O humor alerta em “As Mulheres, os Hormônios e Eu”

Rosa Rosah e Walmir Pavam
no palco da sala Alberto Guzik,

na SP Escola de Teatro

Assisti à última apresentação da peça “As Mulheres, os Hormônios e Eu” agora à noite com a expectativa de que fosse uma comédia ruidosa e liberadora. Constatei ser liberadora, embora o ruído, um pouco mais grave do que antecipei. Trata-se não propriamente de comicidade, mas de humor o que está presente no ótimo texto de Nanna de Castro, aqui dirigido por Lilian Domingos. Humor no sentido pirandelliano da reflexão. Não mulheres à beira de um ataque de nervos, mas um homem, um ginecologista em pânico diante do quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. 

Meu irmão, Walmir Pavam, é o ginecologista Sigmar em crise e a divertida e versátil Rosa Rosah, sua terapeuta à beira da menopausa. Eles se entreolham em seus problemas e complexidades. Walmir por vezes me lembrou o italiano Alberto Sordi mais enlouquecido, assumindo o grotesco da persona representada. Rosah soube ser inconformada, engraçada, triste, uma generosa atriz.

É tudo o que posso dizer para que vocês se animem a ver esta peça numa próxima temporada, quem sabe ano que vem. De modo a concretizar esta montagem, eles contaram com o espaço da SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, e com uma campanha de crowdfunding para a qual me emocionei de ter contribuído. Tudo é emoção, aliás, neste mundo em que a arte, para ser exercida, precisa de nós.

Não percam a próxima ocasião!

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.

Uma psicologia

Certa feita entrevistei Marisa Orth.

No final dos anos 1990, a atriz começava a ser interessante aos globais.

Ficamos a conversar quase três horas no camarim.

A Marília Pêra enciumada.

Sua pupila em cena despertava atenção além do palco!

Mas, enfim, acho que pratiquei com a Marisa algo aproximado ao que ela estudara na PUC.

Uma psicologia.

Bem, eu não sei entrevistar ninguém.

Converso. Ouço. Analiso. Me atrevo.

E no geral dá certo.

(Não deu com o Vargas Llosa, grande escritor, grande pulha, mas tudo bem.)

Creio que a Marisa falou demais e que eu publiquei de menos.

E que esse equilíbrio é duro pra quem escreve.

Pouco espaço pra expressar tantas ideias conversadas…

Mas não só!

Há que considerar: são blefes ou ideias originais o que proferem diante de nós?

E por que destacaríamos o blefe, não as verdadeiras ideias, comumente más candidatas ao interesse público?

(Jornalismo dos anos 1990, friends. Não riam. Havia lugar pra exercer essas ponderações. Pasmem, com um editor que em tempos atuais virou uma das máximas expressões da direita política…)

Enfim, o que eu queria contar é que gostei muito da Marisa.

Pessoa da minha idade, divertida, reflexiva, essencialmente maluca como eu.

Porém me decepcionei…

Achei que o ego dela não iria tão longe, vê se pode!

(Sei lá, o meu nunca foi).

Perguntei-lhe a certa altura, segura de que três horas depois já a conhecia:

– Querida, como você aguenta trabalhar com o Miguel Falabella?

E ela não pensou muito.

– Entendo o que você quer dizer.

Eba!

– Mas sabe o quê? Viajo com ele pelo Brasil e sei como ele é famoso! Muito! Você nem imagina! Todo mundo conhece o cara!

Ai, meu deus.