Quando a notícia da morte de Cobain chegou à redação

Mais uma croniqueta em torno da ausência de pensamento que resultou nas serpentes cantanhedes do presente

Lutei por você, Kurt

Na revista que em dias melhores derrubara um presidente, concluíamos a edição de cultura às quartas-feiras, e às sextas nos revezávamos (o outro jornalista da área e eu) no plantão de fechamento geral. A ideia do nosso plantão era absorver qualquer urgência dita cultural antes de a publicação sair para rodar na gráfica.

Eu era a escalada a esperar por eventuais informações inadiáveis de cultura quando a notícia da morte de Kurt Cobain apareceu na sexta-feira 8 de abril de 1994 (só posteriormente se estabeleceu que o falecimento ocorrera três dias antes).

Postada diante da máquina de fax, recebi a notícia como um golpe e fui até a direção, umas quatro mesas à frente, para informar a morte – o mais duro, convencer o meu superior de que o fato merecia espaço já naquela edição da revista.

O secretário de redação responsável pelo fechamento tinha os cabelos pretos repicados, lisos de oleosidade, na altura do pescoço. Os olhos fundos eram cultivados durante as noites perdulárias passadas de táxi em táxi, de bar em bar, às vezes compartilhadas em parte (a do jantar) por alguém da redação como eu. Sempre necessitada de carona pra casa, eu estava apta a exercer a companhia breve de certa forma solicitada por alguém tão só, ainda que breve em termos. Em uma dessas ocasiões ele me fez sentir presa no filme After Hours de Martin Scorsese, a escorregar por Pinheiros como se houvesse sido decretada uma noite sem fim.

No entanto, não era mau como os outros, o secretário. Não gritava, não jogava garrafas vazias de cerveja no chão. Apesar de sua idade (hoje eu diria que nem tivesse chegado aos 40 anos), imerso na fumaça dos cigarros sorvidos por entre os dentes desordenados do tipo ingleses, ele agia como um lulu dos 1960 e de seus mitos, a glória e a repressão enfrentadas pelos companheiros do passado. Era cavernoso, encucado, um drácula típico para quem o observasse pela primeira vez.

Claro estava que a revista, em parte editada por ele próprio, comentara já os paranauês reinantes da música pop, mas isso não lhe entrava na cabeça, visto que vivia em outro tempo, até outro lugar. Por muitos segundos pareceu firmemente em dúvida sobre se valeria a pena desfazer a diagramação para incluir o obituário de Cobain, já que não contava com outros parâmetros para estabelecer se aquilo era mesmo importante. A redação não dispunha de tevês ligadas e os jornais do dia seguinte, que ele sorvia diariamente com a intensidade dos cigarros, careciam de ser impressos. Era principalmente um leitor de jornais e de revistas, não de livros, como convinha à época a um verdadeiro, sólido e bem posto jornalista monoglota brasileiro.

O principal a ocorrer naquele infortúnio inesperado chamado Cobain: a notícia vinha comunicada a ele unicamente pela coisinha sem lastro que eu parecia ser. Desconfio que desconhecesse o prodígio de Seattle, assim como ignorava River Phoenix, o ator igualmente estadunidense que morrera no ano anterior e não merecera matéria extensa na publicação.

Lutei então para que déssemos a morte do músico em pelo menos duas colunas com foto numa seção de urgência que abria a revista. A seção introdutória de textos curtos fora chupada diretamente da Time, assim como todas as outras da revista, por Sr. Democracia, o diretor de redação substituído (“temos de copiar o que é melhor e a Time é a melhor”). O secretário acabou concordando que fazia sentido publicar o necrológio, e sobrou pra mim. Tinha de me manter ligeira, embora não fosse fácil escrever tão rapidamente assim naquela redação.

O arquivo da editora era precário. Nem sonhávamos com a existência da internet. E produzíamos em máquinas de escrever, ao contrário do que ocorria no mais festejado jornal paulista desde a década anterior. A redação da revista, situada numa espécie de grande mezanino de madeira em prédio antigo e abafado, diante da linha do trem, me dava frequentemente a impressão de estar prestes a desmoronar.

Me virei como pude, ou seja, obtive os dados de que mais precisava a partir de uma matéria feita por mim mesma, pouco tempo antes, sobre o grunge, um estilo que a imprensa havia inventado para rotular o surgimento de bandas como Nirvana e Pearl Jam. Guardava algumas revistas em minha mesa justamente para necessidades assim.

Durante a escrita, dei-me conta de um pequeno fato que hoje parece óbvio para quem acompanha a história do rock. Cobain se suicidara aos 27 anos, a mesma idade em que morreram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones. Achei que muita gente notaria o fato em seus textos publicados naquele fim de semana. Mas não. A revista enfumaçada, com seu necrológio modesto, fora a única brasileira a ressaltar a entrada de Cobain para o que ficou conhecido posteriormente, em tom macabro, como o Clube dos 27. Não recebi elogio algum por isso, claro. O secretário nem me cumprimentou na segunda-feira seguinte. Fiz o meu dever, e ele respirou de alívio.

Se todos fossem iguais a vocês

Faz três dias que mergulho numa gastroenterite inquietante. Na verdade, ela obriga a aquietar-me, enquanto me provoca espamos frequentes. Não se trata de nada grave, garantiu-me o médico, que está no exterior e respondeu a meus questionamentos por WhatsApp. Mesmo que houvesse gravidade e eu sofresse mais, não acharia minha dor maior do que a experimentada por tantos palestinos e brasileiros no exato momento em que escrevo.

Dito isto, sonhei. Um sonho típico de quem digere mal, acometida por malfeitores invisíveis. Sonhei que ocupava a poltrona de uma sala de cinema lotada, onde amigos sorriam submissos para o governador de São Paulo.

Já seria tormenta suficiente visualizar à distância de dois metros, mesmo que em sonho, a efígie bexiguenta do serial killer, certo? O que dizer então de vê-la passar-se por decente diante daqueles por quem eu nutria compadrio?

O governador sorria de volta para meus amigos como se estivesse em campanha, apertando-lhes as mãos com as duas palmas juntas. Talvez meus amigos buscassem dinheiro, editais, e fosse esse seu caminho para conseguir os meios? Eu poderia compreender. Mas a coisa não parava aí. Entre o público, havia jornalistas do tipo mais comum que conheci, os submissos arrogantes. Nem sei se alguém distante desse meio vai entender, mas essa gente existe. No meu sonho, eles viam o governador como um sujeito inteligente, cujos bons atributos não poderiam ser facilmente contestados. Se o patrão está com ele, com ele estamos!

Sim, eu pensava comigo, o governador não pode ser contestado porque vocês, jornalistas de política, se esquivaram da contestação. Eu tentava acionar os números comprobatórios da escalada de miséria, morte e abandono da população em todas as áreas sob esse governo, mas os dados não me chegavam à mente com nitidez. E, assim, eu me sentia mais uma responsável pela construção da imagem do governador como um técnico competente, macho da porra toda, até gente boa.

Foi então que aconteceu como se eu tivesse 20 anos de idade na redação da Folha, diante da corja de puxa-sacos usuais da categoria. Mesmo não sendo jornalista de política, eu podia constatar o óbvio. Mesmo sem os números em mãos, eu me servia da observação direta do caos cotidiano e dos apelos dos desprovidos. Comecei a gritar.

“Covarde assassino” eram as duas palavras que eu dirigia ao governador, sem medo nenhum. Ele teria me ouvido? Seus capangas? A milícia? Não me importava. A cada aplauso, um grito meu. Até que ele se levantou para o meu lado e bradou:

“Por isso sento o trabuco!”

E meus amigos, quietos…

Como se fosse natural, eu deixava a sala de cinema para dirigir um carro veloz. Não fazia isso por temer a autoridade, mas meus próprios amigos, cujos corpos e mentes pareciam invadidos por outra força invisível, que certamente os comeria por dentro. Pelo menos me sentia arriscada e feliz ao volante, praticamente uma Grace Kelly nas escarpas da Riviera, imbatível na capacidade de contornar o precipício. Cary Grant, eu sei, teria me sorrido.

Acordei suando. A sensação de ter sido próxima em pesadelo do governador emberebado e barrigudo equiparava-se à de meu sistema digestivo em looping.

Um ladrão em que a casaca de Grant jamais caberia…

Matando marielles todos os dias

Cidinha Campos denunciou Brazão no parlamento inúmeras vezes e não foi ouvida pelos integrantes da casa. Em razão da ausência de providências contra o assassino, livre para legislar pela milícia, continuou a ser ameaçada de morte, chamada de puta por quem ela não hesita em classificar como “serial killer”, ademais brindado com passaporte diplomático por Bolsonaro.

Mulheres parlamentares, as mais ignoradas, são caladas à força no Brasil. Uma polícia manipulada, dominada, engorda seu poder corrompido matando pobres, forjando inquéritos policiais de intimidação contra quem poderia denunciar os desmandos políticos.

E como não seria assim, se a imprensa dá as costas à população? E só agora, após a determinação de um governo democrático, a polícia fez o que já deveria ter feito?

O pior, sempre o pior pra mim, é que o jornalismo brasileiro não tenha corrido atrás desse monstro por tantos anos. Principalmente, que nenhum dono de jornal o tenha feito, pois um jornalista não age só, ou só a muito custo pessoal pode agir. Bons jornalistas têm de ser hábeis negociadores dentro de um jornal. Sofrendo os diabos.

Hoje, pleno 2024, o Estadão ousa um editorial ridículo, associando o sistema de cotas ao aprofundamento do racismo, estabelecendo que sua prioridade é retroceder politicamente para garantir o fim do ensino público e aumentar a concentração financeira.

Vergonha, vergonha dos nossos donos de jornais, dos banqueiros esgarçados de poder político, gente do crime como qualquer outra, a matar marielles todos os dias.

O extermínio, um vício

43 mortes na Baixada Santista até agora.

E o secretário de segurança deste estado anuncia-se orgulhoso do que fez e fará, assim como o governador, que corre a Israel para ver como se encaminha de fato a extinção de um povo.

E o povo?

O povo não tem quem brigue por ele.

O povo não pode protestar por pura impossibilidade, já que a polícia o ameaça à luz do dia, em suas casas e até em seus enterros.

E nós?

Anestesiados, né?

Cansados de saber como opera a justiça?

Hoje vi um vídeo no qual o corpo de um jovem com um buraco na cabeça é carregado sem vida por outros jovens. Negros, em sua maioria. Mas brancos também.

Pobres.

Se não foi fácil de ver, imagine então, naquele lugar, ser.

Pobres e jovens que não importam, para quem não há comoção popular, nem uma pálida movimentação de justiça.

Há muito tempo vivemos de Gaza em Gaza a somar os sonhos interrompidos. O veneno do extermínio tornou-se vício. Um concentramento.

Enquanto isso, a classe média da Baixada sai em passeata para defender a meticulosa concentração desse extermínio.

Dá nem alegria de existir enquanto a polícia militar também existe.

E parvos

Eu sei que muitos foram à Paulista ontem.
Não esperava outra coisa.
Nunca menosprezei a parvoíce humana.
Agora tem o seguinte.
Não aceito Cantanhêde, muito menos conhecido meu, censurar a gozação que qualquer um faça pra cima dos parvos.
Porque eles são parvos mesmo.
Parvos, parvos, parvos.
Só a parvoíce em sua inteireza, plantada entre ricos e pobres, constrói o fascismo.
E humor é arma.

Estúpidos, cruéis, preguiçosos e desonestos, por Tchecov

Foto de Tchecov mostra a colocação de ferro nos pés dos presidiários de Sacalina em 1890

“Afinal, em que esses homens estúpidos, cruéis, preguiçosos, desonestos são melhores que os mujiques bêbados e supersticiosos, ou melhores que os animais, também desvairados quando um acontecimento qualquer rompe a monotonia de suas vidas limitadas pelos instintos? Lembro-me de cães torturados até a morte ou enlouquecidos; pardais depenados vivos por garotos e em seguida atirados à água; toda uma longa, enorme lista de lentos e miúdos sofrimentos que pude observar nesta cidade desde a infância. E não cheguei a entender como vivem seus sessenta mil habitantes, por que leem o Evangelho, por que rezam, por que leem livros e revistas. De que lhes adianta tudo o que foi escrito e dito até agora se as mesmas trevas continuam em suas almas e se o seu desprezo pela liberdade é tão grande quanto há cem ou trezentos anos?”

Tchecov em “Minha Vida” (1896), citado em “Tchekhov”, de Sophie Laffitte, trad. Hélio Pólvora, ed. José Olympio, 1993, pag. 139

Pulhas versus Lula

Gosto da conversa pequena que tenho com os comerciantes no centro. Mas hoje de manhã, depois da noite ruim, queria apenas ouvir minhas playlists (lindas e até menos óbvias que a de Perfect Days, posso garantir) enquanto comprava o necessário para o dia.

Usava o fone de ouvido quando começou uma conversa áspera entre o chaveiro e um freguês. Só via os rostos e esperava minha vez, cantarolando no modo lipsync. Quando me aproximei do quiosque, o chaveiro Erasmo, baixinho, cheinho, olhinho espantado e cara de bom, virou-se para me dizer:

– Tá todo mundo contra o Lula.

Aiai. Sem trégua pra mim. O que a loka esperava? Tiro o fone.

– Por que contra o Lula?

E o chaveiro só abaixando o rosto, sem falar, talvez temendo que eu fosse uma daquelas. Daí perguntei logo, para economizar tempo:

– Todos estão contra o que ele disse sobre Israel?

Erasmo:

– Sim, todos falam bem de Israel, de deus.

E eu:

– E o que Lula falou de errado? Ele tá muito certo, amigo. Que deus iria aprovar a matança de crianças?

E ele:

– De crianças e de mulheres!

– Pois então.

– Olhe, senhora, a foto do meu filho.

– Muito parecido com você!

– Então, esse é meu filho! Eu ia lá querer que jogassem bomba nele?

– Nunca!

– As crianças de lá estão tatuando os nomes nos bracinhos…

– Horror. – Quase estendi o assunto, tamanha minha indignação benjaminiana, acompanhada de choro, mas preferi cortar caminho: – Sabe o que o Brasil perde financeiramente se as relações com Israel forem rompidas?

E Erasmo sem responder, na mudez do início, o mesmo olhinho de susto.

– Nada! – eu disse. – As pessoas precisam se informar mais. Esquecer a Globo, esquecer o zap. Não vamos confiar em gente burra, vamos? (A cara do Jorge Pontual todinha na minha frente.)

– Vamos não!

E depois reclamam quando eu falo mal de jornalista. Que vergonha, e não só do Pontual, certamente. Caio Blinder, Demetrio Magnoli, conheci bem de perto esses lambe-botas caras de pau. Destroem o Brasil de boa quando é preciso manter suas vidinhas de hienas majestosas no reino do Scar. Um em Nova York, outro na Vila Madalena, ajustando o implante capilar. Vocês já perderam, seus pulhas.

Em “Vidas Passadas”, a mulher sem dever

Greta Lee, John Magaro e Teo Yoo em “Vidas Passadas”, filme de Celine Song candidato ao Oscar: cadê a sequência icônica?

Assisti a “Vidas Passadas” como se presenciasse um vespertino de sábado ou uma série coreano-americana melhor que as outras. E só depois descobri tratar-se de um entre os tantos candidatos a melhor filme ao Oscar deste ano.


Que interessante.


“Vidas Passadas” é mesmo uma obra comercial às antigas, semelhante às películas que buscavam bilheteria nos Estados Unidos dos anos 1980 e 1990: mostra um romance não realizado através do tempo, uma espécie de “Harry e Sally” entre uma migrante nos Estados Unidos e seu amigo na Coréia que resulta obrigatoriamente em melancolia/superação para o par protagonista.

Com a diferença – sabe? – que “Harry e Sally” tinha um belo tom entre a melancolia e o humor, tão preciso era o Rob Reiner que o dirigia, capaz de encenar pelo menos uma sequência lembrada por décadas.


Mas, e “Vidas Passadas”?

Onde estará seu potencial icônico?


Só posso pensar que, na campanha publicitária da obra, o diretor do trailer deste longa foi o melhor diretor…


Porque, além da exposição do vacilo em nós, o que o filme nos diz? Que somos uns idiotas nesta vida à espera de outra vida melhor?


A protagonista de “Vidas Passadas” deixa claro, desde o início, tratar-se de um ser de essência competitiva (ou psicopata, como diz graciosamente), que se interessa por um judeu americano e escolhe casar antecipadamente com ele para ganhar, além de green card, uma láurea artística qualquer na sua vida futura… E da ambição pelo Nobel ela vaga descendente pela irônica caça ao Pulitzer e ao Tony – o que, pelo menos isto, me divertiu. Que tal lhe premiarem com um make-over no Queer Eye?


Aos dois apaixonados por ela, a personagem imputa o prejuízo que desejar, como se em cada mulher coubesse um ser sem nada dever…


Muitas vezes me peguei localizando na heroína do filme dirigido por Celine Song uma espécie de Jada Pinkett Smith com dois Will Smiths pra chamar de seus.


Mas que luta terá travado esta protagonista entre duas culturas? Que sentido terá feito com que substituísse o admirador coreano em quem enxergava uma conexão adolescente por uma existência média nos Estados Unidos, onde escreve peças teatrais sobre as quais nada sabemos, irritada por ter de presenciar os ensaios?


Enfim, se ela escreve, quais são suas palavras? Gostaria de saber delas porque eu então localizaria o tipo de dramaturgia que ela faz e o marido judeu, também escritor, o que transmite em seus livros. Da maneira como são vagamente caracterizados, poderiam ser comerciantes, bancários, ascensionais TIs, qualquer um deles, menos o que dizem ser, à procura tão-somente de uma estabilidade emocional-financeira, de um meio de vida na cidade de Nova York, localizada aqui com alguma cor asiática. Há só um vago e confuso conceito de vidas passadas vindo da Coreia a regular a vida da escritora e de quem se aproxima dela?

Sem contar que a excessiva diluição de Wong Kar-Wai que este filme faz, expressa na noite cinematográfica entre o verde e o vermelho, pode ser aflitiva…


Eu, que testemunho o público ao meu redor preencher os vazios deste filme com seus próprios questionamentos amorosos, religiosos e existenciais (o que deve ser a principal qualidade do longa, evocar a perda e o vazio em quem gosta do filme), só penso: cadê o japonês Kore-eda no Oscar?


Assistam a “Monster”, amigos.
É de fato um filme.

Um filme sobre Ken?

Digamos que a indicação ao Oscar de Ryan Gosling como melhor ator por “Barbie” está de bom tamanho, já que o filme constrói a jornada do personagem por ele representado rumo à aceitação

“Barbie”, de Greta Gerwig, me pareceu evocar “Mulheres perfeitas” (The Stepford Wives), o ótimo filme de Frank Oz. São rosas plásticas muito semelhantes por toda parte naquele filme de 20 anos atrás, responsável por encenar uma revolução de mulheres. A diferença é que, sem fazer publicidade de produto, o longa de Oz ousou tornar os personagens masculinos vilões malsucedidos em mecanizar suas esposas. “Barbie”, pelo contrário, transformou Ken em herói, construindo sua jornada rumo à aceitação.

Alguém disse pelo Instagram que, apesar de ter sido aplaudido por seu alegado feminismo, Barbie levou o patriarcado de Hollywood a indicar Ken (o ator Ryan Gosling), não Barbie (a atriz Margot Robbie), ao Oscar. E eu penso que agiram logicamente. No fim das contas, é um filme sobre Ken.

Não sei se a Robbie, igualmente produtora do empreendimento bilionário, tem razões pra reclamar, tamanho o número de indicações que o filme recebeu. Ok, Greta Gerwig não foi levada em consideração, mas quando a gente constata que Frank Oz, tampouco, a menção a Ken fica de bom tamanho. Por fim, o que Robbie e Gerwig dizem sobre o massacre de mulheres em Gaza, só pra saber?

Não atiram pra matar

Assim via Millôr Fernandes os humoristas, célebres nos stand-up atuais de língua inglesa e mestres do gênero no Brasil passado

Stand-up comedy.

Gosto muito.

Especialmente quando é um maestro quem faz.

Espero bastante desse regente de rosto maleável, elástico como o de um Totò (ou, sendo isso impossível, na direção dele), pontuando a história ao microfone com o ritmo do olhar, das mãos e dos passos no palco, perfeito condutor de uma orquestra invisível.

Amava Zé Vasconcellos e Chico Anysio nessa função. Que infância eu tive! Esses humoristas brasileiros, tão bem-sucedidos no teatro e no disco, contavam casos alucinantes na tevê para os pobres feito eu, às vezes sem o auditório para medir o alcance de seus voos. Eram perfeitos ao exercer o ritmo do absurdo, mirando nos comportamentos durante a fala, cientes de que no verdadeiro humor a crítica é o centro, o pequeno esmaga o grande, o mais fraco vence o mais forte e o oprimido destrói o opressor.

Em entrevista, já bem doente, Chico Anysio me disse que o stand-up brasileiro começou no rádio. E que começou justamente com eles dois, grandes escritores da expressão humorística. Os deslocamentos de sentido, que eram produzidos por esses humoristas no rádio segundo o ritmo da voz, passaram a ganhar a corporalidade quando a tevê chegou.

Zé Vasconcellos, um nocaute no sentido comum

Zé Vasconcellos fazia a história enrolar-se juntamente com os lábios aflorados. Seu embeiçamento vinha acompanhado da barriga projetada pra frente, representando indignação, até que – pimba! – os olhos se esbugalhavam num desfecho impiedoso, que deixava seus personagens, já enrolados, no chão. Era como um Patolino eletrificado, que nocauteava e invertia o senso comum pra nos fazer rir.

Chico Anysio, cientista do humor

Chico Anysio, não. Parecia tão mais calmo. Boa voz. Encanado, filosófico, sério. Um cientista do humor. Enquanto descrevia imbróglios inacreditáveis, em certo ponto da narrativa punha a língua pra fora, de lado, como se se esmerasse nos aspectos miúdos dos personagens atrapalhados. Seu tipo predileto era o malandro brasileiro da coisa pequena, metido nas causas maiores do que si mesmo – lançar um foguete, por exemplo. A perplexidade resultante do humor, em Chico Anysio, nascia dele mesmo, de sua ascendência nordestina, da escassez vivida na infância, da vontade de se provar melhor.

Adoro esse stand-up brasileiro do “causo”, do personagem enraizado. E amo aquele um dia feito nos Estados Unidos por George Carlin e Richard Pryor, cuja crítica sem rodeios contra as instituições, o governo, a classe média e o racismo feriam como faca as consciências bem pagas, cristãs e supremacistas do americano médio.

Me cansa um pouco, contudo, o stand-up atual do estadunidense ou do inglês, celebrados por rirem da vida moderna. Mas é isso o que realmente fazem? Não sei dizer. Me parece haver mais “eu” do que “nós” em tudo o que ensaiam criticar. De todo modo, assisto ao que me oferecem esses célebres apenas por nostalgia das sinfonias da infância. A Netflix parece lotada deles, é só escolher.

Dave Chappelle está lá. O mais bem-sucedido humorista stand-up, espécie evolutiva de Eddie Murphy, ele repete o espanto do preto estadunidense diante da alegada frescura dos brancos, esses que podem ser transexuais sem que a polícia bata neles até matar.

Em “Sonhador”, Chappelle é impiedoso com os trans porque os vê como brancos esnobes. Um bando de frescos à moda de Jim Carey, que um dia teve a oportunidade de conhecer no estúdio de cinema. Mas Carey não foi Carey ao conversar com ele! O ator treinava para ser Andy Kaufman até nos bastidores, falando e reagindo com Chappelle como se fosse o humorista Andy. E onde estava o Jim Carey que ele esperava encontrar, então?

Segundo o raciocínio de Chappelle, um trans é como Carey – um ator, não a pessoa de verdade que ele gostaria de conhecer. No último especial que vi, caiu matando em cima deles, como de uso, mas também distribuiu porrada em outros públicos. Causticou os milionários mortos no submarino em visita ao Titanic e até mesmo os deficientes físicos – no caso, um parlamentar republicano branco, de cadeira de rodas. Estará tão errado assim?

Acho que Chappelle é o melhor escritor de stand-up da atualidade. Muito preciso. Tudo o que diz tem a duração certa e ficamos ligados até o fim. Sou grande o suficiente para entender o que diz, ele que um dia recusou milhões do show business e se retirou dos palcos de modo a se manter fiel a si mesmo.

E o que Chappelle diz é que todos os aspectos da branquitude nos Estados Unidos giram em torno do privilégio. Milionário, trans, político, todo branco dos Estados Unidos merece que lhe passemos o rodo. Talvez por isso ele tire alguns pretos da jogada. Por exemplo, quando se refere ao tapa de Will Smith em Chris Rock, Chappelle diz que entende as razões dos dois, algoz e vítima. Mas que, para seu gosto, algum amigo de Chris Rock deveria tê-lo vingado ali mesmo, no palco, e não deixado Smith ficar na cerimônia até o fim. Errado de novo? A meu ver, aí sim seria show.

Chappelle é um bom maestro. Não um Richard Pryor, mas um dos bons.

Ricky Gervais, agora em Armageddon: pedido torto de desculpas

Me impacientei mesmo foi com o Ricky Gervais desta vez. Amo este humorista, mas descurti o show. Um “Amargeddon” para ironizar gays e deficientes? Ou apenas para ensinar o público a se comportar diante do humorista, aquele ser que, segundo Millôr Fernandes, não atira pra matar? É um didatismo que dá em nada, no fim das contas. A piada precisa ser muito boa para passar incólume. E talvez Gervais tenha feito piadas ruins nos últimos tempos, não sei. Mas se Chappelle não se desculpa, até intensifica a crítica no stand-up seguinte, por que Gervais recua? Minha hipótese é que, rico em demasia, tendo doado parte da receita de seu show à proteção dos animais, ele se sinta um tanto culpado. Mas de quê? Da acidez que ele diz não fazer mal a ninguém? “Armageddon” me pareceu isso, um pedido torto de desculpas que reluto em aceitar.

Preferi muito mais Wanda Sykes em “Meu Negócio é Entreter”. Uma humorista que ri dos pintos, finalmente! Dos negacionistas! Que ironiza o medo de que os trans invadam os banheiros femininos, como se os banheiros femininos fossem santuários sem balbúrdia… Uma mulher a dar a medida do sofrimento do preto nos Estados Unidos mais ou menos assim: ser preto é não poder ter dias ruins em público, pois seu dia ruim pode ser o último, a depender de como o poder armado o interprete. Wanda sabe muito! Sabe como aproximar uma questão complexa do cotidiano do público de modo a se fazer entendida, embora a duração de certas histórias às vezes atrapalhe o ritmo do show. Não é perfeita, certo? Tampouco tem do que se desculpar.