A névoa vermelha de Antonioni

Uma entrevista realizada pela tevê francesa com o cineasta, nascido em Ferrara há 105 anos, detalha o processo de criação de O Deserto Vermelho, sobre a fatalidade industrial

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Monica Vitti em O Deserto Vermelho (Deserto Rosso), de Michelangelo Antonioni, 1964

O Deserto Vermelho, de Michelangelo Antonioni, ganhou o Leão de Ouro de Veneza como melhor filme em 1964. Infelizmente, você não encontrará mais à venda uma cópia brasileira em DVD desta obra-prima roteirizada por Tonino Guerra e fotografada por Carlo Di Palma sobre a explosiva (porque colorida) melancolia da sociedade industrial. O lançamento do filme pela Versátil, contudo, trazia um grande documento, uma entrevista com o diretor (cujo nascimento completa 105 anos), exibida pela televisão francesa em 12 de novembro de 1964.

A boa notícia é que eu a transcrevo aqui. E, no link a seguir, você pode assistir à conversa sem legendas, transmitida pelo 2eme Chaine sob o título Les Écrans de La Ville avec Michelangelo Antonioni.

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Antonioni junto à atriz Monica Vitti: “Penso que o progresso seja algo inexorável, como uma revolução. Eventualmente há quem sofra, mas há quem se adapte, e há quem não se adapte, o que resulta, claro, em crises. Mas para mim esse mundo contém mesmo um lado de beleza”

O sr. pode nos contar qual a origem de O Deserto Vermelho?

Acho que eu tive a ideia visitando Ravena. Eu conhecia Ravena, estive ali muitas vezes, pois fica perto da minha cidade, Ferrara. E acompanhei sua transformação de um mundo natural para um mundo industrial. Quando jovem, ia a Ravena até para jogar tênis, jogava muito e bem naquela época (risos). A última vez que fui visitá-la tive uma impressão extraordinária. Fiquei chocado com a transformação industrial da área. E não sei bem como, veio a ideia do filme. É mais uma obra sobre um ambiente do que sobre um personagem. Falei com técnicos e operários, entrei na casa deles, achei tudo aquilo muito interessante, e avaliei que a cidade era quase um símbolo do progresso da cidade moderna. Daí a vontade de fazer o filme.

Ao usar como cenário esse mundo moderno de fábricas o sr. o vê como desagradável para a maioria das pessoas ou como um mundo no qual se deve viver e se adaptar? Seus personagens não se adaptam. Isto reflete sua atitude pessoal em relação a esse mundo?

Não sou contra o mundo moderno. O mundo industrial simboliza um pouco o progresso e não se pode ser contra o progresso. Ademais, seria inútil. Mas eu penso que o progresso seja algo inexorável, como uma revolução. Eventualmente há quem sofra, mas há quem se adapte, e há quem não se adapte, o que resulta, claro, em crises. Mas acho que esse mundo contém mesmo um lado de beleza. Por exemplo, há uma estrada que vai de Ravena ao mar, a Porto Corsini, exatamente, de onde se vê meio horizonte só de fábricas, torres, chaminés, refinarias e coisas assim, e o outro lado, o lado oposto, é totalmente coberto por um pinheiral. Eu acho a linha rica representada pelas fábricas muito mais bonita mesmo esteticamente do que a linha verde, tão uniforme, do pinheiral. É que atrás das fábricas sente-se o homem, há vida, e atrás do verde do pinheiral não há nada, há os animais, há um mundo selvagem, que me interessam menos.

 

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É um engano pensar que o senhor busca referências na pintura no seu modo de tratar a cor?

Eu acho que sim, porque eu não penso em pintor algum. Gosto muito de pintura, mas não tive, acho, influência de nenhum de seus artistas. Isto é, não há pintura no longa, no sentido literal da palavra. É diferente. Quando se faz um filme em cores deve se buscar, acredito, um ritmo de cores. Isso não existe em pintura. Usamos a cor, eu digo, de modo funcional, para descrever a história. Quer dizer, se acho uma cor útil para a sugestão que a cena deve dar ao público, eu a utilizo. Compreende? Às vezes, não a encontramos na realidade, e por isso coloquei as cores de que precisava. Pintei as árvores, já se sabe, pintei as casas, mas foi porque precisava dessa cor e não a achava.

Em relação aos sentimentos de seus personagens?

Em relação aos sentimentos que queria mostrar.

 

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O sr. mandou queimar uma pradaria, colocou cores totalmente diferentes nas casas, e fala-se de um bosque que o sr. pintou.

É verdade. Mas eu não pude rodar a cena por causa do sol. Havia um bosque que me interessava, ao lado de uma fábrica muito grande, importante, com quatro mil operários. E o filme deveria começar o filme por uma greve, aliás ele começa por uma greve, e essa greve deveria acontecer perto do bosque. O bosque era verde, claro, mas eu sentia que esse verde não era adequado ao momento. Então, quis pintar o bosque de branco, aliás, de cinza. O branco sobre o verde dava uma cor cinza. Fizemos isso, pintamos a região durante uma noite toda, com uma grande bomba, que soltava um tipo de tinta, mas era quase uma fumaça. Contudo, no dia seguinte, pela manhã, não pude filmar, porque ficamos contra o sol e o bosque parecia preto.

 

 

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Monica Vitti e Richard Harris em cena de O Deserto Vermelho

 

O sr. pode falar do personagem interpretado por Monica Vitti?

É uma neurótica. Evidentemente, há… Devo dizer que não é esse meio industrial e moderno que provoca a neurose. Ela já existia nessa mulher, não se sabe onde ela se originou, mas, nesse caso, ela já era neurótica. O meio provoca a eclosão dessa crise.

O personagem de Monica Vitti neste filme tem alguma relação com o de O Eclipse ou de A Aventura?

Eu não acho. São todas personagens bem diferentes. Por exemplo, em A Aventura, trata-se de uma jovem normal, menina burguesa, com sentimentos normais, uma psicologia normal, e ao personagem de O Eclipse talvez esteja um pouco mais próxima deste porque se trata, ali, de um personagem de uma jovem mais sábia, consciente do que lhe acontece, e que tenta achar sozinha a solução do problema de sua vida. Enquanto em O Deserto Vermelho estamos diante de uma mulher neurótica, quase esquizofrênica, que não sabe como resolver seus problemas. Conheci e visitei muitos neuróticos, passei dias e dias com eles e posso dizer que cada gesto deste personagem foi baseado na realidade.

Para o sr., este personagem tem o valor de um símbolo?

Nunca penso que trabalho com símbolos, mas com homens e mulheres dos quais procuro aprofundar o caráter, a psicologia. Dou o melhor de mim sem pensar em seus significados. Essas coisas vêm a posteriori, depois do filme pronto, nunca antes.

Há algo que talvez seja uma lenda sobre o sr. Dizem que só dá aos atores as suas próprias falas, e não os outros diálogos, porque não lhe interessa que tenham uma visão conjunta do filme, que é só sua, não de interesse dos atores.

Não. Isto é paradoxal, mas, como em todo paradoxo, há um fundo de verdade. Entendo que o ator deva trabalhar mais pelo instinto do que pela razão. Dizer que o ator que mais entende seu papel é um ator melhor equivaleria a afirmar que o ator mais inteligente é o melhor, e isto não é verdade… Tento provocar no ator a maior sinceridade possível. Às vezes, por meios não muito ortodoxos, mas que dão resultados.

Nunca busquei compromissos com a produção, digamos. Senão teria ficado rico. Mas, ao contrário, não sou rico. Procurei fazer o filme que eu quis fazer, com muita sinceridade e só.

Que tipo de problema lhe colocou, por exemplo, a incompreensão dos críticos, ou o fato de os filmes não funcionarem? O sr. pensava estar acima disso? Julgou que faria o que quisesse e que o resto não importava?

Bem, nesse caso pensamos em tudo, até mesmo que fazemos filmes ruins e que não podemos pretender que os críticos os achem bons.

Isso lhe aconteceu?

Sim, com certeza. Eu não sou filósofo nem sociólogo. Eu vejo todas as coisas por outro lado. Creio que não devemos pensar em nosso trabalho antes ou depois, mas enquanto o fazemos. Então, vcocê está atrasado ao me fazer essa pergunta agora.

Então, fim de entrevista. Tudo foi dito.

Quem me dera. (sorrindo)

IL DESERTO ROSSO - Italian Poster 2

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