Elvis não estava lá

A cinebiografia de Baz Luhrmann entra no streaming da HBO Max com uma cena de vaudeville a emoldurar a vida do rei do rock

Austin Butler vive Elvis
na apresentação televisiva
de 1968: ele imita bem

É curiosa a obsessão do diretor Baz Luhrmann com o tema vaudeville. Muito representativa desde “Moulin Rouge”, no qual nada poderia estar tão distante do que fez Max Ophüls, o mais bem-sucedido intérprete cinematográfico desse teatro de variedades. Naquele filme de 2001, Luhrmann criava um jeito pop de reler o estilo, em alto e bom som, sem contudo atingir a magia de Ophüls.

O que Luhrmann faz agora em “Elvis” é transpor essa atmosfera mental de um vaudeville do século 19, como se esperava que ele fosse (múltiplo, encantador, incessante), para a vida de um dos maiores ídolos da música popular estadunidense, senão o maior, surgido no século seguinte. Neste filme, ele usa o que pode para Elvis baixar em você, como numa bela aventura de terreiro, já que a cultura negra assimilada por ele foi uma inspiração nas performances musicais. Mas o problema é que Elvis já baixou em nós há muito tempo. Sabemos como ele fez, não sabemos?

Tom Hanks como Coronel Parker,
o ilusionista, e Elvis como sua
criatura de vaudeville

E talvez não tenha sido exatamente do jeito que Luhrmann mimetizou. Nesta versão, o rei do rock vira figura artística de talento excepcional a operar esse ilusionismo de super-herói. E está a serviço de alguém semelhante a um chefe de companhia mambembe, o tal Coronel Parker, “ilusionista” de vaudeville interpretado por Tom Hanks.

Hanks vive seu personagem como convém ao teatro de variedades, com comicidade, um deboche compenetrado, inalterável. A ponto de o filme parecer ser mais sobre o empresário de Elvis (que nem Parker era na verdade, muito menos coronel) do que sobre Elvis em si. 

Hanks está caracterizado com o chapéu de Orson Welles em “A Marca da Maldade”. Importante: isto quer dizer que Baz Luhrmann reverencia o cinema, já que cita indiretamente um de seus maiores diretores. Ele põe a câmera para girar e saltar, como Welles fazia na medida certa, e introduz uma sequência no labirinto de espelhos que evoca “A Dama de Shangai” (1947), outro filme de Welles, no qual seu par era Rita Hayworth. Ao evocar esse cineasta maior, Luhrmann está autorizado a falar de cinema como se falasse de vaudeville. Ou terá sido o contrário, falar ligeiramente sobre cinema enquanto busca hipnotizar o espectador como fazia o vaudeville?

Enfim, não importa. O século 19 parece ser mesmo uma obsessão do cineasta. E todo mundo tem o direito de ver a história de Elvis sob sua perspectiva, porque ele cabe em praticamente qualquer versão. Sua vida é um labirinto, um fenômeno em muitas direções. E esta, francamente, parece ser bem original.

Original porque atravessa o tempo.

Um liquificador a
centrifugar o maligno

Mas o problema aqui é que Luhrmann não pode ser tão fiel assim a Elvis se busca uma outra atmosfera, que não lhe pertence. Os números musicais são caprichados. Mesmo assim, o ator a interpretar Elvis, Austin Butler, está obrigado a se sacudir como um liquidificador que centrifuga o maligno quando se apresenta ao público. Lembra mais um brinquedo em palco antigo que a figura pulsante, poderosa e jovem do músico, até hoje compreendida deste modo por nós.

Vaudeville outra vez. Ilusionismos, alucinações, como aconteceu no século 19. O teatro de variedades começava a acolher as imagens captadas pela luz. O cinema inicial era uma atração inferior nesse palco. As fotografias circulavam pela cidade do século 19 como um assombro, uma fantasmagoria. E viravam cinema como uma ilusão a mais.

Encaixar Elvis nessa atmosfera mental do passado é tarefa laboriosa, embora estejamos cansados de saber que ele nos hipnotizou como um bruxo. Quando Elvis surgiu para o público, na segunda metade do século 20, tudo tinha se tornado bem mais frio e controlado do que havia sido no século anterior. A cena onde Elvis começou era recolhida. Os shows e as missas afro-americanas se davam no quintal dos pretos, nas suas igrejas. Depois Elvis observou como funcionavam os clubes de stripper e repetiu o que viu. Colocaram-no na gravadora, na rádio, na mídia massificada, e ele estourou. Tudo muito diferente do vaudeville, quando os ilusionistas cabiam em tendas, quando ainda havia um clima de fantasmagoria e sonho ao ar livre a pesar sobre o espectador, a embriagar seu corpo.

Luhrmann quer nos fazer crer que Elvis se encaixa na sua manobra do tempo, e em parte talvez se encaixe. O vigor de Elvis sobre o palco é quase uma possessão revivida. Mas Elvis não era só isso, um ser religioso. Ele tinha de exercer a razão terrena todo santo dia para passar o trator na censura e dominar os bastidores. Tinha de magnetizar uma multidão extra-palco, dar entrevistas, cantar com Frank Sinatra, posar com Sofia Loren. E se não existe esse embate no filme, é porque ele busca mostrar Elvis como uma marionete sofrida e literal de seu ilusionista.

O diretor tem esse mérito de creditar Elvis à cena afro-americana – à cena musical que ele acompanhou criança, família empobrecida, num bairro negro de Memphis. E por isso vale o filme, com suas novas caracterizações para o amigo B.B. King, para Little Richard, Fats Domino (que Elvis aponta como verdadeiro rei do rock), Rosetta Tharpe ou Mahalia Jackson.

No reino da Priscilla
vivida por Olivia DeJonge

De resto, o ator que interpreta o ídolo parece ter o freio de mão puxado. Austin Butler está a serviço do ilusionista Luhrmann, seus movimentos são muito caprichados e lembram Elvis – mas só lembram. O ator parece comandado, contido. A sensualidade também virou uma evocação. Na segunda metade do filme, surge a atriz que interpreta sua mulher Priscilla (Olivia DeJonge) e ela parece ir bem melhor, a nos convencer psicologicamente de sua presença. A gente a sente na sua pulsão de menina sonhadora, embora ela não se pareça fisicamente com a Priscilla real.

O que eu acho é que se você vai ousar dirigir a história de Elvis, um fenômeno imenso e complexo demais, não pode transformar seu ator numa marionete de Elvis. Não é culpa de Austin Butler que cause essa impressão, acho eu. Me parece ser escolha do diretor, que se vê na figura do ilusionista, do manipulador mental, do Caligari que precisa de Frankenstein para ser doutor.

De todo modo, há bastante encenação no filme pra nos distrair, muito giro, cor, e a gente não passa desconforto vendo aquele palco por quase três horas. Bem que Luhrmann poderia ter encaixado Ann Margret, a paixão intensa de Elvis, nessa história ainda comandada por Priscilla! Porém, se nem o rei do rock a cinebiografia conseguiu direito envolver… Ia chegando o fim do filme e eu parecia ainda estar esperando Elvis aparecer. Apareceu? Para mim, infelizmente, Elvis não estava lá.

Fechei o livro

Me ponho a ler o texto de um desses curadores/historiadores da arte que gostam de meter seu pitaco sobre fotografia.

A certa altura, o pensador diz que no trabalho de determinada fotógrafa “não se percebia nenhum cacoete da fotografia direta, por exemplo, ainda muito valorizada naquele período”.

Chego a ter pena.

Fotografia direta, “cacoete”?

“Ainda muito valorizada”?

Talvez esses críticos/historiadores/curadores não passem mesmo de avaliadores de mercado.

Fechei o livro.

As cópias imperfeitas

No primeiro passeio ao ar livre, pela praça 14 Bis, em São Paulo, eu tinha quatro meses. Curti? Não sei. Talvez tivesse sono. Talvez desconfiasse…

As fotos foram feitas por Walter Pavam, meu pai, reveladas e ampliadas em formato pequenino no banheiro de nosso apê alugado de um quarto no Bixiga. Nunca vi estas imagens coladas nos álbuns, estes que ele compunha como se diagramasse livros.

Esperava o foco perfeito da sua Flexaret, o enquadramento ideal, o sorriso de seu personagem ou a surpresa. E estas imagens não resultaram no que pretendia exatamente. Mas, como prezava a fotografia como entidade, não jogava nada fora, nem seus erros.

As duas imagens estavam localizadas em uma das pastas nas quais ele acumulava suas frustrações, as cópias imperfeitas, fosse pela foto em si, fosse pela ampliação malsucedida.

A primeira imagem não tem meu sorriso, e talvez ele estivesse insatisfeito com a composição. A segunda, compôs como queria, com essa diagonal rumo ao infinito, meu sorriso e o esplendor da praça ao fundo. Mas o fundo, justamente, parecia estourado e indefinido.

Então guardou tudo. Para usar depois? Era muito comum que ele desse cópias aos parentes, amigos presentes nas fotos. Muita gente que conheci só teve imagens de infância porque meu pai lhe deu. Uma grande generosidade da parte dele, porque levava a sério a infância. Mas o papel fotográfico era caro, suado para ele, que o usava também profissionalmente, para ampliar seu horizonte na pintura.

De todo modo, estas são tentativas muito bonitas da forma como foram feitas. O tempo as valorizou. Ou ganharam imenso valor pra mim.

Obrigada, menino velho, por tudo e em tudo que me fez.

O comunismo segundo meu conhecido de classe média paulistana

Eu não resisto e de vez em quando vou a um desses perfis de facebook pra ver como eles estão espumando agora. Na verdade, vou a um específico, de um sujeito de classe média paulistana meu conhecido, que sempre intercala as fakes com orações pra Virgem Maria.

Desta vez o achei original. O sujeito coloca o trecho real de uma fala de Lula na qual ele diz não fazer sentido alguém comprar um iate de 400 milhões e mais outro iate só pra guardar o avião. “Pra que isso?”, pergunta. “Ele não vai fazer nada com isso.”

Pensei: tem razão!

E então vem o toque do jênio. Em cima do vídeo postado por meu conhecido, uma faixa vermelha avisa: “Atenção, isto é o comunismo”.

Pensei: que pena!

O comunismo vai acabar com a chance de meu conhecido, com o salário que ganha, gastar seus futuros bilhões comprando dois iates e um avião.

Um segundo debate será de lascar

eu tenho trauma de Lula em debate desde 1989.

naquele tempo, nervoso num paletó claro que não lhe caía bem, ele suava ao ouvir a baixeza em série proferida pelo collor, ontem substituída por aquela do ciro.

na época eu achava que o Brasil não daria bola para um estúpido como o collor claramente era, mas deu.

o brasil é presa fácil, o que fazer?

lula debatendo num formato que não permite o debate, diante de candidatos inviáveis, falas mentirosas e jornalistas mal-intencionados, ademais interrompido por um sino e olhando pra câmera mal terminado cada raciocínio, é angústia desnecessária pra mim, sinceramente.

ganhe no primeiro turno, meu querido, porque um segundo debate vai ser de lascar.

Iara Rennó, o deslumbre

Iara Rennó, musa e estrela de “Oríkì”, um show de arrepiar no Sesc 24 de Maio até domingo 28, às 18h

Iara Rennó é só luz pra mim. Amo cada show, cada uma de suas pronúncias. E este “Oríkì”, no Sesc 24 de Maio até amanhã, domingo 28, segue aquela maravilha de sua escrita, desta vez com uma narrativa sobre os orixás.

Com essa banda, com esse figurino, todo o esplendor

Tudo se encaixa. A banda é inacreditável e o figurino obedece a um outro mundo de beleza e significados. Não percam! Mas tenham paciência com o tratamento que o técnico de som deu a esta história. O som embola, é alto como se seu destino fosse a avenida, e frequentemente não compreendemos as belas letras. Corram lá, de todo modo, porque é preciso. Iara, parabéns! Iara merece. 💜

Até muito típica

Fora andar no estampado, eu queria me vestir de paletó preto, de terno, não sei o que é aquilo, blazer, com camisa branca meio aberta por baixo, como usa hoje a Jane Birkin no documentário que a filha fez com as duas.

Acordo pensando uma bobagem qualquer e viajo nela bastante tempo de manhã para que a seriedade me deixe, para que meus pensamentos sobre a miséria humana parem de me levar sei lá aonde.

Queria mudar quem sou várias vezes e adoraria acreditar em astrologia porque, não é, sou uma geminiana com ascendente em gêmeos até muito típica.

Pronto. Parei.

Para que o riso nos console

Séries sul-coreanas e japonesas encaram a tragédia humana com humor, às vezes involuntário

Park Eun-bin, um show de atriz para representar a profissional autista de “Uma Advogada Extraordinária”, série em primeira temporada pela Netflix

Há um bom lugar na Netflix para as séries japonesas e sul-coreanas. São comédias românticas, na maioria das vezes. Um gênero muito interessante de acompanhar, desde o cinema mudo. Culminam com o beijo, que foi uma das primeiras emoções encenadas pelo cinema, e podem crescer com a dança, um jeito de representar sexo para além da nudez e dos jogos de palavras. Os desencontros têm um grande papel na construção do efeito humorístico, são sua essência.

Amo as comédias românticas, desde as mudas, ou principalmente estas. Mas quando penso nos anos 1930 dos Estados Unidos, nos 1940 da Itália, que festa! E que pena para a representação da condição feminina dentro delas. Só o casamento poderia dar a qualquer mulher o direito de ser feliz nessas tramas vigiadas.

As comédias românticas orientais presentes na Netflix hoje, em sua maioria, não significam cinema. São tevê bem feita, programas ficcionais cujo público-alvo é um setor da sociedade apontado como consumidor potencial. Gosto muito de um dos procedimentos dentro delas, que me remete aos filmes do diretor japonês Mikio Naruse (1905-1969). Os personagens raciocinam conversando, enquanto andam. Muito do bom cinema para mim é isso, movimentar-se. O ator italiano Marcello Mastroianni dizia à filha Chiara que, para atuar, ela precisaria apenas saber andar sobre os trilhos olhando para a câmera, não para os pés.

No reality show “Crescidinhos”,
o primeiro passo para a vida em sociedade é dado ao caminhar

Até os reality shows orientais precisam fazer rir. É o caso da série pensada para que os pais de crianças pequenas aprendam a soltá-los. “Crescidinhos” envolve meninas e meninos a partir dos dois ou três anos de idade em tarefas solitárias, monitoradas bem de perto pela direção do programa. Eles precisam ir e voltar sozinhos de um ponto a outro de sua cidade, fazer compras ou entregar coisas. Como se estivesse implícito que caminhar é acordar para o mundo, é viver.

Há uma oferta séria para ambientalistas nesse rol. A ficção científica japonesa “Japão submerso: A esperança” aponta a fúria da mãe Terra diante dos maus hábitos que desenvolvemos em relação a ela. O humor aqui é involuntário, tantas vezes. A partir de um mangá de Sakyo Komatsu também disponível como anime na Netflix, e com roteiro de Toshio Yoshitaka, trata-se de uma história aflitiva, sem o consolo de apresentar um futuro certo a seus personagens, na direção oposta dos casos das crianças muito pequenas, soltas numa rua controlada, do reality show “Crescidinhos”. 

Os orientais são tão refletidos, conscientes, engraçados, puros e caricaturais em “Japão Submerso”, mesmo enfrentando o apocalipse! As ações ambientais marinhas do governo interferem no movimento das placas tectônicas e, como consequência, o país inteiro vai sofrer abalos e sumir. Como assim, desaparecer uma nação tradicional dessas, com 120 milhões de habitantes? O governo nem tem tempo para pensar, mas ainda que pondere os efeitos da catástrofe em sua economia, quer proporcionar um futuro aos japoneses, o que faz pensar…

“Japão submerso: A esperança”, ficção científica ambientalista que começou como anime: um show capilar

A trilha sonora da série é péssima, nunca se coloca na hora certa, e as cortinas aparecem imensas, revelando insistente contraluz. Uma fotografia pouco inspirada, talvez. Os cabelos dos atores, trabalhados exageradamente, diferenciam os personagens: espessos, majestosos, desarrumados, escassos, lambidos. Tenho vontade de abraçar a personagem jornalista naquele Japão surreal que nem mais existirá, a menos que o capitalismo o salve, que as empresas japonesas coordenem a migração em massa e que os cientistas, ainda por cima, combatam um vírus mutante oportunista, parecido com uma barata marinha. Vontade de roer as unhas. E rir.

Para o povo jurídico millenial, a série coreana “Uma Advogada Extraordinária” é espetacular. Vai lhes apontar um lugar na sociedade e, principalmente, discutir a ética e as leis num país distante, para o qual sopram os ventos da modernidade. Dirigida por Yu In-sik, a comédia dramática k-pop é em essência um show de mulheres em posição de comando, ainda assim, mal resolvidas social ou emocionalmente. Quem me falou sobre ela foi minha linda amiga de tantos anos, a escritora Betty Priesmag. Creio que desejou me confortar no meu novo retiro, imposto por mais um ligamento do tornozelo, desta vez totalmente rompido nas calçadas de São Paulo. Por pouco não precisei operar, e sinto insegurança sobre como vou andar pela rua de novo… Mas, bem, Betsy tem esse poder sobre mim, ela me animou: na hora do estresse, contou-me, a protagonista coreana ouve o grito das baleias e o frescor de uma epifania lhe surge. Conferi e “Uma Advogada Extraordinária” é isto, exatamente. Mas isto com humor, drama, romance, consciência social.

Vi todos os capítulos apresentados até agora, e faltam apenas dois para a primeira temporada se encerrar. A advogada extraordinária, que na verdade é autista, anda como um Chaplin de pernas abertas, tem mãos, rosto e pele lisos e ágeis de juventude, um olhar que investiga e se perde. Um show de atriz, a bela Park Eun-bin, que atua desde a infância. E os atores secundários são cômicos de igual estatura. Na série, a jovem advogada é amada pelo galã de tevê Kang Tae-oh, que interpreta um investigador. Ao que parece, a protagonista não terá sua história de amor resolvida tão cedo. A estrutura narrativa é assemelhada àquela que orienta as séries médicas: constrói-se o episódio a partir da tentativa de resolução de casos defendidos por um grande escritório de advocacia da Coreia do Sul.

Sigo firme em busca de novas opções dentro da barafunda desesperançada que é a Netflix, e se as tiverem, me falem delas. Amo os orientais de qualquer jeito, seja por sua modernidade anterior aos modernos, pela beleza, seja por sua tipicidade cômica fixa, a ousadia de nos confrontar caricaturalmente com assuntos extremos. Só eles para nos fazer rir quando em realidade deveríamos já ter arrancado todos os cabelos distópicos, à espera de o mundo encontrar seu fim.

Lula e a pátria-mãe

Lula e Dilma no lançamento da campanha à presidência, Anhangabaú, 20 de agosto de 2022.
Foto de Ricardo Stuckert

Discursos de Lula. Eis os triplos carpados que as escolas deveriam de vez em quando mostrar aos alunos, se um dia já não o fizeram, de modo a contribuir para a evolução de seu pensamento. Falo de escolas hipotéticas, claro. Escolas de raciocínio, escrita, improviso. Lugares que talvez ainda não existam no Brasil, porque nem o Brasil existe hoje, vamos dizer assim.

E por que as escolas terão Lula no futuro? Bem. Todo mundo já ouviu falar do discurso de Lincoln em Gettysbourg, aquele que selou a vitória sobre os confederados na Guerra de Secessão. Todos sabem que Luther King teve um sonho, e que disse isso a quem, no seu tempo, lutava pelos direitos civis. Todos conhecem a carta que Getúlio Vargas deixou para que a história o lesse com seus olhos. Até Jânio fez das suas, naquela sua típica escuridão. Hoje temos nosso jeito de avaliar o que essa gente aprontou para o mundo, dar o peso das suas atitudes, lendo sobre suas ações. E fazemos isso também por meio de seus discursos, esses que permanecem por si, como poemas da política.

As escolas brasileiras não informam sobre os discursos de Lula hoje. Ou ao menos supomos que não. Mas as do futuro não terão saída. E, independentemente dos erros que ele tenha cometido na política, as do futuro vão ouvi-lo. O futuro é onde permanecem as coisas duradouras, mas combatidas no presente, plenas de faíscas nem tão visíveis hoje.

Não sei se ouviram o discurso de ontem no Anhangabaú, abertura oficial da campanha política de Lula à presidência. Aqui de casa, porque moro no centro, a gente sentia os ecos das falas e dos apupos. Quando Dilma Rousseff apareceu, o chão tremeu. Lula deve ter sentido esse tremor por lá, naturalmente. E aposto que na onda daquele carinho que as pessoas manifestaram por sua querida, Lula pegou o barco para outras coisas que pretendia dizer sobre a condição feminina no Brasil de hoje. Nossa condição de mulheres é aquela que confronta diretamente a miséria brasileira, e Lula sabe bem a quem falar, a quem pedir.

Eu acompanhei seu discurso pela live no Facebook de Gleisi Hoffman. E juro que ele comparou Dilma Rousseff a Tiradentes. Tenho certeza de que já havia pensado nisto antes, nessa particularidade simbólica do destroçamento de Dilma à exposição pública, na sua carne salgada para intimidação histórica. Mas depois de sentir a acolhida a Dilma no palco da manifestação, aquela que a fez chorar, Lula a incorporou no que já iria dizer.

Dilma seria Tiradentes porque, antes tão difamada publicamente, hoje já pode ser  acolhida à maneira simbólica. Lula leu: Tiradentes, o maltratado pela elite portuguesa, foi absorvido como símbolo brasileiro somente pelos golpistas da República. Já temos público para entender isso, ele decidiu. E passou à lição histórica.

Um símbolo do passado é arrancado sempre que falta outro, de mais potência, no presente. Foi o que aconteceu com os golpistas militares republicanos. A quem poderiam recorrer? Tiradentes estava no ar, um homem contra os abusos da Coroa portuguesa, esta que eles, tão sem modos, acabavam de despachar. Tiradentes! Dilma! E Lula não se intimidou em comparar os contextos. Ele faz história, mas é também um historiador. Um historiador não somente porque conhece os fatos e os memorializa. Historiador porque reinterpreta esses fatos, porque o passado merece uma nova leitura que o resgate das mãos sujas do tempo. Lula leu Walter Benjamin? Não sei.

Acho que ele já pretendia dizer isso, mas ontem foi o dia. Seu pai, um pária. Um verme, quase. E não é que hoje conhecemos pelo menos um? Lula desancou a figura paterna que batia na mãe. Vi o Haddad, lá no fundo, abrir a boca. A metáfora da pátria como mãe é terrivelmente oportuna, e sempre podemos recorrer a ela. Perder um país é perder a própria mãe. Mas nossa mãe, como a mãe do Lula, como a Dilma, não se intimida. Tira os oito filhos de lá, como fez a mãe do Lula, e refaz o lar em outro lugar. 

Seremos os filhos desta pátria novamente? Eu creio que seremos. Uma pedra fedorenta não consegue interromper o correr de um rio, um rio e seu fluxo. Ouvir Lula equivale a um aprendizado, não apenas de retórica. Livre pensar, mais do que só pensar. Esta pátria manchada é a liberdade em movimento, é nossa mãe.

debater com meme

rolam por aqui uns debates com meme.

isto mesmo, debates com meme.

não debates sobre o assunto que o meme suscita.

debates com o meme, com a entidade em si.

como se o meme, e também a charge (o meme é uma espécie de charge) estivessem preocupados em ser verdadeiros.

me escutem.

meme, charge, isso tudo é humor, ironia, interpretação da realidade, não a realidade.

não existe meme fake, não existe charge fake.

e o meme e a charge não vão nos ouvir se debatermos com eles.

a melhor maneira de responder-lhes é com outros memes e outras charges.

tenham calma e durmam bem.