when you’re smiling

“the many faces of billie holiday” (https://youtu.be/wiEcL372LD0, filme para a tevê de matthew seig) talvez seja o melhor documento que conheci sobre billie holiday.

nada de sensacional se apresenta nele exceto a voz da cantora, analisada e respeitada, neste filme de 1990, por alguns dos músicos e produtores que com ela conviveram e que permaneciam vivos à época.

(mal waldron, por exemplo, muito jovem quando chamado a acompanhá-la, tinha exatamente esse rosto sereno quando o vi tocar…)

billie sofre nas biografias.

apanha, literalmente, jogada ao chão.

há essa tendência de a retratar em meio à ruína, como acontece com a carolina de jesus.

mas eu gosto de billie como está aqui, linda e luminosa na maior parte das vezes… da mesma maneira que amo carolina sem o lenço na cabeça, elegante e digna no seu encontro com clarice.

billie sabia rir e chorar, evitava a impessoalidade, falava consigo enquanto cantava para os outros. e, ainda mais raro, comunicava o seu ser e sua história, a tristeza e a alegria de viver no mundo, em cada canção.

conheçam sua maneira moderna e a voz como um trompete do íntimo, à moda do ídolo louis armstrong…

descubram como sua arte sempre foi, à parte todos os ruídos e feridas da vida pública, esse saber interpretar.

what’s done is done…

conje ensaiou o monólogo com conja? quem escreveu?

o cara se entrega, é comovente a estupidez!

ele não só justifica a agressão à mulher de uma maneira geral.

o cara se entrega mesmo, pessoalmente, como se conja fosse sua lady macbeth, a tal intimidante, impositiva, superior…

e ele, macbeth, o próprio, em névoa, parece prestes a assassinar o rei duncan porque a mulher o convenceu assim…

essa escócia ainda acaba em facada verdadeira, céus!

Cercados das joias populares

Por algum tempo meus filhos nos perguntaram como era viver nos anos 1980.

E eu nunca soube responder.

Nem saberei.

Talvez porque, sendo muito jovem então, eu não pudesse compreender a juventude, por mim apenas sentida nas suas porções de velocidade, impedimento e paixão.

Ontem revi “Blade Runner” com um de meus filhos e pensei sobre a década perdida, as “lágrimas na chuva” de que fala Rutger Hauer no improviso final.

E pensei que talvez o ator estivesse anunciando ele mesmo o fim de uma arte, daí a permanência de suas palavras…

Temo que os anos 1980 tenham acolhido o último grande cinema.

Aquele do movimento incessante, da poesia, do drama realista, o horizonte ampliado, a essência muda, as palavras exatas.

Isto é o “Blade Runner” de Ridley Scott pra mim, um verdadeiro filme.

Assim como “À Sombra do Vulcão”, de John Huston, lançado dois anos depois.

Eles contêm a beleza de Murnau e de Douglas Sirk, a fotografia dos reflexos da alma.

Os filmes nas salas de cinema eram um importante pedaço da vida nos anos 1980.

Cercados das joias populares, nós as sorvíamos em sessões seguidas, pois ninguém nos tirava das poltronas se desejássemos prosseguir vendo o mesmo filme.

E a intensidade desse maravilhamento talvez seja o mais difícil de traduzir para quem não a viveu, ou não era jovem então.

manda um abraço pro juarez!

vocês bem poderiam estar comigo da próxima vez que o suplicy aparecesse em manifestação.

e me ajudar…

não tenho coragem de pedir selfie com ele. até porque não sei fazer essas coisas. preciso de fotógrafo que além de tudo peça pra ele uma foto comigo. se bem que já é um ritual na vida do cara: posar com todos, falar ao microfone e cantar.

desta vez não cantou porque tinha “responsabilidade”, como disse, de ir ao velório do companheiro juarez soares. falou primeiro que todo mundo, pegou um papel pra não errar o nome dos presos, disse que pedia a sensibilidade de doria e bolsonaro para a injustiça das prisões (o suplicy de sempre), garantiu que todos trabalhavam pra resolver isso… e terminou com um lula livre, aplaudido com ênfase e carinho.

foi então que o organizador das falas pegou o microfone de sua mão e achou de dizer uma despedida empolgada, enquanto o suplicy deixava o recinto:

– manda um abraço pro juarez soares!

quase ninguém percebeu. nem ele, que falou, nem quem ouviu. o suplicy quis consertar lentamente, como de costume, mas só deu um riso compreensivo no fim. todo mundo muito sério na manifestação, mais homens que mulheres, polícia e remoção circundando a praça.

na real, eu não fui muito melhor que o rapaz atarantado ao microfone. mas pelo menos hoje, como todo mundo, homem e mulher na praça do patriarca (e o suplicy é um patriarca também), dei-lhe um beijo no rosto. só não sabia o que dizer depois. soltei o que me ocorreu:

– muito prazer!

e saí de perto, porque não nasci pra este mundo, entendeu?

e se mudar a rádio?

Começo o dia ainda animada pelo show de ontem. E entro no uber cheia de esperança. O jovem motorista, negro, usa boné e tem um carro bonito, não me pergunte qual, bem limpo. Sorri o tempo todo. Comenta o clima.

– Por isso a gente fica doente, né? Que sol é esse depois do frio de manhã cedo?

– Tem razão – digo. – E aconselho uma coisa: vacine-se contra a gripe. Peguei H1N1 e quase fui… Gripe e antigripal acabaram comigo! Ainda me sinto mal, sabia? Não vale a pena.

Me olha, diz baixo:

– Olha, moça, eu não acredito muito nessa indústria de vacinas…

(Rosane, por que não te maria calas?)

– Melhor você acreditar nessa indústria que naquela farmacêutica pra curar seu sarampo – brinco, na tentativa de lhe devolver toda a boa educação que teve comigo. – E vacina ainda é grátis no posto, não mata você…

– Acho que a senhora vai gostar deste programa.

Aumenta o rádio. Já o ouvia quando entrei. Eu penso: é agora, Orora. O Pânico da Jovem Pan comenta o aquecimento global.

O jovem professor de nome Ricardo Felicio, climatologista “da usp”, parece um jogador olímpico de pingue-pongue contra os radialistas do achincalhe da cognição. A cada pergunta banal, o entrevistado faz um rebate surreal, rápido, de tontear.

O Felício diz que:

1. Aquecimento global é cem por cento geopolítica. Não existe. Apenas passamos a monitorar a temperatura nos últimos anos. Nunca se viu tanto gelo como agora.

2. É só desenvolver uma bactéria que coma o plástico jogado ao oceano.

3. As abelhas, se morrerem, serão substituídas por outras espécies. Nunca se produziu tanto mel como no ano passado.

4. A engenharia florestal brasileira é a melhor do mundo. “Madeira dá muito dinheiro.”

Olho pro motorista com pena. O programa acompanha sua tentativa de entender a confusão do mundo. Uma rádio que é uma concessão pública, meu deus. Um entrevistado que nem sei classificar, um mitômano, um canalha.

Estamos chegando e eu, aterrada daquela felicidade airosa de minutos atrás, só lhe digo:

– Me promete que não vai deixar de se vacinar?

– Sim – sorri. – Prometo.

– E dou uma dica de estação de rádio melhor que essa. Já ouviu a Brasil Atual?

And I say LOVE!

A engraçada do dia fui eu mesma, ali ao lado da Petra Costa, na ocupação, me achando bem colocada enquanto metia o flash sem querer no belo ângulo de seu rosto que encontrei…

Não deu certo a foto, claro, mas o que é uma fotografia, no fim? É o que fui ao fazê-la, não? É a memória que acumulei… Jamais me esquecerei da foto de Petra que não fiz.

E ademais achei curioso que a diretora estivesse sozinha, meio deslocada na festa, na fila como qualquer um pra pedir uma foto com o Suplicy, depois do sucesso de seu filme sensível…

The struggle is real, babes.

And I say LOVE!

ESCRITA AUTOMÁTICA

Meu caçula me vê antes de sair de casa e se espanta.

– Você está Rihanna!

Penso: Rihanna da riqueza ou da encrenca? Da riqueza é sacanagem…

Mas ele nunca me sacaneia, oras!

E então esclarece que se refere a minha jaqueta, aquela que comprei numa liquidação por 50 reais…

Muito parecida com a da Rihanna na Fenty, ele diz.

E me mostra a foto no celular.

Caramba, é mesmo…

(Mas eu tenho a jaqueta há mais tempo. Fashion is everybody, style is only me!)

Dou-lhe um beijo.

Saio do centro, onde moro, e vou à Paulista cometer, com a amiga querida, o crime de ver um filme à tarde.

Desço toda feliz na estação Paulista, que fica na Consolação.

Rihannão!

E, muito rapidamente, um, dois, três sem-teto me abordam pra pedir o que comer…

E isto é bem mais do que vejo na República, no centro, onde ninguém hoje se aproxima enquanto eu caminho!

A Paulista e a Augusta me deixam bem mais triste nestes dias.

Não adianta informar que estou desempregada, que o mundo nem liga pra mim, que eu estudei, ralei, dei duro na vida ingrata, que não tenho aposentadoria e que preciso correr atrás dos trocados nascidos das ofertas de frilas feitas por amigos, das traduções, textos, palestrinhas, enquanto escrevo um livro…

Eles não acreditam em nada do que eu disser.

Isto é o que dá ser Rihanna sem poder!

“Não quero dinheiro”, repetem. “Quero comer.”

Eu sei, digo.

(Na real, o que eu posso saber?

Um dia talvez eu também saiba, embora espere que não.)

“Falta 1,50 pra esfiha!”, eles dizem, um a um.

Antes, os sem-teto noias me pediam dez reais na lata para uma “comida” (geralmente chocolate e coca-cola).

Agora eles se cotizam pela avenida, dividindo as diárias entre si.

É uma tática boa.

E basta dar com os olhos em mim para saber o que podem conseguir.

Sou do tipo que pipoca moedas, sem coragem de dizer não o tempo todo. E acabo gastando mais do que aqueles dez reais ousadamente solicitados no passado (embora hoje em dia eu não devesse gastar nem mesmo um.)

Então, bem…

Hoje esse noia grande, rosto redondo e forte, me para na altura do IMS. Elogia a elegância.

Rihanna, né? – respondo, rindo de mim.

E ele: faz um dia de Olavo Bilac, o autor do hino, a senhora não acha?

Eu:…

Ele: Um parnasiano!

Eu:…

Ele: Ou simbolista?

Eu, entregando a toalha: Um parnasiano e tanto!

Ele: Mas não era época simbolista?

E eu: Conviviam!

E ele: Acho o hino a coisa mais linda!

E eu: Eu não!

E ele: A senhora me lembra minha professora de literatura.

E eu: Você gosta de poesia?

E ele: Ninguém mais faz soneto, né? Gosto de soneto! Drummond que chama?

Eu: O Vinicius fazia soneto. O Bandeira.

Ele: Pra mim a maior obra literária do Brasil é a carta do Caminha.

Eu: Tem certeza? Não ligo pra escriba contratado.

Ele: Ninguém sabe que existiu Caminha!

Eu: Mas você sabe! E Anchieta, gosta também?

Ele: O Anchieta escrevia?

Eu: Pois é! Veja, o Drummond não era contratado pra escrever. Era funcionário público. Sempre vou preferir.

Ele, olhando pro alto: Soneto que chama!

Eu: Por que você não virou professor?

Ele: Porque estudei na Fatec. Sou tecnólogo.

Eu: Desse aula disso, então! Por que não deu?

Ele: Porque veio a droga, e quando ela vem…

Eu: Você está sempre por aqui? Te trago um livro.

Ele: Oba!

Eu: Qual o seu nome?

Ele: José!

Eu: Prazer, José.

Ele: Na verdade, sou Arlequina…

Eu: Arlequina, que lindo! Você manja Arlequim? O palhaço da commedia dell’arte?

Ele: Um bobo da corte, né?

Eu: Não da corte, da rua!

Ele (ansioso, mudando o trajeto da conversa): O maior escritor brasileiro é o Machado de Assis?

Eu: É quem a gente achar. O que você me diz de Guimarães Rosa?

Ele: Não sei quem é.

Eu: Talvez você gostasse de conhecer o amor de um jagunço…

Ele: (sorriso)

Eu: Arlequina, vou voltar.

Um facebook a céu aberto!

Já estou naquele ponto em que não consigo compartilhar com vocês certas declarações e notícias do país a pular pela minha sempre agitada timeline.

Penso três vezes antes de clicar. Vou ou não vou propagar esses rejeitos? Mas e se a lama chegar perto e meus amigos não estiverem sabendo?

É muita escória, uma danação contínua, sóis da meia-noite, gente sinistra…

Tão sinistra que se extravasa pelas ruas…

As coisas que a gente ouve no ponto de ônibus, não é?

Um facebook a céu aberto!

Socorro, Tim!

E Noel, Dolores, Assis Valente, Ivone, Tom, Cartola, Zé Kéti, Lupicínio, Geraldo, Ismael!

Meus heróis, amém!

O livre pensar de Gentili não é pensar, nem livre

Meu respeito pela artista Laerte não poderia ser maior. Nos quadrinhos, que ela diz não mais fazer, e na charge, que ainda pratica, eis alguém que ampliou os sentidos e as ambiguidades, o pensamento e a intuição. Uma artista grande a ponto de ter mudado o panorama mental que rege o fazer no Brasil. Hoje são mais e mais os sofisticados desenhistas como ela, a alargar o que vemos. Graças à Laerte, talvez, hoje tenhamos Quintanilha, entre outros emocionantes narradores de síntese poética.

A Laerte célebre e opinativa, contudo, me atrai certamente menos. Eu que talvez tenha me tornado mulher há mais tempo que ela não me interesso por sua apreciação em torno de atos de agressores verbais e intelectuais de outras mulheres como nós. Sua terna defesa daquele Iavelar que usou a influência como professor para assediar e ameaçar alunas, e a maneira como ela transforma a injúria de Gentili em um ato de livre expressão, a seu ver perigosamente cerceado com a decretação da prisão, me fazem sentir uma tristeza teimosa.

Porque Gentili, no vídeo contra a Maria do Rosário, apenas replica em outro registro canalha o que anteriormente dissera Bolsonaro contra a parlamentar na Câmara, um ato infelizmente e absurdamente sem punição, pelo qual até hoje, como sociedade, pagamos. Gentili, segundo a Laerte afirmara antes, apenas morde e assopra, e é inofensivo como comediante.

Sim, como comediante é inofensivo, mas apenas porque não faz comédia. Aquilo que praticou contra a Rosário e outras (a mulher que amamenta, a parlamentar gorda) não é humor. As penas por agressões dessa natureza devem ser decididas pela justiça em instância democrática, e é uma pena que Gentili não tenha sido severamente inibido antes, ou jamais agiria como age hoje.

Não me coloco contra ou a favor da prisão, mas certamente a favor de uma responsabilização. Me sinto distante dessa atitude da Laerte contrária à decisão, e sua apreciação do caso apenas me pareceu perigosamente aparentada a um corporativismo.

Mas Laerte é mais que uma celebridade opinativa, felizmente. E lerei sempre seus livros, charges, histórias, tudo isto que a liberdade de pensar ainda me permite fazer.

Oh Shelley

Adoro Shelley Winters, amo Marilyn Monroe. Tão brilhantes, sábias atrizes.

Shelley conta nesta edição (https://youtu.be/cRvwjm3eq3g) que morou por um ano com Marilyn, aos 18, quando a diva ainda era Norma Jean. Uma jovem extremamente inteligente, ela conta, que não se sentia atraída por homens com menos de 50 anos, suas figuras paternas que substituíam a do pai.

Seu role model, por assim, tornou-se Shelley… E esta se culpa por não ter estado perto de Marilyn quando ela morreu (a atriz já havia tentado suicídio duas vezes; não tinha família; rompera com arthur miller; tinha 36 anos, mas os produtores queriam que ela tivesse para sempre 25.)

Shelley, que também foi bombshell, conta ter aceitado um conselho que salvou sua vida e sua carreira: aos 33, aceitou interpretar alguém 20 anos mais velha. E daí por diante teve trabalho sempre. Mas ninguém fez por Marilyn o que fizeram por ela. Sendo Marilyn uma intelectual, praticamente…

Shelley, que, ao contrário de Marilyn, adorava homens bonitos, casou-se com Vittorio Gassman. E trabalhou num filme importantíssimo de Monicelli, “Um burguês muito pequeno”, no qual interpretou a mulher de Alberto Sordi, afásica após a morte do filho e a crescente insanidade do marido… Claro, entre muitos outros personagens que interpretou.

Shelley é dez. Como não amar essa vida? E ela fala ofegante, como se tivesse muito a expor e expressar… E eu entendo esta parte…