Express yourself

Sem dormir, porque o povo comemora o carnaval com banda lá fora, aparece a consciência do mundo pra me atormentar. A imundície. A canalhice desse verme que não pretende se levantar da cadeira por resultado eleitoral nenhum. Penso em quem votou nele e continuará a votar. Vejo a luta cotidiana de um padre que a PM bandida parece simplesmente querer exterminar. Esses trastes fálicos das forças brochadas a rir abertamente de nós.

Que país. Que falta de país.

Tento pensar em outras coisas. Pensar que sou mulher e que muito me alegra sê-lo, mesmo na idade em que estou. Me lembro de uma discussão no programa da Oprah (sim, eu assistia ao programa), há milhares de anos, e que não esqueci. Lá estava Cybill Shepherd, a linda atriz, a lamentar que, mal completados seus 50 anos, tenha se recusado a olhar o próprio rosto no espelho. Não se deve fazer isso, ela dizia à Oprah. A depressão vai acabar com você. Porque tudo em sua aparência não será o mesmo, mas vc ainda terá uma vida pra viver.

Claro que esse problema atinge mais essas mulheres tão belas do que nós. Me deu pena da Cybill. Do que o cinema fez com ela. Nem de longe o dude Jeff Bridges, seu parceiro em “A última sessão de cinema”, enfrentou a mesma situação.

Me divertiu mesmo, no sofá da Oprah, o conselho de uma autora motivacional convidada a se postar ao lado de Cybill: “Depois de certa idade, é preciso projetar em você mesma uma grande confiança. Você tem de se sentir uma Sofia Loren, ou não conseguirá viver.”

Eu acho que, ao projetar Sofia em mim, acabei expressando o Christophe Lambert. Será que tem problema aí? Espero que não.

O pior lugar

Os pesadelos não param. Talvez porque os últimos dias tenham sido assim, em torno da tristeza e da morte. Mas sou infeliz, eu, durante o dia, para sonhar tão ruim? Não creio. Não normalmente.

O fato é que nos sonhos estou pela rua procurando alguma coisa, visitando alguém ou até mesmo festejando meu aniversário, quando de repente me vejo sem máscara. E me sinto nua, aterrorizada.

Ninguém protegido ao meu lado, igualmente. Todos inconscientes. Só eu me dou conta de que há uma pandemia em curso e não me protegi. Perco a voz.

Procuro algo para tapar o rosto. Um papel. A malha que estava na cintura. E subo nos ônibus apressada rumo a minha casa, aonde não sei ir. Eu perambulava por um lugar distante, perdido no mundo, e não faço a mais remota ideia de qual é o caminho de volta.

Pois então. Ontem sonhei assim e hoje vejo todas as fotos do Mussolini de subúrbio na multidão. Ele não sonha com o pior, certo? Ele já vive o pior. Tão experiente nele. Ele é o pior lugar em si. Por isso agora se sente melhor do que nunca, em êxtase contínuo, passeando sobre os cacos da nossa agonia sem furar os pneus.

E eu?

Eu só não queria acordar sempre aflita depois desses sonhos, os dentes trincando, à procura imediata das pessoas que amo. Os olhos só abrem a muito custo.

Não é possível que algo no meu dia me leve durante a noite à responsabilidade por esse caos. Repudiei esse escárnio humano com todas as minhas forças e aceitei de muito bom grado votar em Haddad, que nem era meu candidato ideal, depois de aceitar não ser mais possível recolocar a presidenta em seu lugar de direito.

Por que me culpo, então? Será que porque não sei gritar, nem mesmo conscientizar quem está perto, como o porteiro bolsonarista do meu prédio?

O que está acontecendo conosco? Quando empurraremos o espectro pelo precipício? Quando faremos alguma coisa?

juro

Sinto um pouco de vergonha alheia quando alguém que não me conhece, nem sabe a minha idade e menos ainda o que presenciei, vi ou li, me aplica um ensinamento que não vai rolar sobre coisas (as raras) que, azar desse alguém, sei de cor.

Se gosto desse alguém, é fácil, finjo que não notei a imposição. Se não gosto, hoje ignoro. Mas quando era jovem e insensata, metia o pau logo nessa gente sem dó, pra depois chorar a incompreensão sozinha, no meu canto, dias inteiros.

É melhor guardar o choro pra outras coisas, gente. Juro que é.