debater com meme

rolam por aqui uns debates com meme.

isto mesmo, debates com meme.

não debates sobre o assunto que o meme suscita.

debates com o meme, com a entidade em si.

como se o meme, e também a charge (o meme é uma espécie de charge) estivessem preocupados em ser verdadeiros.

me escutem.

meme, charge, isso tudo é humor, ironia, interpretação da realidade, não a realidade.

não existe meme fake, não existe charge fake.

e o meme e a charge não vão nos ouvir se debatermos com eles.

a melhor maneira de responder-lhes é com outros memes e outras charges.

tenham calma e durmam bem.

A cara desses bozós dos infernos

No livreto de Márcio Jr, alguns dos aterradores personagens da sanha genocida

Cachorrinho de madame, Podridão da morte: perfeitos codinomes para procuradores e ministros

Dos livros lindos que recebo.

“Com a palavra (inapropriado para menores de 18 anos, evangélicos e bolsonaristas)” reúne os desafios de Márcio Jr (marciomechanics@hotmail.com) no festival Inktober de 2019.

Márcio Paixão Júnior é desenhista e editor de sua arte na mmarteproducoes@hotmail.com

Suas criaturinhas são os inimigos que disputaremos na fila do soco quando a revolução acontecer.

Bozós, olavos, micheques, malafaias estão todos lá, retratados como se deve.

Liberdade, igualdade, fraternidade, puberdade, obscenidade!

E todos à Bastilha amanhã, s’il vous plait.

“Com a palavra”, de Márcio Jr,
autor e editor

Totò e a razão do humor

O Totò que dava de comer a Antonio de Curtis…
… e o nobre de
elegância
senhorial

Eu observo uma coisa aqui. Uma interpretação muito literal, às vezes amarga, das falas dos artistas que reproduzo. Então queria esclarecer uma coisa a vocês. Muitas das minhas postagens, exceto talvez as bobagens que adoro, memes pra rir, são pensadas para que a gente consiga fugir ao óbvio, ao conhecido sobre qualquer assunto da vida ou da arte. Não gosto muito de postar o sabido, embora poste também.

Dou como exemplo a fala provocativa de Totò sobre a idade. Da morte, ele não tinha medo. Mas achava algo bom em envelhecer?

Não, não tenho medo de morrer. A morte é uma coisa natural e temê-la me parece tolice. Eu, a primeira coisa que fiz quando ganhei um dinheirinho foi comprar uma capela em Nápoles. Morto, vou morar lá. Já existe o túmulo e nele estão gravados a data de nascimento e o meu nome. O dia da morte está em branco.

Não, eu não me importo de morrer. Eu me importo, isso sim, de envelhecer. É tudo o que me incomoda. Que drama sentir-se jovem e depois, no espelho, ver um rosto cheio de rugas, uma cabeça de cabelos grisalhos… Jesus! Que nojo!

O que diz você?! Maturidade?! Não, não, minha linda: não pense que me encanta com seus discursos sobre a maturidade. Eu gostaria de ser imaturo e ter 18 anos. O quê? Pobreza?! Não dou a mínima. Eu gostaria de ser pobre e ter 16 anos. Dezesseis não! Quinze. Treze. Nove!

Concordo em parte com Totò. Acho lindos os velhos, sua independência de aceitação, e amo fotografá-los, mas ainda não me acostumei comigo nessa condição. Sinceramente não acho muita graça em envelhecer. Sofro de dores nas costas, prudência.

Mas tudo chegou a ser pior na minha juventude. Quando eu era jovem, por me achar horrível fisicamente, vivia escondida. E não ia aos bailes por uma razão: os meninos não me tiravam pra dançar. Século 20, meus amores, e as meninas se sujeitavam a isso, pobrezinhas! Eis por que a maldade que retribuíam era negar a dança com os feios ou desajeitados… Não eu, que não podia me dar esse luxo, certo?

Hoje acho que fui um tanto má comigo mesma sob esse aspecto da beleza. Mas me perdoo. A feiúra que eu via em mim era real, porque guardava relação com a norma. E eu estava fora dela. Era magra e alta demais, tinha sono psicológico o tempo todo, tanta vergonha do corpo que o escondia, meu cabelo não era abundante e liso, o nariz parecia achatado, os dedos, não suficientemente longos… Tão brasileira, não é? Deveria ter sabido me valorizar, mas eu estudava em colégio alemão.

Hoje me sinto um tanto liberta, ou em processo de aprendizado sobre a liberdade dos velhos. E enquanto a beleza desaparece, é curioso como procuro destacá-la de algum jeito. Minha busca, nos autorretratos, é por qualquer detalhe físico que possa me fazer gostar de mim. Não se trata de vaidade, portanto, antes de um exercício de afeição. Quem mais temos para gostar de nós como somos, além de nós mesmos?

Acreditem ou não, Totò, o Antonio de Curtis, buscava a perfeição física. Enfeitava-se todo quando andava por aí e era de uma elegância senhorial. Eis por que não queria envelhecer. Porque sua busca pessoal representava um desafio.

Porém, quando reproduzo o que ele dizia sobre a velhice, nem penso na velhice da vida, mas da arte. Meu propósito com o post é mostrar como funcionava um aspecto da personalidade cômica do artista. Naturalmente, a interpretação do que posto é de todo livre. Digo apenas que tive um propósito com a publicação.

Antonio de Curtis vivia cindido entre a persona popular e a íntima. Ele achava que Totò era seu funcionário amado, que lhe dava de comer. Mas pessoalmente fazia questão de se comportar como um nobre. Achava que era aristocrata por direito e provou essa condição em cartório. É o que procuro desenvolver naquele meu capítulo em “Além do riso”, aliás. Totò era a contradição o tempo todo, uma das razões para seu enorme talento.

Então, quando ele falava em ter nojo da velhice e de seus cabelos brancos, também falava do papel do artista. O cômico tem de ser necessariamente jovem, assim como o fotógrafo de rua, a meu ver (o fotógrafo Bruce Gilden disse: “A fotografia de rua é basicamente um jogo de juventude. E agora sou mais velho, tenho 74 anos. Não posso descer tanto, mas não mudei: ainda estou interessado em tirar o mesmo tipo de foto que sempre tirei.”)

E por que jovem? Porque o humorista capta a contradição no ar. Só ela faz o efeito humorístico aparecer. Então, o paradoxo tem a ver com o deslocamento do usual, com a surpresa. Se você é velho nesse sentido, se só busca o conhecido e aceito por todos, esqueça de ser humorista. Totò queria ser jovem – e no trecho acima fala de ser jovem como uma criança de 9! – porque só assim saberia fazer o outro rir.

E rir pra quê, mesmo?

No caso de Totò, para nada além de sobreviver à miséria humana.

Billy Porter, o avião-elevador e eu

Sonhei que minha máscara diminuía, escorregava e aos poucos não cabia mais no meu rosto. Mas eu continuava andando assim mesmo, porque estava atrasada pra trabalhar. Como de uso, nos meus sonhos recentes, ninguém na rua via necessidade de se proteger, descobertos e felizes.

Eu chegava ao prédio do trabalho e entrava num elevador que era como uma ampla área de primeira classe numa aeronave. Me sentava numa poltrona do corredor. Ao meu lado, um jovem assistia a um filme erótico sem se importar com minha presença. Eu não saía da poltrona porque estava muito cansada e não havia outros assentos vagos. Mas me encostava no lado oposto dele, distanciando-me do rapaz, pra ver os rostos de quem ocupava o grande elevador/avião.

Em um dos assentos da frente, sentado no braço da poltrona, estava o Billy Porter, de “Pose”, vestido de branco com um véu de noiva, ao lado de Mos Def, vestido tranquilo. Eu queria me aproximar para pedir um autógrafo ao Billy – mas, se fosse até lá, essa não seria eu.

O sexto andar nunca chegava. Eu estaria presa nesse elevador? Billy Porter reclamava de fome.

Quando finalmente o elevador chegou ao meu andar, as portas se abriam para um estacionamento labiríntico. Eu descia nele mesmo assim e só encontrava a entrada porque sabia de um importante sinal à porta, a estátua brilhante de um orixá indefinível.

O lugar onde eu trabalhava era uma redação indiferente e praticamente vazia. E eu me perguntava por que correra tanto, enfim, e principalmente por que saíra do elevador sem o autógrafo do Billy.

A poesia anarco-malandra do Brasil

Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras.
Um assunto interminável.
Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes.
A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar.
Eu sou!
Eu fui!
Eu serei!
Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí.
E as canções populares falam por si.
(Melhor dizendo, pra ti, meu amor.)
Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar.
Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá!
Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier.
“Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião.
Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.

(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)

fia na pia

daí eu me esforço pra ser leve, rôsinha paz e amor, e posto aquele tuíte ótimo, “se eu votei no lula quando ele era ladrão imagina agora que ele é inocente”, uma coisa bem feita, arte pela arte que vc pode apreciar por si, e de repente a mulher de nome maria pia (será piedosa ou será um tanque?) retruca: “escolhe outro candidato, fia”! e eu nem comento, arranco sua torneira na hora, jogo a fia na pia, meu deus, que se torça, que se dane!

A patetada das redes

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.

mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.

e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.

estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…

e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.

e eu cedo.

vou até o “link na bio”.

Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.

bem acessível, sim.

acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?

eu sei que muito dilema deve haver nas redes.

mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.

A ignorância é o brinde

Nos anos 1990 eu trabalhava numa grande revista cujo editor, hoje astro da imprensa de direita, era um homem atormentado, porém culto, porém digno com seus subordinados, porém capaz de assumir para ele os erros da equipe. Editores assim raramente existiram antes ou depois para mim. Ser de esquerda não obriga ninguém a desempenhar o trabalho com esse profissionalismo, infelizmente. E ele foi realmente especial.

Um dia, até por isso, entrou em franco atrito com a direção e se viu demitido, não sem antes olhar com pena para nós, os subordinados que permaneceríamos, consolando-nos: “Eu fiz o que pude.”

O editor a substituí-lo era um pulha que exigia receber presentes. No dia de sua chegada à redação, flores se abarrotaram em cima de sua mesa, partidas de todas as assessorias de imprensa, especialmente as musicais. Ali já entendi que eu não teria mais lugar.

Uma vez esse expoente me perguntou se eu havia feito o “necrófilo” de uma celebridade, em lugar de “necrológio”, e nem pude rir. Mas lembro de ter respondido: “Não faço essas coisas não”, para que ele me respondesse com seu olhar grave ou estúpido, eu era incapaz de distinguir.

A coisa prosseguiu daí pra baixo, até o dia em que fui fazer um perfil pedido por ele, de uma personalidade até então desagradável a mim, mas que até hoje recordo com carinho: Claudia Raia. Ela era mais baixa do que eu, se bem me lembro, e estava sem salto, ao lado de uma assessora que não largava de seu pé. Tudo espantoso. Era tímida, imagine, e ingênua também. E se dizia muito triste, muito arrependida de ter feito campanha para um homem tão mau para o Brasil como Collor foi.

Então, quando me sentei à máquina (sim, enquanto a Folha já usava havia muito os computadores, nessa redação eu tinha de batucar nas teclas pretas), eu o fiz com muito carinho e responsabilidade por ela e por quem leria seu perfil. Escrevi o melhor que pude.

Mas lá estava o editor necrófilo diante de mim.

Ele leu e me chamou até sua mesa, sério:

“O problema com seus textos é que nunca sabemos o que estará no parágrafo seguinte”.

Pensei por dois segundos e respondi: “Isso é ruim?”

Era ruim.

Ri e fui embora da revista, porque ainda por cima suspeitei que ele havia sido colocado lá especificamente pra me mandar embora, e que não havia como lutar mais contra tantas forças contrárias.

Conto tudo isto porque, apesar de toda a ignorância a grassar nas redações, jamais imaginei que ouviria tamanho absurdo de novo.

Mas a gente não pode ser arrogante assim. Achar que sabe tudo!

Acontece de o mundo dar voltas e eu ter de parar sempre em algum momento no qual é um frila ou nada para sobreviver.

Eis que ouço exatamente isto semana passada de alguém que precisou autorizar um texto meu: “É estranho como a gente não sabe o que você vai dizer em seguida! A gente se surpreende o tempo todo na leitura.”

Desta vez resolvi tomar o dito como elogio. Até porque, depois de muito matutar, essa espécie de editor parece ter gostado do material no geral, e só quer esse detalhe, que eu mude meu lide – esse que agora deve dizer tudo o que escreverei em seguida, pra não ter erro.

Eu sei que sou uma perturbação, que vim ao mundo pra isso. Mas não vou deixar de fazer jornalismo se precisar, porque perdidas minhas ilusões já foram séculos atrás.