Globo News and the snakes

Meu filho decidiu que era hora de ligar a tevê no mute pra ver a apuração dos resultados pela Globonews.

(Uma insanidade de quem gosta de assistir ao programa do Neto, fazer o quê).

E saiu.

E me deixou sozinha na sala com essa turma de jornalistas peçonhentas agora felizmente separadas por bancadas covid.

Não ouço nada do que dizem, mas descubro pelas infos ao estilo de restaurante prato-feito o que eu já sabia, que terei de andar a Brigadeiro inteira no segundo turno só pra votar no Celtinha.

A tevê a cabo é meu paraíso.

Fico imaginando a Saadi no ponto detestando o mundo, maltratando o cabeleireiro, praguejando contra a Christiane Pelajio, a Khloé gordinha dessas Kardashians do Leblon, e me encho de alegria…

Minha mente ficcional é minha única companheira.

E a Globonews, um serpentário, migues!

Mas tá faltando alguém mais na bancada covid.

Que tartaruga murcha é essa mexendo o bocão no cativeiro do Butantã?

Gabeira, please no.

Na janela da sala dele tem rede de proteção! Aposto que contra si mesmo!

Ai, meu deus, só deixo a Globonews agora, diretamente do holoceno, pela Karen Walker do Will & Grace.

Covideiros paneleiros

É verdade que só comecei a assistir a esta série zúmbica do Cláudio Torres, cineasta da Conspiração e filho da Fernanda Montenegro, porque o Mauricio Tagliari fez a trilha original. Mas vai daí que estou me divertindo à beça e gostaria de recomendá-la aos da quarentena eterna.

Os zumbis podem ser qualquer coisa em Reality Z – paneleiros, covideiros -, porque toda a ameaça que o Torres encena no Rio ou na Globo se encaixa em nossa desgraça brasileira.

Divirtam-se, vocês que tanto gostaram de Bacurau!

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.

A noite no invisível

Às vezes me sinto uma câmera termográfica que fotografa o mundo escuro.

É uma sensação poderosa e reveladora.

Ninguém precisa concordar comigo, mas se digo que vi alguma coisa no invisível, pode crer, vi sim.

Acontece com vocês?

Não raro, quando assisto à maravilhosa série “Night on Earth”, na netflix (essa involuntária companheira), transponho suas revelações para minha vida, tipo “eu sei que aquele orangotango come à noite, por que nunca ninguém viu?” (metaforicamente, né gente).

Assisti ao último capítulo da série hoje, o making of em que o trabalho dos câmeras é revelado aos nativos e zoólogos.

A pesquisadora dos guepardos não conseguia provar ao mundo científico a perambulação noturna dos animais, embora tivesse fortes indícios disso, ao constatar suas coleiras desgastadas; as filmagens mostraram os guepardos bastante ativos à noite e assim validaram o trabalho de dez anos da cientista.

O orangotango nunca fora percebido comendo sob a lua, mas a fotógrafa o captou sem querer do alto da árvore de 30 metros, quando lá se encarapitara sozinha, de madrugada. Chorei junto com os pesquisadores nativos que se emocionaram ao constatar a vida noturna de um bicho querido.

Enfim, o importante é que vocês aproveitem a chance de assistir a essa preciosidade durante seu relativo confinamento.

Mesmo.

🌸

Rir na quarentena

Quarenteens, o grande público tem razão.
Dá pra se divertir bastante com Sex Education, na netflix.
As cores são vivas e impossíveis.
As palavras, quase interjeições.
E os atores sem idade adequada movem os rostos como se usassem máscaras.
A trilha sonora, então?
Tudo do bom passado.
A criadora é uma mulher que mescla o clima das comédias teen dos oitenta, as que conheci e curti, com as distopias e correções de agora.
Um sofá quente pra vocês.

Abraço não é polêmica

Não morro de amores pelo Drauzio Varela. Sou impaciente com gente vaidosa. Da primeira vez que me deu entrevista, há milhares de anos, nem me olhou nos olhos. Falou ao infinito, como se lá estivesse uma câmera de tevê. E, sim, no futuro haveria no infinito uma câmera de tevê.

Também lidei semanalmente com ele por alguns anos, quando escrevia pra Gazeta Mercantil e pra Folha de São Paulo em dias alternados da semana. Suas colunas para os dois veículos eram sempre sobre o mesmo assunto. Ganhava o dobro para dizer coisas idênticas de modos diferentes, resumindo.

O procedimento me dizia mais alguma coisa indesejável sobre ele, embora nos tratássemos bem ao telefone. A gazeta era ordinária, mal me pagava salário e quase ninguém lia aquela coisa mesmo. Se eles queriam o Drauzio replicador, ficassem com ele.

Dito isto, o que tenho a considerar sobre o episódio da trans encarcerada é que ao abraçar um preso o Drauzio não comete crime algum, indiscrição ou falta de ética. E não por ser médico.

Não sou médica e no entanto abraço trans sob o viaduto sem lhe perguntar por que foi parar no viaduto e o que faz pra ganhar a vida sob o viaduto. Se quero me aproximar de um ser humano, me aproximo.

Me perdoem, mas, pensando bem, ele tinha mais era que abraçar a presa. Tomou seu tempo, certamente sem nada lhe pagar, expôs seu rosto ao mundo e ganhou visibilidade por meio dela – embora tudo tenha dado no que deu.

Ela é uma presa, melhor dizendo: cometeu um crime e não fugiu de pagar com o encarceramento pelo que fez.

Para mim, melhor abraçar uma pessoa nessas condições do que muito safado(a) com quem trabalhei no jornalismo.

Aliás, ou abraçamos o mundo ou ele nos abraça feito cobra depois de nos picar.

Porta dos Fundos não é Python

Bem.

Deixa eu esclarecer, pra quem se interessar pelo que vou dizer.

Não terminei de ver o Porta dos Fundos de Jesus, mas vou clicando todo dia no Netflix pra aumentar a audiência do programa e desbancar esses censores de m.

É uma campanha que auto-lancei e vc pode aderir.

E não terminei de assistir ao programa porque não gostei do que vi até o momento.

Basicamente, não ri.

Não gosto muito do Porta dos Fundos, pra ser sincera (e nunca conto isto pra ninguém, porque já viu; estou à espera dos comentários “mas eu gosto”: mandem!).

O que eles fazem de melhor, penso, está nesse espremer sem fim do ceticismo religioso do Monty Python.

Mas eles não são o Python pra alcançar seu patamar cômico.

Não amarram o roteiro com situações surpreendentes.

E não são atores espetaculares como os Python, isto é, jamais chegam à desenvoltura física do cinema mudo, na base do humor inglês.

Além disso, seus rostos não parecem propícios à comédia, à máscara.

Não são Chico Anysio, por assim dizer.

Humor de palavreado tem de ser extraordinário para funcionar.

E, ainda assim, vai precisar de intérpretes à altura das palavras.

Já vi o jornalismo satírico à moda estadunidense do Duvivier, o Greg News, e acho que funciona bem em alguns momentos (me aborrecem as risadas de claque).

Aí estamos no terreno da palavra do noticiário, e falar ele fala bem.

Humor não é só piada.

Aliás, nem precisa dela.

Humor é crítica.

Talvez um dia o Porta dos Fundos chegue lá.