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Os Nickel Boys e o império subjetivo da humilhação

O império da subjetividade reconta a grande humilhação sofrida pelos negros estadunidenses durante a segregação. “Nickel Boys”, candidato ao Oscar 2025 a melhor filme e melhor roteiro adaptado, nasceu da obra homônima do escritor Colson Whitehead, de 55 anos. Vencedor do Pulitzer em 2020, o romance se apropria de elementos de um massacre real de jovens negros na Flórida, durante a vigência das leis Jim Crow, entre 1877 e 1964, para ilustrar a segregação assassina no Sul do país.

Ponha de lado o afrofuturismo. Esqueça por enquanto a beleza negra que empossou reis e rainhas ancestrais. Há menos da brilhante África aqui e mais da realidade ocidental nos Estados Unidos, onde historicamente a vida negra careceu de importância. Ao inverter o caminho interpretativo escolhido em anos recentes, o diretor RaMell Ross (um estadunidense de 42 anos nascido na Alemanha) promove menos agência ou resistência por parte dos pretos e mais descrição da brutalidade sofrida por eles. 

Os jovens negros do reformatório Nickel só têm quatro possibilidades de escapar do inferno, diz o personagem Turner (Brandon Wilson): a improvável saída pelos tribunais, o cumprimento integral da pena injusta, a fuga e a morte. Turner conclama o colega interno Elwood (Ethan Herisse) a fugir. Um filme dentro do filme, do qual vemos sequências durante esta narrativa, é aquele protagonizado por Sidney Poitier e Tony Curtis em 1958, “Acorrentados” (The Defiant Ones), a contar a fuga de dois presos inicialmente rivais.

Elwood resiste à fuga porque acredita no estado de direito, na possibilidade de defesa, especialmente na intensificação da luta, conforme ela vinha sendo travada pelo líder Martin Luther King, cujos trechos de discursos também vemos no decorrer do filme. Elwood leu Jane Austen. Aluno exemplar em Tallahassee, ele partia para uma bolsa universitária quando se viu injustamente preso no Nickel, onde nada de bom esperava pelos menores segregados. 

Para narrar tudo isto, a câmera é subjetiva sempre, com muitas sequências feitas na mão. Mas o subjetivo varia conforme a história anda. Quando a narrativa é em tempo real, quem vê o que se passa é Elwood. Quando a narrativa se passa no futuro, a coletar memórias, a câmera subjetiva é de Turner, que, na sua representação adulta, curiosamente cita a aparência atual do escritor Whitehead.

A escolha por menos ação e mais poesia, em muitas sequências belamente fotografadas, é ousada para encenar o livro. Às vezes a câmera subjetiva funciona bem, como na sequência inicial, onde Elwood está desaparecido da visão familiar. Dentro do reformatório, contudo, quando se alterna entre Elwood e Turner, dois meninos imersos na atmosfera do movimento pelos direitos civis e da conquista da Lua, ela não parece contar a história muito bem. 

Ouvimos ecos, experimentamos distâncias e sentimos cada vez menos envolvimento durante as duas horas e vinte minutos do filme. Há, contudo, boas reconstituições dos anos 1960 na direção de arte e na fotografia, que às vezes cita Gordon Parks. A trilha sonora, o jazz, sublinha a imersão subjetiva pretendida pelo diretor. Os dois protagonistas são bons intérpretes, assim como Aunjanue Ellis-Taylor, no papel da avó Hattie, e Hamish Linklater, como o cruel diretor Spencer. Talvez o que falte ao filme seja justamente uma intenção realista, menos palavras e mais timing ao suceder fatos tão cruéis.

“O brutalista” é “emocionalista”, e o sonho acabou

A parte de que mais gosto em “O Brutalista” é aquela na qual o filme candidato ao Oscar 2025 não hesita em sua conclusão moralista sobre o sonho americano. Para este longa-metragem (de quase quatro horas) dirigido pelo estadunidense Brady Corbet, de 36 anos, o sonho nem mesmo existiu. Foi um anti-sonho e acabou.

O caminho encontrado por Corbet (ator em “Violência Gratuita”, que o alemão Michael Haneke realizou em 2007) para dizer sua crença é tortuoso. Ele vai até a Hungria do pós-guerra, acuada pela União Soviética, em 1947, para decretar não haver chance de os judeus fugidos daquele inferno conseguirem uma vida plena nos Estados Unidos. Mais bem-vindos seriam no recém-criado estado de Israel, talvez…

Tudo se complica durante a narrativa longuíssima. Depois da Segunda Guerra, a Hungria, ocupada pelos soviéticos, é forçada a limitar-se a suas fronteiras de 1919. E, sob a liderança stalinista de Mátyás Rákosi, o país europeu impede a liberdade de atuação a qualquer artista inovador. Enquanto isso, os Estados Unidos, que haviam vencido os nazistas sob o comando aliado, parecem oferecer, a um perseguido desse universo, um destino promissor.

O arquiteto Laszlo Toth em fuga, interpretado pelo ator estadunidense Adrien Brody, vai então experimentar a liberdade possível no país, depois de vencer uma difícil travessia marítima. Contudo, os Estados Unidos não parecem compreender este judeu húngaro que tanto sofreu nos campos de concentração – e, além disso, sob o stalinismo. Sem que ele espere por isso, os EUA segregam suas aspirações. 

Advindo brilhantemente da Bauhaus, a escola alemã modernista de arquitetura e design fechada pelos nazistas em 1933, Laszlo Toth se conforma a uma subexistência no país livre, até deparar com um surpreendente caminho de prosperidade. O milionário Van Buren, interpretado pelo inglês Guy Pearce, quer que ele construa um centro cultural cristão em homenagem à mãe. 

Toth, como sabemos, é judeu (surge até mesmo em oração durante algumas sequências do filme), mas tentará dar o máximo de si no trabalho religioso alheio. E isto porque precisa, a todo custo, trazer a mulher Erszebet (interpretada por Felicity Jones) e a sobrinha, ilhadas na Europa, para junto de si. Van Buren, contudo, o decepciona seguidamente. O profissional se vê extirpado de seu desenho arquitetônico fundado no concretismo. Ele queria evocar, no projeto, as grandes paredes de seu enjaulamento em um campo de concentração.

Vilipendiado, o arquiteto se torna violentamente emocional. Seria melhor chamá-lo de “O emocionalista”, então? As discussões que trava com o mestre de obras, de tão incongruentes, parecem verossímeis…

Difícil mesmo é ver Brody como o arquiteto neste filme. Ele mais se parece com o empreiteiro, quiçá com o sindicalista dentro do canteiro de obras. Seu coração vive de se rasgar, assim como o próprio corpo, diante da indiferença do mentor milionário de seu projeto.

Neste filme protagonizado por um ator que representa a vívida imagem da desesperança, mais é mais e deus não está nos detalhes. O final à moda de “O Grande Ditador” faz de Brody um Charles Chaplin na versão mais simples, inconformado com a perda de seu amado Rosebud. 

“A Substância”, a pipoca e o terrir

É necessário ter paciência para encarar a onda de filmes que gastam tanto tempo pra dizer tão pouco. 

“A Substância” tem duas horas e vinte minutos de duração. Duas horas e vinte minutos em que os efeitos especiais, as maquiagens e as caracterizações monstruosas progridem de maneira incrível. Mas a história, essa estaciona na metade, quando a apresentadora de tevê interpretada por Demi Moore, demitida por ser considerada velha demais, descobre uma fórmula para duplicar-se, passa a ser jovem e velha a um só tempo e, por falta de equilíbrio, começa a se dar mal nas duas transfigurações de sua vida.

Tudo isso, mais a ousadia de simular as simetrias, os corredores e as imensas salas que o diretor Wes Anderson copiou do Stanley Kubrick de “2001”, fazem deste filme um caso especial. A música de Richard Strauss, que é uma sacada de Kubrick no seu filme de 1968, vira um penduricalho ao fim deste “A Substância”, como se a cineasta francesa Coralie Fargeat, de 58 anos, candidata ao Oscar de melhor direção, quisesse fixar sua referência principal no velho Kubrick. (De pretensão também se vive.)

Se tivesse uma hora, “A Substância” seria bom? Vai ver que não. Ele precisa de muito tempo para ser o que já é, uma grotesqueria arredondada, polida como no filme “Barbie”, com toda a misantropia a dar o tom. Dennis Quaid, por exemplo, interpreta um patrão escroto, mas com os maneirismos do pianista gay Liberace. Pelo jeito é assim, hoje em dia, que se caricaturiza um machão.

“A Substância” é o grotesco entregue aos lares do streaming. Um grotesco aprofundado conforme a trama se passa e que, infelizmente, põe o filme a perder. Uma tendência, aliás, que se verifica abundante nesta “safra Emília Pérez” dos candidatos ao Oscar 2025: na primeira hora, o diretor arruma as premissas; na segunda, trata de derrubá-las.

É um filme de horror ou de comédia? Eu ri bastante no fim. Não são assim os filmes em que os adolescentes dos Estados Unidos vão a um acampamento, decidem sair à noite e dão de cara com o Freddy Krueger ou a serra elétrica? Um horror risível – ou, como dizia o diretor brasileiro Ivan Cardoso, um “terrir”. Mas, no caso de “A Substância”, um terrir chique, embelezado por pingentes de safira e sapatos Louboutin a enfeitar as atrizes.

Não é um filme para criticar os padrões da beleza juvenil a esmagar as mulheres maduras. É um filme para acabar com todas as mulheres, jovens ou velhas. No mundo de garanhões efeminados, não sobra nada para a mulher ser, se a gente levar “A Substância” a sério (e talvez devesse).

Demi Moore, candidata ao Oscar como melhor atriz, está muito bem em seu papel, consideradas as circunstâncias. E, ao contrário do que imagina, possivelmente ela seja uma das melhores intérpretes “pipoca” disponíveis, o que não representa um demérito. A “pipoca” a que um agente a condenou no passado, e que tanto a magoou, a ponto de ela destacar o fato no discurso de agradecimento por seu Globo de Ouro, é uma qualidade rara e bem-vinda no cinema. Não é fácil destacar-se, para o bem, em filmes populares medianos ou ruins. 

Só acho que Margaret Qualley, que interpreta o duplo de Demi, mereceria uma indicação ao Oscar também. É uma atriz de muitas qualidades, que pode ir da garota ingênua e sensual à francamente desesperada e má, com a devida densidade de drama e humor.

Objeto não identificado

Perguntei ao moço da copiadora se seria possível imprimir as páginas do meu arquivo no tamanho meio A4, mais ou menos. Expliquei que queria poder folhear o texto encadernado, como se faz com um livro.

– Não sei se entendi – me respondeu.

Resolvi imitar o gesto de quem folheia um livro.

– Tá dando pra entender assim? – perguntei.

– Não – respondeu, depois de assistir à minha mímica com uma interrogação nos olhos.

    Deixei então ele fazer como sabia. E cheguei em casa com um calhamaço tão grande que vou entortar o pescoço pra usar.

    Porém isto não é nada diante da minha leve suspeita de que o moço da copiadora não sabia como funcionava um livro.

    Fernanda Torres matou “Wicked” a pau

    Eis um filme tão longamente ruim que é mesmo um milagre ver a atriz/cantora/compositora Ariana Grande sair ilesa de toda a confusão. Fernanda Torres, nossa Queridinha em Hollywood, está certa. Grande é grande coisa nele. Eu diria que a coisa melhor. 

    O filme musical do estadunidense Jon M. Chu, um graduado de 46 anos da University of Southern California (USC), percorre a travessia Broadway-Hollywood com vestimenta queer. Em “Wicked”, candidato em dez categorias neste Oscar 2025, invertem-se os papéis, e o mal representado por Cynthia Erivo, a bruxa verde do Oeste, é em verdade o bem – do mesmo modo que Joan Crawford, a vilã que batia na filha com o cabide, vem a ser lembrada com carinho pela comunidade marginalizada queer dos Estados Unidos. 

    (Às vezes parece difícil entender esse processo, mas a gente chega lá se pensar e pensar. Empoderada, Joan Crawford passou o rolo compressor nos homens, em Hollywood e na vida. A filha mais velha, adotada, acreditava até que a mãe envenenou o marido, dono da Pepsi! Mas, hey, só com muito talento e uma ruindade no coração glamuroso seria possível, então, vencer o machista opressor… Pioneira!)

    “Wicked”, adaptação cinematográfica do musical homônimo da Broadway inspirado no livro de Gregory Maguire “Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West”, exagera o estilo de cenários de “Barbie” para refazer, com sinais trocados, o muito divertido “Legalmente loira”, de 2001. Ariana Grande (Glinda) cita a personagem de Reese Whiterspoon: ela entra na universidade de bruxaria (oh, Harry Potter) e não tem dúvida de que se destacará. Mas será mesmo assim?

    Nada podemos concluir por enquanto, já que este pesadelo de 2 horas e 40 minutos ainda precisará de continuação. Aparentemente, nossa nova Loira Legal provará ser do bem, contra a Joan Crawford Verde do Oeste, que, ressentida, fará o povo de Oz saudar o fim de seu reinado, como os judeus fizeram no crepúsculo nazista. 

    Sim! Oz, interpretado pelo impagável Jeff Goldblum e assessorado por Madame Morrible (Michelle Yeoh), quer reinar na divisão, é um Hitler de pele morena. Ele até mesmo destitui o professor de História, interpretado por um bode velho com a voz de Peter Dinklage, que será engaiolado, assim como outros “bichos” deportados. 

    Sim, o historiador é mostratado como um bode velho no filme. Esta representação, o longa “Meninas Malvadas” (2004), com o qual “Wicked” tantas vezes quer se parecer, não ousou fazer. E isto é bom ou mau? Por certo, a História é tudo o que os nazistas querem eliminar e bodes rendem ensopados, mas ainda não podemos saber. 

    Quando Fernanda Torres avistou Ariana Grande, que a procurara no tapete vermelho de um evento pré-Oscar em Santa Bárbara, imitou seu “toss toss” como um sinal de apreço por sua interpretação no filme, e as duas se abraçaram em elogios mútuos. “Toss toss” é a jogada do cabelo comprido para trás, de um lado a outro, encenada por Ariana Grande para empoderar o charme de seu personagem aos homens. Pela voz brilhante, pelo ótimo timing de sua comédia, quiçá por efeito da montagem que percebeu tantas qualidades, sua atuação como Glinda é de longe a principal, a mais atraente do filme. Os lábios de Cynthia Erivo são belíssimos, e é uma pena que eles não lhe ajudem a interpretar a outsider com a convicção e a fortaleza quiçá merecidas.

    “Conclave”, cinemão tímido

    Fui com sede a este filme porque, principalmente, desejei ver Roma por meio dele, os interiores do Vaticano, a atmosfera, a arte. Em parte vi. Também procurava por Isabella Rossellini naquele ambiente que é o seu, afinal. E ela se sai bem (indicada a atriz coadjuvante neste Oscar 2025) como madre superiora a exercer uma autoridade restrita nos bastidores do poder eclesiástico masculino. Sua face fala, ainda que por pouco tempo. Outros três atores, bastante manjados e bons, quem sabe pudessem surpreender.

    Eis que não. Eles representam cardeais, reunidos para escolher o novo papa, à moda de suas aparições em filmes anteriores. Stanley Tucci interpreta o mesmo articulador situado em segundo plano (como aconteceu em “O diabo veste Prada”). Ralph Fiennes, indicado ao Oscar de melhor ator, lidera uma grande empreitada, por vezes enfurecido com os outros e consigo mesmo em razão disso (como em “A lista de Schindler”). John Lithgow tem um lado obscuro que acaba por se revelar (“Um tiro na noite”). Para quem acompanha cinema italiano, Sergio Castellitto (“Romeo è Giulietta”) é barbada como picareta cômico, um cardeal que quer devolver o papado aos italianos reacionários. Em razão dessas escolhas, quase adivinhamos o desenrolar da história, que na verdade surpreende ao fim, mas não pelo bem da narrativa. Uma questão contemporânea, ligada a gênero, é colocada sem sutileza na narrativa. Pior que isso, a armação política que elegerá o papa parece inverossímil. 

    Também fui ver “Conclave” porque sentia certa saudade do cinemão que já foi a cara do Oscar. E Edward Berger, o cineasta de 55 anos, havia dirigido “Nada de novo no front” (Oscar de melhor filme estrangeiro pela Alemanha, em 2023) com razoável empenho. 

    Minha saudade continua. Tenho concluído que o tipo de filme pelo qual espero não pode mais ser feito. Ou não com a mesma força. Aquelas peças a respeitar certas leis clássicas de apresentação da história, com protagonistas, antagonistas, um forte ponto de vista político e bom suspense, não se repetem. “Conclave”, candidato ao Oscar 2025 pelo Reino Unido e Estados Unidos, é morno demais.

    “Anora”, uma borboleta feliz da comédia

    Que caldo divertido o diretor Sean Baker nos serve em “Anora”.

    Aos 53 anos, o estadunidense que se formou em artes pela Universidade de Nova York é uma espécie de erudito pop da cinematografia dos Estados Unidos. Seu filme, que ganhou Cannes no ano passado e concorre a melhor filme no Oscar 2025, tem um pouco de tudo, a nos fazer recordar deliciosamente as obras icônicas da comédia romântica. 

    Dá-lhe irmãos Coen (qualquer filme em que um bando de sem-noção se prepare para uma aventura), dá-lhe o Scorsese de “After Hours”, os anos 1980 de John Hughes e Chris Columbus, o Billy Wilder de “Sabrina”, “Pretty Woman” e as comédias da Hollywood dos anos 1930 pré-código Hays, em que o casamento era a única situação a salvar uma mulher… Quanto mais você tiver visto cinema, mais referências vai achar neste filme, e será uma diversão a mais encontrá-las enquanto ele passa.

    Os atores excelentes têm em Baker um condutor que não deixa o ritmo da orquestra cair. Mikey Madison (intérprete de Sadie em “Era uma vez em… Hollywood”, de Tarantino, e candidata a melhor atriz neste Oscar 2025) empenha-se e desempenha, sem que haja dúvida sobre seu protagonismo, entre o suspiro da mocinha e a audácia da mulher. 

    Mergulha-se aos poucos na trama, a envolver trapalhões perdedores muito engraçados. Ao contrário do que tem sido a maioria dos filmes relacionados em várias categorias deste Oscar, “Anora” não descamba passada a primeira hora. Pelo contrário, começa suave como um “Gatinhas e gatões” e vai ramificando o sonho de uma dançarina erótica a uma sucessão de decepções e descobertas.

    Toda vez que uma boa comédia é lembrada a uma premiação de porte, uma borboleta bate asas feliz no porão do cinema. 

    Embarque.

    Flow, dilúvio arrebatador

    Expressar sem dialogar, eis o saber primordial do cinema, infelizmente em falta nos últimos tempos. Um filme sem palavras exige do diretor o domínio da fisicalidade, da poética da síntese, para que o sentido possa emergir. “Flow”, candidato da Letônia aos Oscars 2025 de melhor filme internacional e de melhor animação, faz isso a partir da imitação da corporalidade da natureza e dos animais. E diz muito, sem falar.

    A palavra “flow”, do original em inglês, pode significar vazão tanto quanto fluxo. Flow, neste filme, representa os dois. Um fluxo tão intenso (de água, de inconsciente, de ideias) que transborda em criação. 

    Seu diretor de 30 anos, o letão Gints Zilbalodis, usa os animais para passar mensagens, como fazem os fabulistas. Os principais recados do filme dizem respeito à solidariedade (entre espécies diferentes que precisam se ajudar carinhosamente para sobreviver) e à finitude (são belamente surreais suas representações da morte e das ruínas, estas que indicam vestígios da antiga presença humana).

    Trata-se de um criador em fluxo e em forma, a conduzir uma animação em 3D de 3,6 milhões de dólares que às vezes pode parecer muito filtrada, estilizada dos contornos de animais reais, mas que é imbatível quando mimetiza os movimentos. Por meio de sua direção, os animais-personagens ganham a rapidez da vida. Só assim o gato protagonista de Zilbalodis (o diretor roteirizou o filme ao lado de Matiss Kaza), além de sete existências, pode exibir um milhão de olhares.

    A essa narrativa que por vezes parece reproduzir as situações encadeadas dos sonhos, juntam-se uma sonoplastia precisa e a dublagem das expressões vocais dos outros bichos presentes, como o cachorro, a capivara, o lêmure e o pássaro-secretário. E assim, sem ouvir uma palavra sequer, sentimos o fluxo de um dilúvio arrebatador. 

    A garota da agulha, a mesma dor

    O título diz bastante. Mas a gente sempre espera que diga mais. “A garota da agulha”, candidato ao Oscar de melhor filme internacional de 2025, escolheu dizer menos.

    Menos, ou uma coisa só. 

    A dor da opressão.

    Trabalhado a partir da concepção geral de um thriller, o filme dinamarquês dirigido por Magnus Von Horn, de 41 anos, acaba por se desenvolver como uma dramaturgia de telenovela em torno dos excluídos no início do século 20. Os closes dialogam sob um filtro instagramático em preto e branco, evocando tanto o início comercial da fotografia quanto a explosão industrial que acumulou o proletariado em becos úmidos.

    O filme se passa logo após a Primeira Guerra, inspirado em um fato real a envolver uma mulher que acolhia bebês abandonados. A fotografia parece em muitos momentos citar as imagens pioneiras do alemão August Sander (1867-1964), que retratava trabalhadores e outsiders como personagens centrais, a contrastar com a barbárie em torno. 

    Em fotografia, não há sombras que não possam ser iluminadas, dizia August Sander. E Von Horn segue seus princípios. Ele leva uma luz estruturada e nítida também sobre as ruas estreitas nas quais pelejavam os operários escravizados da indústria têxtil e os homens do circo.

    Neste cenário de espetáculo, uma jovem operária se apaixona pelo dono de fábrica que a rejeita quando engravida. Tudo piora mais e mais para ela, seu desespero embebido em éter, sem que nós, os espectadores, conheçamos os subtons de humor que poderiam alternar-se com os da dor constante. Talvez a mudança ritmada de climas ajudasse a temperar o mistério, à moda do que acontece em filmes de mestres do gênero, como Roman Polanski. (Nada de “O inquilino” por aqui.)

    A “garota da agulha” (assim chamada, entre outras razões, porque trabalha com costura na linha de produção) vai arrumar emprego com uma senhora que anuncia mediar bebês rejeitados a novas famílias – e já suspeitamos por onde, ali, habita um novo terror. Os atores, até os infantis, parecem ter muitos recursos para entrelaçar esse mote. A narrativa é que vai usá-los acentuadamente numa só direção.

    O problema aqui parece ser mesmo essa iluminação constante, a busca desesperada por clareza, quando a atmosfera histórica retratada era turva, a ponto de um diretor como W. H. Murnau (1888-1931) tê-la explorado tão bem sob as sombras. 

    Um Iluminado em farsi, com a mão pesada de deus

    A mão pesada de deus. Persépolis vai à luta, com Mickey desenhado no casaco. “A semente do fruto sagrado”, longa-metragem candidato a melhor estrangeiro no Oscar 2025, tem de tudo isto, um pouco. É um recado, mais que um filme. Seu diretor, o iraniano Mohammad Rasoulof, de 52 anos, precisou fugir em maio de 2024 para a Alemanha, por onde lançou o filme, já que o governo iraniano o condenara a oito anos de prisão e chibatadas ao saber da aceitação da obra pelo Festival de Cannes.

    Em “A semente do fruto sagrado”, gritam as emparedadas pelo regime, as mulheres iranianas que não suportam mais consentir no próprio apagamento. Uma sociedade afundada em teocracia, que confunde lei com providente desígnio, cria ratos executores, e é preciso dar um fim a isso, elas vêm nos dizer.

    Como no caso de “Emilia Pérez”, este é um longa de quase três horas em que a primeira parte promete um trunfo. No caso, aqui, o da atenta observação psicológica dos personagens e suas ações. Pouco se julga e mais se mostra neste início narrativo, como acontece na grande arte do suspense. Há uma sombra que só desaparece quando surge a luz sobre os olhos de cinema mudo das jovens. Há um conforto nas mãos da mãe, que envolvem os aflitos e lhes secam feridas, enquanto seus lábios finos proferem ânimo e consolo.

    As filmagens feitas pelo celular e incluídas no decorrer da trama dão autenticidade ao que vem sendo discutido. Nos protestos filmados, os jovens exigem um basta à opressão feminina no país, reivindicando uma revolução contra a teocracia vigente. Os reels exibidos no longa referem-se aos protestos de 2022, quando uma menina curda de 22 anos foi morta pela polícia moral por usar um hijab fora do lugar. Uma espécie bonita de balé acontece nesse ponto de “A semente do fruto sagrado”, para logo então sumir. Não há espaço para o suspense crescer, visto que o tempero do clímax se entranha em tudo o que é narrado.

    O chefe da família precisa descobrir quem surrupiou seu revólver de serviço, guardado na gaveta do cômodo ao lado da cama, ou perderá a chance de se tornar juiz. Pior que isso, pegará três anos de prisão. Ele vai sendo convencido, por seus superiores, de que a família o traiu. De repente, sem dominar as lições de suspense de Stanley Kubrick, o diretor Mohammad Rasoulof parece querer repetir “O iluminado” naquela paisagem desértica de ruínas onde o personagem do pai enlouquece, mas acaba em uma sequência de embates de dar dó em Chuck Norris.

    O grotesco venceu. É o gosto geral. Nada contra ele, claro, especialmente quando bem feito, bem-humorado, socialmente demolidor. Roger Corman, por exemplo, sabia fazer. Descobriu Jack Nicholson! John Waters tinha Divine. Há um grande perigo em tentar reviver a Hollywood dos anos 1970 e 1980 quando se deseja aplicá-la a assunto externo tão fundo e difícil. No fim das contas, tem-se a impressão de que o Oscar enaltece o filme por razões políticas.