Com a palavra, o fascismo

No ensaio aberto de “Terra sitiada”, vislumbramos a dor e a hesitação desde a eleição presidencial de 2018 e a pandemia da covid, em texto de Walmir Pavam

“Terra sitiada”, a fisicalidade que agita as palavras

O dramaturgo, ator, diretor e professor Walmir Pavam, meu irmão caçula, lidou com a palavra desde sempre. Menino, já era poeta com caderno próprio, manuscrito. A palavra que se pronunciava e aquela que se agitava quando escrita o acompanhavam pela vida. Era seu dom, sua sina, esta com a qual nós, os três irmãos, de certa forma também lidamos em nossos percursos.

Com Walmir, contudo, a palavra era uma estrada artisticamente contínua. Ele escolheu cursar Geografia na universidade, talvez por ser um precoce talento também na observação da terra e dos mapas, mas as palavras ainda o balançavam. E ele decidiu caminhar a seu serviço. Ampliou-as com uma expressividade  traduzida em teatro, ou seja, em emoção, fisicalidade, imagem, som. Suas palavras passaram a ser, assim, também ouvidas e sentidas em presença.

Outro dia ele ganhou importante prêmio para um roteiro cinematográfico de sua autoria, o que constituirá, espero, nova extensão para essa sina. Mas o teatro mora nele, entranhado igualmente na sua vida profissional, como professor. Uma vida árdua, de positividade e negativas. E, como eu disse antes, não importa como, ele persiste no caminho.

Ontem, fui assistir ao ensaio aberto de sua nova empreitada, a peça “Terra sitiada”, no palco da SP Escola de Teatro. Um palco imaginado como um mini Teatro Oficina, onde nos colocamos como espectadores, e os atores caminham por entre o corredor, as cadeiras, a arquibancada, surgindo de onde não se espera, vocalizando todos os contornos verbais do texto teatral.

Minha observação do espetáculo não poderia ser acolhida sem reservas, sendo eu a irmã do dramaturgo e diretor. O que posso dizer deste ensaio aberto – um momento de gentil oferta de seu grupo, dele e dos sete jovens brilhantes atores com quem conviveu na escola de teatro, para a solidificação da obra – é que sua nova peça parece engrandecer esse posicionamento diante do verbo e de sua realidade.

Pareceu-me um teatro da palavra, favorecido pela imensa agilidade dos atores, dispostos a improvisar a partir do desenho de seus personagens, engrandecendo-os. Um teatro em que a palavra é pura, dura, estocada no pretume do auditório, engrandecida pelo silêncio, em muitas passagens que nos deixam mudos de expectativa diante do acirramento de todos os fascismos encenados.

Nesse teatro, discutem-se ousadamente passagens recentes de nossa história (coisa que o cinema brasileiro de credibilidade não tem feito), a eleição presidencial de 2018 em meio à violência dos “verde-amarelos” contra os “vermelhos” na avenida Paulista. Walmir tem um posicionamento claro, pelo bom senso histórico, sem deixar de revelar as hesitações, compreensíveis ou não, de quem procura entender de que lado ficar.

E, depois, ele prossegue pelo mascaramento – sendo a máscara, ele lembra, importante fator teatral de desvelamento. Ela nos protegeu durante a pandemia da covid. O confinamento, com suas consequências comportamentais e psicológicas, é encenado durante uma aula de teatro que parece responder diretamente à experiência do autor enquanto professor. Na sua força, os rostos que representam essa escuridão têm uma arquitetura para além do olhar, aparentemente a única possibilidade visível durante a pandemia. Sentimos com os atores, tememos, temos a mesma vontade de gritar, mesmo que eles atuem com a máscara no rosto nessa parte do espetáculo.

É verdade que alguns ajustes devem ser feitos. O público de ontem parece ter sentido falta de alguns sinais de evidência (por exemplo, uma boina a identificar o ótimo personagem de um policial, sugerido e apontado somente ao fim de sua encenação). Sugeriu imagens das passeatas de 2018, refletidas. Encenações da ditadura. O som não funcionou direito e, diz o diretor, faltou incluir discursos poderosos, como o do político Ulysses Guimarães. 

Não senti falta de nada disso, para ser sincera. E me cansa um pouco a intromissão de projeções de filmes e fotos no teatro de hoje. Acho que o texto de Walmir, acoplado à entrega dos atores, merece ser ouvido e sentido como um choque.

O humor alerta em “As Mulheres, os Hormônios e Eu”

Rosa Rosah e Walmir Pavam
no palco da sala Alberto Guzik,

na SP Escola de Teatro

Assisti à última apresentação da peça “As Mulheres, os Hormônios e Eu” agora à noite com a expectativa de que fosse uma comédia ruidosa e liberadora. Constatei ser liberadora, embora o ruído, um pouco mais grave do que antecipei. Trata-se não propriamente de comicidade, mas de humor o que está presente no ótimo texto de Nanna de Castro, aqui dirigido por Lilian Domingos. Humor no sentido pirandelliano da reflexão. Não mulheres à beira de um ataque de nervos, mas um homem, um ginecologista em pânico diante do quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. 

Meu irmão, Walmir Pavam, é o ginecologista Sigmar em crise e a divertida e versátil Rosa Rosah, sua terapeuta à beira da menopausa. Eles se entreolham em seus problemas e complexidades. Walmir por vezes me lembrou o italiano Alberto Sordi mais enlouquecido, assumindo o grotesco da persona representada. Rosah soube ser inconformada, engraçada, triste, uma generosa atriz.

É tudo o que posso dizer para que vocês se animem a ver esta peça numa próxima temporada, quem sabe ano que vem. De modo a concretizar esta montagem, eles contaram com o espaço da SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, e com uma campanha de crowdfunding para a qual me emocionei de ter contribuído. Tudo é emoção, aliás, neste mundo em que a arte, para ser exercida, precisa de nós.

Não percam a próxima ocasião!

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.

Uma psicologia

Certa feita entrevistei Marisa Orth.

No final dos anos 1990, a atriz começava a ser interessante aos globais.

Ficamos a conversar quase três horas no camarim.

A Marília Pêra enciumada.

Sua pupila em cena despertava atenção além do palco!

Mas, enfim, acho que pratiquei com a Marisa algo aproximado ao que ela estudara na PUC.

Uma psicologia.

Bem, eu não sei entrevistar ninguém.

Converso. Ouço. Analiso. Me atrevo.

E no geral dá certo.

(Não deu com o Vargas Llosa, grande escritor, grande pulha, mas tudo bem.)

Creio que a Marisa falou demais e que eu publiquei de menos.

E que esse equilíbrio é duro pra quem escreve.

Pouco espaço pra expressar tantas ideias conversadas…

Mas não só!

Há que considerar: são blefes ou ideias originais o que proferem diante de nós?

E por que destacaríamos o blefe, não as verdadeiras ideias, comumente más candidatas ao interesse público?

(Jornalismo dos anos 1990, friends. Não riam. Havia lugar pra exercer essas ponderações. Pasmem, com um editor que em tempos atuais virou uma das máximas expressões da direita política…)

Enfim, o que eu queria contar é que gostei muito da Marisa.

Pessoa da minha idade, divertida, reflexiva, essencialmente maluca como eu.

Porém me decepcionei…

Achei que o ego dela não iria tão longe, vê se pode!

(Sei lá, o meu nunca foi).

Perguntei-lhe a certa altura, segura de que três horas depois já a conhecia:

– Querida, como você aguenta trabalhar com o Miguel Falabella?

E ela não pensou muito.

– Entendo o que você quer dizer.

Eba!

– Mas sabe o quê? Viajo com ele pelo Brasil e sei como ele é famoso! Muito! Você nem imagina! Todo mundo conhece o cara!

Ai, meu deus.