Di Cavalcanti nítido

Exposição na Pinacoteca de São Paulo faz ampla retrospectiva da obra do artista em comemoração a seus 120 anos de nascimento

Pinacoteca Prostibulo e autorretrato 1968 óleo sobre tela Di Cavalcanti
Prostíbulo e autorretrato, óleo sobre tela, 1968

 

Aos poucos, é possível que nós, os não-colecionadores, os nem tão sábios da memória pictórica coletiva, estejamos ao ponto de esquecer Di Cavalcanti e o que representou para a história da arte. Sua passagem pelo modernismo talvez se destaque em demasia nesse panorama e, por esta razão, julguemos velhas ou impossíveis, pertencentes a um outro período de incorreção, suas mulatas avantajadas. Mas, se nos esquecemos de quem foi Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (Rio de Janeiro RJ 1897 – idem 1976), a Pinacoteca de São Paulo se encarregará de nos lembrar. Di pertence a nosso imaginário, a um inconsciente coletivo constantemente acessível.

Pinacoteca Di Cavalcanti Retrato de moça 1921 óleo sobre cartão (1)
Retrato de Moça, óleo sobre cartão, 1921

Ele não pintou apenas mulatas. Antes que atuasse como correspondente do jornal Correio da Manhã em Paris, em 1923, frequentasse a Academia Ranson e convivesse com os maiores artistas e escritores europeus de vanguarda, como Picasso, Braque, Léger, Matisse, Cocteau ou Blaise Cendrars, nem mesmo incorporara as cores claras a suas telas a óleo. Porque desenhava e pintava com muita precisão, até facilidade, sua composição exata caminhava por muitos estilos e provava a atualização, à moda do que fizera Portinari ao flertar com as intervenções geométricas. Di caminhou do art nouveau ilustrativo ao autorretrato reflexivo e à tridimensionalidade das vanguardas.

mulheres na praia anos 1920 Di Cavalcanti
Mulheres na praia, anos 1920

A exposição No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos reúne cerca de 200 pinturas, desenhos e ilustrações (que incluem capas de livros e discos) a integrar algumas das mais importantes coleções públicas e particulares do Brasil e de outros países da América Latina, como Uruguai e Argentina. Neste trabalho, o curador José Augusto Ribeiro afirmou ter pretendido investigar como o artista desenvolveu uma ideia de “arte moderna e brasileira”, considerado o sentimento de atraso percebido no Brasil de então em relação à modernidade europeia no começo do século XX.

Pinacoteca Di Cavalcanti Varanda 1960 óleo sobre tela
Varanda, óleo sobre tela, 1960

“O título se refere aos lugares que o artista costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares – lugares e situações que, na obra do Di, são representados como espaços de prazer e descanso”, diz o curador no release de apresentação da mostra.

PinacotecaDi_capa_NoelDi começou a vida na arte como caricaturista e ilustrador da revista Fon-Fon, em 1914. Em 1917, residiu em São Paulo, onde frequentou o curso de Direito no Largo São Francisco e o ateliê de Georg Elpons. Conviveu com artistas e intelectuais paulistas como Guilherme de Almeida, Oswald e Mário de Andrade. Foi o principal organizador da Semana de Arte Moderna de 1922, onde expôs 12 obras.

Pinacoteca Oswald de Andrade por Di Cavalcanti
Oswald de Andrade

Em 1926 filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e, depois de três prisões, entre 1934 e 1936, recusou o comunismo para se declarar cristão em 1940. O presidente João Goulart o designou adido cultural do Brasil em Paris no ano de 1963. Na capital francesa, recebeu a notícia do golpe de 1964 e, quinze dias antes de sua posse, viu-se demitido.

Pinacoteca Expo Di Cavalcanti Album Realidade Brasileira 6Em 1930, publicou o álbum A Realidade Brasileira, uma sátira política que identifica na ação predatória norte-americana, no militarismo e na bonomia dos pensadores os grandes males do País. Apenas as ilustrações deste álbum valeriam uma visita à Pinacoteca. Trata-se de doze desenhos originalmente realizados em nanquim. Os trabalhos combinam textos e desenhos assemelhados a charges, influenciados pela ilustração icônica que resultaria em Belmonte. Di critica o conservadorismo moral da sociedade brasileira, a igreja católica, o autoritarismo do Estado policial, a posição periférica do Brasil nas relações internacionais, as desigualdades sociais brasileiras e os intelectuais que romantizavam a “brasilidade”.

 

Pinacoteca Expo Di Cavalcanti Album Realidade Brasileira 3Porque vivemos um Brasil antigo e inominável, Di Cavalcanti nos socorrerá para desmascará-lo.

Rosane Pavam

Pinacoteca Expo Di Cavalcanti Album Realidade Brasileira 4.jpg

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Pinacoteca Expo Di Cavalcanti Album Realidade Brasileira 1
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No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos permanece em cartaz até 22 de janeiro de 2018 no primeiro andar da Pina Luz (Praça da Luz, 02, São Paulo). A visitação é aberta de quarta a segunda-feira, das 10h às 17h30, com permanência até 18h. Os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Crianças com menos de 10 anos e adultos com mais de 60 não pagam. Aos sábados, a entrada é gratuita para todos os visitantes. A Pina Luz fica próxima à estação Luz da CPTM. Entre 12 e 14 de outubro próximos, a entrada no museu será gratuita.

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