Higienópolis, shopping Higienópolis, a sacola do sonho acabou

Uma amiga veio de passagem ao Brasil e quis me ver antes de voltar para a casa estrangeira. Conhecedora de São Paulo, onde morou e trabalhou por anos, desta vez ela pareceu receosa de me visitar no centro, como se fosse uma turista recente, porém avisada dos perigos do subdesenvolvimento. Marcamos então um almoço em região acessível a ela, Higienópolis.

Embora eu não more assim tão longe do bairro, é como se nós dois, o bairro e eu, nos medíssemos em léguas, corporalmente avessos, mentalmente distantes. Esses lugares de São Paulo onde mora a gente de bem, eu os entendo assustadores. Estudei como bolsista em colégio de rico, conheço o pessoal e, em sua maioria, para resumir, não sou fã. Eis por que Higienópolis, para mim, é o lugar de ricos (ou dos quase ricos, ou dos donos temporários do dinheiro) aonde vou apenas quando tenho de me consultar com o otorrino do convênio na Angélica, essa espécie de avenida off dos higienopolistas.

É um bairro bonito? É histórico. A beleza, a história lhe dá. Os casarões dos barões, dos mecenas, a arquitetura dos grandes, isso a gente sorve bem. Tudo conservado em alguma medida – das cercas para dentro, quero dizer. Porque o abandono existe naquela área da cidade sempre quando a vemos sob o ponto de vista público. Testemunhei ruas alagadas nas ladeiras e, ao percorrê-las, os homens pretos carregavam os mesmos cartazes de papelão nos quais, aqui no meu centro, sinalizam a vontade de comer.

Andei por quarenta minutos de casa até o shopping onde iria almoçar. Um percurso embranquecedor, do relativo miserê ao nariz alto. Quando cheguei ao restaurante do shopping, agradeci pelo ar condicionado, que secou o suor vexaminoso em meu vestido. Estar ali com minha amiga era como pular na piscina azul, splash das alegrias da infância. Nem sei dizer o quanto anima meu coração sentir sua proximidade. Meus amigos estão espalhados pelo mundo, Jamaica, Índia, Grécia, Vila Olímpia, não sei mais o que fazer para conversar com eles e desfrutar decentemente de nosso amor! Ainda bem que desde alguns anos meus queridos de todo dia são vocês, embora a gente só se veja pelas redes sociais. Mas nos temos, certo? Agradeço tanto.

Pois então. Higienópolis. Shopping Higienópolis. A coisa ali é mais funda do que apenas não haver negros entre os consumidores. (Ou dei um azar danado de não ter localizado nenhum, ao contrário do que ocorre em qualquer loja, shopping ou restaurante da região onde moro.)

No Higienópolis, parecem-se todos, ou a maioria deles, consumidores extraídos da própria existência. E, por isso, birrentos, à espera das respostas que ninguém será capaz de lhes dar. Assemelham-se a galhos secos vestidos nas sandálias de cor creme. Desfilam com três ou quatro sacolas nas mãos. Três ou quatro! E brigam com as vendedoras de sapatos quando apenas gostariam de ser ouvidos por elas. Enquanto isso, as lojistas sorriem para nós como se pedissem ajuda. Elas, consumidoras (os cabelos curtos se velhas, longos se jovens), têm o coração empapado de promessas não cumpridas. Simulam que existem, achei, até concluir que simular resume seu modo de existir.

Vi principalmente solidão no shopping. Vi uma dor. Tá, concordo que isso não deveria me sensibilizar. Eu sei que naqueles vestidos lima-siciliano de linho moram criaturas rasas sem asas, a tiranizar seus cachorros acomodados em carrinhos de bebê. Sei que, além de nossa alegria, os seres sem asas tiraram a dos cachorros também. Sei que engoliram tudo, toda a esperança de justiça social, enquanto emagreceram mais e mais, assegurados pela dieta gorda dos dólares. Sei de tudo isto, e no entanto… É tão comovente. Tanto. Choro ao caminhar entre eles. Três, quatro sacolas de compras todos os dias, pense! E, naquele dia chuvoso, eu obrigada a testemunhá-los, trancada para dentro das cercas douradas… Uma dor. Três dias desde que tudo isso aconteceu, desde que a visão desses mortos barulhentos me perturbou e dilacerou, mas, ainda hoje, uma dor.

Unapologetically me

Sou ouvinte e paciente. E aceito quase o impensável das pessoas de que gosto. Até que um dia, exausta e desperançada de seu narcisismo, desisto delas. E ainda, se quiserem saber, explico-lhes por que parto, muito consciente de que não me entenderão.

Não é o melhor jeito de agir, imagino. Com os anos, vamos perdendo até mesmo quem deixar… Mas não sei. Esta sou eu. Unapologetically me. Com as dores e as delícias implícitas neste ser a quem no passado já entenderam “terrível” ou “difícil”.

Mas eu tenho uma boa qualidade, ao menos. Sei rir. Rio alto comigo e de mim mesma. Hoje é sábado, curto uma leve ressaca, o café me fez feliz e neste momento sinto um friozinho sob o ventilador do teto.

A vida pode ser um carinho e tanto, às vezes.

A felicidade é randômica

Demorou.

Me dou conta de que estou à espera inútil do coletivo que me levaria à ioga. Um acidente entre o trólebus e um carro sem noção resultou em pedestre ferida diante de um poste. A polícia não libera os envolvidos até fazer suas “investigações”. Via interditada.

Conto meia hora de sirene estridente dos PMs motoqueiros. Os oito se alinham, tiram os capacetes e conversam. Não há nada mesmo pra fazer, certo? Enquanto isso, ambulância nenhuma, socorro nenhum à jovem e muito menos o ônibus que preciso pegar.

Uma senhora lépida se aproxima da fila inútil e, aos gritos, reclama do prefeito (dou-lhe razão), mas logo envereda pelo “político nenhum presta” e daí à guerra. Posso até entender sua ira, mas, por precaução, não tiro o fone vermelho da cabeça. Se a coisa desandar, ponho o som alto.

E desanda:

– Eu não vejo novela, não sei nada disso, mas acompanho tudo o que acontece no país. A incompetência dessa gente! Essa guerra! Quarenta bebês degolados, tenha dó!

Digo-lhe que a degola é fake news, ela nem me escuta e apresso o momento de rodar o som. Eu não esperava por “You are the sunshine of my life”. Stevie, meu Wonderful! Só uma alegria randômica dessa pra salvar o dia.

eu alterno os estados.
preciso de algo para melhorar o ânimo (um café, quem sabe), enquanto imploro qualquer coisa para apagá-lo, uma sedação, que, aceito, pode ser breve.
preciso de crença, mas só a ausência persiste.
aqui na vizinhança ninguém dá um pio sobre o que se passa. antes, há horas, celebra um aniversário.
a vida vai seguir como tem sido, os mortos empilhados nas manchetes, sem que o sangue nos suba aos olhos e finalmente façamos alguma coisa para calar quem nos tornou mudos.

a estratégia do disfarce

deu tudo tão errado hoje que me apeguei à segunda armação de óculos, comprada loucamente para abrigar o par grátis de lentes multifocais. e agora vejo grátis, e não tenho preço, e ando devagar.

xis!

no caminho de ser outra, a estratégia do disfarce…

a idade, o sol, a máquina de fotografar dos sonhos (tão distantes, os sonhos), os objetos todos que tenho, os que não tenho, minhas lentes do impossível, sou tão feliz e não, sorte, que seja a sorte, sorte de viver, e não só o sopro apagado sem fim dentro de mim,

por quê?

Lula, a garantia que temos

Todos os dias agradeço que Lula esteja onde está. Precisaram que ele voltasse da jaula onde o enfiaram para consertar este buraco fundo. E ele tem administrado tudo até agora com a eficiência possível – ou impossível – que o caracteriza.

Sobre o que Lula tem aceitado para continuar a governar, não vejo como poderia ser diferente com o congresso que temos. Santo deus. Este Brasil mísero tinha de contar ao menos com sólida ajuda parlamentar para se sair bem. Mas não. Temos mais monstros babando ignorância e leniência que políticos de verdade circulando, estufados, nas duas casas. Esses seres estão e estarão por lá durante muitos anos ainda, porque os brasileiros mesmo elegeram seu fim. Então, antes de culpar Lula por tudo, pensemos bem sobre cada responsabilidade nos rumos do país, a quem de fato pertence.

Em São Paulo, são dois monstros de alto nível aboletados na prefeitura e no estado. Vocês que não são daqui nem podem imaginar o estado de nossas ruas sem zeladoria. O número de gente solta sem esperança, falando só, enrolada em cobertores puídos e fedidos, descalças todo o dia, a esmolar pão, e a gente sem poder atender todo mundo a cruzar nosso caminho… O nível de indigência para com os seres humanos, famílias inteiras sob o Minhocão, crianças sem escola, trabalhando pra vender bobagem no frio!

Foi só Tarcisio entrar em São Paulo para tudo isto se multiplicar na velocidade de um raio em tempestade. Quando saio de manhã para a ginástica, estão os sem-teto esparramados na rua, com a saúde física e mental comprometidas. E a gente corre o risco de confundi-los com lixo, porque tantas vezes se enrolam em saco preto nas vias já sujas.

É horror o que esses mandantes querem, é horror o que o paulista pediu e agora recebe nas calçadas imundas, esburacadas. Não há nada que o prefeito queira fazer por nós. E o governador claramente está contra nós, contra a vida humana, a celebrar seu fim.

Lula não é o problema, é a única garantia que temos.

Entendam isto, por favor.

Viver é ver

A exposição da obra de Antonio Obá, a primeira de um artista brasileiro na Pina Contemporânea, até 18 de fevereiro de 2024, ensina a acreditar na visão dos subjugados

Antonio Obá, o artista da Ceilândia que restabelece a narrativa dos oprimidos ao fortalecer seu poder de criar e transformar-se
Foto: Diego Bresani

Ele não se considera pintor, embora pinte como os melhores. Quer restabelecer os fatos da história, embora jamais tenha argumentado em livros uma tese sobre o assunto. Talvez por não se sentir encaixado em uma única definição, tenha se tornado duas coisas a um só tempo. Um historiador, porque concede protagonismo aos personagens de merecimento de nossa trajetória. E um pintor, ao construir para esses grandes personagens esquecidos uma atmosfera de liberdade que o transcorrer da vida, por si, não lhes deu.

“Tocaia”, a rasteira: a criança que se fere caça o pombo pela ferida

Aos 40 anos, Antonio Obá é o primeiro artista brasileiro a receber uma mostra retrospectiva, de cerca de 20 obras, na Galeria Praça da Pinacoteca Contemporânea, o que não se trata de coisa pouca. O curador de sua exposição “Revoada”, Yuri Quevedo, também responsável pelo acervo contemporâneo da instituição, não duvida de toda essa importância. “Lá atrás, quando pensamos na monta- gem do acervo, já sabíamos que precisaríamos adquirir uma coleção de sua obra. O acervo tem de andar para receber Antonio Obá.”

As razões são nítidas. “O artista leva a figuração, tão presente na obra dos pintores negros desde os anos 1990, para um ponto além”. Em suas telas expostas, desenhos pintados sobre pano e esculturas em resina das mãos de crianças em experiências monitoradas pelo artista na Escola Vera Cruz e na Ocupação Nove de Julho, Obá olha reflexivamente para os anos passados, para sua própria infância negra, em que presenciava os tios tomarem ovo cru para melhorar a voz, como na tela “Alvorada – música incidental Black Bird” (2020), de modo a recriar uma experiência de “revoada”, ou liberdade.

Em “Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos” (2021), o rompimento de laços rumo a abraçar o futuro

Preto, vindo da Ceilândia, a região administrativa de maior população urbana do Distrito Federal, Obá nasceu de mãe cozinheira e pai trabalhador, tendo se tornado um professor de artes plásticas por conta de seu talento precoce. A qualidade de seu desenho resultou numa possibilidade a mais de estudo no Ensino Médio público. Por meio de um programa educativo conhecido por Sala de Recursos, ele foi monitorado para compreender seu lugar na arte, conforme escreve Cinara Barbosa no catálogo da exposição:

“A partir da Sala de Recursos, Antonio Obá compreendeu princípios de pesquisa potencializados pelo fazer artístico. Importava mais a investigação em si do que se tornar artista.” Eis então por que este grande pintor não se vê como tal. O principal na sua vida é pesquisar. Sua leitura reinterpreta os fatos de modo a restabelecê-los em sua integridade, não como uma reprodução de surrados pontos de vista narrados nos livros de história. Uma antiga fotografia, em que um dono de hotel nos Estados Unidos joga ácido na piscina para que os negros dali sejam expulsos, se transforma na tela “Banhistas n. 3 – Espreita”, ambientada no Cerrado, na qual crianças negras olham o observador com a mesma expressão de espreita de um jacaré da Flórida.

Em suas telas a óleo, os homens e mulheres pretos são potentes, e um Cristo na cruz vira um menino sobre duas pernas de pau, seguradas por crianças arteiras, os ibejis. Sobre a sua cabeça, em lugar da coroa de espinhos, há um arranjo de flores. Toda a obra de Obá evoca sua formação familiar católica, numa perspectiva que lembra a arte medieval do Ocidente, na qual o artista se especializou. A mãe segura o filho deposto da cruz em “Angelus” (2020), enquanto anjos negros sobem aos céus, assim como os pássaros, cuja tridimensionalidade se dá pelas sombras pintadas em cor-de-rosa. E talvez na mais potente pintura da mostra, “Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos” (2021), a partir de uma fotografia histórica brasileira, uma menina negra está de costas para o espectador depois de romper os laços que a prendiam, disposta a abraçar o futuro que se anuncia adiante em um portal. Viver, Obá parece nos dizer, é acreditar no futuro. Viver é ver.

Em “Banhistas n. 3 – Espreita”, o horror do racismo é transformado

Textos “jurídicos” contra Gauguin

Era só o que faltava. Em lugar de relevar os processos materiais envolvidos na complexa pintura do artista, o Masp, de modo a proteger a instituição de seus acusadores, opta por cancelar os comportamentos de um pintor que viveu profundamente as contradições de seu tempo

“Ela pensa na assombração”
ou “O espírito dos mortos vigia”, litografia a bico de pena, lápis e aguada, 1894

O Masp organiza uma exposição como essa da obra de Gauguin, trazendo até mesmo gravuras que mostram a diversidade desse talento, entre a escuridão e a complexidade cromática, sua excelência em compor as cenas de modo a encaixar muitos quadros em um só, a capacidade de fazer o fundo emergir, as ondas no horizonte visíveis e brilhantes… E ao fim esse mesmo museu mancha tudo ao explanar a carreira do artista com textos acusatórios. Textos jurídicos, à beira do cancelamento. Palavras que jogam o artista pra baixo, sua masculinidade dita tóxica ao retratar mulheres não-europeias no século XIX… Sinceramente, falta do que fazer.

Por que, em lugar disso, não se ocuparam em discutir o que falta, a descrição dos processos materiais do artista, a forma com que mistura e cria novas cores, as tintas que usou e como usou? É tudo tão irritante nesses textos que a certa altura simplesmente desistimos da leitura. E podemos fazer isso tranquilamente, porque Gauguin dispensa as escusas de seus curadores brasileiros. Não perca esta exposição. A beleza é inacreditável e supera medíocres princípios advocatícios.

PAUL GAUGUIN: O OUTRO E EU. Até 6 de agosto de 2023. Curada por Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP; Fernando Oliva, curador, MASP; Laura Cosendey, curadora assistente, MASP.

Rita em tudo

eu nem mais próxima da Rita Lee era, cansada de vê-la mimetizar as reacinhas do saia justa e no twitter, embora tenha me sentido sua fã absoluta desde a infância, e tivesse visto um show seu em 1979, por aí, naquele ginásio da improvável Fortaleza onde eu passava as férias escolares com a família, e houvesse amado tudo, apesar da acústica ruim, mas principalmente vê-la conversar com a gente, linda, elegante até o impossível, toda de branco, com a franja no cabelo vermelho comprido e liso, parodiando as próprias canções, surpresa pq não conhecíamos ‘meu bem você me dá água na boca, no chão, no mar, na lua, em cima da pia’, e a menina triste aqui dentro não podia parar de pensar como seria bom se soubesse rir de mim mesma como ela, tão genial, fazia consigo própria, enquanto eu tentava explicar confusamente aos meus primos nordestinos o que queria dizer ‘orra meu’, minha rita linda e louca, o choro não tem fim nesta solidão do momento sob o sol, não tem!

Imagine all the people

Amo São Paulo. Mas a amo vazia.

Não sei negar conversa e me arrepio. Ainda não digeri o que me disseram hoje de manhã na hidro do Sesc. Do Sesc, bem entendido, não do Clube Pinheiros. Mais ou menos isto:

“Estamos num mato sem cachorro. Fodidos. Deveríamos tirar Lula já, mas não fazemos isso porque somos acomodados. Os noias não devem ser alimentados por nós, porque se acostumam mal. Eles agem em quadrilha. Eles estão chegando em Santa Cecília. As tendas! Precisava pegar esse povo da Cracolândia e colocar numa casa. E quem quisesse se matasse lá. Lula só viaja. Foi vaiado em Portugal. E levou sindicalista e sem-terra na comitiva. Agora vai cobrar imposto sindical na aposentadoria. Se ainda tivermos aposentadoria! Essa história de o Brasil se meter na guerra da Ucrânia não dá pra acreditar. Bolsonaro deu azar porque teve a pandemia no meio.”

De noite, no ônibus, não tenho coragem de expulsar do meu lado no banco o homem preto bonito, todo vestido e totalmente bêbado, com aquela bebedeira sem fim nem começo, que insiste em me apertar pelos olhos, mesmo estando eu a escutar música pelo enorme fone de ouvido vermelho, com o rosto voltado pra janela. Acha que sou alguém muito conhecida dele e não se conforma. Deixo ele falar o quanto quer. É uma fala adoecida pelo mundo, não aquela da manhã na hidro, pra adoecer.

Amo São Paulo vazia. Que a imaginação nos crie.