Muro de escola

Em 11 de outubro de 2016, escrevi no facebook isto que talvez ainda esteja valendo.

Um deputado imbecil (eu sei, é quase um pleonasmo) diz que pobre não tem de cursar faculdade. Voltamos mesmo às vias de fato ditatoriais. E eu me lembro de um episódio de minha vida em família pobre, nos anos 1970.

Crianças, não pudemos frequentar o colégio público Caetano de Campos, o melhor na minha região, porque não havia vagas pra nós. Até hoje me pergunto como isso pôde ser, mas ok.

Minha mãe, atarantada, soube então que o Porto Seguro oferecia vagas gratuitas para necessitados, à tarde, longe dos frequentadores que pagavam caras mensalidades e faziam o curso pela manhã. E fui estudar na unidade da praça Roosevelt onde hj, aliás, está o Caetano de Campos.

Vida dura. Me sentia um marginal. Menos aulas de matemática e português, e não nos ensinaram alemão no fundamental, como faziam com as turmas pagas – apenas inglês, mas a partir da 7 série. Párias, não podíamos frequentar a ala do prédio em que os estudantes do curso integral tinham aulas à tarde. Comprar lanche, nem pensar, diziam os professores que formavam cordão humano para não nos deixar atravessar o corredor até a cantina. E não podíamos usar a piscina quando o colégio se transferiu ao Morumbi, embora apenas nós, da parte gratuita, tivéssemos de fazer exames médicos os mais variados, desde os de fezes, periodicamente.

Há mais episódios, contudo poupo vocês…

Um dia, um de nossos professores batalhou para que entrássemos na disputa de oitavas séries pela olimpíada interna de matemática. Éramos a turma com menos aula de matemática de toda a escola – mas, como vencemos todas as outras turmas (havia um gênio em nossa classe), passamos a ter direito de frequentar a piscina em alguns horários.

Daí que nossas famílias se julgaram no direito de solicitar bolsas integrais para seus filhos brilhantes no ensino médio, mas isso era ousadia demais, não podia ser. O diretor-geral, com aquele seu look que lembrava o de um João Figueiredo esguio da alta roda, foi bem claro para uma das mães de nossos colegas: “Pobre não faz colegial. Faz curso técnico.”

Não quis mais frequentar essa escola, mas minha mãe me obrigou a ficar, pagando uma pequena mensalidade para meus estudos. Foi um colegial triste, porque além disso dei de cursar humanas – e tínhamos, de novo, uma aula de física, química e biologia por semana. Contudo, fiz duas ou três colegas. Me lembro de um professor de inglês que me incentivava e, além disso, de um bom professor de português, que gostava, para minha sorte, de minhas redações e das minhas interpretações para Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Acho que não teremos jamais o direito, no Brasil, a um ensino estimulante, respeitoso e gratuito. Diante de nós, sempre, esse muro do terror.

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