Renad, meu sonho

Nunca vi a chef Renad, de 10 anos, chorar diante da câmera. Ela sorri até mesmo quando nos explica que os israelenses não têm outro plano exceto extingui-la e aos seus. Não conheço ninguém igual e a amo como a palestina percebida por mim como uma filha, uma neta, uma prima, uma irmã ou eu mesma. Aqui, ela abre uma caixa de produtos básicos de limpeza como se fossem tesouros, que de fato o são diante do sufocamento cotidiano sentido (por ela e por nós) como um genocídio. Que ela consiga ainda estar aqui por muitos anos, estudar, florescer, amar e sentir o cheiro da hortelã pelas manhãs.

Chiclete de Boulos

Visto-me de vermelho e roxo, coloco o adesivo “Boulos 50, Machistas não Passarão” e ando tranquila pelos noias miseráveis sob o viaduto, até minha zona eleitoral e literal. Um homem de 50 anos, que se parece com um garçom, me diz: “Força aí”. Outro de mesma faixa etária, com cara de quem lê, exclama ao passar bem perto, quando eu nem o havia notado: “É isso!”

Chego confiante à seção, que está completamente vazia, sem filas. Os mesários parecem felizes ao me ver paramentada. Pergunto-lhes se esse é o nível de comparecimento até agora. Ele diz encabulado “não sei como está la fora” e ela, sorrindo: “Parece que hoje eles estão com preguicinha”.

Me dá uma tristeza lembrar que estamos tão fudidos. Como assim, preguiça? Andei cinco mil passos pra votar. Tô ansiosa de não dormir ao pensar que O Amigo da Onça prepara um coronel para ocupar a secretaria de Educação e agradar ao Minto. Como assim, preguicinha, com estas ruas imundas e essa gente do corote falando sozinha?

Volto pra casa em longo caminho e um homem de uns 60 me para, perguntando se votei direito. Sim, votei direito, meu querido. Me pede dinheiro pra comer, não tenho, dou-lhe barra de chocolate. “Ah, chocolate, ainda bem que não é do seu chiclete. Sugiro que a senhora não chupe, porque isso engana seu estômago, o ácido úrico pensa que a senhora está digerindo e fura seu estômago causando úlcera ou coisa pior, gastrite ou morte…” Eu mereço: “Úrico, meu querido? Não será clorídrico? Só faltava isso na minha vida, morrer de chiclete.” E ele: “Ah é, clorídrico! Mas, olha, a senhora tá parecida com a Marta Suplicy!”

Eu mereço, né? Úlcera, gastrite ou morte?

Aviso aos navegantes

Amores, comecei hoje a comentar em meu blog alguns filmes da mostra. Decidi escrever textos rápidos, às vezes no saguão do cinema mesmo, para dar conta mínima da sensação tida por mim ao vê-los. Nenhum veículo de imprensa quer saber das minhas impressões, e minhas impressões são livres.

Principalmente, preciso esclarecer que não dou dicas de filmes. E não dou por uma razão simples. Minhas dicas podem não servir a ninguém. Busco no cinema coisas minhas. Vocês também, aposto! E raramente encontramos quem pense como nós, não é assim? Então, jamais ousaria dar dicas generalistas e impositivas. 

Não encarno um espírito de época, nem um pensamento em comum. Na minha vida, quando analisei cinema, logo os jornalistas brasileiros da área tentaram me esconder e anular. Tinham suas razões. Escrevo compromissada com minha busca pelo cinema, não para que um grande público me aprecie. 

Gosto e desgosto de filmes de um jeito que pode incomodar. Acolho os politicamente incorretos, por exemplo, desde que sejam bons filmes, a respeitar o cinema como uma categoria do narrar/pensar com ritmo. Raramente me interessam aqueles feitos para estimular de algum modo nossas vidas (se não me encanta a auto-ajuda nos livros, não buscaria isto nos filmes). Amo ver o cinema assumir riscos, passar por pontes estreitas, dizer por meio da montagem e da imagem, não quando ele é um novo meio de fazer tevê, por exemplo. Enfim, muitas das coisas que aprecio ninguém precisa gostar.

Tudo isto dito, sinto muita alegria quando vocês acompanham minhas publicações. Uma esperança danada, uma vontade de viver.

Invólucro, sempre ele

Descobri que tanto minha cabeleireira católica, eleitora do Lula, quanto sua auxiliar evangélica, pró-Bolsonaro, ouvem os sermões de fervor religioso de Pablo Marçal e o consideram “gato”.

(Onde, gente?)

Mostrei-lhes um link que informava a dívida de 16 mil de Marçal com a Receita, algo inconcebível, convenhamos, para quem se apresenta também como coach financeiro. A evangélica primeiro perguntou se era possível confiar no link, depois arrematou que, de todo modo, os políticos são mesmo assim. A católica riu e aproveitou para informar que ela se declara isenta de imposto de renda quando não deveria ser.

O invólucro é o que conta para quem tem pouca informação. Nunca imaginei que achassem Marçal bonito, nem entendia, à época, o charme que as mulheres viam em Collor, no qual votaram para presidente.

Querem saber?

Estamos f.

No íntimo mundo do sonho e do rock, o filme “Assa”, de Sergei Soloviev

Em 1988, viver significava insistir. Pela enseada, na cabana transformada em habitação, o jovem Bananan construía pequenos objetos de arte e ousava interpretar um gênero degenerado de música popular, o rock. A reconstrução, que os russos intitularam perestroika, chegava com a promessa de melhorar a vida de todos. “Mas eu não vivo a vida”, argumentava o protagonista da trama ficcional “Assa”, de Sergei Soloviev, à mulher amada, amante de um gângster. “Viver a vida é triste. Do trabalho para casa, do trabalho para o túmulo. Eu moro no íntimo mundo dos meus sonhos. E a vida, o que é a vida? Uma janela pela qual de vez em quando enxergo as coisas embaçadas.”

Aqui, este lindo filme, com legendas em inglês:

Herança maior que meu pai me deixou

O que hoje lhe impulsionaria a pintar, meu pai? A buscar? Como entenderia as facetas da falsidade obrigatória deste mundo? Se esconderia, como eu, nos livros, nos filmes, no apartamento? Brilharia, como a arte lhe ensinou? Acreditar na arte, meu pai, em sua capacidade de transformar tudo, foi a herança, aliás, que me deixou. Que o céu brilhe mais só porque seus olhos o veem da grande altura onde está. Parabéns.

sem madonna sou

não sintonizo a globo jamais, porém no passado assisti ali deliberadamente à transmissão do início da invasão de bagdá, uma vergonha com hora marcada.

não vejo jornal nacional, portanto, nem telenovela nem huck, graças a deus.

as últimas coisas da emissora percebidas por mim, durante ocupada juventude, quiçá tenham sido o funeral do tancredo, o show do joão gilberto com a rita lee e a morte do sena.

já me diverti com a madonna no passado, mas nunca a levei a sério, jamais constituiu meu ícone pra coisa alguma (quem me liberou foi wilhelm reich), embora admire seu racional, o saber lidar com as massas & sua psicologia.

ela é mais velha do que eu e talvez por isso minha coluna vá melhor que a dela.

não gosto de show de dublagem, embora assista sem muito gosto, eventualmente, aos lip syncs do reality da ru paul.

a primeira vez que vi a imagem de marielle no telão foi durante um show emocionante dias depois da sua morte, dado pela brilhantíssima neneh cherry, com a presença paga de seus grandes músicos, sim, no sesc pompeia.

nascida também há seis décadas, igualmente sabedora de nós, a linda afilhada do don cherry tocou assim no dedo quente da ferida brasileira sem que bebel gilberto, ao abrir a apresentação, tivesse se ocupado minimamente do brutal assassínio.

dito isso, e não necessariamente na ordem/desordem acima, que todo mundo possa encontrar diversão no que é de divertir, ver o que quiser ver e amar quem deseje até dizer chega, como falava minha tia alzira do nordeste e do coração.

Coppola, à espera de um lugar ao sol de Hollywood para seu “Megalopolis”

À véspera de completar 85 anos no dia 7 de abril, o diretor Francis Ford Coppola apresentou seu novo filme, “Megalopolis”, cujo projeto iniciou em 1983, em uma sessão especial para magnatas da distribuição, da exibição e da publicidade. O filme explora os embates entre sonhadores e pragmáticos durante a reconstrução de uma cidade acidentalmente devastada. Adam Driver, Shea Le Boeuf e Jon Voight estão no elenco.

Ao final da sessão, apurou o “Hollywood Reporter”, os poderosos não disfarçaram o mal-estar. Eis um produto impossível de vender. O filme não distingue bandidos de mocinhos, mostra umas esquisitices indie lá pelo meio e se desenvolve em mais de duas horas sob um ritmo longe de ser frenético.

Nos bastidores, os magnatas consideram que o pessoal alternativo deveria cuidar do bebê. O problema para que isso ocorra, já se pode imaginar: os alternativos não têm os 100 milhões de dólares que Coppola calculou necessários para a distribuição, a exibição e a publicidade. O diretor precisa retornar o que gastou sozinho para produzir o filme, alegados 120 milhões de dólares obtidos com a venda de parte de sua vinícola estimada em 500 milhões. Quanto ao streaming, só ele não faz tudo.

O cineasta deve estar habituado ao processo. “O Fundo do Coração”, lançado em 1981, faliu seu estúdio. A história se repete como farsa, quiçá alegoria para o fim de um sonho de cinema. Coppola terá energia para empreender via crúcis semelhante depois quatro décadas, ademais no ambiente de derrocada atual? Ele deve se lembrar todos os dias do que leu entre os escritos deixados pelo filho roteirista, morto em um acidente de carro: “A arte não dorme”. Tantos deuses do crepúsculo quebraram estúdios no passado sem deixar de ser deuses.

Já preciso ver este filme, que no mínimo deve ter funcionado, aos magnatas, como um espelho.