Bicho da sombra

Nesta entrevista que realizei com Lygia Fagundes Telles há 22 anos, em abril de 2000, para o caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil, a escritora reclama do pouco valor dado aos escritores, lembra de Clarice Lispector, ironiza Caetano Veloso, fala de sua relação com Paulo Emílio Salles Gomes e narra o encontro que teve com Simone de Beauvoir

A página em que a entrevista foi publicada, com foto de Juan Esteves feita na Academia Paulista de Letras

Lygia Fagundes Telles banha-se de uma certeza de Santo Agostinho, a de que o importante é a arte de viver num tempo de catástrofe, quando esta entrevista se inicia. Está impaciente, a autora de “As horas nuas”. No dia 1, Nélida Piñon e Lya Luft, conceituadas escritoras, vão homenageá-la com discursos na Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, no próximo dia 24, sai o livro “Invenção e Memória”, com 15 contos que apresentam seu imaginário admirado de crueldades, mistério e um ensejo de esperança final. Ela tem tantos compromissos, tantos, e agora mais este. Àquela que pretende entrevistá-la, lança uma consideração de arrefecer. “Não importa nada do que eu diga. Meus livros é que importam. Leia estes papéis.”

Sobre as mãos da interlocutora, ela vai depositando impressos que contêm o resumo de sua ascensão literária e as breves considerações dos críticos, todos esbanjadores de enormidade – Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Sergio Milliet – sobre sua importância livro-a-livro. O que fazer? Lygia, 76 anos incompletos, está mesmo impaciente e, supõe-se, não apenas com jornalistas. Há os homenageadores que teimam em lhe dar mais idade do que tem. Os governadores. Os corruptores que revelam suas vocações a céu aberto. Os ricos compositores de música popular. Os estudantes que um dia lhe roubaram a obra de Jorge Luis Borges, autografada, da estante de retratos.

É preciso cobrir Lygia de razão. Sua impaciência cresceu a partir de um ato assinado há três anos pelo governo do Estado de São Paulo, extinguindo a verba honorária a que ela, procuradora autárquica do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, o Ipesp, teria direito. Seus vencimentos foram reduzidos a menos da metade do que eram. Lygia Fagundes Telles, escritora máxima brasileira, 17 livros publicados, dezenas de prêmios, ficções traduzidas em oito línguas, ficou sem dinheiro.

“Quando me ligam aqui dizendo que podem me pagar uma quantia simbólica por meus textos – e por simbólico entenda 300, 500 reais – minha orelha já levanta, meu cabelo já levanta”, diz Lygia com reiteração, com drama, numa pontuação em que sempre cabem muitos travessões e alguns recursos de estilo, como os itálicos. “Você veja. Os cantores, os compositores. Eles têm, um, apartamento em Paris, outro, em Nova York. Convidam Caetano Veloso para cantar e ele vai porque é um bom perfil – não exatamente um Rodolfo Valentino, como quer ser, com aquele turbante, não é um sheik -, muito bom cantor, compositor. Mas, para um escritor, não se paga o que se paga a ele.”

Há quatro anos, quando mudou de editora, da Nova Fronteira à Rocco, Lygia imaginou que poderia viver no Rio e lá, mesmo timidamente, montar o que ela intitula “uma nova frente de trabalho”. Mas o que ela desejava como moradia – “não uma cobertura, veja bem, um apartamento no Leblon” – não lhe foi acessível. Lygia, de elegância proverbial, lenços no pescoço, cabelos cortados em eterno chanel, e mocassins, quis viver com o conforto presumido de sua condição de dama das letras. Como não conseguiu, voltou a seu apartamento paulistano da rua da Consolação, aconchegante e digno, num prédio cercado por raras palmeiras imperiais. 

“Seria preciso haver, para os escritores, as marquesas antigas, e duquesas, que convidavam e instalavam os artistas naqueles castelos, alas norte e sul, com empregados, por seis meses, para que escrevessem. Ninguém mais nos convida!” E mais travessões, e mais ênfase, porque agora a indignação quer saltar. “Eu devia – eu devia – me informar mais e falar com o Yunes [Jorge Yunes, o empresário com quem o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, está envolvido em um escândalo de corrupção]. Parece que ele empresta.” 

É nesses instantes em que ironiza as dores de sua particularidade e de seu país que Lygia está mais distante da mulher que escreve seus livros. Porque Lygia, autora – ao contrário da mulher que está na vida, relativamente indefesa, capturada pelas malhas dos executivos e das leis -, é segura, terrível soberana de todos os destinos. Uma escritora que explora as crueldades, e as expõe, que aponta os assombros de seus personagens, endinheirados ou pobres, e os derrete nas imagens literárias mais sintéticas e poderosas de que as décadas recentes têm notícia. 

Lygia é rápida, de destreza exemplar. Neste novo livro, sua carpintaria de contista continua afiada. Em uma das histórias, um menino é acolhido por um velho, e a relação dos dois vai crescendo diariamente sob os olhos de um determinado comensal; um dia, um dos dois desaparece, por obra de seu par. Para quem a conhece, não há novidade desde o início: aquela história não acabará mesmo bem. A diferença, talvez, resida no fato de este conto não exalar, ao final, aquela ponta de crença de um desfecho feliz. Por onde a olhemos, é uma história de crueldade, num livro de crueldades e mistérios.

“Esperança, esperança, esperança, esperança”, brada Lygia, em novos itálicos, em sua residência na rua da Consolação. Sua esperança é a de ter inventado um novo gênero. O título do livro já diz: “Invenção e Memória”. Foi-lhe sugerido por uma frase anotada em algum lugar por seu marido, o crítico de cinema e escritor Paulo Emílio Salles Gomes, morto há 23 anos: “Invento, mas invento sempre com a secreta esperança de estar inventando certo.” Pois Lygia quer ter inventado isto neste livro: um gênero diferente dentro de seu próprio trabalho (não usa a palavra obra, por parecer grande demais), um gênero que asseguraria à ambiguidade uma avenida por onde passear. “Muitas coisas ali são inventadas, outras são memórias. Eu lá sei, não posso separar uma coisa da outra.” 

É verdade que nunca pôde. Em seus livros, há, sim, crueldades, mas compartilhadas. Maniqueísmo e qualquer outra palavra que evoque contrastes evidentes entre o que é errado e certo não se aplicam a seus livros (ela prepara um romance, mas não adianta sobre o que tratará). “É impossível você separar, como num laboratório de física, o bem do mal”. Lygia se lembra de um padre de infância que lhe disse: “Miolo Mole – ele me chamava assim -, existe o bem e existe o mal. Quem escolhe o mal vai para o Inferno, quem escolhe o bem vai para o Céu.” E então ela via o clube da cidade, para onde se dirigiam as pessoas do bem. Mas seu pai ia lá também, jogar, e entristecia sua mãe. “Eu percebia esse lado no clube, uma porção do mal, você entende?” 

Para Lygia, Santo Agostinho teria sido perfeito se houvesse levado, à vida de santidade, sua vivência anterior do pecado. A perfeição para ela, em se tratando dessas situações, foi personificada por Jesus. Não há quem tenha compartilhado sua glória, a de aceitar o mal como viesse. Nem mesmo seus próprios homens. Houve dois na vida de Lygia, o primeiro deles, um advogado, Goffredo da Silva Telles, que lhe deu seu único filho (também Goffredo, cineasta). Ela se lembra de ouvir o grande advogado dizer: “Não se adiante no tempo, Lygia.” Seu segundo homem, Paulo Emílio Salles Gomes, a escritora admirava e observava: “Ele arrebentava em ideias. Tinha essa coisa de certeza.” Ela o via como o filósofo Sócrates, praticando a “obstetrícia intelectual” em seus alunos, arrancando os fetos de seu pensamento, tamanha a sua lucidez, tudo num sentido diverso daquele em que ela caminhava. “Eu nunca tive essa carga tamanha de vontade.”

Lygia e Paulo viveram uma existência de 15 anos compartilhados, entre 1962 e 1977, sem filhos, mas com “o jovem”, como ele carinhosamente chamava o pequeno Goffredo, tido como seu próprio filho. “Resolvemos que levaríamos uma vida tranquila, nós e nossos gatos. Já tínhamos o jovem. Resolvemos que chega de filho. Chega de atormentação.” Ela o fazia ver coisas, o obstetra. Fazia-lhe ver que um dia os roteiristas de cinema respeitariam a profundidade de seus livros imagéticos. Se Lygia ainda não conheceu esses profissionais especialíssimos, a explicação foi mesmo dada por Paulo Emílio: os textos de Lygia provocariam uma sensação de intimidade tão grande em quem se aproxima deles que a oportunidade de invadi-la estaria aberta.

Nos anos 1930, quando Lygia vivia a meninice, aceitava-se que fosse estranha. Era uma mulher e, como mulher, dada à percepção, numa intensidade, ela crê, muito maior do que a encontrada nos homens. Para ela e para sua companheira, a escritora Clarice Lispector (1925-1977), Lygia até imaginou um qualificativo: bichos da sombra. “Nós nos desenvolvemos na sombra, mudas.” Esse é um assunto delicado, sua semelhança ou diferença em relação a Clarice – “desconfiada, esperta, ótima” -, aceita como a grande escritora brasileira do século, a inventora, justamente, de uma nova linguagem de percepção. Mas Lygia vê com tranquilidade os pontos que as tocam. “Éramos confessionais, perceptivas, mas éramos diferentes. E a diferença talvez residisse nas doses de mistério. O mistério, sal da ficção, acompanha o escritor.”

Não que Lygia deseje dizer com isso que o mistério, ponto de união com Clarice, deva afastá-la do leitor. Ela e a autora de “Perto do Coração Selvagem” conversavam muito sobre a mania que tinham os professores, nos anos 1960, de tornar seus livros mais complexos do que a necessidade, e, com isso, afastar os interessados possíveis naquelas tramas. “A gente seduzia os leitores, dizíamos coisas interessantíssimas, e os professores daquele tempo – isso estava na moda – vinham e destruíam tudo.” 

Foi como bicho da sombra que Lygia, certa vez, recebeu um convite da escritora francesa Simone de Beauvoir para um chá, quando a escritora esteve aqui com o filósofo Jean-Paul Sartre, nos anos 1960. “Eu falava mal o francês, embora lesse e apreciasse muito a literatura francesa. Dizia: “Meu deus, o que vou conversar com Madame?” Simone, participativa – “a tal da revolução feminista estava começando” -, queria ler textos seus. Havia poucas traduções para o francês à época, e a escritora lhe deu a de um conto do futuro livro “Antes do Baile Verde”. Mas Simone pedia mais. E então Lygia se lembrou de outro padre, o canadense Paul-Eugene Charbonneau (1925-1987), que parecia entender suas ambiguidades e amara “Ciranda de pedra”, seu primeiro romance, a ponto de traduzi-lo.

“Era uma tradução, não sei se boa, porque na época eu não tinha condição de avaliá-la, mas feita com amor por um homem de vocação”, lembra Lygia. E então ela resolveu oferecê-la a Madame, ressaltando que o livro poderia lhe interessar por tratar da decadência da burguesia brasileira e de uma jovem desesperada, querendo fazer parte dela, e dela se libertando. Beauvoir, que partiria no dia seguinte, topou a oferta. “Deixe seu livro lá no meu hotel.” Lygia pensou: “Ela vai jogar isso no mar.” Mas, ainda assim, cumpridora de suas promessas, depositou o enorme embrulho com folhas datilografadas na recepção. “Tempos depois – veja que intelectual séria – chega uma carta dela escrita em papel quadriculado dizendo assim: ‘Gostei muito, que riqueza, pena que seu livro não veio escrito em francês parisiense, porque eu o lançaria aqui.” 

Lygia, bicho da sombra, ficou “animada e quieta” com o elogio. Na mesma carta, Simone de Beauvoir comentava seus textos dizendo que se enredavam em tristezas e desesperos muito grandes, mas que depois mostravam a esperança. Identificava um gesto desse sentimento final em “As pérolas”, conto com que Lygia lhe presenteara. Nele, o homem rejeitado joga o colar esfacelado para sua mulher, que, com a peça, ansiava encontrar um novo amor. “Depois do que ela disse, me senti coerente comigo. Sou triste, às vezes, mas há um gesto final, de esperança, no que escrevo”, diz Lygia. “E essa carta de Simone de Beauvoir, na verdade, eu vou vender.”

O nó manso de Caetano

Caetano Veloso durante o programa Roda Viva de 20 de dezembro de 2021

Vi agora o Caê no Roda Viva.

Manso, né?

E sem espaço para responder as coisas direito.

Porque é a Vera Magalhães quem estabelece o ritmo da conversa – e ela o faz constantemente impondo os temas, cortando as falas do artista e dos entrevistadores, fechando os pacotinhos dos blocos ao seu estilo, coroado pelo sorriso de amiga da onça do Péricles. Tudo tem de caber na sua caixinha de visão de mundo – algo que me fez lembrar do Jaider Esbell reclamando dos curadores da Bienal, aliás.

A certa altura Leonardo Lichote pergunta a Caê como vê o futuro da masculinidade – de seus próprios três meninos homens – em um mundo que com justiça a contesta e ele dá uma volta enorme para responder, dizendo-se apenas o mais feminino entre os quatro músicos da família. E ninguém se lembra do que ele falou a uma repórter lá nos anos 1980: que o homem era “superior física e intelectualmente à mulher”.

Caetano agora não quer provocar ninguém e seus entrevistadores estão ali pra cuidar dele – e até bronqueá-lo educadamente por usar a palavra “mulato” com que designa seu pai. Mesmo um deslocado Luiz Antônio Simas, que afinal de contas não é um especialista em Caetano e ninguém sabe por que a Vera convidou, só está lá pra animar a festa.

Algumas deixas importantes de Caê não foram trabalhadas pelos entrevistadores ou porque a Vera os interrompeu ou por falta de informação dos mesmos. Quando Caetano fala de Carmen Costa, por exemplo, ninguém aproveita a deixa. Ele a conheceu? Algo dela foi incorporado em sua música? E até de Carlinhos Lyra ninguém parece ter muita ideia, embora ele o cite como o preferido de Gil na bossa nova. A razão estaria no violão ou no quê? Por que Gil preferiria Lyra a João Gilberto? E o violão de Caetano, a quem se deve?

O artista diz muitas coisas interessantes. Por exemplo, entende o brasileiro como um ser triste e suspeita que foi Vinicius de Moraes a lhe atribuir alegria…

Caetano lembra que no seu tempo era comum que a tristeza brasileira fosse compreendida como resultante da miscigenação de três raças. E então? Ninguém vai problematizar isso? Ou lembrar de onde essa ideia veio – do Paulo Prado de “Retrato do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira”? Por outro lado, firme, aquela que parece ser a substituta de Leonardo Lichote em O Globo quer saber direito essa história da incapacidade de Caetano de ter uma ereção na cela da prisão militar.

Enfim, Caetano é Caetano e eu o amo na mesma medida que lamento uma face medíocre da imprensa brasileira, incluída aí a revista de Senhor Democracia, que por sinal me impediu de ir ao Rio entrevistar o “liberaloide” junto a Maria Gadú quando os dois lançaram um disco juntos (tive a oportunidade de contar isso à própria Gadú e ela ficou de cara).

Meu gostar de Caetano sempre foi condenado por quem o via “pior que Chico” tanto na imprensa de esquerda quanto na universidade sob a ditadura. E minha identificação com sua música me colocou fora do eixo da compostura intelectual… Mas ele foi e ainda é pra mim uma importante essência da musicalidade brasileira – especialmente quando sua cachoeira de palavras de ecos românticos e até parnasianos desemboca naquele rio de sonoridades africanas.

Por fim, em um delicioso momento da conversa, Caetano também condena a imprensa ao sublinhar que, na direção contrária dos periódicos brasileiros (cuja importância ele relativiza diante das redes sociais), sempre viu com suspeição a lava jato de Dallagnol e Moro. “Me desculpe”, diz a Vera – e Vera se cala.

Acho que, sim, pulei da poltrona nessa hora.

Embora manso, este novo Caetano não perdeu o juízo, certo?

Um remédio para a dor.

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Emma Stone e Ryan Gosling em La La Land: dançar é o de menos.

La La Land não é tão pior assim que Moonlight. E talvez tenha até mesmo algo a dizer sobre o cinema.

Eu não iria assistir a La La Land – Cantando as Estações. Não tinha motivos. Amo musicais, mas os protagonistas deste filme, Ryan Gosling e Emma Stone, me indicavam desconhecimento de causa. Não dei muita importância à troca de envelopes que resultou em La La Land ser anunciado erroneamente como melhor filme no lugar de Moonlight – Sob a Luz do Luar. O escândalo vende a festa. E a arte não visita o Oscar há décadas…

Quero apenas dizer que minhas objeções ao musical nasciam de impressões. Gosling não parecia ter a gana de quem voava com asas no pé, distante demais de um Gene Kelly. Mas lhe dei uma chance por várias razões. Uma delas é que sempre, ao caminhar nos filmes, Gosling o fez com algum porte, uma ginga ligeira. Mesmo que não pudesse exibir as provas de um ofício, ele parecia ter o corpo mais adequado à lida do que Emma Stone. Me esforço para entender o fascínio por esta atriz. Existe o fascínio, sem dúvida. Talvez ele nasça de seus olhos, grandes a ponto de expressar a surpresa e a procura de uma menina-moça, longinquamente próximos daqueles de Leslie Caron, que, contudo, sabia dançar. Enfrentar o filme, talvez? Uma amiga havia gostado de todo o sonho vendido pelo diretor Damien Chazelle. Das cores idas e vindas nas sequências, como leituras dos sentimentos dos personagens. Minha amiga desenha vestidos oníricos, com estampas e textura arduamente buscadas. E se ela achava haver qualquer coisa a conferir em La La Land, por que não?

Ainda assim, decidir-se pelo filme me trazia grandes dificuldades. Cinema não é cor, figurino ou cenário. Nem mesmo beleza. Cinema é drama. Mesmo nos piores momentos, se por acaso hoje pudéssemos aceitá-los como piores, Fred Astaire dançou e cantou sem qualquer dúvida, diante de cenários estupendos, com histórias divertidas a sustentar os diálogos. Vigorava então o código de censura Hays, e era preciso driblá-lo, sem fazer menções diretas ao sexo. Enquanto o código vigorou, entre as décadas de 1930 e 1970, os musicais mostraram os corpos em dança sobre o palco em lugar de fazê-los rodopiar sobre a cama. E havia que interpretar as canções, os gritos dilacerados da decepção ou do regozijo do amor, com idêntico erotismo oculto. Os diálogos exigiam maturidade, ironia, tom. Drama cem por cento, mesmo sob a comédia.

Mel Tormé, um dos grandes intérpretes da canção americana, dizia não ter havido sobre a Terra um único cantor melhor do que Astaire, cuja voz, em seu entender, ultrapassou os musicais (quando declarou isso, em 1994, durante um show no Café Carlyle, em Nova York, Tormé apontou sorridente para a própria garganta, primor das ironias, de modo a dirimir dúvidas sobre qual qualidade desejava ressaltar em Astaire; ademais, era seu modo de resolver a disputa crítica, hoje esquecida, entre sua voz e a de Frank Sinatra. Sua astúcia foi despejar o atributo de melhor cantor a um terceiro, Astaire…)

Decidi-me enfim por La La Land porque não havia o que fazer. Ocasionalmente, preciso de um “me tirem daqui, por deus”, esse que o cinema me oferecera no passado. Vou às salas por hábito, não por esperança. Um ousado musical em nossos dias? Você pensa que me engana, e eu finjo acreditar. Dois dias antes, preciso dizer, assistira a Moonlight, do diretor Barry Jenkins. Ficara com a sensação incômoda de reviver a eterna telenovela brasileira no cinema, o conhecido exagero expressivo em plano próximo. Gritos, o agito de braços e mãos quando a dramaturgia dá sinais de falir… Algumas sequências eram irrecuperáveis, à moda daquela, interrompida e desritmada, em que a canção de Caetano Veloso emoldurava o percurso do protagonista pela estrada até reencontrar-se com seu verdadeiro amor. Em Moonlight, contudo, alguns dos atores coadjuvantes expressavam com contenção um drama maior (Mahershala Ali talvez não tenha sido o melhor deles; venceu o Oscar, suspeito, por reverência a seu papel de cínica elegância em House of Cards). E a infantilidade do filme servia à narrativa de uma trajetória em formação.

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Mahershala Ali, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante.

 

Moonlight  e sua câmera voyeur… No início, ela gira sobre os personagens no pátio da escola como se reproduzisse a perspectiva do espectador da briga, de quem assiste ao bullying praticado contra o menino homossexual. O diretor quer que ele cambaleie também? Pelo menos minha vertigem, Barry Jenkins obteve, mesmo que eu jamais tenha presenciado um embate físico à saída do colégio. Uma certa insistência em caminhar com o personagem por trás, às vezes à altura da cabeça, faz ampliar a sensação de uma curiosidade principiante, essa que talvez, justamente, tenha contribuído para aumentar, sobre o filme, a enorme empatia. O protagonista hesita em sua procura sexual e existencial, assim como parece girar em torno da verdade o próprio cineasta, mais experimentado em curtas-metragens. Contudo, necessário dizer que ele soube expressar uma beleza. Fez o espectador mergulhar com certa naturalidade nos objetos de cena e no figurino de um ambiente segregado. Seus homens e mulheres, aparentemente distantes de nós pela língua, origem ou etnia, misturam-se àqueles que conhecemos em nossos bairros pobres pela fragilidade diante do caos da vida.

Em La La Land,  na direção oposta, há um distanciamento ensinado pelo cinema. Esse caminho o faz evocar as cinematografias do passado. A sequência inicial da obra momentaneamente nos transporta ao cenário dos carros à espera em Oito e Meio, do qual o diretor interpretado por Marcello Mastroianni sai em voo, como um herói da HQ. Mas, em La La Land, durante um  ensaiado plano-sequência, não há um apelo à subjetividade do personagem, antes à concretude da situação. Os motoristas engarrafados, em lugar de voar, sobem nos carros, cientes de sua realidade, do papel escapista do cinema, e ali revivem sua condição de outsiders. Uma intenção felliniana, à moda de La Nave Va, às vezes estiliza o chão, tornado líquido. Tudo se mistura, o que é real e o que cinicamente o transpõe. Sério, os protagonistas deste filme não sabem dançar nem cantar. Mas é isto: tampouco nós. Ademais, o filme tem a coragem de remodelar a ideia de um final feliz e de nos conformar descaradamente com o que temos, como prometera no início.

Quero dizer que gostei mais de La La Land que de Midnight? Talvez. Entre um chuchu e um pepino, me deem os pepinos, os problemas. Contudo, é preciso atentar para o fato de os filmes não se terem confundido por acaso ao final da atrapalhada apresentação do Oscar. Os dois caminham em simetrias. São muito parecidos. Discorrem sobre aquilo que, em nossas vidas, poderia ter sido e não foi. Ou, amplamente, como a inconsciência dos filmes parece propor, discutem a distopia de uma nação decaída – aquela democracia que poderia ter sido e não aconteceu. Principalmente, as ficções tentam acomodar a situação, sem apontar perdedores. Se apontam a regressão, indicam ao mesmo tempo que ninguém deve perder o sono por ela. Valorizam o trabalho sobre os afetos e querem nos fazer acreditar que o verdadeiro, eterno amor, pode sobreviver à ausência corporal, como uma nação, a seus ideais não concretizados. O sentimento não é novo, apenas renovado. Bette Davis, americana número um, não acreditava muito nas relações pessoais (tão frustrantes, dizia) e preferia, por isso, emendar mergulhos no cinema. A fé no trabalho pode ser, sim, um remédio para a dor.

Por Rosane Pavam