ÁGUA SANGRANDO NAS PEDRAS DOS MEUS VINCOS

Após tantos dias acometida de eleição e de gripe, enfrento o chuvisco frio para ir à ioga noturna.

Adoro meu professor, um paraense de baixa estatura que faz nu artístico e celebra o amor homossexual no seu instagram.

Sou a primeira a chegar. Ele parece ter sentido a ausência. Me pergunta como estou. Entendo que são dias tristes.

Frios?

E tristes, sigo.

(Eu não tenho sabedoria.

Muito menos espírito de cautela.

Nem sei como envelheci.)

O professor capta meu ponto e tem uma opinião:

“De todos eles, só estou feliz com o Moro.”

Claro.

“Não acredito nele”, respondo.

E sorrio.

Porque não conheço antídoto pra água maldita.

“Temos de espalhar a luz”, assevera o professor.

Mas é claro.

Me resigno.

Noite de meditação.

Fazemos respiração de fogo, saudação ao sol, vela, torção.

E só depois meditamos, aquecidos.

Tanto movimento resulta que eu esqueça o Morostê.

O professor pede que meditemos sobre uma deidade de nossa própria religião.

Ou que pensemos em alguém de luz.

Na hora vejo meu pai.

Mas combato a ideia.

Não sei por quê.

Procuro mais alguém.

Não chega.

E então me fito menina, animada e pensativa, nas fotos dele.

Numa imagem incomum que extraiu de mim aos seis anos, com ares de atrevimento, na praça 14 Bis.

Não sei se as lágrimas começaram antes ou depois de visualizar o que eu fui.

Mas elas ficaram incontroláveis quando finalmente nos sentamos pra meditar.

Água sangrando nas pedras dos meus vincos.

Todos de olhos fechados.

Todos, menos o professor.

Eu sempre estou pronta para cantar a canção, mas não vou conseguir agora. Limpo as maçãs com as duas mãos, pego o papel pra assoar o nariz, viro pra trás, arrasto o tapete.

Pai que não terminou o que pôde.

Pai que acreditou no tempo.

Pai para quem a morte jamais vingaria.

Pai nascido humilde dos humildes.

Sou filha despreparada dele.

Que errou mais que ele.

Que se sente só quando ele não está por perto para valorizar o seu pensamento sobre qualquer coisa, a sua beleza, a sua carreira, os seus livros, a sua viagem, a sua casa, os seus filhos, e até mesmo para dar a suas fotografias uma benção de corado orgulho.

Meu pai amava tudo o que eu tentasse.

Até dissesse.

Quietinho pra me ouvir e complementar, nós dois falando esquisitices com os olhos na direção do céu.

Um pai para perdoar o fato de que eu às vezes não conseguia sair do lugar nesta vida.

Coisa natural!

Era ele comigo.

Pus óculos pra disfarçar os rios.

E atrapalhei o namastê final, que o professor de ioga disse bem baixo, a observar meus olhos de ressaca do Tamanduateí.

No final me procurou para saber (porque havia lhe contado e porque precisava puxar assunto) como eu me saíra na banca de qualificação da Simone, e eu disse que sim, que gostei, que foi bom ajudar um pouco quem quisesse, ademais uma menina tão inteligente.

Tchau.

E fui tomar um suco.

Daí pra rua.

E desde então o choro no meu pé.

Meu pai nunca entendeu a ditadura. Achava que lhe falavam a verdade.

Depois descobriu que não.

Eu sou pior, pai.

Não entendo se o que vejo é o que existe. Gosto só do que não existe. Não da paisagem lá fora, mas de olhá-la pelo vidro que a entorta e intensifica.

Vai haver sempre alguém mentindo pra mim, pai.

Como houve pra você.

Mas nós teremos um lugar lá em cima onde olhar.

Um lugar inventado, distorcido pela nossa arte.

Crentes de que o fogo em nossas mãos vai tocar o coração de tudo.

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