Ilusões das gentes

Tento de tudo.
Apelo a Era Uma Vez na América:
De Niro na casa de ópio.
Quem sabe não faz meu sono vir?
Nada…
Todos dormem por aqui, exceto eu.
E fico feliz por eles, meu paraíso.
A noite é quente, até abafada, avisam-me os mosquitos.
Esses seres gritantemente efeminados que não estão nem aí pras ilusões da gente, grandes ou pequenas.

Erro em perspectiva

No começo da fotografia não havia crença para ela.
Era um brinquedo, por todos assim entendido.
Uma impossibilidade de extensão.
Luz cabalística.
Embriagado patrono dos vícios, Baudelaire a desconsiderou como arte, por apenas repetir, segundo ele, o verdadeiro, o existente, a perspectiva da realidade.


Sempre que deparo com esse Baudelaire, me encanto com sua inocência.
Como se a máquina tivesse o poder de reproduzir toda a maneira de ver.
E choro lágrimas de vidro sobre a face cortante.
Não há máquina que dê conta de mim.
Dos meus olhos em sangue.

Deidade do infinito

Grito pela janela com muito fervor.
E não só por ele.
Contra ele.
Mas também por mim.
Contra os outros em mim.
Aqueles outros que ardem em meu inferno de todos os dias, e que permanecem quietos aqui dentro, esperando explodir.
Contra os bolsonaros dos meus costumes, da minha cidade, do seu comércio, das vilas de apego consumista, dos becos de paixões de papel.
Gritei “fora lixo” e ela me respondeu “vai arrumar a casa”.
Minha casa nunca será arrumada, lady.
Não, pelo menos, por seu desígnio de trevas, não por seu color touch blonde, não por seu curtume.
Minha ambição é a deidade do infinito.
Minha ambição é meu país.
Minha ambição.
Eu.

Elegia

Dali do alto da avenida São Luís saem os gritos e assovios
que torcerão para sempre bem nítidos contra o coronavírus
e contra o espelho, espelho-meu partido, de salomônicas cnns.
Jaz ali findo, como hades de boteco, aquele a quem chamam presidente,
cataplasma de infeliz clamor, rígido aspecto, o lixo escoado pelos dentes.
Dali do alto da avenida São Luís ouço a morte nas carreatas
dos profanadores de meu país, ilesos, lisos, solventes nas águas livres,
a sorrir para quem dorme nos bancos gélidos, lá onde caem as folhas
e atrás dos quais se põe, declamador quase bíblico,
o Dante Alighieri no central park da praça Dom José Gaspar.
Lutar, amigos, lutar, mas meus olhos estão tristes
e meus ouvidos não suportam mais.
Para completar, zombam desta intimidade de sonho
os abusadores da tibieza do meu corpo, prestes a me obrigar às lágrimas.
Tempo haverá, tempo-tempo-tempo, para que meu rosto, velho bonito que
não se dá a ver, responda ao terror com o sorriso do princípio.
Dali do alto da avenida São Luís, contudo, ainda ouço quando o mendigo infeliz
Lembra à amada, que não se diz mais sua, o muito que tiveram e o que ele lhe deu.
E isto tudo a ecoar feito nada.
Bem sei que muito falta para que, de gritos e assovios, o mundo acabe em estampido,
mas sinto que até lá, desgarrada, sorverei o sangue estreito em uma colher de chá.

Um sentir na pandemia

Ontem, daqui da janela, eu me encontrava conformada. Os passantes prosseguiam, grande parte deles (homens, em sua maioria) sem máscaras, mas não eram tantos assim.

Havia ônibus e filas de ônibus, porém os passageiros se postavam mais ou menos distantes uns dos outros. E muitas crianças, porque assim as entendo, carregavam suprimentos sobre motos e bicicletas.

Hoje, tudo está diferente.

Faz frio. No entanto, há gente considerável circulando todo o tempo, e mais: aproximam-se, conversam entre si. Os policiais, zeladores de estacionamento e vigias encaram os mendigos que chegam perto deles com idênticos braços cruzados, sem conceder ou se afastar diante de sua presença.

Carros e veículos iridescentes conduzidos por transportadores infantis revezam-se em número semelhante no calçamento.

Um ou outro personagem isolado (daqui a pouco os reconhecerei e lhe darei apelidos) grita “fora bolsonaro” das janelas longínquas, como um rápido desabafo. Mas há também pela rua os gritos alongados, parecidos com os daqueles vendedores antigos de beju na praia. E batuques.

Não sei o que as pessoas lá fora pensam.

Porque sei que pensam.

Porque pensar é um sentir.