Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

Teima triste

Leio que Claudia Abreu completa 51 anos e me dá vontade de lhe enviar meus parabéns, umas congratulações sem eira nem beira do tipo destas que todos nós aqui oferecemos aos distantes ilustres. Mas não vou.

Mal conheço Claudia Abreu como atriz. Sei que se trata de uma estrela de tevê, mas há décadas não vejo telenovela, minissérie, qualquer coisa que seja nascida da Globo, essa emissora da qual, me parece, a atriz não arreda pé. Mas gosto de algo em Claudia ligado a sua expressão, a sua doçura triste, à beleza de menina que Vera Fisher um dia proclamou ser maior que a sua, de mulher.

Há alguns anos, estive num jantar da Conspiração Filmes aqui em São Paulo, sem minimamente o desejar. E me lembro de Claudia Abreu ali na cabeceira da mesa, ao lado do marido, o filho do escritor Rubem Fonseca, enquanto todos sorriam a seu lado. Ela, não.

Creio que o jantar comemorava o lançamento de um filme de episódios da produtora, razão pela qual o marido, diretor de um deles, transpirava felicíssimo. O homem conversava com todos, ria de todos e para todos, mas com a esposa, não dividia nem o prato. Ele parecia adivinhar que ela olhava pra baixo, absolutamente desinteressada de um sorriso, e talvez por esta razão tivesse concluído ser mau juízo voltar-se à mulher num momento festivo.

Claudia parecia tão sozinha, e eu também, que tentei fazer um contato visual solidário, mas ela nem mesmo notou minha compulsão ao gesto.

O que tinha essa mulher-menina que lhe implodia o coração? Não soube dizer e não procurei averiguar.

Hoje, passados vinte anos, de vez em quando me lembro daquele monolito arrepiante, daquele seu incômodo de presença, e me pergunto o que pode ter havido. A arte não significa necessariamente alegria na vida do artista, muitas vezes, nem mesmo escolha. Espero que naquela noite ela apenas estivesse de mau humor, embora minha intuição (maldita, indesejada) diga que não.

A pandemia não acabou, pois é

As pessoas não pararam de morrer de covid.
Mas pouca gente se liga nisso.
Eu tenho sempre de repetir: meu amigo, a pandemia não acabou!
Porque só ouço som de festa o tempo todo, só vejo gente amontoada sem máscara no caminho pro mercado.
Enquanto isso, muitas das minhas queridas pessoas, isoladas e vacinadas, contaminam-se de novo.
Entre essas, grandes, enormes pessoas com quem eu aprendia todos os dias, vão-se como pó.
Eu não sei mais o que pensar e, privilegiada do jeito que sou, não tenho pra onde ir.
Fico com aquele choro no olho que não rola pelas bochechas.
Eu sou contida, sou durona pra viver, mas isso tudo…
Ainda bem que ontem saí e bebi vinho num lugar aberto.
Ri!
Fazia muito tempo que não ria ao ar livre.
Ganhei um pouquinho de força, e ainda bem.
Porque hoje tudo recomeçou daquele jeito.
Porque ainda não tiramos esse assassino e seus ministros genocidas daquele ponto onde estão.
Porque estamos sozinhos nessa ilha de alucinados, olhando pelo buraco os fantasmas de pé.

Billy Porter, o avião-elevador e eu

Sonhei que minha máscara diminuía, escorregava e aos poucos não cabia mais no meu rosto. Mas eu continuava andando assim mesmo, porque estava atrasada pra trabalhar. Como de uso, nos meus sonhos recentes, ninguém na rua via necessidade de se proteger, descobertos e felizes.

Eu chegava ao prédio do trabalho e entrava num elevador que era como uma ampla área de primeira classe numa aeronave. Me sentava numa poltrona do corredor. Ao meu lado, um jovem assistia a um filme erótico sem se importar com minha presença. Eu não saía da poltrona porque estava muito cansada e não havia outros assentos vagos. Mas me encostava no lado oposto dele, distanciando-me do rapaz, pra ver os rostos de quem ocupava o grande elevador/avião.

Em um dos assentos da frente, sentado no braço da poltrona, estava o Billy Porter, de “Pose”, vestido de branco com um véu de noiva, ao lado de Mos Def, vestido tranquilo. Eu queria me aproximar para pedir um autógrafo ao Billy – mas, se fosse até lá, essa não seria eu.

O sexto andar nunca chegava. Eu estaria presa nesse elevador? Billy Porter reclamava de fome.

Quando finalmente o elevador chegou ao meu andar, as portas se abriam para um estacionamento labiríntico. Eu descia nele mesmo assim e só encontrava a entrada porque sabia de um importante sinal à porta, a estátua brilhante de um orixá indefinível.

O lugar onde eu trabalhava era uma redação indiferente e praticamente vazia. E eu me perguntava por que correra tanto, enfim, e principalmente por que saíra do elevador sem o autógrafo do Billy.

So long

A pandemia me afastou dos poucos amigos que eu tinha pra olhar nos olhos.
Sinto tanta falta deles, embora tenha muita sorte de viver com minha família e poder senti-la também assim pelo olhar.
Com esses poucos amigos era apenas um outro jeito de partir.
Sou alguém sempre em viagem, embora quieta, surda e muda pras grandes expectativas.
Todo dia é um grande movimento pra mim.
E minha casa fica lá de trás do mundo onde eu vou (voo?) em segundo quando começo a pensar, ô felicidade!
Vi hoje o documentário sobre Leonard Cohen e Marianne na Netflix, sugerido
pelo querido Gabriel Barcelos, no Facebook, e estou muito necessitada de segurar minhas malas.
A inquietação que ninguém adivinha.
Uma definição de amar.
Como é difícil o amor!
Não li a autobiografia do Cohen por medo do que encontraria.
Eu tinha razão.

Vamos proteger nossos manifestantes

eu sei que é adorável ir à paulista mandar o bolsonaro se foder.

uma festa democrática de cores, força e luz.

e estou louca pra frequentá-la eu também, embora ainda receie por minha saúde até que, em setembro, possa tomar a segunda dose da astrazeneca, essa invenção maravilhosamente febril que me ajuda a manter as esperanças de existência.

mas a alegria toda que há em nós paulistanos por essas manifestações não deixa de conter uma infelicidade, que atende pelo nome de polícia militar.

doria, uma barbie dos infernos que sem receio, assim como alckmin, já jogou comboios israelenses contra jovens em protestos passados, tem feito de tudo para se abrir às atuais demonstrações políticas coletivas vespertinas aos sábados, por motivo bastante conhecido de rixa de poder.

mas a pm, que ele não controla e quer bolsonaro, mostra sua face quando a manifestação dobra a esquina da consolação e a maioria dos manifestantes já partiu.

ali é que esses sádicos corruptos encurralam pretos, jovens antifas e fotojornalistas, para que paguem o preço da ousadia de desejar o fim de seus privilégios injustificáveis sob a liderança miliciana.

eu sugiro então que quem vá às próximas manifestações em São Paulo não abandone, se possível, esses manifestantes e profissionais.

e siga o cortejo do protesto até o encerramento, este que se dá na praça Roosevelt, final da consolação.

sob o testemunho e a cobrança de todos, a pm encontrará então mais dificuldade de ser o que é, uma corporação a serviço sanguinário do poder.

E Lia me deu uma ciranda!

Ontem estive triste demais até o momento em que o Mau me colocou de contrabando numa aula de Alessandra Leão na qual a convidada era ninguém menos do que Lia de Itamaracá, a “dona de Itamaracá”, como a Alessandra, criança, jurava Lia ser.

Em primeiro lugar, Lia nos contou querer que a pandemia passe logo pra ela se amostrar de novo, gente.

E em segundo lugar (pra não me estender nos terceiros e quartos), ela disse que a ciranda que faz, compondo letra e melodia ao mesmo tempo, sempre a partir do que o barulho do mar diante de si sugere, é poderosa a ponto de curar tudo.

Cantou “O Relógio” e as lágrimas caíram por trás dos computadores! E principalmente “Falta de silêncio”, na qual ela canta que ama “a falta de silêncio do mar”…

Foi tão profundo que não digo ter curado toda a minha dor ao ouvi-la, mas que ela me ajudou a sair daquele chão frio, sim, Lia me ajudou!

E me encontro aqui pra agradecer esta mulher maravilhosa, esta deidade em vida, até que possa vê-la outra vez pelo carnaval da avenida São Luís.

Nossa Odoyá!

O tigre Llosa e eu

Não sei se acontece com vocês. Mas eu sou do tipo devagar. Demoro a perceber que realmente não sou bem quista em certos ambientes. Devo achar, por alguma razão misteriosa, talvez fundada em minha educação, que mereço ser considerada sempre. E quando acontece de os laços se desfazerem inequivocamente, fico impressionada. O susto demora a acalmar.

Acontece no trabalho. Na vida com amigos. Aconteceu nos namoros. Por que não percebo e não dou no pé? Acho que sempre vão me chutar antes.

Uma vez foi exatamente assim com Mário Vargas Llosa. Nunca fui fã do homem. E o escritor… eu preferia todos os latino-americanos antes dele. Adorei a análise que fez de Flaubert. De Madame Bovary. Reconheceu-se nela, mesmo sem o dizer. Escreve bem porque lê bem. Mas é isto. Pra mim, falta um toque pra me alcançar como leitora.

E então aconteceu de eu ir entrevistá-lo. Nem estava a fim. Tinha medo daquela figura, do seu cabelo liso, dos dentes. Ele começava a falar pelos cotovelos na imprensa elogiando os Tigres Asiáticos. Toda aquela sorte de bobagens partida do escritor-candidato. E então pensei: se eu conseguir que ele seja honesto comigo, vai ser bom, não vai? Vou gostar, não vou?

E fui. O problema era que eu trabalhava no JT. E ninguém no mundo editorial morria de vontade de frequentar aquelas páginas. A editora já tinha escolhido os quatro de sempre, Veja, Estadão, Folha e Globo, a quem ele concederia as entrevistas brasileiras. Mas uma boa alma na assessoria decidiu, talvez por eu ter feito algumas boas entrevistas antes, que eu poderia pegar o táxi com ele até o aeroporto.

No táxi? Tá bom. Pelo menos seria uma entrevista diferente. Perguntei-lhe o que pude, literariamente falando. Me lembro de ele gostar de trocar ideias sobre Melville, sobre Moby Dick. Conversávamos até animadamente quando de repente eu cheguei com os Tigres, uma pergunta que Renato Pompeu me ajudou a formular. Sua mulher o tempo todo olhava pela janela, o cabelo pintado de preto, os grandes óculos de mesma cor. Mas ué, o Llosa não gostava das bonitas? Não brigou com Garcia-Marquez por isso?

Claro que não perguntei sobre a desavenças com seu antigo amigo, nem sobre suas preferências femininas. Mais sóbria que eu, naquele momento, impossível. Mas depois dos Tigres ele se calou.

Chegamos ao aeroporto e continuei ao lado deles. Achei que pudesse retomar o fio. Até que a repórter fotográfica que fazia o papel de acompanhante/assessora, pelo lado da editora, olhou pra mim e berrou: “Não tá vendo que tá importunando? Dá o fora!” A mulher era (ainda é) um cão. (Depois soube de outras pessoas parecidas na fotografia. Logo na fotografia, que amo.)

Dei o fora.

Me lembro do casal imperturbável. E que ele, de costas, tinha um redemoinho no cabelo.

Anos depois, um amigo peruano de meu filho, também conservador, me disse algo que não me saiu da cabeça. O problema com Llosa é que ele “fala pelas feridas”.

Adorei ouvir. E me reconciliei de imediato comigo. De quebra, tive pena da pobre moça que me agrediu.

Preciso de muitos insights assim para curar eu mesma minhas feridas – e não falar por elas. Demora, né? Mas eu consigo. Vou conseguir.

O Verme e o lúgubre paraíso dos medíocres

O comportamento do Verme é o do menino de 14 anos que H.G. Wells viu em Hitler.

Como um Hitlerzinho, Verme precisa ser o dono do chão em que roda, sem contestação qualquer, sem guarda ou sinal de trânsito no seu périplo rodoviário. Ele está farto da infância escondida e quer esmagar os oponentes apenas porque está no mundo e é esse seu destino easy rider.

Doente mental, como sugerem?
Duvido.
Fascista mesmo, e já é bastante coisa.
Fascista dos brabos e renovados.
Fascista autorizado pelo capitalismo, esse sistema político-econômico que recorre ao irmãozinho menor violento, corpulento e sem cabeça sempre que as coisas se complicam pro seu lado e ele, o nerd flácido, está prestes a levar uma surra.

Fascista tem autorização pra ser fascista.
E sonha ser pleno.

Verme alcançou a plenitude!
Uma plenitude única.
Porque ele se torna pleno sendo sabujo de outros condutores de Estados terroristas.
É um curioso fascista antipatriota, modalidade que nos projeta como pioneiros no mundo em experienciar um nazismo sem nacionalismo, sem um uber alles sequer.

É o menino de 14 anos em profundo desprezo pelo mundo, ignorado em sua infância política, que nos governa. Parece até mesmo que este é o principal ingrediente para formar um ditador: que tenha sido ignorado por sua mediocridade na infância e, conforme vá crescendo, seja aplaudido mais e mais pelos medíocres.

Como Hitler, Verme só tem a oferecer a seus subordinados, que são todos os outros a pisar o mesmo país, a dor, o sofrimento e a morte. É assim o céu demoníaco. Quem o elegeu aceitou salivando a premissa funesta desse paraíso lúgubre, igualzinho ao que aconteceu com quem quis Hitler – e teve.

Quiseram.
Esperaram.
Não paz, não lazer, não conforto:
morte.
E a tiveram conforme pediram.

Embora hajam desejado e esperado o mal a todos os outros, não a si mesmos, nossos alemãezinhos de periferia já não são tantos como no início – embora muito barulhentos, os que restaram. Dariam ótimos prisioneiros feitores em Dachau.

Verme é o Super-homem, enquanto todos os outros, ralés miniaturizadas que devem andar de jegue, não de avião; os outros são coveiros, ele jamais; maricas que não param de reclamar, enquanto ele manda fazer; gente que fracassou, para que os sonegadores vencessem; quilombolas desprovidos de arrobas e indígenas sem um centímetro a mais, perdidos na poeira. Ele é o soldadinho inflado que não põe a mão na massa nem pra matar, porque tem escravo miliciano-policial-militar pra fazer.

Por acaso ele e sua família são melhores do que aqueles que o elegeram, sobre os quais ele pisa? Um tem pinto minúsculo, outro faz nas calças, o terceiro é enrustido abilolado. Mas são melhores, sim! The Hole Family!

E o que os torna melhores é o nada construído em torno. O que os torna melhores é o poder forjado para que simplesmente respirem acima da lama nostálgica, enquanto os outros chafurdam nela sem nariz.

Hitler não teve filhos, não é?
Que bom.

E Hitler foi abandonado pela classe média branca que o apoiou (ou não se mexeu) quando tudo começou a dar errado pra ela. Depois de se ver tratada muito mal, sem poder de compra, sem lei, sem sol, aí, só aí, essa classe média-medíocre começou a pensar que Hitler não era mais uma boa ideia.

Principalmente quando desprovidos do sonho dourado de que a exclusão dos judeus, pretos, ciganos, conscientes, esquerdistas ou doentes lhe faria bem, a classe média de Hitler deixou de ser o sustentáculo do líder.

Isto vai fatalmente acontecer ao Verme, visto que a classe média de nossos alemãezinhos inferiores já se levanta, impaciente, escondida e atônita.

Vai acontecer sim.

O problema é só um.

Não sei quando.