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Crescidinhos

No meio do caminho, tinha um gato…

Sei que nem todo mundo vai se interessar.

Mas eu, talvez por ter tido filhos, talvez por saber da luta que é fazê-los enfrentar as dificuldades todas de viver, estou amando “Crescidinhos”.

Crianças muito pequenas são levadas a cumprir tarefas sozinhas, pelas ruas de um Japão gentil e seguro…

Rio e choro mais ainda.

Feliz por ter algo pra ver nessa Netflix inescapável e no geral tão ruim.

https://www.netflix.com/br/title/81506279?s=i&trkid=13747225&vlang=pt&clip=81582861

A elegância é uma ideia

Ele estava próximo de uma academia de ginástica e o rosto era inchado, vermelho. Embriagado crônico, fácil perceber, mas acreditei não se tratar de um sem-teto, pois os tênis pareciam bons, até lustrosos. Então ele apenas bebia com os amigos, quase na sarjeta.

Eu passei colorida, bata e calça, os cabelos brancos soltos, carregando sacolas de supermercado. Ele decidiu dizer:

– Ficou muito elegante, senhora, mesmo!

Sorri por baixo da máscara, continuei andando. Mas ele me seguiu e parou na minha frente:

– Desculpe ter falado assim, mas a senhora está elegante mesmo, olha, vou dizer!

– Eita que eu acredito no seu julgamento, hein?

– Senhora, eu não julgo ninguém!

– Ah, que bom. Mas se sou elegante, vc é mais. Gostei das tattoos, da pulseira de couro larga. E essa bermuda cargo com a regata Suicidal Tendencies, tudo preto, ficou massa.

– Eu não sou elegante, sou um perdido! Mas a sua elegância está demais. Sabe Highlander? Highlander, eu juro.

Não entendi bem. Talvez eu precise mesmo pintar o cabelo e cortar. Mas o fato de alguém ter me percebido na rua me deixou surpreendentemente alegre. Me despedi.

– Meu querido, obrigada, fique bem, ganhei o dia!

A culpa interditada: Lygia vê Capitu

Lygia Fagundes Telles
em foto de Olga Vlahou

Nesta reportagem publicada em 21 de agosto de 2008, Lygia Fagundes Telles fala sobre o roteiro feito em parceria com Paulo Emilio Salles Gomes, relançado em livro, que muda o foco narrativo de “Dom Casmurro”

Os diretores de cinema apareciam de mochila nas costas para visitar Lygia Fagundes Telles e Paulo Emilio Salles Gomes naquele ano de 1967. Ela era, como é ainda, uma das grandes escritoras do Brasil, e ele desfrutava o título de maior crítico de cinema em terras nacionais. A Vila Mariana onde moravam, dizia Paulo Emilio, fora um charco originalmente, e por esta razão ele apelidara seu apartamento paulistano de Sapos. Um dia, o diretor Paulo César Saraceni chegou ali munido não só de mochila, mas de um olhar oblíquo e dissimulado. Com ele, Saraceni os convenceria a transformar em roteiro de cinema o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.  

 

“Este Capitu nos deu uma tarefa difícil”, disse Paulo Emilio a Lygia, quando Saraceni, em quem ele vira aquele olhar da protagonista do livro, deixou Sapos para trás. O casal não começou imediatamente a trabalhar na adaptação do romance de 1900 no qual Bentinho, apelidado dom Casmurro, desconfia que sua amada o trai com o amigo Escobar. Seria preciso convencer Lygia de certas coisas antes, ela que era formada na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e fazia julgamentos a partir de evidências.

 

Quando leu o livro de Machado de Assis pela primeira vez, ainda universitária, Lygia se convencera de que o protagonista era um homem “inseguro e invejoso”, desmerecedor de confiança, ainda mais porque não outra voz, além da sua, falava no romance. Na segunda leitura, contudo, ela mudaria o pensamento por completo. Sim, Capitu seria a amante de Escobar. Ele era um homem muito mais atraente do que Bentinho, para começar. E havia alguns “indícios jurídicos” muito fortes a serem considerados pela escritora para que ela estabelecesse a culpa deste Leviatã.

 

Em uma cena do livro, Bentinho se cansa do espetáculo de teatro a que assiste, volta para casa e lá está Escobar com Capitu. Não havia motel para encontros naquele tempo, então é claro eles faziam ali o que não poderiam fazer em outro lugar. Depois, havia outra coisa. O menino Ezequiel, embora exímio imitador de todos, remedava perfeitamente Escobar, o que fora notado por ninguém menos que a própria Capitu. O velório de Escobar, por fim, sepultara qualquer chance de redenção à mãe de Ezequiel. Dona Sancha, a viúva, chorara tanto na ocasião quanto a traidora. As lágrimas de Capitu formaram mais um daqueles mares de ressaca, capazes de arrastar um observador, dois ou três, para dentro de si.

 

Estas certezas todas, apresentadas com eloqüência de advogada já na rua Sabará onde os dois passaram a morar, deixaram incrédulo o marido da escritora. Paulo Emilio era um grande professor, mas, se entrasse nesta discussão à maneira de Lygia, não convenceria a talentosa mulher de seu ponto de vista. O negócio era agir como padre: “Você precisa se limpar, você não pode julgar Capitu”, disse ele a Lygia, certo de que as provas que ela acumulara se mostrariam inúteis. O que ele pregou à esposa no momento seguinte a convenceu em definitivo: “Se o triângulo amoroso existe ou não, isto não interessa a você. Tem de haver a dúvida, ou haverá traição a Machado de Assis.”

 

O escritor narrara para intrigar, e teria esclarecido a trama ao final, fosse esse o seu desejo de ficcionista. O que ele parecia almejar, contudo, era que ficássemos discutindo aqui por longo tempo sobre um enigma maravilhosamente urdido e sem solução. Tão essencial é este livro que Lygia, por exemplo, tem-no como o primeiro de Machado, seguido de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. É uma tendência que de certa forma a Universidade de São Paulo segue: Dom Casmurro como a melhor fabulação, Memórias, como a experimentação maior.

 

Se não poderia culpar Capitu em seu roteiro, Lygia enfocaria o sofrimento terrível de Bentinho. Que outra coisa faz este personagem dentro do livro, a não ser penar? O roteiro seria, neste ponto, sobre o sentimento de ser traído, não sobre a traição. E seus autores fariam mais uma coisa interessantíssima, ousadíssima, para falar na língua de superlativos do agregado José Dias: anulariam o foco narrador. No roteiro, não é Bentinho quem conta a história. É um terceiro que urde a trama, iniciada na lua de mel de Capitu e contada livremente pelo tempo de vida dos personagens.

Nascido desta escolha, o livro que originou filme homônimo de Saraceni em 1968 resulta suave, mas intrigante. E é capaz de impacientar quem aguarda respostas claras ou anseia sempre pelo ponto de vista roubado. Goffredo Telles Neto, o filho de Lygia, morava com ela e Paulo Emilio naquele ano de produção crucial, e tomou as folhas datilografadas por Lygia para saber o que tanto elas tramavam. O Jovem, como o apelidara Paulo Emilio, leu e ficou sem entender aonde a escritora queria chegar. “Mamãe, dá sua opinião de uma vez! Ela traiu ou não?”, ele a inquiriu. E a autora foi sincera com o filho: “Eu não sei, eu não sei!” 

 

Lygia tem 85 anos. Para ela, ainda hoje, a traição é  “a dor maior”. Os tiros que de vez em quando os ciumentos desferem sobre as namoradas, segundo ela tem notícia a partir da leitura “destas revistas”, ainda prosseguem acontecendo. Seu ponto de vista, portanto, parece validar-se todos os dias. A traição incomoda. É eterna, enquanto o homem é breve. Paulo Emilio morreu em 1977  e o único filho de Lygia, Goffredinho, há dois anos. Lygia entende de que o sofrimento trata.

Ela dá entrevista no apartamento que habita há um bom tempo nos Jardins paulistanos, em cuja entrada há palmeiras imperiais. As palmeiras são bonitas e resistem à poluição, aos carros que buzinam, à gente que passa, vinda da rua Oscar Freire chique. Lygia não arreda pé dali, apenas para eventos aos quais os amigos insistem em convidar. O livro “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, de Andrew Salomon, ainda repousa em um canto de sua sala, mas parece não se relacionar à pessoa que dá a entrevista.

 

A escritora é pessoalmente assistida pela neta, a professora de português Lúcia Telles. Aos 29 anos, Lúcia trabalha sobre cartas de Paulo Emilio para um mestrado. E ajuda Lygia em tudo, até quando uma palavra lhe falta. A certa altura da conversa com a CartaCapital, sugere à avó que catequisar é  o vocábulo certo para designar quem deseja transmitir a mensagem cristã. Com a neta ao lado, Lygia está bem. Ela liga a televisão minúscula onde a avó assiste a Ciranda de Pedra, uma novela que a diverte, sem qualquer relação com seu romance de 1954, segundo Lygia sabe muito bem. Ela também sorri, e fala como atriz, ao invocar seu muito querido Machado de Assis e a própria literatura. Queria tanto que seu Capitu fosse filmado de novo!

 

Está indignada, por ora, que a imitem e ainda cometam a ousadia de lhe mandar os originais com as imitações para ler. Rubem Fonseca lhe contou que isto também vem acontecendo com ele. A literatura de Lygia é inconfundível, forçoso notar que não a imitariam direito. Ela tem um conto que o filho não teve tempo de filmar, Potyra, sobre um vampiro que deseja morrer no Brasil. Quem sabe, entre os contos e o romance novos que prepara, não caiba uma roteirização desta peça ficcional, em companhia da neta constante? 

 

Esta escritora se diverte, apesar de tudo. Eleva a voz como uma atriz e pontua com graça as frases perfeitas. Está lúcida e grande, e seu olhar ainda encara o interlocutor como quem o arrasta.

 

No olho da fera

sim, é uma cidade com travas cotidianas propositalmente irresolvidas e uma escala de desigualdades sociais que toca a imensidão.

mas é minha cidade.

por ela respiro, sinto sua dor e seu olhar, este que solicita minha meditação e meu percurso.

amo São Paulo, amo sem fim, os becos, as armadilhas, os rios que pedem libertação, os corredores em que aguardam por um desfecho os suicidas e os amantes.

os paulistanos são seus problemas. aos cafonas, sua cafonice.
aos marginais, meu abraço forte inclusivo, meu sangue sendo o sangue de vocês.

Bicho da sombra

Nesta entrevista que realizei com Lygia Fagundes Telles há 22 anos, em abril de 2000, para o caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil, a escritora reclama do pouco valor dado aos escritores, lembra de Clarice Lispector, ironiza Caetano Veloso, fala de sua relação com Paulo Emílio Salles Gomes e narra o encontro que teve com Simone de Beauvoir

A página em que a entrevista foi publicada, com foto de Juan Esteves feita na Academia Paulista de Letras

Lygia Fagundes Telles banha-se de uma certeza de Santo Agostinho, a de que o importante é a arte de viver num tempo de catástrofe, quando esta entrevista se inicia. Está impaciente, a autora de “As horas nuas”. No dia 1, Nélida Piñon e Lya Luft, conceituadas escritoras, vão homenageá-la com discursos na Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, no próximo dia 24, sai o livro “Invenção e Memória”, com 15 contos que apresentam seu imaginário admirado de crueldades, mistério e um ensejo de esperança final. Ela tem tantos compromissos, tantos, e agora mais este. Àquela que pretende entrevistá-la, lança uma consideração de arrefecer. “Não importa nada do que eu diga. Meus livros é que importam. Leia estes papéis.”

Sobre as mãos da interlocutora, ela vai depositando impressos que contêm o resumo de sua ascensão literária e as breves considerações dos críticos, todos esbanjadores de enormidade – Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Sergio Milliet – sobre sua importância livro-a-livro. O que fazer? Lygia, 76 anos incompletos, está mesmo impaciente e, supõe-se, não apenas com jornalistas. Há os homenageadores que teimam em lhe dar mais idade do que tem. Os governadores. Os corruptores que revelam suas vocações a céu aberto. Os ricos compositores de música popular. Os estudantes que um dia lhe roubaram a obra de Jorge Luis Borges, autografada, da estante de retratos.

É preciso cobrir Lygia de razão. Sua impaciência cresceu a partir de um ato assinado há três anos pelo governo do Estado de São Paulo, extinguindo a verba honorária a que ela, procuradora autárquica do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, o Ipesp, teria direito. Seus vencimentos foram reduzidos a menos da metade do que eram. Lygia Fagundes Telles, escritora máxima brasileira, 17 livros publicados, dezenas de prêmios, ficções traduzidas em oito línguas, ficou sem dinheiro.

“Quando me ligam aqui dizendo que podem me pagar uma quantia simbólica por meus textos – e por simbólico entenda 300, 500 reais – minha orelha já levanta, meu cabelo já levanta”, diz Lygia com reiteração, com drama, numa pontuação em que sempre cabem muitos travessões e alguns recursos de estilo, como os itálicos. “Você veja. Os cantores, os compositores. Eles têm, um, apartamento em Paris, outro, em Nova York. Convidam Caetano Veloso para cantar e ele vai porque é um bom perfil – não exatamente um Rodolfo Valentino, como quer ser, com aquele turbante, não é um sheik -, muito bom cantor, compositor. Mas, para um escritor, não se paga o que se paga a ele.”

Há quatro anos, quando mudou de editora, da Nova Fronteira à Rocco, Lygia imaginou que poderia viver no Rio e lá, mesmo timidamente, montar o que ela intitula “uma nova frente de trabalho”. Mas o que ela desejava como moradia – “não uma cobertura, veja bem, um apartamento no Leblon” – não lhe foi acessível. Lygia, de elegância proverbial, lenços no pescoço, cabelos cortados em eterno chanel, e mocassins, quis viver com o conforto presumido de sua condição de dama das letras. Como não conseguiu, voltou a seu apartamento paulistano da rua da Consolação, aconchegante e digno, num prédio cercado por raras palmeiras imperiais. 

“Seria preciso haver, para os escritores, as marquesas antigas, e duquesas, que convidavam e instalavam os artistas naqueles castelos, alas norte e sul, com empregados, por seis meses, para que escrevessem. Ninguém mais nos convida!” E mais travessões, e mais ênfase, porque agora a indignação quer saltar. “Eu devia – eu devia – me informar mais e falar com o Yunes [Jorge Yunes, o empresário com quem o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, está envolvido em um escândalo de corrupção]. Parece que ele empresta.” 

É nesses instantes em que ironiza as dores de sua particularidade e de seu país que Lygia está mais distante da mulher que escreve seus livros. Porque Lygia, autora – ao contrário da mulher que está na vida, relativamente indefesa, capturada pelas malhas dos executivos e das leis -, é segura, terrível soberana de todos os destinos. Uma escritora que explora as crueldades, e as expõe, que aponta os assombros de seus personagens, endinheirados ou pobres, e os derrete nas imagens literárias mais sintéticas e poderosas de que as décadas recentes têm notícia. 

Lygia é rápida, de destreza exemplar. Neste novo livro, sua carpintaria de contista continua afiada. Em uma das histórias, um menino é acolhido por um velho, e a relação dos dois vai crescendo diariamente sob os olhos de um determinado comensal; um dia, um dos dois desaparece, por obra de seu par. Para quem a conhece, não há novidade desde o início: aquela história não acabará mesmo bem. A diferença, talvez, resida no fato de este conto não exalar, ao final, aquela ponta de crença de um desfecho feliz. Por onde a olhemos, é uma história de crueldade, num livro de crueldades e mistérios.

“Esperança, esperança, esperança, esperança”, brada Lygia, em novos itálicos, em sua residência na rua da Consolação. Sua esperança é a de ter inventado um novo gênero. O título do livro já diz: “Invenção e Memória”. Foi-lhe sugerido por uma frase anotada em algum lugar por seu marido, o crítico de cinema e escritor Paulo Emílio Salles Gomes, morto há 23 anos: “Invento, mas invento sempre com a secreta esperança de estar inventando certo.” Pois Lygia quer ter inventado isto neste livro: um gênero diferente dentro de seu próprio trabalho (não usa a palavra obra, por parecer grande demais), um gênero que asseguraria à ambiguidade uma avenida por onde passear. “Muitas coisas ali são inventadas, outras são memórias. Eu lá sei, não posso separar uma coisa da outra.” 

É verdade que nunca pôde. Em seus livros, há, sim, crueldades, mas compartilhadas. Maniqueísmo e qualquer outra palavra que evoque contrastes evidentes entre o que é errado e certo não se aplicam a seus livros (ela prepara um romance, mas não adianta sobre o que tratará). “É impossível você separar, como num laboratório de física, o bem do mal”. Lygia se lembra de um padre de infância que lhe disse: “Miolo Mole – ele me chamava assim -, existe o bem e existe o mal. Quem escolhe o mal vai para o Inferno, quem escolhe o bem vai para o Céu.” E então ela via o clube da cidade, para onde se dirigiam as pessoas do bem. Mas seu pai ia lá também, jogar, e entristecia sua mãe. “Eu percebia esse lado no clube, uma porção do mal, você entende?” 

Para Lygia, Santo Agostinho teria sido perfeito se houvesse levado, à vida de santidade, sua vivência anterior do pecado. A perfeição para ela, em se tratando dessas situações, foi personificada por Jesus. Não há quem tenha compartilhado sua glória, a de aceitar o mal como viesse. Nem mesmo seus próprios homens. Houve dois na vida de Lygia, o primeiro deles, um advogado, Goffredo da Silva Telles, que lhe deu seu único filho (também Goffredo, cineasta). Ela se lembra de ouvir o grande advogado dizer: “Não se adiante no tempo, Lygia.” Seu segundo homem, Paulo Emílio Salles Gomes, a escritora admirava e observava: “Ele arrebentava em ideias. Tinha essa coisa de certeza.” Ela o via como o filósofo Sócrates, praticando a “obstetrícia intelectual” em seus alunos, arrancando os fetos de seu pensamento, tamanha a sua lucidez, tudo num sentido diverso daquele em que ela caminhava. “Eu nunca tive essa carga tamanha de vontade.”

Lygia e Paulo viveram uma existência de 15 anos compartilhados, entre 1962 e 1977, sem filhos, mas com “o jovem”, como ele carinhosamente chamava o pequeno Goffredo, tido como seu próprio filho. “Resolvemos que levaríamos uma vida tranquila, nós e nossos gatos. Já tínhamos o jovem. Resolvemos que chega de filho. Chega de atormentação.” Ela o fazia ver coisas, o obstetra. Fazia-lhe ver que um dia os roteiristas de cinema respeitariam a profundidade de seus livros imagéticos. Se Lygia ainda não conheceu esses profissionais especialíssimos, a explicação foi mesmo dada por Paulo Emílio: os textos de Lygia provocariam uma sensação de intimidade tão grande em quem se aproxima deles que a oportunidade de invadi-la estaria aberta.

Nos anos 1930, quando Lygia vivia a meninice, aceitava-se que fosse estranha. Era uma mulher e, como mulher, dada à percepção, numa intensidade, ela crê, muito maior do que a encontrada nos homens. Para ela e para sua companheira, a escritora Clarice Lispector (1925-1977), Lygia até imaginou um qualificativo: bichos da sombra. “Nós nos desenvolvemos na sombra, mudas.” Esse é um assunto delicado, sua semelhança ou diferença em relação a Clarice – “desconfiada, esperta, ótima” -, aceita como a grande escritora brasileira do século, a inventora, justamente, de uma nova linguagem de percepção. Mas Lygia vê com tranquilidade os pontos que as tocam. “Éramos confessionais, perceptivas, mas éramos diferentes. E a diferença talvez residisse nas doses de mistério. O mistério, sal da ficção, acompanha o escritor.”

Não que Lygia deseje dizer com isso que o mistério, ponto de união com Clarice, deva afastá-la do leitor. Ela e a autora de “Perto do Coração Selvagem” conversavam muito sobre a mania que tinham os professores, nos anos 1960, de tornar seus livros mais complexos do que a necessidade, e, com isso, afastar os interessados possíveis naquelas tramas. “A gente seduzia os leitores, dizíamos coisas interessantíssimas, e os professores daquele tempo – isso estava na moda – vinham e destruíam tudo.” 

Foi como bicho da sombra que Lygia, certa vez, recebeu um convite da escritora francesa Simone de Beauvoir para um chá, quando a escritora esteve aqui com o filósofo Jean-Paul Sartre, nos anos 1960. “Eu falava mal o francês, embora lesse e apreciasse muito a literatura francesa. Dizia: “Meu deus, o que vou conversar com Madame?” Simone, participativa – “a tal da revolução feminista estava começando” -, queria ler textos seus. Havia poucas traduções para o francês à época, e a escritora lhe deu a de um conto do futuro livro “Antes do Baile Verde”. Mas Simone pedia mais. E então Lygia se lembrou de outro padre, o canadense Paul-Eugene Charbonneau (1925-1987), que parecia entender suas ambiguidades e amara “Ciranda de pedra”, seu primeiro romance, a ponto de traduzi-lo.

“Era uma tradução, não sei se boa, porque na época eu não tinha condição de avaliá-la, mas feita com amor por um homem de vocação”, lembra Lygia. E então ela resolveu oferecê-la a Madame, ressaltando que o livro poderia lhe interessar por tratar da decadência da burguesia brasileira e de uma jovem desesperada, querendo fazer parte dela, e dela se libertando. Beauvoir, que partiria no dia seguinte, topou a oferta. “Deixe seu livro lá no meu hotel.” Lygia pensou: “Ela vai jogar isso no mar.” Mas, ainda assim, cumpridora de suas promessas, depositou o enorme embrulho com folhas datilografadas na recepção. “Tempos depois – veja que intelectual séria – chega uma carta dela escrita em papel quadriculado dizendo assim: ‘Gostei muito, que riqueza, pena que seu livro não veio escrito em francês parisiense, porque eu o lançaria aqui.” 

Lygia, bicho da sombra, ficou “animada e quieta” com o elogio. Na mesma carta, Simone de Beauvoir comentava seus textos dizendo que se enredavam em tristezas e desesperos muito grandes, mas que depois mostravam a esperança. Identificava um gesto desse sentimento final em “As pérolas”, conto com que Lygia lhe presenteara. Nele, o homem rejeitado joga o colar esfacelado para sua mulher, que, com a peça, ansiava encontrar um novo amor. “Depois do que ela disse, me senti coerente comigo. Sou triste, às vezes, mas há um gesto final, de esperança, no que escrevo”, diz Lygia. “E essa carta de Simone de Beauvoir, na verdade, eu vou vender.”

Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!

Angela Davis, o julgamento, o documentário

Eu confesso que não sabia muita coisa sobre este julgamento até terminar de assistir, agora, ao documentário “Libertem Angela Davis”, de Shola Lynch (2012).

Na verdade, muito sobre a filósofa era de meu total desconhecimento, razão pela qual, ao ver o filme, me arrepiei diante da altivez da personagem, sua serenidade e beleza, não menos importantes que a consciência política em seu coração.

Talvez não seja exagero dizer que o sopro de resistência desta intelectual se estende a nossas vidas depois de presenciarmos, no filme, suas palavras calmas e a ação decidida por justiça.

Assistam!

Está em cartaz de graça no streaming do Sesc Digital, não sei até quando.

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

Humor com humor se paga, Will Smith

Amanhã será engraçado o que hoje foi triste.

Então riremos muito dessa atitude melancólica do Will Smith, que, no Oscar deste ano, socou o apresentador Chris Rock porque fez uma piada sobre sua mulher.

Uma piada fraca, é verdade, francamente estúpida, mas que não matou ninguém. O humor não nasceu pra matar, razão pela qual é desproporcional a agressão física para responder à piada de alguém. A única maneira justa de responder à piada ruim é com uma piada melhor.

Will Smith nasceu da comédia televisiva, onde é preciso improvisar. Mas naquele momento, tocado pelo sofrimento da mulher, esqueceu-se como faz. Ou estava bem alterado. De toda forma, é um grande ator ou não é? Parece que sim. E a cerimônia do Oscar é trabalho, exige improvisação. George Clooney, que surgiu para a fama como galã numa série de tevê sobre um pronto-socorro, é bem mais rápido neste quesito, e melhor.

A agressão do Will Smith, francamente, pareceu-me coisa que vi muito no nordeste brasileiro, onde o macho vai tomar satisfação quando um engraçadinho faz pouco de sua mulher, sua propriedade.

Deixasse Jada, ela própria, responder à piada ruim, certo?

Ou respondesse ele depois, com o Oscar na mão.

Cena roubada

Achei triste quando no passado não só o Ivo Pitanguy como o Zé Sarney entraram na ABL. E quando chegou a vez do Paulo Coelho, pra mim tudo aquilo virou grêmio escolar, onde personalidades do espectro político, ora reaças de verdade, ora neoliberais da arte, revezam-se para ocupar o lugar dos grandes escritores, estes que já vinham fora do clube e fora permanecerão.

Não vi o discurso da Fernanda nem vou ver. Bastou que eu soubesse que usou seu poder para declarar seu não-voto à presidência, o que não fez sentido pra mim. Declara-se o voto quando se tem um ou não se declara nada, certo? Como personalidade, você tem um peso, exerce influência. Sem contar que estamos afundados neste Brasil. Entrar para a eternidade das artes assim talvez não tenha sido o melhor pra ela, mas que sei eu?

Eis uma atriz de respeito, uma dama de excelências, claro, soberba em “A Falecida”, embora capturada em algumas situações, por um Othon Bastos, por exemplo, que, sem dizer palavra, roubou a cena ao contracenar com ela em “Central do Brasil”. Fernanda deve sempre levar outros atores a querer superá-la, e isto deve ser uma coisa maravilhosa, tenho certeza.