trabalho.

Grande por se conter.

Mas não lhe peçam contenção, ok?

Bordar a dor

Pequena história da grande Maria Auxiliadora

Nesta foto sem data e sem autor, tirada em sua segunda residência paulistana, na Casa Verde, a pintora mineira Maria Auxiliadora posa com duas das telas naïf muito coloridas que produziu para o sucesso mundial.

Sua família era toda de artistas, os 17 irmãos. A mãe, que lhe ensinou bordado, tinha muitos sonhos para os filhos, razão pela qual se mudou com eles para a efervescente capital do Estado onde nasceu, seguida pelo marido, que arrumou trabalho numa olaria do bairro do Limão.

Maria Auxiliadora conta que a mãe não lhe deixava brincar. Tinha de bordar. Aprendeu com ela todos os pontos e a combinar as cores. E desenhou muito, especialmente à noite, para espantar os espíritos. A família era católica, mas Maria Auxiliadora frequentou terreiros e sonhava aderir ao candomblé, de onde tiraria a inspiração futura para pintar os orixás.

Seu Xangô na série dos orixás

Aos 12 anos, a menina largou a escola porque precisava ganhar pro sustento da família. Ela e suas irmãs partiram para o trabalho doméstico em condições ruins, aparentadas por vezes às da escravidão. Sua avó, que fora escravizada, havia fugido de Minas para Sorocaba; com o braço imobilizado por um acidente, doara a filha, mãe de Maria Auxiliadora, a uma família.

Oxum, de 1972

Até os 33 anos de idade, Maria Auxiliadora pintou nos intervalos em que atuou como doméstica, função mais rentável que a de bordadeira para confecções na rua José Paulino. Suas pinturas começaram a aparecer. Raquel Trindade, filha de Solano, visitou um dia a casa da família de artistas e convenceu-a a se mudar para Embu das Artes.

Ali Maria Auxiliadora venceu salões e de lá passou a expor na praça da República, onde Mário Schenberg comprou suas telas. O sucesso apareceu em 1968, quando ela fez sua primeira exposição, seguida de outras no Brasil e Europa.

Pintava febrilmente, sem se dar conta de que tinha sucesso. Às vezes, de tanto pintar, imergia nos quadros, conversando com as figuras que representava. Fazia as próprias roupas e ornamentos.

Iansã, inspiração no candomblé

Um dia foi parar no Hospital das Clínicas por conta de intoxicação causada pelas tintas e o médico descobriu um câncer de mama. Ela acreditava que o tumor nascera de uma cotovelada recebida no seio certa ocasião. Retirou o tumor, mas a operação não impediu que morresse pouco tempo depois, ainda ativa, aos 39 anos, em 1974.

Ela queria ser enterrada de noiva, figura que representou em um de seus quadros.

Não deu.

David Drew Zingg para poucos

Em 1994, entrevistei o fotógrafo David Drew Zingg para as páginas vermelhas da revista IstoÉ. (leia o pdf David Drew Zingg (1).)

À época, não somente um dos grandes fotógrafos a atuar no Brasil, ele se tornava colunista de um grande jornal, depois de haver contribuído para ajustar a fotografia do diário “Notícias Populares”, de que gostava bem mais.

Drew Zingg, então integrante da banda Joelho de Porco, era o velho anarquista preferido por todos nós. Não sei se por todos nós da redação, na verdade. Provavelmente não por eles… Mas por mim, certamente. E por meus poucos-grandes-geniais-amigos de combate.

Contudo, quando o entrevistei em uma tarde de verão daquele ano tão distante, ele não se parecia de modo algum com um anarquista.

Conversava comigo apenas nos intervalos de uma longa sessão de entrevistas a candidatos a uma vaga na revista que dirigia. Seus papéis e recortes iam empilhados em ordem sobre a mesa limpa. Quem esperaria por isso? Talvez os fortes. E talvez eu fosse forte, sem saber.

Cheio de interdições, ranzinza, ele me recebia na sua pequena sala de trabalho a cada quinze minutos e interrompia a nossa conversa sempre que um novo candidato ao emprego aparecia.

Eu estava por lá mesmo. E decidira furar seu bloqueio de maneira simples. Rindo sem parar do que ele me dizia. Queria fazer florescer a comédia que ainda acreditava habitar nele. Me tornei seu público.

Com o tempo, a entrevista se tornou hilária e franca. E ele ainda me deu a dica de uma câmera fotográfica portátil, a Olympus Stylus, então sua preferida, que me acompanharia por muitos anos.

Publicada a entrevista, Zingg ligou ao então secretário de Redação da IstoÉ, Hélio Campos Mello, para agradecer a matéria e a louca jornalista que haviam enviado para lhe entrevistar. Em seguida, ligou pra mim.

Fui atender na mesa do chefe, trêmula.

“David, você entendeu o título que eu dei à entrevista, não?” – perguntei, sorridente.

E ele, para meu alívio:

“Claro que entendi, Rosane. Very smart…”

(E ainda me lembro de ter minha gargalhada retribuída.)

Uma campanha peculiar

Sargento reformado prega o voto em Kim Jong-Un contra Bolsonaro presidente

 

Snapseed (7)Fernando Nogueira de Araújo nasceu em 19 de maio de 1943 em Caicó, Rio Grande do Norte. E atualmente, aos 75 anos de vida, das onze horas às quatro, como diz, e até as eleições presidenciais (ou enquanto não chover ou sua saúde não ruir), estará sentado nos bancos da rua Galvão Bueno, no bairro paulistano da Liberdade, para promover o que considera sua missão. Araújo quer descarar a farsa que significaria eleger Jair Bolsonaro presidente do país.

Seu modo de fazer o alerta é singular. De guarda-chuva aberto para se proteger do sol, ele veste a camiseta que produziu, na qual pede a eleição de Kim Jong-Un para presidente do Brasil. “Eleições 2018. Kim Jong-Un para presidente do Brazil. (Para o bem do nosso abençoado país, não vote em candidato Bossal-Nato)” são os dizeres ao redor da imagem impressa do líder norte-coreano.

Pouca gente, contudo, lê a proposição descrita na camiseta até o fim. Araújo conta que um sem-teto se ofereceu para atuar pela causa, fazendo propaganda eleitoral em troca de pagamento. Houve quem tivesse acreditado que aquilo proposto na camiseta pudesse ser uma boa solução para o país.

A ironia é peculiar. Se Jair Bolsonaro, o Bossal-Nato, pode ser candidato a presidente, por que não Jong-Un, que falsificou um passaporte brasileiro para viajar pela Europa? O endereço de residência do brasileiro Jong-Un, segundo seu passaporte, seria ali mesmo naquele bairro onde Araújo protesta, à rua Conselheiro Furtado, 324, apartamento 404.

Estive com o senhor Araújo em maio, num desses dias de sol. E me aproximei dele gargalhando, muito curiosa sobre as camisetas à venda por trinta reais. (Para quem considera alto o valor, ele oferece uma do Batman, por vinte, mas ninguém quer comprar). Quando sorri para ele, sentiu-se gratificado, como se eu houvesse captado algo de sua ironia, de seu manifesto.

Sobre o banco no qual está sentado, Araújo coloca ainda exemplares do livro “Minha Vida de Prefeita”, de Marta Suplicy, política a quem ele muito considera, por ter criado “aquelas escolas públicas com piscina”, os CEUs, e o xerox da reportagem da revista “Veja” que informa sobre a “brasilidade” do norte-coreano. Para ele, Marta e Luiza Erundina foram as melhores prefeitas de São Paulo. Aliás, ele acha mesmo que o mundo é das mulheres. Perdeu uma filha e foi duro demais. Se ele tivesse nascido mulher, assegura, teria sido lésbica para amar outra mulher.

Se ninguém perguntar nada a este performer, ele tampouco explicará o que propõe. Aparentemente, Bolsonaro é mesmo seu principal alvo. Araújo não se conforma que o parlamentar tenha afirmado em entrevista para a “Folha de S. Paulo” que  bombardearia as favelas do Rio para acabar com o tráfico. Violência gera violência, como Araújo acredita. O povo não sabe história, acredita que o tal candidato possa atuar em seu favor e ele se entristece. (Veja o vídeo aqui.)

A tristeza possivelmente nasça do fato de ele pertencer à própria história e a ter testemunhado, desejoso de comunicá-la. Uma vez, ao ler sobre a fundação de Natal, capital do Rio Grande do Norte, especulou sobre seu próprio parentesco com o oleiro Severino Sergio de Araújo, que construiu o Forte dos Três Reis Magos. Bateu então à porta do intelectual e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), que pediu à mulher para tirar da estante um livro sobre a história da cidade. Cascudo assegurou-lhe então que ele pertenceria à décima-primeira geração descendente de Severino, que em 1608 atuou no forte e, pelos anos, em mais onze edificações. Julgando que não haveria progresso em sua atividade, Severino partiu para vender gado no interior.

Nosso Araújo do presente nunca fabricou tijolos, como o antepassado. Completou o Ensino Médio, à época o Científico, e entrou no exército, onde, diz, conheceu o capitão Lamarca. Conta que brigaram e que Araújo se viu punido por ele. Quando Lamarca foi assassinado, julgaram que o capitão havia feito a punição apenas para protegê-lo, para que ninguém percebesse uma identificação entre os dois. Araújo desiludiu-se com isso, pois nem mesmo acreditava nos métodos de Lamarca. “Ele era um terrorista de esquerda, como Bolsonaro é de direita”. Há 55 anos, Araújo tornou-se um terceiro-sargento reformado.

Quando soube que eu era jornalista (mas não famosa, não da Globo, como lhe expliquei), narrou-me outra entre suas histórias peculiares. Ele está convicto de que Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, nasceu não em Ohio, como se sabe, mas em Porto União, na brasileira Santa Catarina. A família teria ligações com o nazismo e aqui refugiou-se, como supostamente contaram os habitantes locais à repórter Gloria Maria há 45 anos. Araújo entristeceu-se que ela tenha feito a apuração e jamais colocado no ar, ela ou sua emissora. “Glória só no nome não basta.”

 

O fim do mundo como você o conheceu

Curioso como um horizonte do futebol que eu julgava eterno está mais ou menos perdido.

Talvez por culpa do próprio futebol, domesticado como tem vindo.

Na minha infância e na minha vida de mãe de crianças esportistas experimentei outra realidade.

Coisas como drible, passada, enrolação de tempo, teatro, falta, drama, cambalhota, empurrão ou fingimento eram necessidades do espetáculo.

E quando roubávamos a bola e fazíamos o gol, lutando dentro das regras com nossas armas não-violentas, nada mais importava.

Lealdade nunca significou ter um fraque em campo.

Os príncipes destacavam-se justamente pela majestade.

E o time, coisa imperfeita, especializava seus ilusionistas.

Como reclamaríamos da malandragem do jogador vencedor, especialmente se pertencesse ao nosso time?

nós não entendemos o verbo vencer

@Rosane Pavam

não sei bem qual é a do ator inglês contra ele,

nem do pai do goleiro dinamarquês, o importante,

muito menos sei por que usar suas declarações como argumento de autoridade,

embora talvez suspeite a razão da bronca do técnico mexicano.

só não entendo mesmo é o porquê da ira brasileira, meus amigos, meus inimigos.

a motivação para um sentimento que ecoa no espaço sideral (redes sociais é melhor?) contra nós mesmos, apesar de havermos vencido um jogo importante.

parece que ninguém está feliz.

parece que o méxico era time fácil de bater, vindo de vitórias como aquela contra a alemanha.

nós não entendemos o verbo vencer.

parece que ninguém mais na copa, além dele, atua para as câmeras, que agora realmente podem decidir (a burrice do videotape) sobre lances capitais.

parece que somos um lixo irremediável, e que lakaku, de origem pobre no futebol, representa um fenômeno desconhecido, razão pela qual ganhará de antemão o próximo jogo.

casemiro, william, firmino, gabriel, marcelo, alisson, thiaguinho, fagnerzinho, titinho, coutinho, paulinho e rolinho, tudo tão pequenininho quanto o canarinho pistola.

ninguém inventou nada melhor do que complexo de vira-latas pra explicar o brasileiro, nelsinho de deus.

A visita da velha senhora

Nos anos 1980, apenas para visitar apartamentos em São Paulo com o objetivo de escolher qual deles alugaria, tive de mentir aos porteiros dizendo que era uma noiva prestes a casar, além de levar meu “noivo” às visitas.

Ninguém alugava apê decente para as solteiras.

Nas redações, por essa época, era quase certo que quem lhe desse carona de noite, após o trabalho, tivesse intenções adormecidas.

A gente não podia fazer muito a respeito então, exceto driblar os zagueiros, como uma Sofia Loren nas comédias. Ou procurar a justiça masculina, sem chance de gritar “me too”.

O mundo andou, mas o preconceito ainda constitui uma praga, amizades. Se você é jovem, como a Manuela D’Ávila, querem lhe calar, porque não deve saber mesmo o que diz… E se você não é jovem, como eu, nem conservadora politicamente, como seria de esperar, acham que você não entende do que fala, porque envelheceu.

Vocês não imaginam o machismo que sofri para editar cultura em nosso jornalismo, sempre caçada por meninos famintos, conservadores ou não. E o “ageísmo” é mesmo aquele de que falou Madonna num discurso. As mulheres frequentemente o praticam contra mulheres. Passe dos cinquenta anos pra ver.

Li que 104 países ainda proíbem por lei a mulher de realizar certas atividades (como levantar mais de 20 quilos, no Brasil) e achei bem normal, pra ser sincera.

Queria era ler uma pesquisa como essa em torno de mulheres com a coragem de envelhecer publicamente enquanto lutam no mercado de trabalho. Mas pelo jeito ninguém ainda se ligou de que esse é um assunto a considerar.

Auf Wiedersehen

Vocês são chatos e desinformados.

Temos um Philippe Coutinho extraordinário no time.

Um Paulinho que faz gol memorável, mas não comemora nem sorri.

Um Thiago Luiz sem choro desde o desastre de 2014.

O mesmo Thiago declarou hoje, em entrevista oficial à Fifa na saída do campo, que seu mestre (Tite, imagino) lhe disse que ele ainda precisa aprender a sofrer.

Vocês têm a acne do goleiro hipster de olhos claros.

Vocês podem pronunciar o melhor nome de jogador brasileiro em muitos anos, Ca-se-mi-ro, um menino criado exclusivamente pela mãe, como é, em grande parte, a educação dos meninos do futebol no Brasil.

Vocês possuem histórias em cascatas, hipérboles e anedotas.

Mas vocês acabam sempre em gifs de Neymar rolando em campo até a Patagônia.

Que coisa mais velha, mais John Travolta em meme de Pulp Fiction!

Criadores, de que servem suas criações?

Vocês não perceberam ainda?

Vou ser obrigada a lhes explicar até isso?

Não tem nada de novo no rolinho do Neymar, camaradas!

FUTEBOL É ENROLAÇÃO!

Contanto que o goleiro fique no gol…

Auf Wiedersehen!

A praça dos enforcados

Vi pouco o Roda Viva com a Manuela D’Ávila. Não sei dizer se foi mal ou bem. Pelo que entendi, ela fez o que pôde. Foi irônica e sorridente contra a cavalaria.

Acho que não é possível sair bem daquele círculo, especialmente se o entrevistado for ponderado e tiver firmeza em suas boas convicções, como parece ser o caso da candidata.

Não gosto do programa, construído como armadilha: o entrevistado deve falar rápido, é constantemente interrompido e não dispõe de tempo para responder a contento as perguntas pré-formuladas de jornalistas e “filósofos” (quem é o barbudo, gente? um novo mbl?). Tudo fica dito pela metade.

Eu vejo constrangimento nos jornalistas dos veículos de direita que fazem suas perguntas não ao candidato, mas de modo a assegurar os próprios empregos, reprodutores que são do pensamento patronal. Vejo que suas perguntas, que têm a intenção de desestabilizar a solidez do entrevistado, usualmente não dispõem de armas limpas (informação) para proceder a esse desmonte. São perguntas que seu chefe, ou patrão, espera que façam. Eles precisam formulá-las, nem que seja por graça. São pagos para tal.

Vejo o Otavinho plantado na cabeça daquela jornalista da Folha. Vejo um mediador sempre sorridente, temeroso e com a corda no pescoço, a cuidar da própria retaguarda, porque responderá certamente ao tucanato depois do jogo e se sair da linha terá o cargo ameaçado.

(Uma vez o secretário de cultura João Sayad me contou que José Serra, então governador, pegara no seu pé por conta de uma pergunta feita inadvertidamente por Eliane Catanhêde ao Gilmar Mendes, a única a deixá-lo desconfortável naquele Roda Viva; podem acreditar, a Catanhêde presenteou o povo cheiroso com uma ínfima liberdade de pensar, e nunca mais, como sabemos, repetiu a ousadia).

Como a Manuela iria conseguir falar alguma coisa que prestasse numa situação assim? Ela sabe debater, mas ninguém ali espera por um debate. É um jogo de aparências. No Roda Viva, só funciona quem quebra as paredes, não faz o prometido, desrespeita o tempo de resposta, dá trabalho ao mediador. Manuela me parece cheia de vivacidade, mas muito educada para o rito.

E falo do que sei: já estive entrevistando no Roda Viva de 25 anos atrás. Escrevi as perguntas em um pedaço de papel e os dois entrevistadores ao meu lado, à esquerda e à direita, ROUBARAM minhas questões, precipitando-se diante da câmera antes que eu educadamente tivesse permissão de falar, dada pelo mediador Jorge Escosteguy. E no final os graúdos embusteiros ainda se explicaram a mim, na saída do estúdio: “Acontece assim mesmo, não tivemos tempo pra preparar perguntas e isto aqui é tevê.”

Não vou dizer quem são os tipos, mas provavelmente alguns de vocês os considerem críticos de valor, jornalistas sérios ou até pensadores. O que penso de jornalistas que roubam minhas ideias é… deixa pra lá.

Sugiro que mudem o nome do programa para pelourinho, corda no pescoço, praça dos enforcados. Tais expressões fazem mais jus simbólico ao que o Roda Viva realmente é.