Velhofobia eterna

A Mirian Goldenberg escreve sobre velhofobia na Folha e todos se tocam para o problema.
Será que não o tinham percebido antes?
Mas é assim mesmo.
A professora tem esse poder midiático de destacar as questões comportamentais urgentes.
Como pesquisadora, faz o sonhado por muita gente, ou seja,
estuda o que a sua própria faixa etário-social de burguesa urge.
E vai mudando o ângulo das pesquisas conforme envelhece.
Me lembro dela há muitos anos dizendo que a mulher, depois dos 40, deveria descer na escala social se quisesse pegar homens…
Achei e acho uó, mas seu assunto, como eu disse, já é outro.
Enfim, admiro que consiga crescer como mulher fazendo da teoria um instrumento de autopoder.

Meus primeiros fios de cabelo branco surgiram aos 9.
Era a mais alta entre os amigos de escola, ninguém queria namorar comigo e quando finalmente me puseram de anjo na procissão, eu mais parecia a noiva.
Era a que mais se esforçava pra fazer tudo acontecer na classe, a que sempre tinha de organizar tudo.
Além disso, maternal por ser a mais velha entre três irmãos…
Aos 35 anos já me chamavam de senhora e quando completei 50 descobri que andaria de pé no ônibus apenas se insistisse em negar as ofertas de assento, para mim ofensivas.
Lá dentro me sentia tão menina!
Ainda me sinto.

Hoje, depois de muito hesitar, fui nadar sozinha ao ar livre.
E me vi potente, imagine só.
Toda a vergonha por estar 10 quilos mais gorda e me sentir uns 20 mais velha desapareceu.
Eu sou uma classe média emocionalmente adoentada pela pandemia, mas as mulheres que vi na piscina do Sesc não pareciam sofrer do que sofro, muitas delas com seus lindos corpos cheios de proeminências, ou curvas, expressão que a Ru Paula usa para substituir gordura no Drag Race.
E, entre essas frequentadoras, várias negras exuberantes.
Me deram uma lição.
Provei desse piscinão de Ramos premium – água sem cloro, instalações novas e limpas, povo barulhento, povo feliz – com muita alegria no coração.

Velhofobia é humilhante e poderia ser evitável.

Como diz a própria Goldenberg no tal artigo confessional, até por nós mesmos que envelhecemos.

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