A redenção humana segundo Kurosawa

Os atores japoneses Toshiro Mifune, Takashi Shimura e Bokuzen Hidari encontram-se aqui em uma sequência de “Escândalo”, filme dirigido por Akira Kurosawa em 1950, mesmo ano em que realizou “Rashomon”.

“Escândalo” é um deslumbre, especialmente pela atuação de Shimura como um advogado corrompido cuja filha, à morte,
representa a porção angelical de um universo em declínio. É o pintor Mifune quem acredita nesse advogado e quem, contra todas as expectativas, vê nele o homem bom para representá-lo no processo contra um periódico que mentira sobre seu suposto romance com uma cantora.

O quarto poder, enlameado, contra a criatura comum! Como é bonita, nesse período, a discussão em torno da ética jornalista… Mas aqui Kurosawa faz mais do que analisar o exercício moralmente indefensável do jornalismo (aparentemente, o próprio diretor tivera a honra atacada por um mau veículo). Ele não constrói apenas um drama moralista, mas existencial, a pontuar a crença numa porção rara e boa da humanidade, mesmo depois de uma guerra que tudo fizera para desacreditá-la.

O drama é urbano e contemporâneo, contra a novelização das vidas sob a imprensa. Para promover essa crítica, ele se serve da base hollywoodiana de representação, plena de closes de estúdio. Deseja criticar o sistema servindo-se de sua própria linguagem, mas não só… Além de megulhar o drama existencial numa ambientação cômico-dramática, na linha do cinema de Frank Capra, Kurosawa nos surpreende com simulacros expressionistas extraídos de cenários fabricados e sombrios.

Um show cinematográfico no qual o diretor japonês exerce a velha-nova procura pela redenção das vidas humanas, ele que parece tê-las investigado em todos os seus rumos.

Navegar é preciso

Takashi Shimura em “Viver”,
de Akira Kurosawa, 1952

A gente precisa ter muito carinho pelas pessoas num momento como este. Num post anterior disse que pouco me ficou da Folha além da amizade prolongada e cúmplice com o Renato Pompeu. Mas fui injusta. Tenho amigos vindos de lá ainda, que reencontrei no face. E que são pessoas incríveis.

Eu falava de uma cumplicidade que só tinha mesmo com o Renato. Uma visão ampliada do caos, da indignidade que era a vida naquele jornal.

De resto, queria dizer que o facebook traz mesmo pessoas mais perto de nós. É muito bom conhecer gente cheia de experiências tão novas, e com alguma proximidade. Mas, é claro, temos de ter cuidado com isso também. Ou eu preciso. Às vezes me empolgo demais e me decepciono. Como na vida, certo?

Viver! “Viver” que é um filme de Kurosawa, finalmente conhecido por mim ontem, a nos trazer com tanta intensidade o sentido do tempo. A um minuto antes do fim, ainda podemos fazer algo que mude nossa direção nessa barca da vida que vai dar em nada.

Vejam! Por mim!