O pobre, aliado a seu algoz

Orson Welles em “A Ricota”, de Pasolini

– Pobre Stracci! Morrer foi a única maneira de se lembrar de que viveu.

Orson Welles em “A Ricota”, episódio de Pasolini em “Rogopag” (1963) no qual o estadunidense encena o diretor da “Paixão de Cristo” no set.

Welles diz a frase ao constatar que seu ator, representando o Bom Ladrão, morreu humilhado depois de comer exageradamente tudo o que não lhe havia sido permitido comer antes.

No filme, Pasolini faz o Bom Ladrão representar o pobre que vota em seus algozes e que enxerga na capacidade de passar fome sua verdadeira vocação.

Pasolini, sempre urgente para nós.

O Ladrão Bom, para quem a morte ressalta que viveu

Eleanor Marx, a saga e o rock

No longa em exibição na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a filha mais nova do pensador alemão tem a trágica trajetória narrada pela cineasta italiana Susanna Nicchiarelli

Romola Garai interpreta Eleanor, filha caçula de Marx e socialista dedicada à obra do pai

Antes de sua morte em 1883, aos 65 anos, Karl Marx assistiu ao perecer de cinco de seus familiares mais íntimos, quatro filhos e a mulher Jenny. Foi um marido apaixonado e um pai tão bom para todos que, enquanto se concentrava para a escrita de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, por vezes interrompeu o trabalho e se atrelou, como um cavalo, a uma fila de cadeiras de pés quebrados. Atrás dele, os filhos usavam sobre suas costas um chicote imaginário, e assim ele fazia a carruagem andar.

Patrick Kennedy vive Edward Aveling, militante marxista que significou a ruína para Eleanor

Eleanor, a Tussy, era a filha mais nova a puxar pelo pai. Estudiosa de sua obra, ela inicialmente, como a irmã Jennychen, desejou os palcos, mas o pai a proibiu de ser atriz. Suas filhas, preocupava-se Marx, deveriam casar-se bem para evitar a miséria e a exclusão social. Ainda assim, elas prosseguiram a pensar, traduzir e ler. Nascida na Inglaterra, Eleanora formulou parâmetros para a ação libertária feminina dentro da Liga Socialista. Mas, no meio disso, uniu-se ao eminente militante marxista britânico Edward Aveling, um mulherengo e perdulário que foi sua ruína. Suicidou-se aos 43 anos, da mesma forma que a irmã Laura, morta junto ao marido Paul Lafargue.

Eleanor em foto de 1871, aos 16 anos
A eletrizante biografia da família Marx, aqui publicada em 2013


MISS MARX, longa-metragem da italiana Susana Nicchiarelli, parece sabedor das informações apontadas neste texto, muitas delas organizadas na eletrizante biografia familiar “Amor e Capital”, de Mary Gabriel (Zahar, 2013). Mas as utiliza displicentemente, como se falasse apenas aos marxistas sabedores dos bastidores históricos. O filme sofre de mimetizar a ousadia de Sofia Coppola, que um dia transformou Maria Antonieta em uma figura hollywoodiana sobre os tênis do presente.

Susanna Nicchiarelli, a diretora de Miss Marx

Eis que Nicchiarelli se sente livre, depois de Sofia, para afogar o desespero de Eleanora no bom punk do Downtown Boys. Seu filme tem uma fotografia de qualidade, como se ela trouxesse a nossos corpos a umidade londrina, a se espalhar por tecidos, casacos e tapetes entre o verde e o vermelho. De resto, contudo, MISS MARX é uma oportunidade perdida.

Um punk dos Downtown Boys para a triste Eleanor desabafar

Miss Marx (Miss Marx)

Dir.: Susanna Nicchiarelli

Itália, Bélgica

2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/search.html?q=miss+marx

Um amor em cada porto

O filme “Martin Eden” transpõe para a Itália heroicamente desiludida a obra de Jack London sobre o engajamento das palavras

Luca Marinelli é Martin Eden, entre ferozes utopias

Metade deste Martin Eden (2019) é só o Jack London que amo e seus Estados Unidos da América, aqueles onde o escritor viveu, entre 1876 e 1916. A outra metade é a Itália idealizada, amada igualmente, onde este filme foi escrito a partir do livro homônimo e em parte autobiográfico de London, máxima ficção sobre a honra perdida do jornalismo, minha profissão e meu descontentamento.

Então é muito o que peço a este filme desde seu início, que faça jus ao que espero, na verdade anseio, aquilo por que luto e pelo que vivi por tantos anos, desde a adolescência tardia embebida pelos textos mágicos do escritor, alguns deles que também ousei traduzir (no volume 11 da coleção Para Gostar de Ler, 5 reais na Estante Virtual).

Jack London, no reino dos fortes

Martin Eden, por favor, não é apenas a história amorosa e aventureira de um marinheiro alçado ao fervor das palavras, estas que já sentia suas mesmo antes de deparar com o insólito universo liberal dos letrados. É antes um filme-estudo sobre a promissora ascensão socialista, que logo cederia lugar à Primeira Guerra, fagulha a acelerar a mais nova, infame e persistente ameaça à igualdade, o fascismo.

Jack London acolhia as ideias de Spencer, bem explicitadas neste filme, e traduzidas pelo escritor numa espécie de socialismo utópico que deveria ser conduzido por indivíduos fortes como ele próprio. Este indivíduo político que London lutou pra ser durante seus intensos 40 anos de vida e uma literatura tomada pela paixão que contamina, rasga e exaspera os sonhos, acabou um dia, adivinhe, a se diluir na autoimagem condescendente estadunidense, aquela segundo a qual a todos em sociedade se dá a oportunidade de tornar-se o que bem projetar. De pensador temperamental em prol da justiça social, Jack London, melhor dizendo, sua aura pública, foi então aos poucos associada a uma imaginária essência voluntariosa e benéfica do capital competidor.

Em que pese o fascismo

Minha alegria diante deste filme nasceu primeiramente disto, de ele não se deixar cooptar por nenhum capitalismo. Não reconstrói Martin Eden para o bom palato estadunidense. O homem foi e será para sempre muito difícil de engolir, nos diz. Bruto, verdadeiro. Antiliberal. Para dar conta de seu protagonista, o diretor e roteirista do filme (junto a Maurizio Braucci), Pietro Marcello, chamou o forte ator Luca Marinelli, de longo nariz e olhos azuis. Ele é Martin porque é o Éden também. Um ator para fortalezas e nuances.

Com Elena (Jessica Cressy), sonho azul
Com Margherita (Denise Sardisco), um vermelho furor

Ele briga, ama, peleja na siderurgia, envia mais e mais originais às redações, sempre rejeitados, quer bem à irmã como London também quis, para só depois de muita humilhação e acolhimento proletário se tornar um profissional sem qualquer escusa, sem jamais aceitar o posto no escritório que lhe apontava sua noiva rica, ilustrada e delicada para palavrões.

A imensidão que engendra a revolução

O filme perturba os tempos. A indefinição de onde nos encontramos, dentro dele, é uma de suas porções adoráveis. Quando proletário, Martin Eden é também o mundo dos pobres italianos desde as greves piemontesas até aquele dos anos 1970 em que a televisão se infiltra aos poucos como adorno principal unificador. Quando se mete entre os ricos, o filme penetra facilmente no século 19 onde esta história começa, com seus salões vastos e sua preciosa decoração imperial. Você nunca perceberá exatamente em que ano estará, exceto quando descobrir que é este o jogo do filme, desenraizá-lo até que atinja a realidade dolorosamente imutável de nossos próprios tempos de desilusões.

Nápoles para marinheiros

Ambientado em Nápoles, que espertamente substitui a fria Oakland do livro, Martin Eden fala principalmente sobre a fúria heróica que acometeu o italiano no pós-Segunda Guerra. Um heroísmo fatalmente sucedido pela vilania pequeno-burguesa (bem pequena) do boom econômico, segundo a forma cinematográfica paciente com que Mario Monicelli a descreveu. É isto mesmo o que parece. Por vezes o belo ator Marinelli adentra o terreno abraçado por Alberto Sordi na dura commedia all’italiana… Estará ele a reviver o jornalismo idealista e o ardor militante fulminados pela paixão impassível de Uma Vida Difícil, de Dino Risi? Toda a parte final do filme é um grito do grotesco que acomete os bem-sucedidos, todo o épico do horror cômico em que os sonhos findam…

O mar que marca

E isto tudo com tamanha textura nas imagens, uma granulação a evocar os impressionistas, o azul sobressaído, os homens a se movimentar na multidão!

Que filme surpreendentemente atual com que gastar suas horas tristes.

MARTIN EDEN
Diretor: Pietro Marcello
Itália, 2019, 129 min
Onde: bit.ly/2EKJJx8 [até 10/9]

Ninguém derruba a história

“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original

As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni

“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.

O diretor Antonio Pietrangeli

Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.

Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.

Duas almas contra um especulador

Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.

E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…

No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.

Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.

Vittorio Gassman é o pintor
diante de uma Sandra Milo que se
suicidou por amor

À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpetonne, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.

Com eles ninguém pode

Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.

A polêmica é o cinema

Thandie Newton em “Assédio”,
de Bernardo Bertolucci,
no Belas Artes à la Carte

Mais uma de minhas resenhas para a página Histórias de Cinema. Em “Assédio”, de 1988, a cultura europeia de Bernardo Bertolucci ganha mais uma batalha

É cinema. Do primeiro ao vigésimo minuto, ninguém fala. Estamos na África armada. Pelas paredes, o desenho da luta política. Um homem canta na rua, como se gritasse um saber. Na escola, o professor sorri ao evocar a diferença, descrita em gestos, entre um líder e um chefe. No mais, é um cerco. A mulher do professor sofre a perseguição nas linhas e entrelinhas de seu corpo. Seu povoado não tem chance, exceto a de submeter-se.

Cinema. Dizer sem dialogar. Gestualizar o infortúnio. Tornar o movimento incessante. Depois da África, Roma. A mulher do professor (Thandie Newton) estuda medicina enquanto trabalha como doméstica para um pianista (David Thewlis). Ele a persegue porque diz amá-la. De resto, não sabemos mais do professor africano. O personagem é uma evocação, preso enquanto a mulher ora triunfa, ora se atormenta em terra distante. O título no original inglês está correto, pois se trata de cerco para captura, transcorrida por meio de duelos musicais. Ela rejeita o patrão porque não entende sua música. Mas um dia irá vivenciá-la.

Cinema, por certo. Mas é um bom filme? Aqui, duas culturas abraçam um coração feminino. E o que salta à vista é o esforço heróico do homem branco para adentrá-lo. Bertolucci gosta de heróis. Trabalhou com Pasolini e idealizou um cinemão neorrealista exacerbado, a ponto de conduzir o estupro num filme, de modo a se beneficiar dessa intensidade. Em ASSÉDIO, a cultura europeia ganha uma importante batalha. Você consegue aceitar esta premissa? Então se trata de um bom filme e cinema dos bons.

ASSÉDIO
Diretor: Bernardo Bertolucci
Itália/Inglaterra, 1998, 93 min

Onde ver
https://bit.ly/31fcvyv

Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini

Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.

Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

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“É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados”

HIERARQUIA

Pier Paolo Pasolini, 1971

Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.

 

Depois o incógnito.

Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer

(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho

é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,

e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.

A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)

Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,

a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.

 

Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –

Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida

(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.

De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –

É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)

Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.

 

Pietrangeli, cineasta das mulheres

Mastroianni, Magali Noel, Simone Signoret: os vis são eles

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS
por Rosane Pavam

(republicado do site Histórias de Cinema)

Repare nas mulheres deste filme. Cada beleza é uma fortaleza diante dos homens. E repare nos homens, até em Mastroianni. Todos vis.

Você sai de “Ádua e Suas Companheiras” (1960) sem confundir os personagens porque se trata de um filme de Antonio Pietrangeli, nítido, belo, triste.

Ele aqui ainda não tinha se tornado um dos grandes da commedia all’ italiana, resposta do cinema ao teatro medieval da fria essência humana. E detestava este filme talvez por não ser, neste sentido, “cômico”.

“Ádua” ainda correspondia ao neorrealismo heróico. Pietrangeli sabia disso porque trabalhou como assistente de Visconti e lutou pelo movimento quando se tornou crítico de cinema, depois de cursar medicina.

Ele queria mais, bem mais que a Cabíria de Fellini, encenada três anos antes. Era o diretor das mulheres. Estava no mundo em breve passagem para mostrar o abismo diante delas, seus corpos trágicos insubmissos.

Neste filme, elas habitam o bordel de Simone Signoret, florido por Magali Nöel e firmado por Emmanuelle Riva no papel de mãe. Mas Signoret não é aqui a Joan Crawford de “Johnny Guitar”. Não há redenção para ela, embora tudo o que o cinema peça esteja lá, como esteve em Mizoguchi: um fruto da criação do espaço público para discutir nosso destino circular, em eterno retorno a seu início.

Rosane Pavam é doutora em História Social pela USP com a tese “Retratos do Épico Cômico: Totò, De Sica e a commedia all’italiana”

ÁDUA E SUAS COMPANHEIRAS

Diretor: Antonio Pietrangeli
Itália, 1960, 106 min

Disponível na Amazon Prime Video

Pasolini em Recife

Pier Paolo Pasolini (1922-1975) não teve tempo para desenvolver a ideia, mas planejou estudar o Terceiro Mundo por meio de sua obra. De volta à Itália, na companhia de algumas pessoas, dentre as quais Maria Callas, depois da apresentação de “Medeia, a feiticeira do amor ” (1969) no Festival de Mar del Plata, o diretor fez uma escala no Rio de Janeiro e de lá rumou para Salvador. O avião que ocupava pousou de emergência no aeroporto do Recife na viagem de ida, em 13 de março de 1970. Enquanto aguardava a nova hora de partir, o diretor escreveu o poema a seguir, traduzido ao português por Mariarosaria Fabris.
 
 
pasolini na africa
COMUNICADO À ANSA (Recife)
 
Porque é um fato de crônica, começa
com um pouso de emergência no Recife.
Aqui chove; no aeroporto em construção, passando diante de um grupo de peões que trabalham, olhos se erguem para os passageiros.
É assim que o Brasil me saúda.
Retribuo a saudação com meu coração burguês
que já sabe o que recebe pelo que doa.
Nesses bancos desolados, à espera de um novo avião, de emergência, não há nada de novo: eu sei quais as novas.
O corpo não banhado e a melancolia.
Minha companheira com sua ansiedade, no morno ar da chuva,
e sua sede de graça: cegada para sempre –
este peso que nós, burgueses, carregamos no coração
por tudo o que não sabemos e a ânsia de louvores,
por isso a vida nos cobre como uma veste úmida e suja,
e os poucos momentos de felicidade logo viram lembranças,
e nos vangloriamos; e o peso aumenta,
as chagas de um insucesso obrigam a calmarias consoladoras,
a cômicas levantadas de ombros,
a hilaridades superiores,
lá sentados nesses bancos desolados do Recife.