Um macabro filme B

Cidade de Fantasmas, de Matthew Heineman, traz o pulso da guerra ao narrar a ação de um grupo de jornalistas contra o Estado Islâmico em Raqqa, na Síria

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Jornalista com celular contra o poderio cinematográfico do ISIS, em Cidade de Fantasmas

Ele sangra pela boca quando se irrita. E ele se irrita muitas vezes, quase sempre quando assiste ao Estado Islâmico matar seu pai. O ISIS fez dessa morte um espetáculo filmado por diversos ângulos, todos muito próximos, de modo a exemplificar no homem de família um anjo infiel. De perfil, com iluminação escura, esse pai veste macacão vermelho. De frente, o fundo infinito, fala calmamente diante de seu inquisidor. Atado a um poste, lamenta que o filho tenha seguido os caminhos contrários aos ditados pela orientação revolucionária. O pai em oração, o rosto descoberto, sofre o golpe final.

Um macabro filme B, snuff movie roteirizado como um gibi ruim. Ensina-nos o documentário Cidade de Fantasmas, em exibição no festival É Tudo Verdade, aquilo que por longo tempo deixamos de perceber: sendo o ISIS um grupo de inspiração fascista, usa a estética do cinema para cooptar militantes. No documentário de Matthew Heineman, em que tal produção é exibida, o grupo também se mostra como uma onda violenta de sangue a perseguir a família daquele filho. A organização ainda não chegou até ele, mas provavelmente o alcançará. E, por conta disso, o militante esperará viver apenas mais um ano ou dois.

De cidade em cidade, pela Turquia fronteiriça ou por uma Alemanha de impensáveis liberdades (lá onde nem mesmo a neve parece ser igual às outras), esse filho, na companhia de amigos, divulgará tudo aquilo que sofrem os seus. O celular é a arma mais potente de Aziz, Hamoud e Mohamad. Até o momento, ela vence a guerrilha, ao possibilitar os posts informativos sobre as batalhas cotidianas sírias pelo facebook e pelo twitter. O filho quer seu país liberto do ISIS. E ele é quase a única força a enfrentá-lo.

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A comunicação de massas como princípio para vender o terror

Cidade de Fantasmas traz para o convívio do espectador a experiência de combater permanentemente um estado de supra-exceção. Heineman não esteve em Raqqa, onde o ISIS fincou bandeira em 2014 e de lá tirou as escolas, os hospitais e as parabólicas. As imagens com que ele lida são de dois tipos. Aquelas recolhidas na cidade, de seus celulares, por ativistas do grupo RBSS – Raqqa is Being Slaughtered Silently (Raqqa está sendo assassinada silenciosamente), e suas próprias, realizadas enquanto ele caminha ao lado dessa ONG de jornalistas por cada esconderijo, de modo a transmitir em tempo real as atrocidades de que são vítimas os sírios.

Os entrevistados de Heineman neste documentário não vivem mais em Raqqa, mas lá mantêm uma rede de ativistas a praticar o jornalismo in extremis. Os exilados perderam tudo, a começar por sua condição financeira de classe média. Depois da primavera árabe, eles se empenharam em derrubar do poder uma família de tiranos, mas viram a cidade natal tomada pela surpreendente associação de terroristas. Contudo, não se curvaram a tudo aquilo de que foram vítimas. E não desejam um país onde as crianças são usadas como “lenha na fogueira”, recrutadas por filmes de propaganda como aquele da execução do pai do ativista, para servir como bombas suicidas ou executores sumários. Eles querem libertar o lugar onde nasceram, ou nada terá valido.

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O diretor Heineman: ao lado do combatente para registrar o combate, como Wyler ensinou

De cidade em cidade, a cabeça a prêmio, os integrantes da RBSS centralizam as transmissões enviadas desde Raqqa e as postam no facebook e no twitter. Mas a cada dia é mais difícil enviar qualquer material a partir da cidade. O mínimo período de tempo para publicar um pequeno filme pode ser suficiente para que as vans do ISIS detectem o sinal do emissor. O último recurso do Estado Islâmico para impedir as transmissões do RBSS via satélite foi quebrar as antenas parabólicas dos moradores.
As leis do bom documentário estão presentes em Cidade de Fantasmas, especialmente aquela de William Wyler, conforme descrita na série Five Came Back, disponível no canal Netflix: é preciso estar ao lado do combatente para entender o combate. Heineman está com ele todo o tempo, a ponto de exibir seu corpo que treme. O filme não nos mostra a geopolítica que explica o ISIS, nem mesmo a responsabilidade de países como a Rússia e os Estados Unidos na manutenção do conflito. Mas aceitamos o que ele nos dá. A sociedade do espetáculo. O pulso da guerra. O terror, pulverizado por três heróis.

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Aziz, Hamoud e Mohamad, jornalistas-ativistas do grupo Raqqa is Being Slaughtered Silently

 

Por Rosane Pavam

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