Que caldo divertido o diretor Sean Baker nos serve em “Anora”.
Aos 53 anos, o estadunidense que se formou em artes pela Universidade de Nova York é uma espécie de erudito pop da cinematografia dos Estados Unidos. Seu filme, que ganhou Cannes no ano passado e concorre a melhor filme no Oscar 2025, tem um pouco de tudo, a nos fazer recordar deliciosamente as obras icônicas da comédia romântica.
Dá-lhe irmãos Coen (qualquer filme em que um bando de sem-noção se prepare para uma aventura), dá-lhe o Scorsese de “After Hours”, os anos 1980 de John Hughes e Chris Columbus, o Billy Wilder de “Sabrina”, “Pretty Woman” e as comédias da Hollywood dos anos 1930 pré-código Hays, em que o casamento era a única situação a salvar uma mulher… Quanto mais você tiver visto cinema, mais referências vai achar neste filme, e será uma diversão a mais encontrá-las enquanto ele passa.
Os atores excelentes têm em Baker um condutor que não deixa o ritmo da orquestra cair. Mikey Madison (intérprete de Sadie em “Era uma vez em… Hollywood”, de Tarantino, e candidata a melhor atriz neste Oscar 2025) empenha-se e desempenha, sem que haja dúvida sobre seu protagonismo, entre o suspiro da mocinha e a audácia da mulher.
Mergulha-se aos poucos na trama, a envolver trapalhões perdedores muito engraçados. Ao contrário do que tem sido a maioria dos filmes relacionados em várias categorias deste Oscar, “Anora” não descamba passada a primeira hora. Pelo contrário, começa suave como um “Gatinhas e gatões” e vai ramificando o sonho de uma dançarina erótica a uma sucessão de decepções e descobertas.
Toda vez que uma boa comédia é lembrada a uma premiação de porte, uma borboleta bate asas feliz no porão do cinema.
Expressar sem dialogar, eis o saber primordial do cinema, infelizmente em falta nos últimos tempos. Um filme sem palavras exige do diretor o domínio da fisicalidade, da poética da síntese, para que o sentido possa emergir. “Flow”, candidato da Letônia aos Oscars 2025 de melhor filme internacional e de melhor animação, faz isso a partir da imitação da corporalidade da natureza e dos animais. E diz muito, sem falar.
A palavra “flow”, do original em inglês, pode significar vazão tanto quanto fluxo. Flow, neste filme, representa os dois. Um fluxo tão intenso (de água, de inconsciente, de ideias) que transborda em criação.
Seu diretor de 30 anos, o letão Gints Zilbalodis, usa os animais para passar mensagens, como fazem os fabulistas. Os principais recados do filme dizem respeito à solidariedade (entre espécies diferentes que precisam se ajudar carinhosamente para sobreviver) e à finitude (são belamente surreais suas representações da morte e das ruínas, estas que indicam vestígios da antiga presença humana).
Trata-se de um criador em fluxo e em forma, a conduzir uma animação em 3D de 3,6 milhões de dólares que às vezes pode parecer muito filtrada, estilizada dos contornos de animais reais, mas que é imbatível quando mimetiza os movimentos. Por meio de sua direção, os animais-personagens ganham a rapidez da vida. Só assim o gato protagonista de Zilbalodis (o diretor roteirizou o filme ao lado de Matiss Kaza), além de sete existências, pode exibir um milhão de olhares.
A essa narrativa que por vezes parece reproduzir as situações encadeadas dos sonhos, juntam-se uma sonoplastia precisa e a dublagem das expressões vocais dos outros bichos presentes, como o cachorro, a capivara, o lêmure e o pássaro-secretário. E assim, sem ouvir uma palavra sequer, sentimos o fluxo de um dilúvio arrebatador.
O título diz bastante. Mas a gente sempre espera que diga mais. “A garota da agulha”, candidato ao Oscar de melhor filme internacional de 2025, escolheu dizer menos.
Menos, ou uma coisa só.
A dor da opressão.
Trabalhado a partir da concepção geral de um thriller, o filme dinamarquês dirigido por Magnus Von Horn, de 41 anos, acaba por se desenvolver como uma dramaturgia de telenovela em torno dos excluídos no início do século 20. Os closes dialogam sob um filtro instagramático em preto e branco, evocando tanto o início comercial da fotografia quanto a explosão industrial que acumulou o proletariado em becos úmidos.
O filme se passa logo após a Primeira Guerra, inspirado em um fato real a envolver uma mulher que acolhia bebês abandonados. A fotografia parece em muitos momentos citar as imagens pioneiras do alemão August Sander (1867-1964), que retratava trabalhadores e outsiders como personagens centrais, a contrastar com a barbárie em torno.
Em fotografia, não há sombras que não possam ser iluminadas, dizia August Sander. E Von Horn segue seus princípios. Ele leva uma luz estruturada e nítida também sobre as ruas estreitas nas quais pelejavam os operários escravizados da indústria têxtil e os homens do circo.
Neste cenário de espetáculo, uma jovem operária se apaixona pelo dono de fábrica que a rejeita quando engravida. Tudo piora mais e mais para ela, seu desespero embebido em éter, sem que nós, os espectadores, conheçamos os subtons de humor que poderiam alternar-se com os da dor constante. Talvez a mudança ritmada de climas ajudasse a temperar o mistério, à moda do que acontece em filmes de mestres do gênero, como Roman Polanski. (Nada de “O inquilino” por aqui.)
A “garota da agulha” (assim chamada, entre outras razões, porque trabalha com costura na linha de produção) vai arrumar emprego com uma senhora que anuncia mediar bebês rejeitados a novas famílias – e já suspeitamos por onde, ali, habita um novo terror. Os atores, até os infantis, parecem ter muitos recursos para entrelaçar esse mote. A narrativa é que vai usá-los acentuadamente numa só direção.
O problema aqui parece ser mesmo essa iluminação constante, a busca desesperada por clareza, quando a atmosfera histórica retratada era turva, a ponto de um diretor como W. H. Murnau (1888-1931) tê-la explorado tão bem sob as sombras.
A mão pesada de deus. Persépolis vai à luta, com Mickey desenhado no casaco. “A semente do fruto sagrado”, longa-metragem candidato a melhor estrangeiro no Oscar 2025, tem de tudo isto, um pouco. É um recado, mais que um filme. Seu diretor, o iraniano Mohammad Rasoulof, de 52 anos, precisou fugir em maio de 2024 para a Alemanha, por onde lançou o filme, já que o governo iraniano o condenara a oito anos de prisão e chibatadas ao saber da aceitação da obra pelo Festival de Cannes.
Em “A semente do fruto sagrado”, gritam as emparedadas pelo regime, as mulheres iranianas que não suportam mais consentir no próprio apagamento. Uma sociedade afundada em teocracia, que confunde lei com providente desígnio, cria ratos executores, e é preciso dar um fim a isso, elas vêm nos dizer.
Como no caso de “Emilia Pérez”, este é um longa de quase três horas em que a primeira parte promete um trunfo. No caso, aqui, o da atenta observação psicológica dos personagens e suas ações. Pouco se julga e mais se mostra neste início narrativo, como acontece na grande arte do suspense. Há uma sombra que só desaparece quando surge a luz sobre os olhos de cinema mudo das jovens. Há um conforto nas mãos da mãe, que envolvem os aflitos e lhes secam feridas, enquanto seus lábios finos proferem ânimo e consolo.
As filmagens feitas pelo celular e incluídas no decorrer da trama dão autenticidade ao que vem sendo discutido. Nos protestos filmados, os jovens exigem um basta à opressão feminina no país, reivindicando uma revolução contra a teocracia vigente. Os reels exibidos no longa referem-se aos protestos de 2022, quando uma menina curda de 22 anos foi morta pela polícia moral por usar um hijab fora do lugar. Uma espécie bonita de balé acontece nesse ponto de “A semente do fruto sagrado”, para logo então sumir. Não há espaço para o suspense crescer, visto que o tempero do clímax se entranha em tudo o que é narrado.
O chefe da família precisa descobrir quem surrupiou seu revólver de serviço, guardado na gaveta do cômodo ao lado da cama, ou perderá a chance de se tornar juiz. Pior que isso, pegará três anos de prisão. Ele vai sendo convencido, por seus superiores, de que a família o traiu. De repente, sem dominar as lições de suspense de Stanley Kubrick, o diretor Mohammad Rasoulof parece querer repetir “O iluminado” naquela paisagem desértica de ruínas onde o personagem do pai enlouquece, mas acaba em uma sequência de embates de dar dó em Chuck Norris.
O grotesco venceu. É o gosto geral. Nada contra ele, claro, especialmente quando bem feito, bem-humorado, socialmente demolidor. Roger Corman, por exemplo, sabia fazer. Descobriu Jack Nicholson! John Waters tinha Divine. Há um grande perigo em tentar reviver a Hollywood dos anos 1970 e 1980 quando se deseja aplicá-la a assunto externo tão fundo e difícil. No fim das contas, tem-se a impressão de que o Oscar enaltece o filme por razões políticas.
Estava à toa em Paris, vivendo como uma espécie de babysitter de um bebê franco-brasileiro, à espera de que o horror da posse de Fernando Collor passasse, quando soube que Marianne Faithfull, morta agora, faria um show em La Cigale.
Era (ainda é) um teatro muito bonito no bairro La Pigalle, perto de Montmartre, cheio de poltronas estofadas vermelhas. Embora coubessem centenas de espectadores por lá, a impressão que o teatro me dava era de aconchego. Me sentei num lugar relativamente perto do palco.
O show aconteceria umas nove da noite, mas cheguei bem antes. Um perigo andar de metrô quando somos jovens e nossas pernas têm algum poder de abalar Paris. Era de metrô que andavam os valseuses (nada parecidos, por certo, com Gérard Depardieu ou Patrick Deware no filme do Bertrand Blier), gente à toa feito eu, e à noite, às vezes perigosa. Passei aperto quando dias antes andei num vagão onde havia apenas mais um homem a ocupá-lo além de mim. Eu pulava de banco em banco e ele vinha atrás. Quando o trem chegou na estação seguinte, saí apressada. E só peguei outro trem de novo quando entendi que duas pessoas pelo menos embarcariam junto comigo.
Enfim, não havia a opção, para uma pobretona feito eu, de usar um meio de transporte diferente. O metrô chegava em todo lugar, e se comprássemos um pacote de bilhetes, pagaríamos menos. Quando finalmente me sentei na plateia do teatro, respirei aliviada. Pensava com orgulho que conseguira chegar ali sã e salva, prontíssima para ver Marianne, e que isso representava um triunfo em minha modesta história.
O teatro não lotou. Havia jovens como eu e gente bem mais velha na plateia. Poucos casais. Muitos vinham sérios e sós. Quando ela pisou no palco, agiu como divindade. Um vestido midi algo brilhante, uma sandália com salto, distante de todos, olhando altiva para a frente. Sem agradecer nem falar com o público, iniciou a apresentação com toda a iluminação sobre si, e assim permaneceu.
Eu não conhecia as novas canções e só esperava a hora do “As Tears Go By”. Mas Marianne não dava mole. Cantava o que queria em francês e inglês à frente do palco, desinteressada da banda e do público, fumando o tempo todo. A voz grossa vinha se especializando, e o sorriso que eu vira na televisão ou no cinema não aparecia nunca.
Não a achei particularmente bonita. E a entendi bem mais velha do que era. Tinha então 44 anos. Cantava roucamente, mas era como se falasse alto. Grande presença, o tempo bem marcado, sem nunca vacilar.
Um homem magro, em sua idêntica faixa etária, aplaudia tudo embevecido desde a primeira fila. Mas ela reclamou dele. Precisava de silêncio, como talvez Maria Callas também precisasse. E ele não conseguia aquietar a emoção.
Marianne destoava. Uma figura excepcional, consciente de sua excepcionalidade neste mundo. Sempre me intrigou a certeza dessas pessoas a respeito de si mesmas. Será mais fácil ou mais difícil viver quando se tem essa consciência? Bem, não me interessa. Ainda guardo a imagem de ternura transmitida por ela nas fotos de revista. Não é fácil ser mulher, nem tornar-se.
o som do filme ensurdece, a música é ruim, quem canta dubla mal, a protagonista parece ser a coadjuvante, a atração não consegue atuar, rosna-lola-rosna, a direção exagera os defeitos, tudo em vermelho-escuro entumesce, as lágrimas de aluguel desprendem-se das maquiagens-máscaras, não há edição que salve, por que musical?, o diretor (audiard? odiar?) parece um andré midani da escravização branca, um monte de drag racer coreografa melhor, ou: por que subir na mesa?, o que começa como arremedo de west side story ou de tommy acaba em narcos, os mexicanos são bandidos ou submetidos, a única sequência divertida – numa “clínica de bangkok” onde um médico israelense, tão bonzinho, faz trans-formações – é grotesca, quem pesquisou?, o descalabro dura uma hora inteira depois da primeira hora, aposto que vai virar musical na brigadeiro, merecemos?, 13 indicações ao oscar, igualzinho a “e o vento levou”, leva, vento, leva!
No documentário “Trilha sonora para um golpe de estado”, candidato ao Oscar, a história revolucionária africana acolhe a cadência do jazz
O revolucionário congolês Patrice Lumumba
Tudo pulsa no documentário “Trilha sonora para um golpe de estado”, candidato ao Oscar 2025. Seu diretor, o belga Johan Grimonprez, promove um estado de reflexão que não cessa no decorrer do filme. Pensamos e sentimos por meio da montagem de Rik Chaubet, a entrelaçar fotos e fragmentos documentais sob a cadência do jazz. Mas não de qualquer jazz. Neste filme produzido por belgas, holandeses e franceses, só vale a música urgente, partícipe, que instiga à libertação social, à conquista dos direitos civis e à celebração da existência plena.
Nina Simone, a caminho da Nigéria
Louis Armstrong, Thelonious Monk, John Coltrane, Duke Ellington, Max Roach, Abbey Lincoln, Dizzy Gillespie, Nina Simone, Archie Shepp, Melba Liston, Ornette Coleman, Art Blakey, John Coltrane. Estes são alguns dos músicos que, dentro do filme, movimentam o raciocínio do espectador e constroem sua escuta.
O documentário indicado ao Oscar, produzido por holandeses, franceses e belgas
Em “Trilha sonora para um golpe de estado”, os oprimidos da terra combatem a chaga colonialista de europeus e estadunidenses. Sedentos do sangue e do minério africanos, os brancos conspiram para matar, e uma Organização (Criminal) das Nações Unidas estende-lhes o tapete para que o extermínio ocorra a contento. Um personagem destaca-se contra o estado de coisas, com carisma e humor: o líder russo (entre 1953-1964) Nikita Kruschev, a cobrar da ONU a legitimação de Patrice Lumumba (1925-1961) no poder, no Congo. Ao assistir a este documentário por duas horas e meia, nosso retrovisor começa a apontar para a frente, para o hoje, para o sempre.
A estrategista Andrée Blouin
O Congo ainda está aqui. Cheio de feridas e usurpação. Em 1960, Cuba triunfara e os negros, desonrados nos Estados Unidos de Eisenhower, olhavam para a África. Eles tinham um exemplo principal a seguir: o congolês Patrice Lumumba, eleito pelo povo para obter o que ele próprio, por algum tempo, julgou ter conseguido – a libertação do domínio belga, com a ajuda da estrategista Andrée Blouin.
Nikita Kruschev e o diretor da CIA Allen Dulles: o sorriso do líder soviético surgia nos intervalos das contendas
O olhar de Lumumba é doce, direto e fundo. Vemos não seu triste fim, mas um olhar do fim, difícil de esquecer. Malcolm X também se lembraria de tudo. No filme, falam ele, mercenários ingleses e alemães, chefes da CIA como Allen Dules, a “inteligência” britânica. Vemos como Armstrong foi enviado pelo Departamento de Estado do seu país para “distrair” o povo africano antes do golpe final – e como Armstrong se deu conta de que o enganavam. O mesmo ocorreria com Nina Simone, mandada à Nigéria para apresentar-se, sem desconfiar que a usavam para acalmar os ânimos revolucionários da população local.
Sou esta pessoa que não acompanha podcasts. Só ouço música no Spotify e leio reportagens. Meu tempo de rádio se foi. Nele, os apresentadores “escreviam” ao vivo. E eu gostava dos improvisadores escalafobéticos, do tipo do Gil Gomes, que sabiam dividir os tempos e narrar em crescendo, com exagero, as histórias de banditismo mais simples.
Imagino que improviso não seja o caso deste “CPF na nota?”, episódio do podcast Rádio Novelo no qual a escritora Vanessa Barbara narra o abuso que sofreu por parte do ex-marido, o editor André Conti, 14 anos atrás. Aparentemente, o sujeito expunha suas traições a outros tolos igualmente boquirrotos num grupo de e-mails.
Se não é um Gil Gomes quem narra, o que pode me atrair nos detalhes das conversas expostas? Creio que nada. Só me interesso pela treta em si, essa que expõe a velha misoginia tão presente na elite masculina do clube de jornalismo cultural & de letras Brasil.
Conheço alguns dos envolvidos no episódio, direta ou indiretamente. Um deles, certa vez, me procurou para saber detalhes de minha diferença com um jornalista jovem, louco para ser reconhecido como herdeiro do Francis, e que muito me prejudicara profissionalmente. Esse que me procurava, contudo, não tinha moral pra me fazer tal solicitação, pois à época estava por baixo, vítima de uma maquinação de assessoria que lhe custara o emprego. Por que eu lhe contaria o que passei? Um segundo me ligou para que eu falasse mal de um livro do mesmo candidato a herdeiro, o que prontamente recusei (não porque gostasse do livro ou respeitasse seu autor, mas porque… por que ele mesmo não acertava as contas com o candidato à herança? que lesse o livro e o resenhasse, ora.) E o terceiro, esse cuidava de HQ em respeitada editora, e nunca quis me dar nenhum contato com autores pra entrevista.
Enfim, jovens machos letrados bem-sucedidos que esperavam ser laureados por nós, mulheres submissas do jornalismo. Eu só não imaginaria que tivessem deixado impressas as pegadas de sua burrice.
Se eu fosse editora do podcast, ouviria o “outro lado”? Quase certamente, eu faria a história durar em outros episódios nos quais esses homens seriam ouvidos, mas só por gosto pela treta mesmo. Acontece que não faço rádio. E treta, tenho evitado até nos pesadelos.
Não tenho o link do podcast, mas deve ser fácil de achar pelo google. Abaixo, vai o texto da coluna de Mônica Bergamo sobre o assunto.
“Podcast sobre relacionamento abusivo abala meio literário”
“Um episódio do podcast Rádio Novelo abalou o mundo literário ao trazer o relato da escritora Vanessa Barbara sobre o fim do seu casamento com André Conti, editor e sócio-fundador da Todavia, há cerca de 14 anos. Ambos já foram colunistas da Folha.
No programa, chamado ‘CPF na Nota?’, Barbara narra em 50 minutos como descobriu, em 2011, que era vítima de violência psicológica durante seu casamento. Ela relata que o então marido compartilhava detalhes íntimos de traições em um grupo de emails com outros 15 homens, todos também escritores e jornalistas.
Entre eles estão autores famosos da geração que despontou no país neste século: Daniel Galera, Michel Laub (ex-colunista da Folha), Joca Reiners Terron (ex-colunista da Folha), Paulo Scott, Daniel Pellizari (ex-colunista da Folha), Emilio Fraia e Antônio Xerxenesky.
O episódio foi ao ar na quinta passada (16) e a repercussão foi crescendo durante o fim de semana. Na segunda (20), chegou às redes sociais. Desde então, nove envolvidos vieram a público se manifestar.
‘É nesse ponto que conto como ganhei a minha cicatriz’, diz Barbara, no podcast. ‘É de um relacionamento abusivo que eu tive muito tempo atrás. Aliás, fica o alerta de gatilho: essa história contém ameaças, coerção, gaslighting, exposição, humilhação e isolamento, ou seja, é puro suco de violência psicológica.’
André Conti respondeu na manhã de segunda: ‘Manipulei e coagi minha ex-esposa de forma machista e misógina’. Ele reconheceu que ‘num grupo de emails, expus pessoas, traí amigos e colegas e inventei intrigas’.
Na manhã de terça (21), a Todavia se posicionou dizendo que ‘reconhece a gravidade dos acontecimentos narrados no podcast que envolvem um de nossos sócios. Compreendemos a indignação causada pelos diversos exemplos de machismo e misoginia. Sentimos muito, sobretudo, pelo sofrimento causado à vítima. No momento, buscamos garantir a manutenção de um espaço de acolhimento para nossas colaboradoras e colaboradores.’
Comentários de internautas ao comunicado, a maioria escrita por mulheres, pediam que Conti fosse removido de suas funções na editora. À coluna, ele disse que só o CEO da Todavia, Flávio Moura, poderia responder. Moura afirmou, então, que ‘nosso posicionamento é o que está no post’.
A atual esposa de Conti, a também escritora Natércia Pontes, contestou a narrativa com um longo texto em seu blog pessoal. Segundo ela, Barbara manteve contato com Conti nos últimos anos e, há seis meses, enviou email pedindo ajuda para divulgar seu novo livro. Segundo Natércia, ele não respondeu a esse pedido.
‘Meu marido errou. Mentiu. Foi um crápula imaturo. Há catorze anos’, escreveu ela, questionando por que Barbara decidiu trazer o caso à tona agora. ‘Como não obteve resposta desse último e-mail, reflito depois das minhas tristes conclusões, preferiu fazer um podcast para assassinar a reputação do meu marido e de homens, nem todos brancos como ela descreveu, que precisam de seus trabalhos e que têm famílias para sustentar, junto as suas mulheres, que também trabalham. Tudo isso nesse país de merda, onde é quase impossível sobreviver da escrita e do jornalismo.’
Pontes acusa a Rádio Novelo de não ter procurado outro lado da história. A Novelo disse à coluna que não vai se pronunciar sobre o caso.
Michel Laub disse que ‘muita coisa mudou’ nos últimos 14 anos e que as pessoas ligadas à história ‘viraram protagonistas numa trama que está sendo tratada nas redes como conspiração do presente, envolvendo pessoas poderosas envolvidas em crimes os mais diversos’.
‘Quanto às imputações de crimes, estou fazendo prints e decidirei que medidas tomar a respeito’, completou, em seu texto dividido em cinco pontos.
Joca Reiners Terron criticou o podcast por não ter ouvido o outro lado da história e afirmou que envolvidos estão sendo vítimas de ‘linchamento online’ e de ‘tentativas de hackeamento de contas e acusações descabidas. A obsessão pelo punitivismo precisa evoluir para uma argumentação lógica que nos conduza para além do atual maniqueísmo’, acrescentou.
Emilio Fraia afirmou que sente e sempre sentiu ‘demais por tudo o que aconteceu. Da minha parte, peço desculpas a Vanessa. Quero poder dialogar, aprender com os erros e, sobretudo, escutar.’
Paulo Scott, que foi o primeiro a se manifestar, disse que ‘a responsabilidade pela dor legítima de uma pessoa que fez parte de uma relação conjugal encerrada dolorosamente não pode ser estendida a pessoas que, direta ou indiretamente, nada fizeram para o fim dessa relação ou interferiram em seus desdobramentos posteriores’.
Daniel Galera disse que se solidariza ‘com a dor de todos os envolvidos’, mas rebateu a narrativa do podcast. ‘A maneira como [a lista de emails] é descrita no podcast é inverídica. Também é inverídica a alegação de que participantes teriam ativamente criado empecilhos pra carreira da Vanessa’, escreveu.
André Xerxenesky afirmou que não conhecia Vanessa à época, mas enviou ‘o mais sincero possível pedido de perdão. Fomos todos criados num imenso caldo de machismo e misoginia e reproduzi falas e comportamentos por volta dessa época dos quais me arrependo e me envergonho.’
À coluna, Hermano Freitas disse que o assunto ‘é de natureza pessoal’. Daniel Pellizzari e Marcelo Träsel não quiseram se manifestar.
A história não é nova. Barbara já havia abordado o fim do casamento no romance ‘Operação Impensável’ (2015) e em um texto para a revista piauí em 2017 chamado ‘O Dia que Aprendi a Lutar Caratê’. Assim como na revista, no novo podcast ela alterna suas falas com as de sua instrutora de caratê, Heloíse Fruchi.
A reportagem procurou Vanessa Barbara, que não quis se manifestar. No podcast, ela afirma que sofreu retaliações profissionais após denunciar o caso e que precisou se afastar do meio editorial brasileiro. Isso foi contestado por alguns dos envolvidos, pois ela teve livros publicados por selos da Companhia das Letras, onde trabalhavam Conti e Emilio Fraia, e publicou diversas matérias na revistas piauí, onde seu ex-sogro, Mario Sergio Conti, foi diretor de redação entre 2006 e 2011, além de ter colaborado com grandes jornais.”
Neil Gaiman e a frase adotada nas ocasiões de estupro
Que ser medonho, esse Neil Gaiman.
Nunca curti seu estilo ou histórias, razão pela qual jamais estendi considerações sobre sua figura. Ao que parece, a Cientologia a que os pais o submeteram é uma das causas para seu comportamento adulto como estuprador de mulheres mais jovens, por quem exigia ser chamado de “mestre”. O link https://archive.is/4CVCk, em inglês, trata disso, e é preciso ter estômago para continuar o longo texto até o fim.
Estive com o autor numa Flip da qual ele seria a pretensa estrela, há quinze anos. A ideia era entrevistá-lo durante o jantar com seu editor. Mas, como a ocasião não parecia me favorecer, a certa altura do jantar lhe pedi o e-mail, de modo a continuar a entrevista por escrito. Ele me olhou, sorriu para o editor e não me respondeu. Na hora senti incômodo, mas pensei: não gosto dele mesmo, vou fazer um texto simples e acabou.
Somente agora, após ler esta matéria, entendi um pouco melhor aquele episódio. Gaiman não utilizava o e-mail necessariamente para o fim jornalístico pretendido por mim. O contato era bastante usado, isso sim, para consolidar o cerco a suas vítimas, coisa que eu naturalmente estava bem longe de ser.
O Facebook destrói a verdade há muito tempo. Foi um dos responsáveis, a meu ver, por sérios golpes na democracia, a começar por aquela de seu próprio país, e a brasileira. Golpeia-nos não só com notícias falsas, também com fraudes comerciais, promovidas por pseudo-anunciantes que não retira do feed. E, claro, o obscurantismo também ganhou força desde que o Moska assumiu o Twitter.
No mundo ideal, não precisaríamos desta joça de rede social pra viver, ainda mais quando engendrada por uma gangue de multibilionários. A comunicação com o mundo seria realmente livre se tivéssemos nossa própria sociabilidade virtual. Mais que isso, se abraçássemos os amigos, por exemplo, nas manifestações de rua, estas que realmente mudariam as coisas.
Faríamos tudo isso a partir de agora, deixando o face pra lá? Torço muito. Mas duvido. Com Lula e Moraes, o Zuca ou some do nosso mapa ou murcha os caracóis dos seus cabelos. Eu decidi ficar e irritá-lo um pouco mais.