Máscara, o style de um povo

Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.

Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.

Exercício findo

Minha classe de primeiro ano
primário no colégio segregado: confesso que aprendi

Tenho o cuidado parecido com o do meu pai em guardar as fotos milenares. Esta é de minha classe do primeiro ano primário. Eu era bolsista de colégio alemão, que nos mantinha distantes dos alunos dos cursos pagos. Distantes mesmo, pois estudávamos à tarde, enquanto eles, de manhã, e não estávamos autorizados a frequentar a lanchonete, exceto excepcionalmente, para assim evitar abrir conversas com os ricos.

“Pobre não tem dinheiro pra comprar lanche”, me dizia a mestra azeda e esquelética. Eis por que sei de racismo e luta de classes desde cedo. Acho até que deveria escrever algo maior, um livreto sobre essa experiência, quem sabe um dia.

Éramos todos, os 41 desta foto, amigos e vizinhos na Bela Vista e nas regiões do centro de São Paulo. O Porto Seguro ficava no que é hoje a praça Roosevelt, antes de se mudar para o Morumbi. Não havíamos conseguido vaga no Caetano de Campos, o melhor colégio público de nossa região, na praça da República (hoje justamente transferido ao prédio do antigo Porto Seguro), e por isso penávamos por lá mesmo.

Dois de meus colegas nesta foto morreram aos 20 e poucos anos, com Aids, no alvorecer brasileiro da epidemia. O restante não sei se vive ou já morreu. Uma das garotas nesta foto concorreu e chegou às finais de um concurso do Chacrinha para eleger a menina mais bonita do Brasil – um concurso no qual, anos mais tarde, a apresentadora Angélica chegou em segundo lugar.

Um menino entre esses, que eu saiba, gostava de mim e eu não dava conta de corresponder a seus sentimentos. Os nerds, os atrapalhados, os tímidos, as almas simples, tenho o orgulho de havê-los atraído a vida toda. Eu fui sempre das mais altas da classe, precisava subir no banco para a foto anual e às vezes isto significava ficar atrás só com os meninos, para meu ser envergonhado, e ainda assim sorrir pro fotógrafo.

Sempre fui desse jeito, sorridente, comprida e desajeitada. Detestava meu pescoço longo, meu cabelo fino. Eu realmente não me apreciava muito. Aqui, alguns dentes permanentes não haviam ainda nascido, e eu já não curtia ser banguela. Não gostei de me ver nesta fotografia até outro dia. Mas que bobagem! Vejam que classe mais linda.

Olho para esta foto e noto que o menino tido por mais belo, até paquerado pelo professor de inglês da quinta série, não era o mais belo. Bonito mesmo era aquele sardento com cabelo cor de fogo que não parava de enrolar a pálpebra para se fazer de monstro e me assustar. Contudo, pelo contrário, ele sempre me matava de rir. Eu lhe ajudava nas lições e ensinava o que podia, sempre ousada para passar cola nas provas.

A amiga ao meu lado também me fazia gargalhar, e eu a ela, uma mulher que hoje virou promotora, mas na época sonhava em ser secretária. Eu só imaginava para mim um futuro onírico. Queria ser noviça voadora, como na série com Sally Field, ou professora, como minha querida dona Monica nesta foto, a única do primário que amei. Mas acabei no jornalismo por desejar ser correspondente de guerra, como me ensinou o Manual do Peninha. O tempo me afastou pouco a pouco, eu diria melancolicamente, de meu sonho.

Três meninas na classe eram zoadas por ser gordinhas, e eu passava meus recreios com elas. Uma envergonhada demais, as outras duas, sempre felizes.

Uma amiga era a filha bastarda de um alemão com a empregada negra. Seus meio-irmãos estudavam de manhã, no colégio pago. Vítima sentida da segregação, ela era sempre brava, e me ensinou um certo orgulho em a gente ser o que é.

Uma outra era filha de austríacos que trabalhavam como zeladores do Instituto Goethe, na rua Augusta, onde hoje está o Espaço Itaú de Cinema. No que atualmente é a sala 4 funcionava o almoxarifado do instituto. Ali, eu e a menina perfeitamente falante do alemão nos servíamos de tintas e papéis de todas as cores para fazer nossos trabalhos. Eu adorava ter de ir até lá para desenhar livremente, pintar e colar. Até hoje penso se ser dona de papelaria seria uma ideia assim tão má.

Indígenas, pretos, italianos, portugueses, éramos brasileiros, principalmente, felizes como as crianças podem ser quando a vida, mesmo imersa na pobreza ou na guerra, lhes permite.

E hoje já não me recordo com intensidade das dores que sentíamos.

da vida de quem vê

por que esse jeito de olhar?
olho sem querer.
sem disfarçar.
meu olho é meu coração.
ânimo!, exige-me o patrão supremacista,
velho jornalista tido de esquerda, amado por vocês.
eu lhe dirijo meus olhos mudos.
era difícil viver e alimentar os filhos.
e pode ser ainda.
hoje talvez olhe menos, mas menos não é raso.
menos é fundo.
um segundo de coragem contra a covardia da vida.

Mais que bala de revórver

Samba dos bons.

“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.

E ironia das melhores.

A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.

Paranoias

O filme de Larry Clark e a recordação de uns pivas de moreiras

Quando um amigo como Wesley Pereira de Castro sugere, não evito.
E não havia motivo qualquer pra repúdio, porque amo Larry Clark desde sua fotografia.

O livro “Tulsa”, de 1971, com o balé das seringas, a morte e o enterro da criança ao fim, não me abandona.
Que história.


Que difícil é ele por nos perguntar quem somos, e o que fizemos de nós, com a beleza intensa que atrai…


“O Cheiro da Gente”, seu filme de 2014, que meu amigo indicou e eu vi ontem, toca no barroco da gente.
Mais uma vez, um filme sobre a juventude.


O chão sujo para as faces dos anjos.
O jovem que literalmente tripudia sobre o corpo velho que lhe dá sustento, depois de amarrá-lo a uma teia de dor…


O corpo que se prende em sacrifício à desilusão, aos homens, às garrafas, ao cheiro da rua!


Com um ritmo e um movimento cinematográficos de prender nossas vidas a um instante.


São skatistas e garotos de programa na via bonita da cidade.
Como acontece na praça Ramos daqui.
Os mesmos volteios das esculturas.
E os skatistas desligados dos pedestres.

Um deles, aqui em São Paulo, machucou ainda mais o pé que me atormenta, e eu o perdoei…
O que eu fazia lá, atravessando a rua?
Por que a julguei minha?
Ele segurou meu corpo com um dos braços fortes para impedir a face triste de ir ao chão.


Olhei ao redor me perguntando por onde vagaria o Roberto Piva dos adolescentes rubros…
Ou o Carlos Moreira do meu coração nos cinemas que insistiam em existir na Dom José de Barros…


Os meninos de “O Cheiro da Gente” são tanto do que sou.
Dos desencontros e do amor.
Mas estou viva!
Viva, Piva!

Um filme, mas também uma narrativa na sucessão de “Lamentação sobre o Cristo morto”, de Andrea Mantegna, e “Mamma Roma”, de Pasolini.

Samba na filosofia

Documentário mostra a história de Porfírio do Amaral, um sambista negro quase desconhecido (como muitos ainda devem ser), mas um prosador-pensador como poucos no Recôncavo puderam testemunhar

Porfírio do Amaral aos 55 anos, em 1971, durante a realização
do programa da TV Cultura que jamais foi ao ar

O pai queria lhe dar um nome que remetesse à realeza. Decidiu chamá-lo Porfírio, aquele que vinha revestido de púrpura, a cor das roupas do rei. Por estar certo de que seu filho triunfaria, não ligou quando uma cigana sentenciou à mãe, diante da criança ainda pequena: “Nunca deixe esse menino cantar. A morte acompanha a sorte dele”. O pai era um poeta racional numa Bahia mística. Mas, a partir daí e por toda a vida, Porfírio do Amaral se sentiu nervoso para colocar a voz. Diretor na TV Cultura de São Paulo, Fernando Faro chamou-o para um piloto de seu programa sobre música brasileira e nunca pôde exibi-lo, porque Porfirio, o compositor, não conseguia cantar as próprias canções, sempre nascidas do sofrimento. Ele falava como um filósofo, na verdade um rei da filosofia, mas, quando se abria ao canto, surgia a gagueira das emoções. Ou do medo.

A neta Letícia, que estuda cinema no Recôncavo e trabalha sobre a memória do avô Chô

O cineasta Caio Rubens descobriu a gravação de 1971 e a incluiu neste documentário, que só por isso já valeria o vislumbre. Porfirio fala dramaticamente as coisas mais lindas e duras, sem receio, por exemplo, de chamar de golpe o que a televisão da época intitulou revolução. Com paciência para os testemunhos, mesmo para aqueles que não dirão diretamente de Porfirio, como o de Elza Soares, o diretor amplia o contexto do samba e do Recôncavo. Muita gente depõe, de Roberto Mendes, Carlinhos Brown, Nelson Sargento, Mateus Aleluia e Chico Buarque ao ator Antonio Pitanga (um elo entre Porfirio, então porteiro da TV Cultura, e Faro) e à neta Letícia, que gravou em VHS a intimidade com o avô Chô, do apelido Choriça que lhe deram por ser magrinho.

Porfírio e suas netas, em imagem captada em VHS por Letícia
Uma interpretação em VHS para a rotina do compositor e percussionista

O personagem se delineia aos poucos, enquanto Margareth Menezes, Gloria Bonfim e outros intérpretes apresentam suas canções. Apesar de não constar no google, nem mesmo no Dicionário Ricardo Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Porfirio existiu entre 1917 e 2008, e existe cada vez mais. Compositor de melodia triste para prosa alegre e de melodia alegre para prosa triste, foi precursor de pagodes e sambalanços, homem da cuíca que chorava lancinante, das chulas e cantos de senzala que pressupõem a aglomeração e a comunhão. Samba não é um gênero, dizia. Há muitos sambas que são gêneros por si. E ele não foi só um sambista, mas um homem que nasceu para refletir.

Com Fernando Faro, que acompanhou sua carreira
  • PORFÍRIO DO AMARAL: A VERDADE SOBRE O SAMBA
    Diretor: Caio Rubens
    Brasil, 2019, 83 min
     
    onde: bit.ly/2Zy4LGJ [até 20/9]
     

sem amor outra vez

então.

precisei comprar na padaria de novo e uma hipster adentrou a área da vitrine para olhar os produtos, desrespeitando a distância – muito próxima de mim, portanto.

reclamei de sua atitude e ela partiu pra perto de minha máscara.

lembrei-lhe que não encostasse, que não estava mais falando com ela e virei as costas.

parece que são paulo voltou a ser aquela mesma coisa sem amor de novo.

e eu… eu constatei mais uma vez que sou a rosane de sempre.

um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra infernizar o gado ruim.

No país dos fantasmas

Em “O Dia em que Perdi Minha Sombra”, vencedor há dois anos do Leão de Ouro do Futuro no festival de Veneza, a saga das mulheres sírias que não podem desistir

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“O dia em que perdi minha sombra”, de Soudade Kaadan, na Mostra Mundo Árabe de Cinema

Este filme cava sepulturas. Este filme e suas mulheres. Elas são o solo onde repousam os guerreiros ao fim de todas as batalhas, até a final. Ao mesmo tempo, numa abordagem que evoca o sonho, representam o país naquela invisível porção que respira.
Soudade Kaadan, diretora síria nascida na França, estudou cinema no Líbano e por este O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA, de 2018, primeiro concorrente da Síria em Veneza, ganhou o Leão de Ouro do Futuro para estreantes. Uma estreia sobre as ruínas que começaram a ameaçar seu país em 2012 e que agora talvez o tenham destruído.
[No dia 3 de setembro, ela é entrevistada online, e você pode assistir ao bate-papo com tradução após sua inscrição no Zoom]
Ação todo o tempo, sob o frio, sob o sol, câmera na mão, a mata de galhos secos sacudidos pelo vento, os carros que emperram… Poderia ser um felino por ali, mas é a jovem interpretada por Sawsan Arshid, uma farmacêutica a lidar com as usuais dificuldades numa zona de guerra (bombardeios, delações, falta de luz, de água e de gás), mãe de um menino de 6 anos, abandonada pelo marido. Ela só precisa de um botijão para cozinhar, mas à procura do valioso produto se mete numa peleja com um casal de irmãos, um deles esvaído da própria sombra.
É uma metáfora poderosa. Todo ser humano em íntimo contato com a morte já morreu um pouco. E, sem que sua imagem se reflita, transforma-se num anjo a proteger quem caminha a seu lado. É como se a jovem tentasse repetir a perplexidade e a força de uma Anna Magnani em ROMA, CIDADE ABERTA, mas se visse imersa num mágico neorrealismo à moda do Vittorio de Sica de MILAGRE EM MILÃO. O futuro é uma construção no país dos fantasmas.
O DIA EM QUE PERDI MINHA SOMBRA
Diretora: Soudade Kaadan
Síria/França/ Líbano/ Qatar, 2018, 90 min
Onde: bit.ly/3gL0vtc [até 6/9]

tempos hodiernos

Saí para a rua hoje, depois de seis meses, e mal diferenciei as calçadas das pistas de automóveis.
As fotos não saíam.
Eu mesma mal andei.
É vertiginoso voltar à divisão do tempo.
Agora que vem a noite, vivo a amargura dos fins de domingo.
Só porque saí pra rua?
Só por isso.
Nas últimas várias semanas, não tenho emprego, só problemas.
E os resolvo trancada em casa, conforme aparecem, num compasso lento que é só meu.
Mas hoje rompi o fio.
Me meti no fluxo de todos, que continua intenso.
Gentes pobres, gentes ricas, todas sob o sol de quase setembro.
O que senti foi o tempo dividido segundo a produção maquinária.
Mal acreditei desenrolar-se lá longe, no Bacio di Latte, a festa do sorvete que só o fim de semana propicia…
Mas eu vinha livre disso!
Que se dane o lazer regrado!
Constato na pele o que incomoda os genocidas do poder, até mais do que nossa morte, que eles aliás anseiam.
Deve irritá-los nossa autonomia diante da corda onde nos enforcam e que denominam eixo.