Billy Porter, o avião-elevador e eu

Sonhei que minha máscara diminuía, escorregava e aos poucos não cabia mais no meu rosto. Mas eu continuava andando assim mesmo, porque estava atrasada pra trabalhar. Como de uso, nos meus sonhos recentes, ninguém na rua via necessidade de se proteger, descobertos e felizes.

Eu chegava ao prédio do trabalho e entrava num elevador que era como uma ampla área de primeira classe numa aeronave. Me sentava numa poltrona do corredor. Ao meu lado, um jovem assistia a um filme erótico sem se importar com minha presença. Eu não saía da poltrona porque estava muito cansada e não havia outros assentos vagos. Mas me encostava no lado oposto dele, distanciando-me do rapaz, pra ver os rostos de quem ocupava o grande elevador/avião.

Em um dos assentos da frente, sentado no braço da poltrona, estava o Billy Porter, de “Pose”, vestido de branco com um véu de noiva, ao lado de Mos Def, vestido tranquilo. Eu queria me aproximar para pedir um autógrafo ao Billy – mas, se fosse até lá, essa não seria eu.

O sexto andar nunca chegava. Eu estaria presa nesse elevador? Billy Porter reclamava de fome.

Quando finalmente o elevador chegou ao meu andar, as portas se abriam para um estacionamento labiríntico. Eu descia nele mesmo assim e só encontrava a entrada porque sabia de um importante sinal à porta, a estátua brilhante de um orixá indefinível.

O lugar onde eu trabalhava era uma redação indiferente e praticamente vazia. E eu me perguntava por que correra tanto, enfim, e principalmente por que saíra do elevador sem o autógrafo do Billy.

A poesia anarco-malandra do Brasil

Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras.
Um assunto interminável.
Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes.
A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar.
Eu sou!
Eu fui!
Eu serei!
Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí.
E as canções populares falam por si.
(Melhor dizendo, pra ti, meu amor.)
Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar.
Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá!
Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier.
“Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião.
Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.

(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)

fia na pia

daí eu me esforço pra ser leve, rôsinha paz e amor, e posto aquele tuíte ótimo, “se eu votei no lula quando ele era ladrão imagina agora que ele é inocente”, uma coisa bem feita, arte pela arte que vc pode apreciar por si, e de repente a mulher de nome maria pia (será piedosa ou será um tanque?) retruca: “escolhe outro candidato, fia”! e eu nem comento, arranco sua torneira na hora, jogo a fia na pia, meu deus, que se torça, que se dane!

A patetada das redes

é bastante certo que não vale a pena comprar roupa nenhuma agora. engordei e nem tenho pra onde ir. dinheiro, muito menos.

mas os anúncios no Instagram me imaginam rodando a clutch na gabriel monteiro da silva.

e me sugerem as roupas de fernanda yamamoto e, agora, de gloria coelho.

estranho que ronaldo fraga não tenha aparecido…

e então de vez em quando surge um anúncio esperto, modelo com cara de gente e garantia de sustentabilidade, materiais novos, reciclados, possíveis.

e eu cedo.

vou até o “link na bio”.

Mas em lugar de preços compatíveis, a promoção imperdível traz a linda camisa cor de goiaba sobre uma modelo negra a 550 reais.

bem acessível, sim.

acessível como os tornados serão rotina no mundo aquecido, como aqueles de Santa Catarina outro dia, né mores?

eu sei que muito dilema deve haver nas redes.

mas, comigo, eles só aprontam patetadas, realmente.

A ignorância é o brinde

Nos anos 1990 eu trabalhava numa grande revista cujo editor, hoje astro da imprensa de direita, era um homem atormentado, porém culto, porém digno com seus subordinados, porém capaz de assumir para ele os erros da equipe. Editores assim raramente existiram antes ou depois para mim. Ser de esquerda não obriga ninguém a desempenhar o trabalho com esse profissionalismo, infelizmente. E ele foi realmente especial.

Um dia, até por isso, entrou em franco atrito com a direção e se viu demitido, não sem antes olhar com pena para nós, os subordinados que permaneceríamos, consolando-nos: “Eu fiz o que pude.”

O editor a substituí-lo era um pulha que exigia receber presentes. No dia de sua chegada à redação, flores se abarrotaram em cima de sua mesa, partidas de todas as assessorias de imprensa, especialmente as musicais. Ali já entendi que eu não teria mais lugar.

Uma vez esse expoente me perguntou se eu havia feito o “necrófilo” de uma celebridade, em lugar de “necrológio”, e nem pude rir. Mas lembro de ter respondido: “Não faço essas coisas não”, para que ele me respondesse com seu olhar grave ou estúpido, eu era incapaz de distinguir.

A coisa prosseguiu daí pra baixo, até o dia em que fui fazer um perfil pedido por ele, de uma personalidade até então desagradável a mim, mas que até hoje recordo com carinho: Claudia Raia. Ela era mais baixa do que eu, se bem me lembro, e estava sem salto, ao lado de uma assessora que não largava de seu pé. Tudo espantoso. Era tímida, imagine, e ingênua também. E se dizia muito triste, muito arrependida de ter feito campanha para um homem tão mau para o Brasil como Collor foi.

Então, quando me sentei à máquina (sim, enquanto a Folha já usava havia muito os computadores, nessa redação eu tinha de batucar nas teclas pretas), eu o fiz com muito carinho e responsabilidade por ela e por quem leria seu perfil. Escrevi o melhor que pude.

Mas lá estava o editor necrófilo diante de mim.

Ele leu e me chamou até sua mesa, sério:

“O problema com seus textos é que nunca sabemos o que estará no parágrafo seguinte”.

Pensei por dois segundos e respondi: “Isso é ruim?”

Era ruim.

Ri e fui embora da revista, porque ainda por cima suspeitei que ele havia sido colocado lá especificamente pra me mandar embora, e que não havia como lutar mais contra tantas forças contrárias.

Conto tudo isto porque, apesar de toda a ignorância a grassar nas redações, jamais imaginei que ouviria tamanho absurdo de novo.

Mas a gente não pode ser arrogante assim. Achar que sabe tudo!

Acontece de o mundo dar voltas e eu ter de parar sempre em algum momento no qual é um frila ou nada para sobreviver.

Eis que ouço exatamente isto semana passada de alguém que precisou autorizar um texto meu: “É estranho como a gente não sabe o que você vai dizer em seguida! A gente se surpreende o tempo todo na leitura.”

Desta vez resolvi tomar o dito como elogio. Até porque, depois de muito matutar, essa espécie de editor parece ter gostado do material no geral, e só quer esse detalhe, que eu mude meu lide – esse que agora deve dizer tudo o que escreverei em seguida, pra não ter erro.

Eu sei que sou uma perturbação, que vim ao mundo pra isso. Mas não vou deixar de fazer jornalismo se precisar, porque perdidas minhas ilusões já foram séculos atrás.

Globo News and the snakes

Meu filho decidiu que era hora de ligar a tevê no mute pra ver a apuração dos resultados pela Globonews.

(Uma insanidade de quem gosta de assistir ao programa do Neto, fazer o quê).

E saiu.

E me deixou sozinha na sala com essa turma de jornalistas peçonhentas agora felizmente separadas por bancadas covid.

Não ouço nada do que dizem, mas descubro pelas infos ao estilo de restaurante prato-feito o que eu já sabia, que terei de andar a Brigadeiro inteira no segundo turno só pra votar no Celtinha.

A tevê a cabo é meu paraíso.

Fico imaginando a Saadi no ponto detestando o mundo, maltratando o cabeleireiro, praguejando contra a Christiane Pelajio, a Khloé gordinha dessas Kardashians do Leblon, e me encho de alegria…

Minha mente ficcional é minha única companheira.

E a Globonews, um serpentário, migues!

Mas tá faltando alguém mais na bancada covid.

Que tartaruga murcha é essa mexendo o bocão no cativeiro do Butantã?

Gabeira, please no.

Na janela da sala dele tem rede de proteção! Aposto que contra si mesmo!

Ai, meu deus, só deixo a Globonews agora, diretamente do holoceno, pela Karen Walker do Will & Grace.

Magina!

Se tem uma expressão paulistana que adoro é esta:

“Imagina”

querendo dizer

“De nada”, quando se responde ao “obrigada”

“Gentileza sua”, quando se responde a um “que linda você está hoje”

“Não conte com isso”, quando se responde a “você entende do assunto!”

“Você tá maluco”, quando se responde a “esta pandemia vai fazer nascer um mundo melhor!”

E também, em lugar de “imagina”, pode-se dizer “magina”, tão mais humilde.

Ninguém derruba a história

“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original

As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni

“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.

O diretor Antonio Pietrangeli

Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.

Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.

Duas almas contra um especulador

Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.

E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…

No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.

Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.

Vittorio Gassman é o pintor
diante de uma Sandra Milo que se
suicidou por amor

À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpetonne, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.

Com eles ninguém pode

Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.