Dona Cadu

Em novo single, Mauricio Tagliari celebra a baianidade emérita

Dona Cadu, sambadeira e ceramista do Recôncavo Baiano que ganha homenagem musical de Mauricio Tagliari, cantada por Zeferina

O sorriso é a porta de entrada da casa de Ricardina Pereira da Silva, a Dona Cadu. Sambadeira, ceramista, líder comunitária e doutora honoris causa por duas universidades, Dona Cadu mora na Vila de Coqueiros, fundada no século 18 à beira do rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Há quem diga, contudo, que sua residência é o próprio rio, de onde ela tira a vitalidade, o otimismo, o bom humor a um passo da ironia, e onde outrora pescou a bordo da canoa monóxila do marido, feita a partir de um único tronco de árvore. Quem vê esta mulher magra e pequena, de enganosa aparência frágil, pode não acreditar que tenha 101 anos vividos entre a água da área dos manguezais, as fogueiras das queimas da cerâmica e o samba de roda.

O esforço na lida com a argila, que ela iniciou aos 10 anos por gosto, a partir da iniciação de uma vizinha na São Félix onde nasceu, em 1920, deu-lhe sobrevivência. O barro é seu companheiro desde então, e se hoje Dona Cadu diminuiu o ritmo com ele, isto foi consequência de um acidente que a fez submeter-se a uma cirurgia no fêmur. Mas ela não pensa em interromper o trabalho, nem diz poder. Mais que isto, suas panelas, potes e tachos para a moqueca têm de ser perfeitos. Se a modelagem, que dispensa o torno, é ruim, ela nem leva para queimar na fogueira coberta por bambus, ao ar livre. As cerâmicas utilitárias de Dona Cadu são feitas em espírito de comunidade, junto a outras louceiras com quem divide os custos para a compra de material. Se antes as peças em argila eram tudo de que dispunham os habitantes da vila para cozinhar, hoje essas obras asseguram a permanência de uma tradição artística afro-indígena e encantam o mundo inteiro.

Isto considerado, ser sambadeira é o que entusiasma Dona Cadu de verdade, uma vez que jamais tirou alegria do álcool, ao contrário de sua avó, uma indígena que, segundo ela conta, ingeriu uma dose diária de cachaça até morrer, aos 130 anos. Então girar com a música é tudo o que Dona Cadu quer para ser feliz e compensar a dor. Ela dança o samba de caboclo como se imitasse o andar lateral de um caranguejo, rodando a saia branca ampla e rendada, sorrindo até não mais poder. Sua performance é um renascimento.

O samba de caboclo de dona Cadu em Saubara, 2017

Em novembro de 2017, Mauricio Tagliari esteve em Vila de Coqueiros para conhecê-la e a sua oficina de cerâmica, onde sempre há um discípulo a modelar o barro. Dona Cadu, uma espécie de embaixadora da vila, a quem todos tomam a bênção, recebeu-o para conversar e contar suas histórias de procedência. No meio da conversa, para a surpresa do músico, contou-lhe, orgulhosa, que estaria em Saubara no dia seguinte para dançar junto a outras grandes sambadeiras. Tagliari não perdeu a chance de vê-la e, por sua grandeza, esse universo musical entrou na vida musical do artista para não mais sair. “Dona Cadu”, a canção interpretada no single por Zeferina, é a pura celebração que o músico faz à vida e à arte de uma baiana emérita.”

Sambar pra ser feliz

Samba na filosofia

Documentário mostra a história de Porfírio do Amaral, um sambista negro quase desconhecido (como muitos ainda devem ser), mas um prosador-pensador como poucos no Recôncavo puderam testemunhar

Porfírio do Amaral aos 55 anos, em 1971, durante a realização
do programa da TV Cultura que jamais foi ao ar

O pai queria lhe dar um nome que remetesse à realeza. Decidiu chamá-lo Porfírio, aquele que vinha revestido de púrpura, a cor das roupas do rei. Por estar certo de que seu filho triunfaria, não ligou quando uma cigana sentenciou à mãe, diante da criança ainda pequena: “Nunca deixe esse menino cantar. A morte acompanha a sorte dele”. O pai era um poeta racional numa Bahia mística. Mas, a partir daí e por toda a vida, Porfírio do Amaral se sentiu nervoso para colocar a voz. Diretor na TV Cultura de São Paulo, Fernando Faro chamou-o para um piloto de seu programa sobre música brasileira e nunca pôde exibi-lo, porque Porfirio, o compositor, não conseguia cantar as próprias canções, sempre nascidas do sofrimento. Ele falava como um filósofo, na verdade um rei da filosofia, mas, quando se abria ao canto, surgia a gagueira das emoções. Ou do medo.

A neta Letícia, que estuda cinema no Recôncavo e trabalha sobre a memória do avô Chô

O cineasta Caio Rubens descobriu a gravação de 1971 e a incluiu neste documentário, que só por isso já valeria o vislumbre. Porfirio fala dramaticamente as coisas mais lindas e duras, sem receio, por exemplo, de chamar de golpe o que a televisão da época intitulou revolução. Com paciência para os testemunhos, mesmo para aqueles que não dirão diretamente de Porfirio, como o de Elza Soares, o diretor amplia o contexto do samba e do Recôncavo. Muita gente depõe, de Roberto Mendes, Carlinhos Brown, Nelson Sargento, Mateus Aleluia e Chico Buarque ao ator Antonio Pitanga (um elo entre Porfirio, então porteiro da TV Cultura, e Faro) e à neta Letícia, que gravou em VHS a intimidade com o avô Chô, do apelido Choriça que lhe deram por ser magrinho.

Porfírio e suas netas, em imagem captada em VHS por Letícia
Uma interpretação em VHS para a rotina do compositor e percussionista

O personagem se delineia aos poucos, enquanto Margareth Menezes, Gloria Bonfim e outros intérpretes apresentam suas canções. Apesar de não constar no google, nem mesmo no Dicionário Ricardo Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Porfirio existiu entre 1917 e 2008, e existe cada vez mais. Compositor de melodia triste para prosa alegre e de melodia alegre para prosa triste, foi precursor de pagodes e sambalanços, homem da cuíca que chorava lancinante, das chulas e cantos de senzala que pressupõem a aglomeração e a comunhão. Samba não é um gênero, dizia. Há muitos sambas que são gêneros por si. E ele não foi só um sambista, mas um homem que nasceu para refletir.

Com Fernando Faro, que acompanhou sua carreira
  • PORFÍRIO DO AMARAL: A VERDADE SOBRE O SAMBA
    Diretor: Caio Rubens
    Brasil, 2019, 83 min
     
    onde: bit.ly/2Zy4LGJ [até 20/9]