A poesia anarco-malandra do Brasil

Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras.
Um assunto interminável.
Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes.
A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar.
Eu sou!
Eu fui!
Eu serei!
Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí.
E as canções populares falam por si.
(Melhor dizendo, pra ti, meu amor.)
Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar.
Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá!
Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier.
“Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião.
Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.

(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)

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