Para mergulhar em Kim Novak

Lágrimas, excertos de filmes, recordações: a estrela de “Vertigo” derrama memórias ao refletir sobre sua carreira no cinema, em documentário presente na 49ª Mostra

A atriz em casa, aos 92 anos, reflexiva ao percorrer álbuns e caixas com memórias

Os olhos claros, grandes e vivos. A boca pequena. Lábios pintados ostensivamente, assim como os cabelos. Rosto de enigma. A face célebre que não existe mais, perdida no espelho de Hollywood. 

Kim Novak tem 92 anos e teme morrer. Ela mesma, a protagonista de “Vertigo (Um corpo que cai)”, clássico dirigido por Alfred Hitchcock em 1958, confessa esse medo ao cineasta Alexandre O. Philippe. O diretor do documentário poético “Kim Novak’s Vertigo” (Um corpo que cai, por Kim Novak), presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, filma suas conversas com a atriz, os depoimentos não raro emotivos que ela lhe dá, como quem deseja erguê-la a um panteão de eternidade, a partir da casa da atriz no Oregon.

Para conseguir o efeito do que é eterno, Philippe insiste na fotografia embaçante e na trilha sonora a partir de um piano de prelúdio, o que por vezes está a ponto de desacreditar seu filme. O espectador pode se perguntar por que o diretor terá pesado a mão assim. Talvez Phillipe se visse obrigado a isso para não magoar sua biografada. Por todo o filme, a atriz agradece a maneira positiva com que o diretor a vê artisticamente, quando nem mesmo ela se enxergava assim, isto até encontrá-lo…

É que Kim Novak não quis desde sempre ser atriz. Seu pendor possivelmente fosse pelas artes plásticas e pela fotografia. Fez belas imagens do pai, que, ao contrário de sua mãe, jamais expressava os sentimentos. Até hoje Kim Novak pinta telas, muitas delas perdidas em três incêndios nos penhascos californianos diante do mar, onde a atriz viveu a partir de 1961, e de onde podia avistar o cenário de “Vertigo”. É uma pintora por vocação, a lutar com a fixação em óleo de autorretratos, pássaros, os rostos de seus pais, as ondas do mar, os rasgos do céu. Pinceladas com a mão esquerda que, mostradas no filme, são como voos – ou, por que não dizer, “vertigens” – de representação.

Kim Novak começou a vida profissional como modelo fotográfico, durante os meses de férias escolares. E, mesmo depois de atraída ao cinema, não se via como intérprete. Como diz, não “atuava”, à moda do que se espera de um ator, apenas reagia _ era uma espécie de reactor, o que não deixa de ser uma classificação estranha. As grandes interpretações cinematográficas nascem justamente da capacidade de reação de um rosto. Desde a época silenciosa, o rosto e o corpo disseram tanto ou mais que as palavras.

O célebre tailleur cinza, desenhado por Edith Head, em cena de “Vertigo”: para enxugar as lágrimas

Quando Hitchcock a escalou para “Vertigo”, ela desconhecia o trabalho do diretor. Mas gostou do roteiro, a ressaltar a dualidade em sua personagem, condição que a atriz estendeu psicologicamente a si mesma, principalmente após viver o estrelato em Hollywood. No filme, ela conta que o produtor Harry Cohn controlava sua vida profissional e a obrigava a tantos papeis diferentes que, depois de um tempo, ela parecia não saber quem de fato era. Contudo, ao lado do amigo (algo professor) James Stewart no filme de Hitchcock, a atriz encontrou um caminho para o autoentendimento. E guardou o roteiro de “Vertigo”, que, por milagre, foi salvo do fogo californiano em três ocasiões. Não só o roteiro – um figurino de Edith Head também. No documentário, ela seca as lágrimas no célebre tailleur cinza usado no filme.

Homenageada no festival de cinema de Veneza deste ano, Kim Novak parece fazer tudo apenas quando ditada por um impulso interior. E por isso há excesso de interiores, por assim dizer, no cinedocumentário de Philippe. A ultrarromantização está a um degrau ou dois do kitsch. E Kim interpreta o tempo todo, a voz não raro trêmula, mesmo quando diz apenas reagir às caixas de memórias que incumbiu o diretor de reabrir, de modo a novamente “surpreender-se”. Contudo, se você construiu seu conhecimento a partir do cinema clássico de Hollywood, não deve perder este filme por motivo algum. Grandes emoções, grandes histórias.

O diretor Alexandre O. Philippe

Um corpo que cai, por Kim Novak
Alexandre O. Philippe
EUA
76 min

Falado em inglês.
Legendas eletrônicas em português

12 anos

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ – SALA 4: 21/10/25, 19h40
RESERVA CULTURAL – SALA 1: 22/10/25, 13h

CINEMATECA SALA PETROBRAS: 23/10/25, 16h30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1: 24/10/25, 13h30 

Os jorros de Wesley, um homem-cinema

Wesley Pereira de Castro,
co-diretor de “Um minuto é uma eternidade
para quem está sofrendo”

Sinto-me amiga de Wesley Pereira de Castro desde que há mundo, embora o tenha conhecido apenas no desabrochar da pandemia. Um conhecimento parcial, é claro, entranhado no jogo de palavras à distância e pelos áudios do WhatsApp, que Wesley entende um tanto metálicos.

Ontem pude finalmente abraçar este sergipano em sua fortaleza frágil – e ágil. Um homem que sorri. Um homem bonito, os lábios que são um desenho, as unhas tão bem cuidadas e pintadas que me envergonhei um pouco das minhas. Me lembrei de passagem daquele José Mojica Marins que, adolescente, eu avistei num ponto de ônibus da mesma rua Augusta ontem percorrida por nós. Sem cartola ou capa, vestido com uma camisa branca, o Mojica à paisana não tinha nada de seu personagem Zé do Caixão, exceto as unhas longas e firmes. 

Tampouco eu sabia que Wesley era esse homem-cinema total. Enquanto andávamos pela avenida Paulista, conversando, a câmera despertava de seu celular. Sabedor do que queria registrar (a primeira foto já valia), dirigia a si próprio e a mim. “Olhe para lá”, me dizia, ele que pisava naquele território pela primeira vez. Ação, corte, edição: Wesley faz tudo isso como extensão do que é. Move-se e pensa dramaticamente. No olho, o frame.

Wesley olhou tanto! A vida, claro. Mas também as palavras e os filmes. E talvez por este motivo tenha sido tão natural, para ele, que se tornasse um diretor de cinema com um sem-número de referências, além de crítico inegável, apaixonado, amantíssimo, o único aliás que consigo acompanhar sem nunca esmorecer, um pouco pelo brilho da reflexão original que espalha em tudo, outro tanto por sua generosidade, pelo privilégio de que desfruta em ser tão honesto e centrípeto (desta maneira vê a si) nas suas atribuições de avaliador.

“Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo”, seu primeiro longa-metragem, já vencedor do prêmio Aurora na 28ª Mostra Tiradentes, foi co-dirigido pelo amigo sergipano de duas décadas Fábio Rogério. Dele, de sua experiência como editor excelente e ritmado, veio a ideia de realizar uma obra cinematográfica a partir do que Wesley é, de seus registros no celular sobre o cotidiano na casa da família em Aracaju. (Uma curiosidade é que Rogério chegou a duvidar de ter mesmo composto um filme ao final do processo de edição…)

Os pequenos vídeos dentro do longa mostram o quintal de Wesley, seus jabutis, galinhas, patos e cachorros no cio, a casa, a tela de tevê, o banho de chuveiro como que nascido de um filme de Totò (o primeiro no qual atuou, “Fermo con le mani”, de 1937, no qual se desenrola a gag em que o ator se banha de cartola). Neles estão também a pia cheia ou vazia, a faca, a mãe Rosane – filósofa de mando e origem, a ironizar sobre o filho querer tudo, menos o que tem -, muita água de chuva inundando o quintal enquanto escasseia a água de uso (haja inconsciente para rolar), as doações que alimentaram a família durante a pandemia, a vivacidade do diretor combinada a uma melancolia agitada, seus momentos de pânico, alguns filmes que ele viu, os parágrafos de uns livros lidos, os seus pensamentos que são um sentir e um sempre inesperado humor, capaz de ora esfriar, ora animar os sentidos do espectador lanceado.

Foi só quando vi o filme ontem, numa sessão do Cinesesc dentro da 13ª Mostra Tiradentes São Paulo, que entendi melhor o Wesley com quem passeei feliz horas antes. Ele está preso ao cinema. Isto é bom, ocasionalmente ruim? No filme, a certa altura, o diretor indica a exaustão de abrigar na mente uma câmera que tudo enquadra, junto a uma moviola imaginária constante, a determinar o ritmo e o movimento desses enquadramentos. A sua parece ser aquela prisão que implica prazer e que ocasionalmente pede liberação, assim como um rio contido, de repente, vaza pela cidade. Eis talvez por que seu pênis apareça tanto no filme. Este seu amigo no mais da vida “desereto” (mas não deserto) pode desprender em jorro diante de uma atemorizante faca polanskiana colocada na pia. E isso pode ser tanto o começo quanto o fim do eterno ciclo que, um dia, ele espera encerrar por deliberação pessoal.

É um filme feito de dor, mas também de amor e humor. Por me sentir amiga de Wesley, tantas vezes temi por ele, chorei por dentro, enquanto, na mesma fileira em que eu me sentava na sessão, ele ria alto de si próprio em tantas situações nem tão divertidas assim dentro do filme. A naturalidade com que uma sequência de seu inconsciente se segue a outra, com tantos bichos na casa a revelar essa imanência-transcendência, me lembrou aquela do diretor Luis Buñuel, suas aranhas, escorpiões e insetos colocados nos filmes sem razão aparente, mas a espetar os sentidos dentro de uma narrativa que se liga à vida. Wesley me pareceu buñueliano também por não saber o que fazer sem o cinema, e por atuar junto a um condutor consciente, capaz de expressar todo o peso de sua arte. Seu Fábio Rogério é como o roteirista Jean-Claude Carrière para o diretor espanhol, um artista a organizar o fluxo.

O filme que custou apenas 2 mil reais (gastos, em verdade, para a confecção do cartaz e das legendas em inglês exigidas pela Mostra Tiradentes) tem tanto mais, até um divertido cu piscante! E os efeitos visuais nascidos da precariedade da câmera surgem sublimes, como aqueles que Wesley produz ao agitar o celular, indicando “loucura”. Só posso esperar que seu filme jorre em novas exibições pelo Brasil e pelo mundo e que o Carrière deste Buñuel o acompanhe, empurre e console, salvando-o para viver e acontecer.

“Conclave”, cinemão tímido

Fui com sede a este filme porque, principalmente, desejei ver Roma por meio dele, os interiores do Vaticano, a atmosfera, a arte. Em parte vi. Também procurava por Isabella Rossellini naquele ambiente que é o seu, afinal. E ela se sai bem (indicada a atriz coadjuvante neste Oscar 2025) como madre superiora a exercer uma autoridade restrita nos bastidores do poder eclesiástico masculino. Sua face fala, ainda que por pouco tempo. Outros três atores, bastante manjados e bons, quem sabe pudessem surpreender.

Eis que não. Eles representam cardeais, reunidos para escolher o novo papa, à moda de suas aparições em filmes anteriores. Stanley Tucci interpreta o mesmo articulador situado em segundo plano (como aconteceu em “O diabo veste Prada”). Ralph Fiennes, indicado ao Oscar de melhor ator, lidera uma grande empreitada, por vezes enfurecido com os outros e consigo mesmo em razão disso (como em “A lista de Schindler”). John Lithgow tem um lado obscuro que acaba por se revelar (“Um tiro na noite”). Para quem acompanha cinema italiano, Sergio Castellitto (“Romeo è Giulietta”) é barbada como picareta cômico, um cardeal que quer devolver o papado aos italianos reacionários. Em razão dessas escolhas, quase adivinhamos o desenrolar da história, que na verdade surpreende ao fim, mas não pelo bem da narrativa. Uma questão contemporânea, ligada a gênero, é colocada sem sutileza na narrativa. Pior que isso, a armação política que elegerá o papa parece inverossímil. 

Também fui ver “Conclave” porque sentia certa saudade do cinemão que já foi a cara do Oscar. E Edward Berger, o cineasta de 55 anos, havia dirigido “Nada de novo no front” (Oscar de melhor filme estrangeiro pela Alemanha, em 2023) com razoável empenho. 

Minha saudade continua. Tenho concluído que o tipo de filme pelo qual espero não pode mais ser feito. Ou não com a mesma força. Aquelas peças a respeitar certas leis clássicas de apresentação da história, com protagonistas, antagonistas, um forte ponto de vista político e bom suspense, não se repetem. “Conclave”, candidato ao Oscar 2025 pelo Reino Unido e Estados Unidos, é morno demais.

Um Iluminado em farsi, com a mão pesada de deus

A mão pesada de deus. Persépolis vai à luta, com Mickey desenhado no casaco. “A semente do fruto sagrado”, longa-metragem candidato a melhor estrangeiro no Oscar 2025, tem de tudo isto, um pouco. É um recado, mais que um filme. Seu diretor, o iraniano Mohammad Rasoulof, de 52 anos, precisou fugir em maio de 2024 para a Alemanha, por onde lançou o filme, já que o governo iraniano o condenara a oito anos de prisão e chibatadas ao saber da aceitação da obra pelo Festival de Cannes.

Em “A semente do fruto sagrado”, gritam as emparedadas pelo regime, as mulheres iranianas que não suportam mais consentir no próprio apagamento. Uma sociedade afundada em teocracia, que confunde lei com providente desígnio, cria ratos executores, e é preciso dar um fim a isso, elas vêm nos dizer.

Como no caso de “Emilia Pérez”, este é um longa de quase três horas em que a primeira parte promete um trunfo. No caso, aqui, o da atenta observação psicológica dos personagens e suas ações. Pouco se julga e mais se mostra neste início narrativo, como acontece na grande arte do suspense. Há uma sombra que só desaparece quando surge a luz sobre os olhos de cinema mudo das jovens. Há um conforto nas mãos da mãe, que envolvem os aflitos e lhes secam feridas, enquanto seus lábios finos proferem ânimo e consolo.

As filmagens feitas pelo celular e incluídas no decorrer da trama dão autenticidade ao que vem sendo discutido. Nos protestos filmados, os jovens exigem um basta à opressão feminina no país, reivindicando uma revolução contra a teocracia vigente. Os reels exibidos no longa referem-se aos protestos de 2022, quando uma menina curda de 22 anos foi morta pela polícia moral por usar um hijab fora do lugar. Uma espécie bonita de balé acontece nesse ponto de “A semente do fruto sagrado”, para logo então sumir. Não há espaço para o suspense crescer, visto que o tempero do clímax se entranha em tudo o que é narrado.

O chefe da família precisa descobrir quem surrupiou seu revólver de serviço, guardado na gaveta do cômodo ao lado da cama, ou perderá a chance de se tornar juiz. Pior que isso, pegará três anos de prisão. Ele vai sendo convencido, por seus superiores, de que a família o traiu. De repente, sem dominar as lições de suspense de Stanley Kubrick, o diretor Mohammad Rasoulof parece querer repetir “O iluminado” naquela paisagem desértica de ruínas onde o personagem do pai enlouquece, mas acaba em uma sequência de embates de dar dó em Chuck Norris.

O grotesco venceu. É o gosto geral. Nada contra ele, claro, especialmente quando bem feito, bem-humorado, socialmente demolidor. Roger Corman, por exemplo, sabia fazer. Descobriu Jack Nicholson! John Waters tinha Divine. Há um grande perigo em tentar reviver a Hollywood dos anos 1970 e 1980 quando se deseja aplicá-la a assunto externo tão fundo e difícil. No fim das contas, tem-se a impressão de que o Oscar enaltece o filme por razões políticas.

Capitães de abril

A Revolução dos Cravos por quem a fez e foi esquecido, segundo relata a diretora Maria de Medeiros em “Capitães de Abril”, presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Capitão Maia, representado por
Stefano Accorsi: mais um herói esquecido

Muitos brasileiros talvez ignorem que a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, aquela responsável por libertar os portugueses de uma ditadura de 41 anos, foi militar. Como assim, militares bons!? Mais ainda, talvez não desconfiem que integrantes subalternos do Exército português fizeram essa revolução – para no fim serem invisibilizados e esquecidos hierarquicamente por seus generais.

“Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, explica esse processo de maneira iniludível. Ela é uma intelectual como muitos de seus posteriores não conseguiriam ser. Seu senso de popularidade hollywoodiana (trabalhou em “Pulp Fiction”, entre outros feitos) ajudou-lhe a erigir um monumento histórico português que não prescindiu do humor. Os heróis da revolução retratados em “Capitães de abril” foram substituídos, no calor dos fatos, por militares de alta patente. Morreram jovens ou muito doentes. O fato de Medeiros tê-los ressuscitado para o cinema a coloca no prumo heróico. Sim, Maria é poder.

Capitão do bem versus general do mal

Filha de um pianista, irmã de duas mulheres artistas, ela fez aqui a proeza de filmar todos os heróis em closes de ação. Não são portugueses, contudo, os atores escolhidos para encenar a proeza: Stefano Accorsi, nascido em Bolonha, faz o capitão Maia. O capitão Manuel (Frédéric Pierrot) nasceu na França e Lobão (Fele Martínez), na Espanha. Contudo, há um acento português nos seus intentos puros. Filmada de perto, a “malta” de Medeiros é um trunfo historiográfico e um acerto artístico. 

A diretora Maria de Medeiros

Sessão no Frei Caneca System 6 (às 19h15 do dia 28)

Permanência em lugar nenhum

O filme de Tsai Ming-Liang presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo discorre sobre um princípio do cinema, o movimento

Por Washington DC, o caminhar lento
do ator Lee-Khang Sheng,
presente em todos os filmes do
cineasta desde os anos 1980

Meu querido, admirável amigo Wesley Pereira de Castro, o único crítico de cinema que acompanho, me disse sobre “Permanência em lugar nenhum” que era desafiador, porém bom. Wesley, contudo, disse sentir falta do que o diretor Tsai Ming-Liang, da Malásia, fazia antes de iniciar, cerca de uma década atrás, a série de filmes sobre as andanças do monge Xuanzang, da dinastia Tang.

As pedras não são obstáculos

Interpretado por Lee-Khang Sheng, presente desde os anos 1980 em todos os filmes de Ming-Liang, o andarilho de pés descalços e cabeça raspada usa um manto vermelho para percorrer o mundo. E o filme capta seu andar em meio à paisagem, sempre muito lento. Com os braços em suspensão, ele inclina o corpo levemente para trás e coloca primeiro o calcanhar, depois o restante de um pé no chão; o outro pé faz o mesmo movimento e o corpo se inclina para frente de maneira que a passada seja concluída. 

Um pé de cada vez

Não conhecia o diretor, portanto não sei o que fazia antes dela série “Walker”. Mas este filme não me pareceu difícil de ver, até pelo contrário. Ao fundo e ao redor, enquanto Xuanzang caminha, está Washington DC, o obelisco tanto quanto a estação de trem, entre outras paisagens amplas. Ninguém o interrompe, às vezes nem o percebe, exceto alguns turistas que param para fotografar. Os dias podem ter sol ou garoa, pode haver piscinas de água ou regatos com pedras a transpor, e o monge estará sempre a caminhar do mesmo jeito. O filme é isso, sem música exceto no final, mantendo o barulho original do lugar – às vezes pessoas falam e os passarinhos cantam, às vezes é a chuva que cai.

Olhando para as coisas

De maneira paralela, há o forasteiro interpretado por Anong Houngheuangsy a conhecer a cidade, olhando seus interiores e preparando seu miojo. Onde os dois se encontram? É um filme bem editado, em diferentes planos longos entre si, com fotografia solar. Um filme sobre o movimento, princípio do cinema. Um filme-meditação.

O diretor Tsai Ming-Liang

Sessões no Cine Sato (18h do dia 26) e no Cinesesc (16h50 do dia 28)

A cozinha

Estava na hora de a chatice dar o ar da graça na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 

Rooney Mara, loira desejada, e Raúl Briones,
mexicano sangue quente:
os estereótipos fazem a festa

“A cozinha” não é um filme sobre cozinha. Duro dizer isso, mas não é. Em alguns momentos, enquanto assistia a minha sessão no Reserva Cultural, um cinema do Jardins paulistano, me perguntava por que o diretor mexicano Alonso Ruizpalacios, de 46 anos, não havia usado seu terceiro longa para cair matando sobre o gosto culinário decadentista do burguês. Ettore Scola já havia dado a dica em “Hostaria!”, maravilhoso episódio do filme “Os Novos Monstros” (1977) onde tudo acaba… em farinha. Mas assim não foi.

Ruizpalacios trabalhou o roteiro a partir de uma peça de Arnold Wesker que desconheço. Preferiu, em lugar de falar sobre cozinha, fazer um filme sobre cozinheiros. Partidos de todas as nacionalidades subjugadas – marroquina, mexicana, preta do Brooklyn – a restar emparedadas na Estátua da Liberdade, que os renegou às estações de comida de um restaurante fast food, eles não têm histórias no filme, mas estereótipos. Os mexicanos são esquentados, machistas como convém. O patrão sádico é o senhor Rashid. E a estadunidense do filme, a garçonete loira disputada por todos os homens, interpretada por Rooney Mara, pede a seu amante, o cozinheiro Pedro (Raúl Briones), que fale com ela eroticamente em espanhol. Foi a parte do filme que me fez rir.

Overreacting. Todo mundo se inerva demais, grita demais, fala demais, colocando as entranhas (hum) para fora quando menos se espera. Não há clímax. Não há ritmo. Tudo é pequeno e já é muito. Um gesto bruto corresponde a uma tragada intensa, que vai resultar num prato quebrado, seguido de uma cuspida no chão, uma estante de alumínio amassada com soco e o bater das mãos acoplado a uma risada mortal (um detalhe é que Rooney Mara vem a ser a esposa de Joaquín Phoenix, bastante conhecido por seu papel como Coringa).

Há também o famoso aborto traumático, não assimilado pelo latino que quer ser pai e pela grávida que sangra no pós-clínica. Mas é melhor eu não me estender nas objeções. Na sessão a que compareci, os espectadores aplaudiram ao final. Porém, me pergunto de que adianta filmar para não fluir. Um filme que não pensa nos encadeamentos nem nas falas, em que os atores trabalham cada um por si e em que a fotografia, a maioria em PB (fica azul numa sequência no frigorífico), parece filtro, não arquitetura. Fazer um filme chato pra quê?

O diretor Alonzo Ruizpalacios

Sessão no Espaço Augusta 1 (21h10 do dia 29)

Através do fluxo

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor Hong Sang Soo borra os limites entre narrativa, autoderrisão e blague

A mesa, o vinho, a conversa, as intenções escondidas

Se você nunca assistiu a um filme do coreano Hong Sang Soo, talvez se pergunte, após a sessão de seu novo longa, “Através do fluxo”, se foi cinema exatamente o que viu. Sua dúvida talvez não seja solitária. Aos 64 anos, Hong Sang Soo pode concordar com você.

Seus princípios de elaboração da história são seus fins. E quem age assim no cinema? Esboços preparados a partir de improvisos dentro de seus sets, que sempre parecem incorporar um banco diante de uma paisagem da natureza, à qual os personagens dão as costas, ou uma mesa onde os amigos compartilham soju ou vinho (eventualmente uma enguia grelhada, como neste filme), e assim formam situações e personagens.

São filmes, este também, que teimam em copiar o tempo real. Este é o primeiro fluxo. Eles fluem bem, nos divertimos com os diálogos nos quais há autoderrisão. Frequentemente, depois de algum tempo, a câmera decide se movimentar para o lado, como se não tivesse entendido bem a cena, ou faz um zoom abrupto, amador, e nessa brincadeira, nessa gramática que parece errada, mas é uma gramática, de repente o filme acaba. Para quem acompanha seus filmes, os fins abruptos são esperados e sabidos.

Os personagens hesitam como na vida, ensaiando o que realmente querem dizer. Polidos, contudo enganadores, dispostos a esconder um trunfo, os personagens de Hong Sang Soo, interpretados com frequência pelos mesmos atores em diferentes filmes (mas sempre o mesmo filme), conversam, bebem e fumam antes de entregar a que vieram, seus pensamentos e intenções. 

O professor que pegou suas alunas, e Kim Min-hee

O segundo fluxo, no caso deste novo longa, refere-se ao córrego próximo a uma universidade feminina sul-coreana (ah, a Coreia) onde o filme se passa. O professor que preparava uma peça de teatro com suas alunas havia se relacionado amorosamente com três delas em diferentes ocasiões no espaço de um mês, causando estupor e, como decorrência, sua expulsão da instituição.

Em razão dessa falta, a professora e artista têxtil Jeo-nim (interpretada por Kim Min-hee, a esposa do diretor, muito presente em seus filmes) decide chamar o tio, dramaturgo famoso cuja carreira foi enterrada, para encenar uma peça inteira em dez dias com estudantes amadoras. Um importante festival acontecerá e a universidade precisará comparecer com uma apresentação.

O tio é interpretado por Kwon Hae-hyo, que sempre faz um tipo de alterego em seus filmes: veterano bem reputado no campo das artes, ele não se sente seguro sobre seu ofício e frequentemente se envolve amorosamente com as mulheres com quem trabalha.

À beira do córrego, um esboço

O córrego faz sentido. Pode ser entendido como uma metáfora sexual (a corredeira do amor) ou como o fluxo do inconsciente dos personagens, sempre desejoso de ser revelado.

Hong Sang Soo é um blagueur, um tirador de sarro, um artista inspirado nos filmes de Robert Bresson. Mesmo sem entender o que ele pretende, um espectador pode divertir-se ao tentar.

O diretor Hong Sang Soo

Sessões no Cinesystem Frei Caneca 2 (19h30 do dia 26) e n Instituto Moreira Salles (20h15 do dia 30)

O conto das três joias perdidas

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, um árido brilhante sobre a opressão aos palestinos

Yussef e Aida: por ela, com ela

O filme “O conto das três joias perdidas”, que Michel Khleifi, cineasta nascido em Nazaré, Israel, apresentou ao mundo em 1995 (restaurado agora e presente na 48ª Mostra), é uma fábula sobre o confinamento realizada no formato de uma aventura infantil. O menino Yussef, vivido por Mohammed Nahnal – ele não fez carreira no cinema, assim como as outras crianças do filme -, sai do campo de refugiados onde mora em busca de aventurar-se nas Américas, onde estariam as referidas joias perdidas. Yussef acredita que consegui-las o fará casar-se com a linda menina cigana Aida (Hana’ Nc’mch), por quem se apaixona. E o colega de escola Salah (Ghassan Abu Libda), rico por morar numa casa em Gaza junto ao pai, que vende laranjas ao exterior, irá ajudá-lo no que puder, embora passaporte e dinheiro, todos sabem, Yussef jamais poderá ter.

Ao centro, Salah, o menino rico que os ajuda a sonhar

No filme, a aridez é permanente, e a cor vermelha se faz presente nos bordados das lindas roupas femininas dos pobres tanto quanto no sangue dos combatentes palestinos. Eles são homens jovens escondidos entre as árvores, armados de rifles de assalto e perseguidos nas ruas de Gaza até que israelenses decidam metralhá-los, em sequências onde a câmera na mão chega bem perto. Sim, você verá as ruas de Gaza quando elas ainda existiam, mesmo já envoltas em terror. Pela cidade os vendedores de shawarma lutam por conseguir comerciar, os carros velhos andam apertados em um trânsito louco sem sinais, o exército ameaça o cotidiano e a força da ONU não ajuda em nada.

O roteiro escrito pelo diretor parte do pressuposto que os israelenses são mesmo assassinos, sem discussão possível. Eles roubaram não somente a terra, mas o mar, inalcançável depois desse roubo, e a paz, o presente, aquele futuro intuído como inexistente (e se os palestinos correm, fiéis a sua origem ao usar no pescoço os pingentes onde se estampa sua bandeira, é para viver apenas um pouco mais, como uma galinha ou um coelho fariam por instinto).

O verde e a névoa de areia e poeira

A narrativa é envolta em cascalho, poeira, areia. Sentimos que ela nos penetra. Yussef caça passarinhos para vendê-los porque seu pai foi preso pelos israelenses e a mãe não pode resolver o problema financeiro da família sem ajuda. A mãe sempre lhe sorri e acolhe, sua irmã até desejaria tirar o hijab para ser ainda mais bonita, mas tudo isso é um suspiro que não pode se transformar em coisa maior ou melhor. 

O mapa do tesouro, em centímetros

As gaiolas para os passarinhos perpassam o filme, a evocar o confinamento em profundidade e multiplicação dos palestinos. E não é que eles deixem de engaiolar metaforicamente os outros: há um grande distúrbio em ser como os homossexuais ou os ciganos… São presos os pássaros, são presos os homens. 

Tempo, espaço, carne: o sentido
das três joias de sangue

Como viver assim em família, todos os dias, sem esperança? Eles simplesmente decidem que seus dias serão encantados pela culinária quase ritual, percebida com as mãos, e pelas histórias, contadas continuamente pela mãe e pelo tio cego. O clima onírico é constante e a utopia, retrô: todo sonho está no passado, quando ainda se podia andar livre pelas ruas e tomar banhos de mar. O futuro mora mesmo nas três joias reveladas: o tempo, o espaço e a carne, que se anulam mutuamente em busca da eternidade.

O diretor Michel Khleifi

Sessão no Cinesystem Frei Caneca 4 (21h30 do dia 25)

Levados pelas marés

Um espetáculo a unir a paisagem humana à música (ou o cinema como ele poderia tão bem ser), no novo filme de Jia Zhang-Ke, presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Imagine se Wim Wenders fizesse ainda hoje o cinema que realizou até “Paris, Texas”. Aquele cinema. O cinema. E imagine o diretor alemão, na China, a contar a história recente do país a partir dos rostos exuberantes dos homens comuns, numa revivescência de duas décadas, com riqueza musical e, principalmente, com o ritmo narrativo fundado nessas melodias. 

Zhao Tao acaricia seu amigo, o robô

Se você pode imaginar coisa semelhante – a música não só como trilha sonora, mas como um chamado -, estará muito próximo de compreender o que o chinês Jia Zhang-Ke faz em seu “Levados pelas marés” (2024). Nossos ouvidos se conectam, nosso coração está a pulso desde que a banda chinesa dos anos 2000 Brain Failure toca a canção de abertura, “Underground”. A letra cita o verso de um poema famoso da Dinastia Tang: “Nem mesmo um incêndio florestal pode queimar todas as ervas daninhas, elas crescerão de volta na brisa da primavera”. O poema enfatiza, segundo Jia, “a resiliência da vida”.

Este filme quase sem diálogos e com alguns letreiros (uma feliz recuperação do cinema mudo) usa mais o olhar dos atores do que suas palavras para acompanhar a passagem do tempo.

É um filme, mas, principalmente, um espetáculo fundado na dramatização que Jia realizou de forma solta, por duas décadas, em Pequim e em Datong, uma localidade chinesa a viver das minas de carvão. Seus movimentos de câmera mais impressionantes são travellings que registram lentamente a paisagem humana na cidade. Eis a face da verdade, do deslumbre de viver, que o filme demonstra ora com pungência, ora com humor.

Todas as emoções em um rosto que não fala

Sua atriz-chave, Zhao Tao, volta a representar a personagem Qiaoqiao, introduzida por Jia no filme “Prazeres desconhecidos” (2002). Ela jamais fala (mas, neste filme, canta uma canção) e ama relacionar-se positivamente com robôs, entidades que tomam conta da vida chinesa ao oferecer serviços surpreendentes, como ler as emoções em um rosto e limpar o chão. Qiaoqiao busca seu amor desaparecido, Bin (interpretado por Li Zhubin), e por isso a acompanhamos pelos lugares alcançados por  trem. A mudança de modelos de trens a circular pelos trilhos sugere a mudança dos tempos. Principalmente, é pelos olhos de Qiaoqiao que vemos tudo se transformar, como se ela presenciasse o fluxo da vida com o fone de ouvido ligado no streaming musical, lá onde o rock faz poderosas aparições.

É cinema, é a resistência, é ver para crer.

O diretor Jia Zhang-Ke

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Sessões no Cinesystem Frei Caneca 1 (19h40 do dia 25), Sato Cinema (19h do dia 27), Reserva Cultural 1 (14h30 do dia 28) e Cinesystem Frei Caneca 3 (22h do dia 29).