Não dormi esta noite.
Um grande mal-estar, dois.
Mal dormi esta manhã.
Um pensamento longe.
Mas preciso fechar os olhos logo mais
para preservar o mundo, cujo pedaço bonito desaba com minha vigília.
Mas eu não estou triste.
Só preciso dormir
para nos salvar.
Loucura
Eu tive um maior amigo
Que trabalhou ao meu lado
Pra redigir com ponto e vírgula
Nos lugares aclamados
As notícias que raramente cabiam
Na mesura miserável do papel.
Era jovem e não parecia,
Homem, e o sabia,
Figura relutantemente emotiva
Que usava o disfarce
Da esquizofrenia,
Da doença de ser muitos
(Uns contra os outros,
Outros em seu nome),
Para distanciar-se do conluio
Das alegres torpezas
De que são feitas
As redações de jornais.
Meu amigo me encheu
de consolo quando,
grávida, eu lhe disse temer
pela saúde mental do
meu filho que nasceria em
Capricórnio ou Sagitário,
uma vez filho meu,
e portanto da minha família,
estranho ajuntamento
de onde vez ou outra
saía ao mundo
a criatura de nove anos de idade
cujo encanto da fala
se perdia
após um grito na noite.
Meu amigo pausava e sorria
recordando-se dos velhos hospitais
onde fora escondido
com o consentimento dos pais
e de si mesmo,
“porque a ciência é necessária”.
Nascido louco,
tanto e a ponto de não reconhecer
a emoção alheia,
nem a minha,
ele no entanto viu
facilmente as claras fantasias
que Luiz Melodia
soltou num verso.
Meu amigo me disse
olhando-me de lado
desde a cadeira preta
com rodinhas
que ocupava,
diante de um computador
de letras verdes:
– Um louco tem fome e sede.
E pode ser feliz como eu,
que assim me fiz.
E eu inerte.
Os olhos presos.
Ritmo
nada mudou pra mim.
todos os dias,
tenho um sonho
ou um desapontamento,
expresso um viva
ou um desejo
de não haver me
colocado onde estou.
todo dia, um
arrependimento
se cola ao meu ardor.
não há peste que altere
o lento, por vezes
radiante, mastigar
das coisas.
tropical
fecho os olhos.
sinto a areia e o sal do mar.
o sol me queima sem queimar.
E daí?

e daí?
e daí que você não pode
interromper a imensa
chegada do sol
através de minha janela
desde as primeiras horas
sonolentas da manhã.
e daí?
e daí que não conseguirá
me impedir de, mesmo
cambaleante e sorridente,
expulsá-lo de minha vida,
apenas temporariamente
usurpada e aterrorizada
por sua vil presença.
e daí?
e daí que temos olhos,
ouvidos, boca, sexo, nariz.
e daí que nossa luz,
não irá apagá-la um infeliz.
NOITE ESVAZIA
Meio sem nada.
Meio cheia.
Meio nonada.
Meio êxtase.
Meio sonada
No meio do sonho.
Meio no fim.
Meio acolá.
Meio sem mim.
Meio se vá.
Meio, começo, enfim.
Meio concedo:
Me ensine
A chegar.
para viver o presente
como vocês estão lidando com tudo isso?
decidi ver a segunda temporada de after life e agravei meu sentimento.
me senti despedaçada.
e daí?
daí que, como eu sempre soube, a saída pra tudo isso é antiga.
a revolução que não fizemos.
todo o amor que ainda temos.
Dito quarenteno
pirando de solidão?
então você não está só.
Ilusões das gentes
Tento de tudo.
Apelo a Era Uma Vez na América:
De Niro na casa de ópio.
Quem sabe não faz meu sono vir?
Nada…
Todos dormem por aqui, exceto eu.
E fico feliz por eles, meu paraíso.
A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos.
Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.
Cotidiano
Ponho a roupa pra lavar,
estendo, guardo, lavo a louça,
perfumo o banheiro,
deito o lixo, faço o café.
De cozinha, sou menos,
mas ajudo geral.
Não nutro essência doméstica,
antes nebulosa.
Nem pragmática, nem produtiva,
muito menos na rica flor
de minhas forças organizativas,
fotografo a janela.
E mergulho um dia após o outro.
Ontem foi difícil,
hoje também.
Com o sol lá fora, contudo,
vivo bem.
Vivo!
Sonho.
Leio.
Escrevo uns versos
para que um dia se
transformem em poesia.
Em libertação.