O nó manso de Caetano

Caetano Veloso durante o programa Roda Viva de 20 de dezembro de 2021

Vi agora o Caê no Roda Viva.

Manso, né?

E sem espaço para responder as coisas direito.

Porque é a Vera Magalhães quem estabelece o ritmo da conversa – e ela o faz constantemente impondo os temas, cortando as falas do artista e dos entrevistadores, fechando os pacotinhos dos blocos ao seu estilo, coroado pelo sorriso de amiga da onça do Péricles. Tudo tem de caber na sua caixinha de visão de mundo – algo que me fez lembrar do Jaider Esbell reclamando dos curadores da Bienal, aliás.

A certa altura Leonardo Lichote pergunta a Caê como vê o futuro da masculinidade – de seus próprios três meninos homens – em um mundo que com justiça a contesta e ele dá uma volta enorme para responder, dizendo-se apenas o mais feminino entre os quatro músicos da família. E ninguém se lembra do que ele falou a uma repórter lá nos anos 1980: que o homem era “superior física e intelectualmente à mulher”.

Caetano agora não quer provocar ninguém e seus entrevistadores estão ali pra cuidar dele – e até bronqueá-lo educadamente por usar a palavra “mulato” com que designa seu pai. Mesmo um deslocado Luiz Antônio Simas, que afinal de contas não é um especialista em Caetano e ninguém sabe por que a Vera convidou, só está lá pra animar a festa.

Algumas deixas importantes de Caê não foram trabalhadas pelos entrevistadores ou porque a Vera os interrompeu ou por falta de informação dos mesmos. Quando Caetano fala de Carmen Costa, por exemplo, ninguém aproveita a deixa. Ele a conheceu? Algo dela foi incorporado em sua música? E até de Carlinhos Lyra ninguém parece ter muita ideia, embora ele o cite como o preferido de Gil na bossa nova. A razão estaria no violão ou no quê? Por que Gil preferiria Lyra a João Gilberto? E o violão de Caetano, a quem se deve?

O artista diz muitas coisas interessantes. Por exemplo, entende o brasileiro como um ser triste e suspeita que foi Vinicius de Moraes a lhe atribuir alegria…

Caetano lembra que no seu tempo era comum que a tristeza brasileira fosse compreendida como resultante da miscigenação de três raças. E então? Ninguém vai problematizar isso? Ou lembrar de onde essa ideia veio – do Paulo Prado de “Retrato do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira”? Por outro lado, firme, aquela que parece ser a substituta de Leonardo Lichote em O Globo quer saber direito essa história da incapacidade de Caetano de ter uma ereção na cela da prisão militar.

Enfim, Caetano é Caetano e eu o amo na mesma medida que lamento uma face medíocre da imprensa brasileira, incluída aí a revista de Senhor Democracia, que por sinal me impediu de ir ao Rio entrevistar o “liberaloide” junto a Maria Gadú quando os dois lançaram um disco juntos (tive a oportunidade de contar isso à própria Gadú e ela ficou de cara).

Meu gostar de Caetano sempre foi condenado por quem o via “pior que Chico” tanto na imprensa de esquerda quanto na universidade sob a ditadura. E minha identificação com sua música me colocou fora do eixo da compostura intelectual… Mas ele foi e ainda é pra mim uma importante essência da musicalidade brasileira – especialmente quando sua cachoeira de palavras de ecos românticos e até parnasianos desemboca naquele rio de sonoridades africanas.

Por fim, em um delicioso momento da conversa, Caetano também condena a imprensa ao sublinhar que, na direção contrária dos periódicos brasileiros (cuja importância ele relativiza diante das redes sociais), sempre viu com suspeição a lava jato de Dallagnol e Moro. “Me desculpe”, diz a Vera – e Vera se cala.

Acho que, sim, pulei da poltrona nessa hora.

Embora manso, este novo Caetano não perdeu o juízo, certo?

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