Vamos proteger nossos manifestantes

eu sei que é adorável ir à paulista mandar o bolsonaro se foder.

uma festa democrática de cores, força e luz.

e estou louca pra frequentá-la eu também, embora ainda receie por minha saúde até que, em setembro, possa tomar a segunda dose da astrazeneca, essa invenção maravilhosamente febril que me ajuda a manter as esperanças de existência.

mas a alegria toda que há em nós paulistanos por essas manifestações não deixa de conter uma infelicidade, que atende pelo nome de polícia militar.

doria, uma barbie dos infernos que sem receio, assim como alckmin, já jogou comboios israelenses contra jovens em protestos passados, tem feito de tudo para se abrir às atuais demonstrações políticas coletivas vespertinas aos sábados, por motivo bastante conhecido de rixa de poder.

mas a pm, que ele não controla e quer bolsonaro, mostra sua face quando a manifestação dobra a esquina da consolação e a maioria dos manifestantes já partiu.

ali é que esses sádicos corruptos encurralam pretos, jovens antifas e fotojornalistas, para que paguem o preço da ousadia de desejar o fim de seus privilégios injustificáveis sob a liderança miliciana.

eu sugiro então que quem vá às próximas manifestações em São Paulo não abandone, se possível, esses manifestantes e profissionais.

e siga o cortejo do protesto até o encerramento, este que se dá na praça Roosevelt, final da consolação.

sob o testemunho e a cobrança de todos, a pm encontrará então mais dificuldade de ser o que é, uma corporação a serviço sanguinário do poder.

E Lia me deu uma ciranda!

Ontem estive triste demais até o momento em que o Mau me colocou de contrabando numa aula de Alessandra Leão na qual a convidada era ninguém menos do que Lia de Itamaracá, a “dona de Itamaracá”, como a Alessandra, criança, jurava Lia ser.

Em primeiro lugar, Lia nos contou querer que a pandemia passe logo pra ela se amostrar de novo, gente.

E em segundo lugar (pra não me estender nos terceiros e quartos), ela disse que a ciranda que faz, compondo letra e melodia ao mesmo tempo, sempre a partir do que o barulho do mar diante de si sugere, é poderosa a ponto de curar tudo.

Cantou “O Relógio” e as lágrimas caíram por trás dos computadores! E principalmente “Falta de silêncio”, na qual ela canta que ama “a falta de silêncio do mar”…

Foi tão profundo que não digo ter curado toda a minha dor ao ouvi-la, mas que ela me ajudou a sair daquele chão frio, sim, Lia me ajudou!

E me encontro aqui pra agradecer esta mulher maravilhosa, esta deidade em vida, até que possa vê-la outra vez pelo carnaval da avenida São Luís.

Nossa Odoyá!

O tigre Llosa e eu

Não sei se acontece com vocês. Mas eu sou do tipo devagar. Demoro a perceber que realmente não sou bem quista em certos ambientes. Devo achar, por alguma razão misteriosa, talvez fundada em minha educação, que mereço ser considerada sempre. E quando acontece de os laços se desfazerem inequivocamente, fico impressionada. O susto demora a acalmar.

Acontece no trabalho. Na vida com amigos. Aconteceu nos namoros. Por que não percebo e não dou no pé? Acho que sempre vão me chutar antes.

Uma vez foi exatamente assim com Mário Vargas Llosa. Nunca fui fã do homem. E o escritor… eu preferia todos os latino-americanos antes dele. Adorei a análise que fez de Flaubert. De Madame Bovary. Reconheceu-se nela, mesmo sem o dizer. Escreve bem porque lê bem. Mas é isto. Pra mim, falta um toque pra me alcançar como leitora.

E então aconteceu de eu ir entrevistá-lo. Nem estava a fim. Tinha medo daquela figura, do seu cabelo liso, dos dentes. Ele começava a falar pelos cotovelos na imprensa elogiando os Tigres Asiáticos. Toda aquela sorte de bobagens partida do escritor-candidato. E então pensei: se eu conseguir que ele seja honesto comigo, vai ser bom, não vai? Vou gostar, não vou?

E fui. O problema era que eu trabalhava no JT. E ninguém no mundo editorial morria de vontade de frequentar aquelas páginas. A editora já tinha escolhido os quatro de sempre, Veja, Estadão, Folha e Globo, a quem ele concederia as entrevistas brasileiras. Mas uma boa alma na assessoria decidiu, talvez por eu ter feito algumas boas entrevistas antes, que eu poderia pegar o táxi com ele até o aeroporto.

No táxi? Tá bom. Pelo menos seria uma entrevista diferente. Perguntei-lhe o que pude, literariamente falando. Me lembro de ele gostar de trocar ideias sobre Melville, sobre Moby Dick. Conversávamos até animadamente quando de repente eu cheguei com os Tigres, uma pergunta que Renato Pompeu me ajudou a formular. Sua mulher o tempo todo olhava pela janela, o cabelo pintado de preto, os grandes óculos de mesma cor. Mas ué, o Llosa não gostava das bonitas? Não brigou com Garcia-Marquez por isso?

Claro que não perguntei sobre a desavenças com seu antigo amigo, nem sobre suas preferências femininas. Mais sóbria que eu, naquele momento, impossível. Mas depois dos Tigres ele se calou.

Chegamos ao aeroporto e continuei ao lado deles. Achei que pudesse retomar o fio. Até que a repórter fotográfica que fazia o papel de acompanhante/assessora, pelo lado da editora, olhou pra mim e berrou: “Não tá vendo que tá importunando? Dá o fora!” A mulher era (ainda é) um cão. (Depois soube de outras pessoas parecidas na fotografia. Logo na fotografia, que amo.)

Dei o fora.

Me lembro do casal imperturbável. E que ele, de costas, tinha um redemoinho no cabelo.

Anos depois, um amigo peruano de meu filho, também conservador, me disse algo que não me saiu da cabeça. O problema com Llosa é que ele “fala pelas feridas”.

Adorei ouvir. E me reconciliei de imediato comigo. De quebra, tive pena da pobre moça que me agrediu.

Preciso de muitos insights assim para curar eu mesma minhas feridas – e não falar por elas. Demora, né? Mas eu consigo. Vou conseguir.

Judy Holliday, viva!

Descubro que a amada Judy Holliday faria 100 anos. Que revista cultural comemoraria seu centenário, exceto a minha? 😉

Acima, Holliday com Broderick Crawford na melhor sequência de “Nascida Ontem”, de George Cukor, 1950.

O papel lhe deu o Oscar, aliás, por cima de Bette Davis, Anne Baxter, Gloria Swanson e Eleanor Parker…

Mas ela não pôde estar presente à cerimônia, conduzida por ninguém menos que Fred Astaire.

E ficou um bom tempo sem filmar, por conta da caça às bruxas nos EUA.

Seu QI era 172.

Ela se casou com Gerry Mulligan. Gravou um disco cantando com ele.

E morreu aos 43, vítima de um câncer no seio.

Viva, viva você!

A poesia anarco-malandra do Brasil

Algo que realmente amo em nossa língua oral brasileira é a troca constante que se faz entre as segundas pessoas e as terceiras.
Um assunto interminável.
Um verdadeiro destrambelhamento amoroso fragmentado pra matar de inveja o Rolando, nosso Barthes.
A primeira pessoa, por exemplo, todo mundo sabe conjugar.
Eu sou!
Eu fui!
Eu serei!
Mas ninguém quer saber de gramática a partir daí.
E as canções populares falam por si.
(Melhor dizendo, pra ti, meu amor.)
Se eu sei quem tu és, sou muito formal contigo, muito distante, e tu és uma estátua, em verdade, que nem sonho tocar.
Quando digo “tu é”, pelo contrário, tu tem carne, sou melhor, mais íntimo, mais corisco contigo, minha Dadá!
Eis por que “és” pode ser aplicado eventualmente ou em tese à terceira pessoa, para dignificá-la, bajulá-la, engrandecê-la, mas serve pouco pro amor que não é velho, não é parnasiano e está no aqui-agora pro que der e vier.
“Fazes” diz mais ao meu tesão inatingível do que “faz”, que a gente aplica no arroxa suado de todo baião.
Então, simplesmente, “tu é” ou “tu foi meu amor” é melhor do que “és” ou foste meu amor”, especialmente quando desejo enfatizar o que precisa ser dito urgentemente a ti. Sendo que, na realidade, “foste” é um coitadinho que ninguém reconhece: “fostes” para o “tu” grandioso é sempre muito melhor.

(Me procurem outra hora para mais dicas sobre a poesis anarco-malandra do Brasil. Estou trabalhando por vós!)

o levante dos inhozinhos em longa duração

o pior é ter de reconhecer que são muitos os bolsonarinhos entre nós faz muito tempo, até mesmo antes de o verme aparecer em pessoa pra azucrinar os brasileiros todos numa sinfonia de escárnio sem fim.

microbiozinhos incultos, soberbos, orgulhosos porque nada sabem ou porque sabem uma coisa só, os que batem seu instinto sobre a mesa, os que não perdem tempo, os violentos, ressentidos, nervosos, óbvios!

há quanto tempo, hein, esses inhozinhos mamam a paz da gente na chuva, na rua, na fazenda, no cubículo gourmet?

O Verme e o lúgubre paraíso dos medíocres

O comportamento do Verme é o do menino de 14 anos que H.G. Wells viu em Hitler.

Como um Hitlerzinho, Verme precisa ser o dono do chão em que roda, sem contestação qualquer, sem guarda ou sinal de trânsito no seu périplo rodoviário. Ele está farto da infância escondida e quer esmagar os oponentes apenas porque está no mundo e é esse seu destino easy rider.

Doente mental, como sugerem?
Duvido.
Fascista mesmo, e já é bastante coisa.
Fascista dos brabos e renovados.
Fascista autorizado pelo capitalismo, esse sistema político-econômico que recorre ao irmãozinho menor violento, corpulento e sem cabeça sempre que as coisas se complicam pro seu lado e ele, o nerd flácido, está prestes a levar uma surra.

Fascista tem autorização pra ser fascista.
E sonha ser pleno.

Verme alcançou a plenitude!
Uma plenitude única.
Porque ele se torna pleno sendo sabujo de outros condutores de Estados terroristas.
É um curioso fascista antipatriota, modalidade que nos projeta como pioneiros no mundo em experienciar um nazismo sem nacionalismo, sem um uber alles sequer.

É o menino de 14 anos em profundo desprezo pelo mundo, ignorado em sua infância política, que nos governa. Parece até mesmo que este é o principal ingrediente para formar um ditador: que tenha sido ignorado por sua mediocridade na infância e, conforme vá crescendo, seja aplaudido mais e mais pelos medíocres.

Como Hitler, Verme só tem a oferecer a seus subordinados, que são todos os outros a pisar o mesmo país, a dor, o sofrimento e a morte. É assim o céu demoníaco. Quem o elegeu aceitou salivando a premissa funesta desse paraíso lúgubre, igualzinho ao que aconteceu com quem quis Hitler – e teve.

Quiseram.
Esperaram.
Não paz, não lazer, não conforto:
morte.
E a tiveram conforme pediram.

Embora hajam desejado e esperado o mal a todos os outros, não a si mesmos, nossos alemãezinhos de periferia já não são tantos como no início – embora muito barulhentos, os que restaram. Dariam ótimos prisioneiros feitores em Dachau.

Verme é o Super-homem, enquanto todos os outros, ralés miniaturizadas que devem andar de jegue, não de avião; os outros são coveiros, ele jamais; maricas que não param de reclamar, enquanto ele manda fazer; gente que fracassou, para que os sonegadores vencessem; quilombolas desprovidos de arrobas e indígenas sem um centímetro a mais, perdidos na poeira. Ele é o soldadinho inflado que não põe a mão na massa nem pra matar, porque tem escravo miliciano-policial-militar pra fazer.

Por acaso ele e sua família são melhores do que aqueles que o elegeram, sobre os quais ele pisa? Um tem pinto minúsculo, outro faz nas calças, o terceiro é enrustido abilolado. Mas são melhores, sim! The Hole Family!

E o que os torna melhores é o nada construído em torno. O que os torna melhores é o poder forjado para que simplesmente respirem acima da lama nostálgica, enquanto os outros chafurdam nela sem nariz.

Hitler não teve filhos, não é?
Que bom.

E Hitler foi abandonado pela classe média branca que o apoiou (ou não se mexeu) quando tudo começou a dar errado pra ela. Depois de se ver tratada muito mal, sem poder de compra, sem lei, sem sol, aí, só aí, essa classe média-medíocre começou a pensar que Hitler não era mais uma boa ideia.

Principalmente quando desprovidos do sonho dourado de que a exclusão dos judeus, pretos, ciganos, conscientes, esquerdistas ou doentes lhe faria bem, a classe média de Hitler deixou de ser o sustentáculo do líder.

Isto vai fatalmente acontecer ao Verme, visto que a classe média de nossos alemãezinhos inferiores já se levanta, impaciente, escondida e atônita.

Vai acontecer sim.

O problema é só um.

Não sei quando.

Flanar, morrer

Todo mundo sabe.
Nascemos e morremos sós.
Eu, pelo menos, dificilmente me distraio dessa condição.
Mesmo morando com minha família, sempre persegui estar em mim.
Não me sinto mais isolada do que antes só porque a pandemia apareceu pra devastar tudo.
Não.
Prefiro ser privada do convívio do que forçosamente tê-lo, por exemplo, numa redação de veículo impresso, perseguida e enganada sem nem entender por quê.
Não me desespero na solitude, que posso escolher cultivar.
O que mudou é que, amante exasperada da flânerie, perdi a liberdade de andar enquanto ficcionalizo e fotografo as quase extensões do que sou.
As ruas do centro estão tomadas por imensas fileiras de tendas de desabrigados, isto quando eles têm a chance de possuí-las.
Na escadaria do Teatro Municipal há um condomínio de dores envolto em saco preto e cobertor puído.
Nem falo da Sé.
Dos porta-vozes bíblicos que ali ainda têm a coragem e o prazer de proferir condenações.
Então o centro, que amo sempre, torna-se cada dia mais uma parte importante do jardim do Grande Verme sobre rodas que nos atropela com seu esgar.
Não há como sair feliz de um passeio solitário pelas ruas, onde também se aglomeram sem máscara os bombados de boné e as moças de cabeleira alisada, todos fumando na mesa do litrão ao som sertanejo-evangélico no último.
Exceto quando vc distribui o que tem e sente que fez a diferença pra alguém, chega-lhe uma luz.
Mas essas relações também estão no fim.
Ninguém mais nos quer, nós, os alimentados, corados e curiosos.
Somos para eles, em verdade e com razão, fantasmagorias.
Melhor lhes dar logo doce e coca-cola por esta longa estrada da morte, ou de nada serviremos.
As palavras já não são.
Fico em casa.
Tenho banheira.
Desenvolvi gosto por gorduras de vida.
Máscaras pra super hidratar.
Refrescar o que secou.
E esquecer.

Sergio Larrain: uma carta de amor à fotografia

Aqui, o texto no qual o fotógrafo chileno Sergio Larrain dá ao sobrinho a primeira lição fotográfica. O que você lê a seguir é uma adaptação minha para o material relatado originalmente no blog Mistos Fotografia

Sergio Larraín (1931-2012) escreveu em 1982 uma carta ao sobrinho que queria ser fotógrafo. Esta carta se tornou icônica, como muitas outras histórias do fotógrafo chileno.

Larrain teve seu maior momento de fama nos anos 1960, quando ingressou na agência Magnum por intermédio de Henri Cartier-Bresson. Em seguida, estabeleceu-se em uma pequena cidade chilena e aos poucos começou a desaparecer do cenário fotográfico, o que motivou inúmeras lendas sobre sua figura.

Até Julio Cortázar se inspirou em uma história que o fotógrafo lhe contou para seu livro “Las babas del diablo”. Michelangelo Antonioni, por sua vez, usou o texto de Cortázar para compor o filme “Blow up”.

A carta

O sobrinho de Larrain pediu-lhe que desse alguns conselhos sobre a profissão de fotógrafo. E o tio respondeu com este monumento à fotografia. Se você tem dúvidas sobre seu amor por esta arte, ou precisa de motivação, leia a carta de Larrain:

A primeira coisa a fazer no caminho da fotografia é ter uma máquina de que você goste, a de que mais goste, porque se trata de estar feliz com o seu corpo, com o que você tem nas mãos, e o instrumento é fundamental. Que seja o mínimo, o indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha um ampliador preferido, o mais rico e simples possível (em 35 mm. O menor que a Leitz fabrica é o melhor, dura a vida toda).

O jogo é partir para uma aventura, como um veleiro solta as velas. Vá para Valparaíso ou Chiloé, fique nas ruas o dia todo, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, sente-se quando estiver cansado debaixo de uma árvore, compre uma banana ou um pão e assim pegue um trem, vá para algum lugar e olhe, desenhe também e olhe. Saia do mundo conhecido, entre no que você nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá de uma parte a outra, aonde quer que vá. Aos poucos, é possível descobrir que as coisas e as imagens vêm até você, como aparições.

Depois de voltar para casa, você revela, copia e começa a olhar o que pescou, todos os peixes, e os coloca junto com o uísque na parede, copia-os em folhas do tamanho de cartão postal e olha para eles. Então você começa a brincar com os Ls, procurando cortes, enquadramentos, e você aprende composição, geometria.

Enquadre com o L e largue o que você emoldurou na parede. Então comece a procurar, a ver. Quando tiver certeza de que a foto está ruim, deixe embaixo. As melhores você levanta um pouco mais alto na parede. No final, fique com as boas e nada mais (mantendo as imagens medíocres você estagna na mediocridade). No topo, nada além do que é salvo, tudo o mais é jogado fora, porque a psique carrega tudo o que se retém.

Então você faz ginástica, diverte-se com outras coisas e não se preocupa mais com isso. Você começa a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e procura o que há de bom em tudo o que encontra: livros, revistas, etc. Você consegue o melhor e, se puder cortar, coloca o bom na parede ao lado do seu. Se não puder cortar, você abre o livro ou as revistas nas páginas de coisas boas e as deixa em exposição. Aí espera semanas, meses, enquanto der (leva muito tempo pra ver). Aos poucos o segredo se transmite e você vê o que é bom e a profundidade de cada coisa.

Continue vivendo com calma, desenhe um pouco, saia para passear e nunca force a saída para tirar fotos, porque a poesia se perde, a vida que ela tem adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não pode. Quando você nascer de novo, você poderá fazer outra viagem, outra peregrinação: a Puerto Aguirre, você pode descer a cavalo até os montes de neve de Aysén; Valparaíso é sempre uma maravilha, é perder-se na magia, gastar uns dias a vaguear pelas colinas e ruas e pernoitar algures no saco de dormir, muito imerso na realidade, como quando nada, aprofundando-se debaixo d’água, tudo longe do convencional. Deixe suas sandálias lhe levarem aos poucos, como se você se curasse com o prazer de olhar, cantarolar, e o que aparecer será fotografado com mais cuidado.

Algo que você anteriormente aprendeu a compor e cortar, comece a fazer com a máquina. E assim continue, o carrinho se enche de peixes, você volta para casa. Você aprende foco, abertura, close-up, saturação, velocidade, etc. Aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, junta poesia (sua e dos outros), tira todo o bem que encontra, o bem dos outros. Faça para si uma coleção de grandes coisas, um museu em uma pasta.

Siga o que for do seu gosto e nada mais. Não acredite mais do que naquilo que aprecia. Você é a vida e a vida é o que você escolhe. O que você não gosta, não vê, não funciona. Você é o único critério, mas absorva todos os outros. Você está aprendendo. Quando consegue uma foto muito boa, as grandes, você faz uma pequena exposição ou um livrinho. Manda colar e com isso estabelece um piso. Quando você mostra ao público, posiciona-se sobre o que fez. Quando coloca seu olhar na frente de outras pessoas, você o sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar comida, é bom para os outros ver algo realizado com seu trabalho e gosto. Não é se exibir. Faz bem. É saudável para todos e faz bem porque lhe fiscaliza.

Bem, isso feito, você tem como começar. É preciso vagar, sentar-se sob uma árvore em algum canto. É uma caminhada solitária pelo universo. Você começa a olhar de novo, o mundo convencional lhe coloca uma tela na frente, mas você tem de sair dela na hora de fotografar.

Retrato 17

eu sinto muita tristeza ao ver que uma médica bolsonarista, quando traída por bolsonaro, pode agora dizer as verdades antes escondidas.

(que palco!)

e por que me sinto triste?

triste porque aparentemente seu discurso é necessário para validar o nosso – pela saúde pública – neste país miserável.

triste porque sua fala sobre corrupção e polarização (como se a ciência estivesse acima da política e não pudesse ser instrumentalizada) não me engana um segundo só.