O céu é o processo

Não tenho religião e me impacienta o Natal, que contudo comemoro, porque é mais uma chance de estar à mesa com os bem-quereres. A Páscoa também acho difícil de suportar, visto que me traz de volta as sangrentas sessões da tarde da infância em que Victor Mature aparecia flagelado desde os olhos fundos.

Me parece muito católico celebrar esse sofrimento, sangue, expiação, até que se possa obter algo que não sabemos bem lá no céu. Prefiro tudo pelo agora, condição que conheço, tempo que mastigo. Porém gosto da metáfora de renascer das chagas, quem não? O catolicismo sempre soube calcular nossas necessidades, até segundo a época do ano.

Então, uma renascença, merecemos todos. Renascimento não é simples, é um processo. Eu tenho o meu, vocês o de vocês, e nos ajudamos nos intervalos por onde a vida corre. O céu é o processo, que saibamos processar!

Get lost

A foto que sempre retorna pra gente sorrir, pra matar a inveja que temos dos grandiosos, pra liberar a eterna opressão de sermos sempre esmagados, os últimos mesmo nesta vida…

Não adianta você ser esse Mick Jagger tão especial, o mais cool deste mundo, com suas meias de cores diferentes e sua linda calça cor de rosa: você em algum momento vai ter, sim, a atenção roubada pelo careta mais lindo vestindo um brilhoso terno modelo antigo.

Vergonha mata

À direita sou eu, mal ajambrada depois das noites difíceis que antecederam minha qualificação para o doutorado, nos bastidores do Auditório Ibirapuera, em outubro de 2014. Comigo na foto estão minha querida Thaís, que faz anos hoje, minha cunhada Tânia e Ela.

Elza, como veem.

Ela cantaria “O meu guri” numa homenagem a Chico produzida por meu marido, Mauricio, a quem Elza se afeiçoou. E quem é de seu conhecimento e afeto, ganha beijinho na boca… A boca de meu marido foi muito bem beijada, calculem.

Porém, como eu não a conhecia, ela apenas pegou minha mão e a beijou. Ficou feliz de ser apresentada à esposa do Mau. Pude sentir sua pele então, macia como poucas.

Esta noite foi bem maluca porque, enquanto eu estava nos bastidores, sozinha, antes de os shows terem início, um homem grande se ajoelhou diante de mim e também pegou minha mão, para em seguida me chamar de “minha flor”. Será que porque eu tinha flores na estampa do vestido? Não sei. Não sabia de quem se tratava. Pensei sorrindo: artistas são mesmo assim.

Contudo, do fundo do palco de onde depois assistiria a todos os shows, vi que um MC chamava esse mesmo rapaz adiante. Percebi com assombro que se tratava de Criolo, no fim das contas. Não lembro o que o menino ajoelhado cantou. E não o procurei para pedir desculpas nos bastidores novamente depois, embora ele sorrisse pra mim o tempo todo, até no caminho de volta, para o táxi.

Vergonha mata!

Para que não se enganem sobre mim

Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.

Então:

Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.

Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.

Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.

Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.

Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.

Quero que as fortunas sejam taxadas.

Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.

Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.

Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.

As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.

Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.

Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.

Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.

Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.

Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.

Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.

Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.

Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.

Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.

Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.

Beijos meus.

Autoempreendedora das dores

Preciso de muitas saídas para minha agitação interna constante.

Afora ser quem sou, essa mulher de muitas especulações e triangulações pela história e pelo tempo, passo horas preocupada com problemas objetivos, cujas soluções tanto custam a mim e a minha digestão. Um deles é como resolver meus frilas, já que sou precária como trabalhadora, autoempreendedora de dores, e as frustrações se acumulam conforme os valores baixos que recebo vão chegando.

Meditação seria a primeira coisa a fazer, mas tenho lá meus problemas pra conseguir tocar isso adiante sozinha. E a pandemia meio que me paralisou. Como vetei academia, não vou malhar, razão pela qual engordei demais.

Agora tento andar um pouco, embora o sol esteja excessivo nestes dias e eu evite a noite, período em que por aqui proliferam suicidas angelicais embriagados nos bares.

Então fico assim olhando a janela.

Vou pra rede balançar.

Música toca sempre por aqui.

E faço uma bobagem surpreendente. Pego esses links de museus e vou baixando imagens e livros no meu drive.

Me dá uma alegria de viver que nem te conto.

E calma.

Muita calma.

Tão bonita manhã

Depois de meses trancada em casa, senti minhas costas travarem.

E decidi recomeçar a andar pela vizinhança, com máscara reforçada e sufocante, para impedir essa dor de crescer.

Igualmente precisei de algo para que o dia não morresse com tanta tristeza em mim.

O pôr do sol me conflitua. 

Insisto em vê-lo como um adeus.

Mas paradoxalmente amo a noite na minha janela, aos poucos tornada galáctica e profunda.

Hoje, ao andar sob o sol forte, redescobri muitas ruas do meu entorno histórico.

Amei tudo. 

Estive perto de tudo.

Do mercado, do povo de máscara no queixo, da ruína.

Sou consciente da miséria que só cresce e das ruas não varridas pelo ladrão de merendas.

Mas não fico triste.

Alguma beleza, apesar disso tudo, ainda acende em mim a cada passo dado no chão.

Eu sinto que sou capaz de distribuí-la por essa cidade cujo pulso é também o meu e cuja história me pertence.

Manhã, tão bonita manhã, chegue de repente.

A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.

Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.

E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!

A urna irresistível

Estudei na ECA-USP, que foi bastante definidora de minha vida posterior. Lá conheci grandes pessoas que se tornaram muito próximas por toda a vida. Usei muito a biblioteca, vi diversos filmes e combati a timidez durante meu curso de jornalismo. Muito importante foi ter frequentado ocasionalmente, durante meu período de graduação por lá, dois outros cursos, de cinema e rádio e tv, cujos professores eu considera criativos, bem melhores.

As aulas de jornalismo eram irregulares e maçantes, e eu só terminei a faculdade empurrada, porque na reta final um professor do currículo básico me assediava e queria me impedir de tirar o diploma.

Com a ajuda dos amigos, que me deram avaliação 10 em conjunto (e o professor tirava a média entre nossas avaliações e a dele), pude concluir a disciplina que me faltava. Naturalmente, ele me deu zero e eu passei com 5, depois de duas tentativas anteriores de convencê-lo a me deixar prosseguir em paz.

É um sujeito conhecido, ganhou cargos no governo paulista e até bem recentemente me procurou via email para que participasse de um conjunto de depoimentos de ex-alunos. Não vou dizer de quem se trata, já que não me interessa ter meu nome ligado ao dele jamais. É velho e deve estar aposentado.

Não conto essa história sempre, só falo agora porque novamente a ECA me pede alguma coisa, que é participar da eleição do representante dos ex-alunos. Não conheço as duas candidatas, mas como se trata de duas mulheres, escolhi a mais velha e fim.

Acho que não resisto a exercer o direito a voto em qualquer ocasião que se apresente a mim…