Lula, a garantia que temos

Todos os dias agradeço que Lula esteja onde está. Precisaram que ele voltasse da jaula onde o enfiaram para consertar este buraco fundo. E ele tem administrado tudo até agora com a eficiência possível – ou impossível – que o caracteriza.

Sobre o que Lula tem aceitado para continuar a governar, não vejo como poderia ser diferente com o congresso que temos. Santo deus. Este Brasil mísero tinha de contar ao menos com sólida ajuda parlamentar para se sair bem. Mas não. Temos mais monstros babando ignorância e leniência que políticos de verdade circulando, estufados, nas duas casas. Esses seres estão e estarão por lá durante muitos anos ainda, porque os brasileiros mesmo elegeram seu fim. Então, antes de culpar Lula por tudo, pensemos bem sobre cada responsabilidade nos rumos do país, a quem de fato pertence.

Em São Paulo, são dois monstros de alto nível aboletados na prefeitura e no estado. Vocês que não são daqui nem podem imaginar o estado de nossas ruas sem zeladoria. O número de gente solta sem esperança, falando só, enrolada em cobertores puídos e fedidos, descalças todo o dia, a esmolar pão, e a gente sem poder atender todo mundo a cruzar nosso caminho… O nível de indigência para com os seres humanos, famílias inteiras sob o Minhocão, crianças sem escola, trabalhando pra vender bobagem no frio!

Foi só Tarcisio entrar em São Paulo para tudo isto se multiplicar na velocidade de um raio em tempestade. Quando saio de manhã para a ginástica, estão os sem-teto esparramados na rua, com a saúde física e mental comprometidas. E a gente corre o risco de confundi-los com lixo, porque tantas vezes se enrolam em saco preto nas vias já sujas.

É horror o que esses mandantes querem, é horror o que o paulista pediu e agora recebe nas calçadas imundas, esburacadas. Não há nada que o prefeito queira fazer por nós. E o governador claramente está contra nós, contra a vida humana, a celebrar seu fim.

Lula não é o problema, é a única garantia que temos.

Entendam isto, por favor.

Uma doce fortaleza

O escritor baiano
Itamar Vieira Júnior
no Museu das Favelas,

em São Paulo, a nos olhar
a partir de cima:
“A USP, coitada, não me
fez mal nenhum”


Novo escritor brasileiro com maior número de leitores, o baiano Itamar Vieira Júnior fala aqui, com suavidade, sobre a porção recusada do Brasil que descortina em seus best sellers premiados. Com suavidade, baianidade, igualmente com certeza, a nossa foi uma entrevista muito batalhada. Eu a havia sugerido à editora-chefe da revista Robb Report, a incansável amiga Gisele Vitória, e ela topou. Mas não consegui que ele me atendesse. A Todavia, casa publicadora de seus livros no Brasil, descartou-me essa possibilidade de cara, alegando que o autor estaria inteiramente ocupado com outras coisas (mais importantes, eu sei) no período. Mas Gisele não é jornalista de aceitar um não desses. Soube de sua presença em São Paulo, para uma edição da Flipelô, a Feira Literária do Pelourinho, e acionou os promotores do evento. No dia 14 de julho de 2023, então, igualdade, fraternidade e liberdade à lembrança, que nos virássemos em meia hora para entrevistar o escritor, excetuados os minutos gastos nos trâmites de apresentação: a escolha difícil de uma sala do museu para conversar (“Vamos entrar no prédio, senão esse povo todo vai nos cercar”, aconselhou-nos ele no pátio de entrada) e a sessão das fotos de Marcelo Navarro para a revista, imagens que não coloco aqui porque fiz as minhas próprias pelo celular. No fim, com o açúcar da vontade derramado sobre o amargor das interferências, conseguimos uma boa conversa. Ele falou de algo que eu aguardava muito conhecer, a sua formação para alcançar a literatura. Me surpreendi em descobrir que este escritor ainda não sabe, de fato, se continuará sendo um… Itamar tem a compleição física forte e os pés no chão. Com eles, na adolescência, andou até a casa de Jorge Amado para receber seu autógrafo e acabou brindado com um conselho de Zélia Gattai. O menino não dispunha de livros em casa, mas tinha sede. E uma porção importante de sua musicalidade com as palavras veio das vozes do rádio, dos grandes compositores amados pelo pai. Viu muito seriado na tevê, o que faz sentido quando pensamos nos seus dois romances, espécies de roteiros indicativos de espaços, personagens, diálogos e ganchos para o próximo capítulo. Li “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” apenas para fazer esta entrevista. Posso afirmar que não entendo o autor como uma espécie de Paulo Coelho destes tempos, como se tem sugerido, visto que os assim ditos romances do mago brasileiro de letras são desprovidos da organização literária que Itamar tem de sobra. Como eu a vejo, a estrutura emotiva de seus livros evoca aquela da britânica J K Rowling: em sua saga baiana de formação, espécies negras de Harry Potters desfilam pela Hogwarts do Jarê para colocar à prova a intensa mentalidade infantil contra o mundo adulto ruim. De resto, adorei ter-lhe perguntado qual seu problema com a USP, uma vez que no passado se disse desinteressado da opinião da universidade paulista sobre o que escrevia, e ele ter respondido: “A USP, coitada, não me fez mal nenhum”. Este baiano nos olha de cima de um pedestal. E como é bom que um baiano nos olhe assim.


POR ROSANE PAVAM E GISELE VITÓRIA

(Fotos de Rosane Pavam)


Aos 44 anos, o baiano Itamar Vieira Júnior tem a consciência afiada feito a faca que sangra os destinos em “Torto Arado”, o primeiro romance de sua trilogia da terra. Com 700 mil leitores em todo o mundo (e a cada minuto que passa, desde a realização desta entrevista, em 14 julho último, quem sabe eles sejam bem mais), o livro traduzido para 23 línguas e protagonizado por uma família semi-escravizada, sem direitos sobre o chão em que trabalha, nasceu do contato do autor, geógrafo, com os quilombolas da Chapada Diamantina. Neste ano, a trilogia ganhou o segundo volume, “Salvar o fogo”, que se passa no Recôncavo Baiano, e logo o terceiro volume prosseguirá o mágico percurso do rio até a Bahia de Todos os Santos, segundo insinua o autor.


Suave para dizer as asperezas de um Brasil recusado, Itamar Vieira recebeu-nos em meio à edição paulistana da feira literária Flipelô, ocorrida em julho último no Museu das Favelas. Recordou com doce baianidade sua infância em batalha pelos livros, a poesia sorvida por meio da música popular e o encontro com o escritor Jorge Amado. Explicou por que considera realismo o que faz e garantiu, apesar de vencedor dos prêmios LeYa, Jabuti e Oceanos, não estar de todo certo sobre seu futuro como escritor. Antes de tudo um forte, ele tem uma certeza, contudo. O Brasil precisa abrir-se à sua cultura múltipla para ser o Brasil de todos.

Quando a literatura começou para você?


Aprendi a ler com 5 anos e meio em Salvador, onde nasci, e já nessa idade lia e escrevia, sem saber muito bem o que estava escrevendo. A literatura não era objeto de interesse na minha família. Venho de uma geração de trabalhadores da cidade, mas meu pai foi criado até os 15 anos na área rural, no Recôncavo Baiano, que fazia parte de suas memórias. E o lado materno estava na cidade havia muitas gerações. Minha família, creio, era igual a muitas outras que adoravam contar histórias. Cresci nesse ambiente de muita memória. Embora a família jamais houvesse cultivado o hábito da leitura, por não ter escolaridade suficiente ou porque sua vida exigisse atenção para coisas mais urgentes, tive contato com a arte desde sempre, principalmente com a música. Meu pai era um grande apreciador de música popular brasileira, e por meio dela tive o primeiro contato com a poesia, as palavras, a melodia, a harmonia, com as coisas que terminam por refletir naquilo que eu escrevo. Eu ouvia o cancioneiro popular brasileiro, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento. O rádio vivia ligado, principalmente de manhã.

“Eu não tinha livros em casa. Meu vizinho pegava da biblioteca escolar e me emprestava. O primeiro que li, de 7 para 8 anos, foi ‘O caso da borboleta Atíria’, fabuloso. Terminei a leitura e fui escrever uma história”


Se não havia livros em casa, onde você fazia suas leituras?


Minha escola não tinha biblioteca, mas meu vizinho Raimundo estudava em um lugar melhor, onde havia uma. Ele me emprestava os livros de lá. Eu pegava um volume e no outro dia já tinha de devolver. Lembro-me especialmente da Coleção Vagalume, uma série de literatura infanto-juvenil editada pela Ática. Um desses volumes, creio, foi o primeiro livro que li, ou o primeiro que me impactou, “O Caso da Borboleta Atíria”, uma história fabulosa da Lúcia Machado de Almeida. Os personagens eram os mesmos insetos que eu via à minha volta, nas brincadeiras de rua. Como podiam ter uma vida tão rica? Era só no que eu pensava depois de ler a história.

A literatura é essa varinha de condão que torna tudo mágico. Quando li esse livro eu disse: “Quero fazer a mesma coisa.” Eu deveria ter de 7 para 8 anos. E foi um encanto essa história em particular, porque enriqueceu o universo dos animais que eu conhecia pelas brincadeiras de rua, o besouro, a borboleta, as formigas. A Lúcia fez todos esses seres viverem uma história de mistério com tanta qualidade que fiquei impactado. Logo que terminei a leitura, comecei a escrever uma história, também com animais, com insetos. Eu me senti muito inspirado por ela.


Você guardava o que escrevia?


Eu escrevia e ia para o guarda-roupa, porque uma vez minha mãe, dona Teresa, achou meus papéis e se sentiu preocupada. Lembro de sua decepção ao descobrir que eu escrevia. Ela era dona de casa, achava isso uma bobagem. “Você deveria estar estudando, mas está escrevendo essas coisas!” E essas coisas não eram exatamente narrativas. Era tudo muito teatral, às vezes. Tinha muito diálogo, imagem, representação, talvez como influência dos seriados de televisão aos quais a gente assistia quando criança, como “O Sítio do Picapau Amarelo” e outros dos Estados Unidos, como “A Ilha da Fantasia” “MacGyver – Profissão Perigo”, “O Incrível Hulk”.


Você lia Monteiro Lobato?

Só tive contato com Monteiro Lobato mais tarde e não me capturou, talvez por eu já ter acompanhado a série de televisão.


Seus livros parecem ter sido feitos para a encenação. Sua narrativa é direta, ativa, dialogada. E os personagens têm universos incríveis para mostrar, como o do jarê em “Torto Arado”, que mistura ritos católicos e afroindígenas. Você experimentou essa religiosidade na infância?


Cresci em Salvador, onde a religião está impregnada em todos os cantos. O catolicismo, o neopentecostalismo e a maneira profunda do candomblé estão por lá. Se são 365 igrejas em Salvador, os terreiros existem em número três vezes maior. Morei 20 anos em uma casa no bairro de Mussurunga onde, nos fundos, havia um terreiro de candomblé, então eu escutava todas as cerimônias. Minha família é cristã, mas, claro, na Bahia a religiosidade nunca é absolutamente pura. Se as rezas e as ladainhas não dessem certo, todos iriam procurar outro tipo de ajuda. Meu contato com essa religiosidade veio do cotidiano, mas o jarê em particular eu conheci mesmo por conta do trabalho, viajando pelo campo, pela Chapada Diamantina, trabalhando com comunidades negras rurais.

Quando você começou a trabalhar no Incra?


Há 17 anos, no Maranhão, onde passei três anos. Voltei para trabalhar na Bahia e depois de um ano, mais ou menos, comecei a atuar em comunidades quilombolas. Passei um bom tempo na Chapada Diamantina, onde tive contato com o jarê, que só existe lá, típica prática religiosa sincrética na qual se encontram referências das regiões brasileiras, de práticas xamânicas de matriz africana, mas também do catolicismo rural.

“Na minha pós em estudos étnicos estudei Antropologia, que ensina a se colocar no lugar de escuta das pessoas, sem emitir julgamentos. Aprendemos a ver como as pessoas olham a vida a partir de suas cosmovisões. Isto me levou para mais perto da literatura, onde se faz o mesmo”


Ali você também começou a pensar em desenvolver sua literatura?


Eu não venho da literatura, sou geógrafo de formação. Fiz pós-graduação no programa de Estudos Étnicos da Universidade Federal da Bahia, quando comecei a estudar Antropologia, que ensina a se colocar no lugar de escuta das pessoas, sem emitir julgamentos sobre aquilo que a gente escuta. Aprendemos a ver como as pessoas olham a vida a partir de suas cosmovisões. Exercitei isso com o tempo, o que me levou para mais perto da literatura, onde se faz o mesmo. A gente se envolve, se apaixona pelos personagens, mas não emite julgamento sobre eles. Deixa que vivam livres para praticar o bem e o mal, vamos dizer assim.


Esse contato com a antropologia chegou à pele, tanto que às vezes as pessoas veem em “Torto Arado” referências ao realismo mágico praticado por escritores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Eu não gosto muito dessa ideia, porque no caso de minha literatura represento aquilo em que as pessoas de fato acreditam, sua maneira muito própria de ver o mundo. E quando a gente chama algo de “mágico” a gente fala a partir da nossa própria perspectiva, razão pela qual usa esse adjetivo.


A magia parece ser sentida, vivida por seus personagens. E talvez nem os realistas mágicos gostassem da expressão “realismo mágico”…


O García Márquez dizia: “Eu escrevo só realismo!” E embora ele não tenha me impulsionado a escrever de imediato, tornou-se uma grande referência. Creio que foi o García Márquez quem disse: “O Caribe começa na Bahia”.

Minha editora em Portugal recentemente mencionou a proximidade que sente entre minha literatura e a do Vargas Llosa. E aí eu digo que gosto da literatura dele – não dele em si, porque se tornou uma pessoa difícil politicamente para mim -, mas me sinto mais próximo do García Márquez, talvez por morar em um lugar onde essa experiência religiosa é vivida em profundidade.

Ler García Márquez a partir de “Cem Anos de Solidão”, por volta dos 19 anos, fez todo o sentido para mim. Suas possibilidades literárias não são exatamente aquelas racionais, eurocêntricas, ocidentais, que sacramentamos como verdadeiras. Ele pensa nas referências múltiplas de quem se viu afastado dos grandes centros e não foi escolarizado no tempo certo, mas que guarda essa experiência, essa profundidade de vida e sentidos. Depois, ao estudar também etnografias principalmente indígenas, deparei com sua cosmovisão, que guarda relação profunda com crenças populares tanto no interior do Brasil quanto em outras partes da América Latina. É impressionante. A gente nem se dá conta de haver relação entre uma coisa e outra, mas há sim, e profunda.

Seu contato com a obra de Jorge Amado veio depois?


Veio antes. E não por meio da escola. Eu morei um tempo em Pernambuco e lá, em uma biblioteca, encontrei uma não-ficção do Jorge intitulada “Bahia de Todos os Santos”. Levei para ler e fiquei pensando: “Nossa, é sobre Salvador, sobre a Bahia onde nasci, mas não conheço esse lugar em profundidade como ele está mostrando aqui, que coisa maravilhosa!” E aí comecei a ler a obra do Jorge Amado pelas bibliotecas.


Eu cheguei a encontrar o Jorge uns anos antes de ele morrer, em 1996. Adquiri uma edição popular de “Capitães da Areia” em uma banca de revistas, por cinco reais, e pensei: “Vou à casa do Jorge Amado pedir para ele autografar.” Mas eu tinha tanta vergonha! Queria que alguém pegasse o livro na porta da casa, desse para ele assinar e o devolvesse, porque eu não queria incomodar. E quando eu estive lá uma pessoa atendeu a porta: “Eu vou ver se ele pode assinar.” E um pouquinho depois: “Dona Zélia está lhe chamando.” Foi quando eu entrei e o conheci.

Ele já não enxergava direito, estava idoso. Mas quando lhe dei o livro para assinar ele viu que tinham grafado o título errado na capa, “Capitães de Areia” em lugar de “da Areia”. Ficou chateado, não comigo, com a editora, mas assinou o livro. Dona Zélia Gattai, sua esposa, foi quem conversou mais. Ela perguntou: “Você já leu algum livro meu?” E eu disse: “Não.” Então ela tirou da estante “Anarquistas, graças a Deus” e me deu. A gente começou a conversar: “Você gosta de ler?”, ela perguntou. E eu disse: “Gosto, e gosto de escrever também. Quero ser escritor!” Ao que ela retrucou: “Não tenha pressa, escreva no seu tempo, continue lendo bastante.” Estes foram seus conselhos.


Àquela época, o Jorge já estava um pouco deprimido, segundo me contou sua filha, a Paloma Amado. Ele mais escutou que conversou, acenando com a cabeça. Não existia celular, senão a gente tinha feito uma selfie. Não fiquei com nenhuma foto, porque nem sabia que iria à casa dele naquele dia. Eu brinco que foi meu batismo. Os dois me batizaram naquele momento. E depois desse dia fui ler tudo da Zélia também, porque ela tem uma obra memorialística muito importante sobre sua vida com Jorge, relata o exílio dele depois de seu mandato de deputado ter sido cassado, e suas viagens pelo mundo.

Você seguiu o conselho da Zélia? Esperou quanto tempo para começar a escrever?


Muito tempo. Eu nem sei se me considero pronto. A cada livro que escrevo vou aprendendo coisas novas, aprimorando. Mas eu demorei muito tempo para publicar. Primeiro eu fui estudar, trabalhar, cuidar das coisas urgentes da vida. Eu fiz uma publicação antes que nem considero, de próprio punho. Só publiquei de fato em 2012, o livro de contos “Dias”, que venceu o XI Prêmio Projeto de Arte e Cultura da Bahia. Cinco anos depois eu publiquei outro livro, “A oração do carrasco”, finalista do Prêmio Jabuti na categoria Conto, depois editado como “Doramar ou a Odisseia”. Em 2018 saiu “Torto Arado” em Portugal.


Por que Portugal?

Eu não tinha uma editora no Brasil. Havia publicado os dois primeiros trabalhos por editoras pequenas da Bahia, numa situação em que o livro não circulava, não chegava às livrarias. Quando terminei o romance, decidi: “Vou publicar”. Mas eu não mandei para nenhuma editora porque eu sabia que o livro iria parar na gaveta. Então resolvi mandar para um concurso literário. Procurei o prêmio Sesc, mas ele havia encerrado as inscrições um mês antes. Então descobri um edital do prêmio LeYa em Portugal destinado para literatura em língua portuguesa de qualquer parte do mundo. Seis meses depois soube que o livro tinha vencido o prêmio LeYa e o publiquei em Portugal.


Eu sou muito cético, tenho os pés no chão e fiz um envio protocolar, para tirar o manuscrito da minha gaveta. Mas depois pensei: “Será que Portugal vai ler?” Embora houvesse um brasileiro no júri, eu não tinha muita esperança que lesse. Mas quando o livro venceu, comecei a ser convidado para eventos, veio a publicação no Brasil e outros prêmios importantes chegaram. Isto foi me tornando um autor profissional nesse sentido de ser convidado para o espaço de eventos. Neste ano já me licenciei do serviço público e tenho vivido de literatura. Em verdade, tenho experimentado para ver se me agrada mesmo viver disso.


“Torto Arado” já nasceu como o primeiro volume de uma trilogia?


Antes de começar, não, mas durante a escrita me veio a certeza de haver mais a ser escrito. É um tema tão vital. Durante muitos anos eu percorri lugares e encontrei pessoas ameaçadas de perder aquilo que talvez seja a coisa mais elementar, depois do nosso corpo, que é o primeiro território para a gente existir, um chão para pisar, trabalhar. E isto não vale só para as pessoas do campo, vale para nós da cidade também. A gente tem a nossa casa, o chão que a gente pisa, a rua em que a gente trafega. E essas pessoas estavam ameaçadas, muitas ainda estão, em diversas partes do mundo, de perder isso. Este foi o ponto de partida de “Torto Arado”. Achei que ia me resolver com aquela história, mas no meio da escrita do livro eu já sabia que ela se prolongaria. E foi assim que eu cheguei ao segundo volume, é assim que eu tenho trabalhado para o próximo também, com o qual espero fechar, pelo menos em um primeiro momento, este ciclo.


Em “Torto arado” e “Salvar o fogo”, as figuras femininas são as protagonistas. Por quê?


Eu cresci em um ambiente em que as mulheres eram essas personagens fortes. Sempre digo que os homens, perto delas, eram figuras pálidas mesmo, não tinham metade da força delas. Eu fui criado em um ambiente machista. Os homens trabalhavam e as mulheres cuidavam da casa e da educação dos filhos. Eram mulheres atravessadas pela violência de gênero, em todas as suas forças, e acho que isso criou uma atenção para mim do que ocorria nesse lugar de vulnerabilidade. Elas não aceitavam isso, reagiam da maneira que podiam, mas sempre reagiam. E acho que isso criou em mim uma capacidade de observar, de compreender esse universo que depois reverberou no campo.


Ao trabalhar no campo, eu encontrei mulheres muito parecidas com elas, que enfrentavam as mesmas coisas e tinham de reagir. Testemunhei muitas mulheres em posição de liderança, dirigindo sindicatos, movimentos sociais, presidindo a associação de agricultores, o que é algo paradoxal. Se a gente pensar, no Brasil, seja nos tribunais superiores, seja no Congresso Nacional, a participação das mulheres ainda está aquém do que deveria ser. Mas, no meio do povo, isso mudou faz tempo. Nas periferias urbanas e no campo as mulheres conduzem muitas políticas. Então, essa compreensão me fez entender que era preciso contar essa história a partir de um outro olhar que não o meu, mas um olhar literário, vindo dessas personagens historicamente subalternizadas. É a mulher negra, a mulher indígena, a mulher mestiça, nesses lugares de profunda violência, mas é também onde a vida tem a capacidade de recomeçar sempre.


“É comum que o arcabouço teórico e metodológico do crítico seja eurocêntrico, venha de lugares historicamente de dominação. Mas há outras ontologias legítimas que merecem ser lidas atentamente. O que se dizia da literatura da Carolina Maria de Jesus? Que nem era literatura. E aí no ano passado Annie Ernaux ganha o Nobel de Literatura fazendo a mesma coisa, alta ficção sobre si. Mas ela é uma mulher francesa, e uma francesa pode…”


Quando “Torto Arado” chegou, em fevereiro de 2019, o Brasil temia a violência contra esses grupos. E, para além das qualidades literárias do romance, sua história encantou quem se preocupava com os rumos do país. Você se tornou popular, mas a crítica literária brasileira nem sempre pareceu aceitar isso, como aconteceu em relação a seu segundo romance. Você reagiu com força, por meio de sua coluna no jornal “Folha de S. Paulo”, à crítica que condenou “Salvar o fogo”. Por quê?


Parece que historicamente esta hierarquia sobre o que é arte se origina em espaços e lugares ainda empenhados nas estruturas coloniais. É muito comum que todo o arcabouço teórico e metodológico do crítico seja eurocêntrico, venha de lugares historicamente de dominação. E há outras ontologias legítimas que merecem ser lidas atentamente. O que se dizia da literatura da Carolina Maria de Jesus? Diziam que nem era literatura. E aí no ano passado a francesa Annie Ernaux ganhou o Nobel de Literatura fazendo exatamente a mesma coisa, alta ficção escrevendo sobre si. Mas ela é uma mulher francesa, e uma francesa pode…


O Brasil vive um momento muito interessante agora. Novas vozes têm chegado a esse lugar da alta literatura. Então é importante promover esse debate com a crítica, para mover as estruturas, para que não aconteça o que aconteceu com a Carolina e grandes escritores negros, como Lima Barreto e tantos outros que vieram e tiveram sua arte diminuída. Não é falar só por mim, é falar por todos os que estão fazendo isso nesse momento, como Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz, a indígena Julie Dorrico, o Ailton Krenak, que não é ficcionista mas tem escrito ensaios muito interessantes. Já passou da hora de o Brasil acolher sua sociedade, sua classe artística, a partir do parâmetro da multiplicidade. Somos muitos. E as universidades, espaços profundamente coloniais.


Você chegou a dizer que a opinião da Universidade de São Paulo não lhe interessava.


A USP, coitada, nunca me fez mal nenhum. Citei-a por ser um espaço simbólico do pensamento eurocêntrico colonial. Mas acho importante provocar o debate para que se possa desconstruir essa colonialidade muito presente.


Qual a seu ver é o ponto desse debate que precisa ser tocado com mais força?

Primeiro, reconhecer que a gente não rompeu com essas estruturas desde o passado. Este não é somente o caso do Brasil, estou pensando no continente americano, na África e na Ásia também. Criou-se uma forma predatória de habitar o mundo. A colonialidade foi a morte da autoridade, porque nesse momento as sociedades distintas desaprenderam a coexistir. O genocídio indígena foi matar quem era diferente. E a diáspora africana, subalternizar o diferente, desumanizá-lo. Criou-se um ranking de vida e valor que nunca foi desconstruído. Basta observar o mundo à nossa volta para saber quem ocupa os espaços de subalternidade, quem está vulnerável, quem sofre com preconceitos e de que maneira.


Ao compreender a história a gente vai entender o que acontece e projetar um futuro diferente. É preciso agir no presente para não reproduzir essas estruturas de nenhuma forma no futuro. Trata-se de um projeto de longo prazo que vai exigir muito investimento em educação, em cultura. E quando eu falo em cultura me refiro à extensão do projeto educacional. Não há educação desprovida de cultura, do conhecimento de nossas expressões intelectuais e artísticas. É urgente falar sobre isso para desconstruir esse estado de coisas. O Brasil só vai ser democrático se for para todos, não apenas para alguns.

Ao mesmo tempo, no Brasil, a elite não lê.

No Congresso Nacional, quantas pessoas serão leitoras? Acho que às vezes não sabem nem o que votam, a depender do assunto. Ninguém lê as matérias pautadas. Como alguém me disse nestes dias, não dá para esperar que a elite brasileira se ponha a ler.


“No Congresso Nacional, quantas pessoas serão leitoras? Acho que às vezes não sabem nem o que votam, a depender do assunto. Ninguém lê as matérias pautadas. Como alguém me disse nestes dias, não dá para esperar que a elite brasileira se ponha a ler”


Pensando em como você foi tocado por aquele livro aos 8 anos, como acha ser possível proporcionar o mesmo para uma escala maior de pessoas?


O Brasil ainda é profundamente desigual. Poucas pessoas têm acesso a livros, a bibliotecas. Então é necessário investimento, uma política pública muito abrangente que envolva as escolas, a aquisição de livros, a mediação de leitura para fortalecer as bibliotecas comunitárias, a promoção de atividades culturais. Nenhum ser humano pode prescindir da literatura, um direito, segundo escreveu o crítico Antonio Candido. Para ele, o conceito de literatura abre-se às lendas indígenas, às histórias familiares transmitidas de geração a geração. Essa dimensão subjetiva da vida existe em qualquer cultura, em qualquer meio, e a gente não pode sabotá-la. A gente precisa estimular para que elas floresçam e nos apontem para um novo caminho, um novo lugar.

Viver é ver

A exposição da obra de Antonio Obá, a primeira de um artista brasileiro na Pina Contemporânea, até 18 de fevereiro de 2024, ensina a acreditar na visão dos subjugados

Antonio Obá, o artista da Ceilândia que restabelece a narrativa dos oprimidos ao fortalecer seu poder de criar e transformar-se
Foto: Diego Bresani

Ele não se considera pintor, embora pinte como os melhores. Quer restabelecer os fatos da história, embora jamais tenha argumentado em livros uma tese sobre o assunto. Talvez por não se sentir encaixado em uma única definição, tenha se tornado duas coisas a um só tempo. Um historiador, porque concede protagonismo aos personagens de merecimento de nossa trajetória. E um pintor, ao construir para esses grandes personagens esquecidos uma atmosfera de liberdade que o transcorrer da vida, por si, não lhes deu.

“Tocaia”, a rasteira: a criança que se fere caça o pombo pela ferida

Aos 40 anos, Antonio Obá é o primeiro artista brasileiro a receber uma mostra retrospectiva, de cerca de 20 obras, na Galeria Praça da Pinacoteca Contemporânea, o que não se trata de coisa pouca. O curador de sua exposição “Revoada”, Yuri Quevedo, também responsável pelo acervo contemporâneo da instituição, não duvida de toda essa importância. “Lá atrás, quando pensamos na monta- gem do acervo, já sabíamos que precisaríamos adquirir uma coleção de sua obra. O acervo tem de andar para receber Antonio Obá.”

As razões são nítidas. “O artista leva a figuração, tão presente na obra dos pintores negros desde os anos 1990, para um ponto além”. Em suas telas expostas, desenhos pintados sobre pano e esculturas em resina das mãos de crianças em experiências monitoradas pelo artista na Escola Vera Cruz e na Ocupação Nove de Julho, Obá olha reflexivamente para os anos passados, para sua própria infância negra, em que presenciava os tios tomarem ovo cru para melhorar a voz, como na tela “Alvorada – música incidental Black Bird” (2020), de modo a recriar uma experiência de “revoada”, ou liberdade.

Em “Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos” (2021), o rompimento de laços rumo a abraçar o futuro

Preto, vindo da Ceilândia, a região administrativa de maior população urbana do Distrito Federal, Obá nasceu de mãe cozinheira e pai trabalhador, tendo se tornado um professor de artes plásticas por conta de seu talento precoce. A qualidade de seu desenho resultou numa possibilidade a mais de estudo no Ensino Médio público. Por meio de um programa educativo conhecido por Sala de Recursos, ele foi monitorado para compreender seu lugar na arte, conforme escreve Cinara Barbosa no catálogo da exposição:

“A partir da Sala de Recursos, Antonio Obá compreendeu princípios de pesquisa potencializados pelo fazer artístico. Importava mais a investigação em si do que se tornar artista.” Eis então por que este grande pintor não se vê como tal. O principal na sua vida é pesquisar. Sua leitura reinterpreta os fatos de modo a restabelecê-los em sua integridade, não como uma reprodução de surrados pontos de vista narrados nos livros de história. Uma antiga fotografia, em que um dono de hotel nos Estados Unidos joga ácido na piscina para que os negros dali sejam expulsos, se transforma na tela “Banhistas n. 3 – Espreita”, ambientada no Cerrado, na qual crianças negras olham o observador com a mesma expressão de espreita de um jacaré da Flórida.

Em suas telas a óleo, os homens e mulheres pretos são potentes, e um Cristo na cruz vira um menino sobre duas pernas de pau, seguradas por crianças arteiras, os ibejis. Sobre a sua cabeça, em lugar da coroa de espinhos, há um arranjo de flores. Toda a obra de Obá evoca sua formação familiar católica, numa perspectiva que lembra a arte medieval do Ocidente, na qual o artista se especializou. A mãe segura o filho deposto da cruz em “Angelus” (2020), enquanto anjos negros sobem aos céus, assim como os pássaros, cuja tridimensionalidade se dá pelas sombras pintadas em cor-de-rosa. E talvez na mais potente pintura da mostra, “Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos” (2021), a partir de uma fotografia histórica brasileira, uma menina negra está de costas para o espectador depois de romper os laços que a prendiam, disposta a abraçar o futuro que se anuncia adiante em um portal. Viver, Obá parece nos dizer, é acreditar no futuro. Viver é ver.

Em “Banhistas n. 3 – Espreita”, o horror do racismo é transformado

Um programa luminoso

Vale não estar familiarizado com música contemporânea para assistir a “Ligeti, Jocy e Varèse” no Theatro Municipal de São Paulo. A paixão vem, mesmo sem esperarmos por ela.

William Eddins,
o maestro deslumbrante

O programa perfeito para este sábado está no Theatro Municipal de São Paulo, onde tem lugar “Ligeti, Jocy e Varèse” às 17h.

Razões. É a Orquestra Sinfônica Municipal com seu corpo sonoro impressionante. É a ação do maestro estadunidense William Eddins, sua competência, o sorriso, o humor e a entrega contínua de um grande talento. É a presença desta cantora extraordinária do repertório contemporâneo, Gabriela Geluda. É a obra da paranaense Jocy de Oliveira, 87 anos, pioneira da música contemporânea que o mundo aplaude e nós deveríamos conhecer melhor. E é também a obra de outros três grandes, Ligeti, Varèse e o Tchaikovsky valseador da Quinta Sinfonia, tudo numa programação só.

A cantora Gabriela Geluda,
um talento excepcional para as assimetrias contemporâneas

Saí da noite de estreia como quem ouve de novo, vê de novo, envolve-se na música pela primeira vez. Grande Geluda para interpretar essa peça extraordinária de Jocy de Oliveira, “Who cares if she cries?”, de 2003! Um sentimento profundo, uma arte milimétrica, o corpo todo presente na voz. Há 28 anos ela trabalha com Jocy como soprano solo de suas óperas. Apresentou obras da compositora no Brasil, na Alemanha, na Argentina e na França. Protagonizou o filme “Liquid Voices”, premiado em festivais de cinema de Israel, da Polônia, do Chile, da Inglaterra, da Espanha, da França e dos Estados Unidos. Participou da remontagem da ópera “Einstein on the Beach”, de Philip Glass e Bob Wilson, no Baryshnikov Arts Center de Nova York, sob orientação do próprio Bob Wilson. Com bacharelado em canto lírico pela Unirio e mestrado em música antiga pela Guildhall School of Music and Drama (Londres), Gabriela também é qualificada como professora da técnica de Alexander pelo Alexander Technique Studio (Londres). Essa formação é a base do trabalho de integração corpo/voz que desenvolve e aplica em suas práticas artísticas e didáticas há mais de 20 anos. Paralelamente, produz e realiza projetos de música de hoje.

A compositora Jocy de Oliveira explica “Who cares if she cries”, conforme está no programa: “O título desta peça é retirado da letra de uma melodia anônima, elisabetana, do século XVI, que se refere à Ofélia de Shakespeare. A parte vocal é construída por pequenos eventos, citações de textos operísticos e interferências musicais ao discurso instrumental elaborado pelas cordas. De maneira a proporcionar melhor ressonância do instrumento, quatro violoncelos têm uma diferente afinação, mais grave, incluindo quarto de tom. Sem uma métrica restritiva que se estende a uma dimensão mais ampla da noção de tempo, a parte orquestral explora dimensões e técnicas estendidas dos instrumentos através de ‘drones’, que se intercalam por rápidos ornamentos enunciando melodias que nunca chegam a ser reveladas”.

A brasileira Jocy de Oliveira,
leitura contemporânea para uma inspiração elisabetana

Situada na primeira fila, ouvi e vi a interpretação fabulosa de Geluda como se meu corpo sentisse as dores dessa intensa personagem de Jocy, seu choro perplexo, desacreditado de ajuda. A compositora, presente no teatro na sexta 4, foi bastante aplaudida.

Integrante vitalícia da Academia Brasileira de Música, detentora do título de doutor honoris causa, Jocy de Oliveira é pioneira no trabalho multimídia no Brasil envolvendo música, teatro, instalações, texto e vídeo, sendo a primeira entre os compositores nacionais a compor e dirigir suas nove óperas. Como compositora e pianista, gravou 25 discos no Brasil, no México, nos Estados Unidos e na Europa. É autora de cinco livros (“Diálogo com Cartas” recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura). Como pianista, foi solista sob a regência de Stravinsky e apresentou diversas primeiras audições de compositores que a ela dedicaram obras, como Iánnis Xenákis, Luciano Berio, Claudio Santoro e John Cage. Foi solista sob a regência de maestros como Eleazar de Carvalho, Lukas Foss, Sixten Ehrling e Robert Craft, à frente de orquestras como Boston Symphony, Orchestre Philharmonique de Radio France, Oslo Philharmonic e Orquestra Municipal de São Paulo.

Que ocasião para Gabriela Geluda interpretar György Ligeti (1923-2006), um dos mais importantes compositores de vanguarda da segunda metade do século XX! Uma peça às vezes onomatopaica, com a marca persecutória de quem mergulha em uma sociedade do caos. Para interpretar, Geluda apresenta-se vestida como uma espécie de Barbie…

Ligeti partiu da influência de Béla Bartók e Zoltán Kodály para desenvolver um novo estilo, caracterizado por uma densa polifonia que se tornou mais melódica nas obras dos anos 1970 e, a partir da década de 1980, desenvolveu uma técnica polirrítmica complexa. A sua fama foi intensificada pela utilização de suas composições nos filmes de Stanley Kubrick “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “O Iluminado” e “De Olhos Bem Fechados”.

Sobre Edgard Varèse (1883-1965): compositor estadunidense de origem francesa, utilizou meios eletrônicos na produção sonora. Buscou novas fontes de sons, trabalhou com engenheiros e cientistas. Seu conceito
de “som organizado” influenciou muitos experimentos em forma e textura. Passou parte de sua vida em Paris, Borgonha e Berlim, emigrando para os Estados Unidos em 1915. Fundou a New Symphony Orchestra, a Associação Internacional de Compositores e a Associação Pan- Americana de Compositores.

E William Eddins? Muito talento. Carisma para dar e vender. Ele faz os instrumentistas da Orquestra Sinfônica Municipal se abrirem em empolgação e sorrisos.

Eddins é o diretor musical emérito da Orquestra Sinfônica de Edmonton e um maestro frequentemente convidado de grandes orquestras em todo o mundo. Compromissos recentes incluem a regência da Philadelphia Orchestra com Yo-Yo Ma e apresentações com a Detroit Symphony e a Minnesota Orchestra em parceria com Wynton Marsalis da Jazz at Lincoln Center Orchestra. Eddins regeu a Filarmônica de Nova York, a Filarmônica de Los Angeles, as sinfônicas de St. Louis, Boston, Cincinnati, Atlanta, Detroit, Dallas, Baltimore, Indianapolis, Milwaukee e Houston. Internacionalmente, Eddins foi o principal maestro convidado da RTÉ National Symphony Orchestra (Irlanda). Também regeu a Staatskapelle Berlin, a Berlin Radio Symphony Orchestra, a Welsh National Opera e a Royal Scottish National Orchestra. Os destaques da carreira incluem levar a Orquestra Sinfônica de Edmonton ao Carnegie Hall em maio de 2012 e liderar a Filarmônica de Natal em turnê na África do Sul com a soprano Renée Fleming. Pianista talentoso e músico de câmara, rege regularmente ao piano obras de Mozart, Beethoven, Gershwin e Ravel. Eddins já se apresentou no Ravinia Festival, no Aspen Music Festival, no Hollywood Bowl, no Chautauqua Festival, no Boston University Tanglewood Institute e na Civic Orchestra of Chicago.

A melhor do mundo

Para mim era minha boneca Lindinha, mas segundo o criador artesanal que um dia entrevistei, a Barbie seria o brinquedo mais pedagógico que já se fez

Lindinha e eu, filha e mãe

Há muitos anos fiz uma entrevista com um criador de brinquedos artesanal e ele me disse algo surpreendente que não esqueci, eu com minha alma rebelde & hippie: o melhor brinquedo que se compra em loja comercial no mundo é a Barbie.

Por quê? Porque ela propicia a imaginação. Porque vc pode vesti-la como bem imaginar e colocá-la no cenário que achar melhor, criando sua própria personagem. A sua Barbie é sempre sua, não uma figura imposta, com choro ou fala predeterminados.

Passei a olhá-la de um modo diferente desde aqueles anos 1990, quando a reportagem se deu. Mas nunca comprei uma pra mim. Nem para meus filhos. Em lugar disso, enchi-os de bonecos de pano que ocuparam suas infâncias molequeiras.

Eu fazia teatro vivo com eles. Encarnava uma boneca que apelidei Duda Biluca, uma louca completa, transgressora insolente, para que eles morressem de rir e entendessem que a transgressão é uma espécie de loucura sã. Seus bonecos tinham os nomes que eles mesmos escolheram dar: Duda Sapeca Meleca era o magrela, do Dan, e Jack da Massa, o gordinho, do Bê. Tive de costurar inúmeras vezes o Jack, botando-lhe enchimentos, ou o Bê sofreria demais com essa morte infantil. Quando voltava da escola, os olhos brilhavam de saber que Jack estava de volta da cirurgia e passava bem.

Adoro bonecos e gostaria de ter comprado para eles aquelas cozinhas de madeira e uma despensa com mini Maizenas e mini Leites Ninho, que na minha infância de menina eu nunca tive, pelas razões financeiras de sempre. Mas não sei por que não fui atrás disso. Acho que porque eles já tinham dessas coisas no Jardim de Infância e em casa pareciam preferir jogar bola e fazer com que seus bonecos jogassem também (enquanto eu era a massagista na beira do campo).

Na minha infância, quando pedi de Natal uma Susi, cara demais para os meus pais comprarem, eles a substituíram por um mini globo terrestre, que meu pai tentou tornar muito interessante como presente. Gostei dele também, mas a ferida de não ter uma Susi demorou a cicatrizar.

Ainda bebê, como nesta foto, eu ganhei a Lindinha, nascida de uma vaquinha familiar entre minha madrinha e meus pais. Ela era preciosa porque não só de plástico, como as outras que tive: vinha com cabelinho ruivo preso num laço, tinha roupa e sapatinhos, olhos grandes de cinema mudo e o beicinho expressivo, um tanto triste. Eu mesma a batizei e a perdi na praça 14 Bis, aonde meu pai me levava pra correr e fazer molecagens. Ele não se lembrou de pegá-la de volta do banquinho, nem eu.

Levei outra vida pra esquecer de Lindinha, e durante um longo período isso contou como se eu tivesse abandonado uma filha. Até pouco tempo atrás, sonhava que havia esquecido de fato minha bebê com alguém no passado e ela voltava, já moça, para me tratar com indiferença.

Que coisas maravilhosas e às vezes terríveis são nossos brinquedos. Extensões complicadas de nossas existências. Nós mesmos.

Duda Biluca, uma transgressora
para meus nenês

Língua mátria

A moçambicana Paulina Chiziane, primeira mulher africana a receber o Prêmio Camões 

Paulina Chiziane em foto de Renato Parada: seus livros são meditações sobre a terra, esse misterioso lugar onde se realizam os sentidos da mulher

Aos 68 anos de idade, a escritora moçambicana Paulina Chiziane tornou-se no dia 5 de maio a primeira mulher africana a receber o Prêmio Camões. A honraria literária, instituída pelos governos de Portugal e do Brasil em 1988, com o objetivo de estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos e enriquecer o patrimônio literário e cultural da Língua Portuguesa, havia sido concedida à escritora moçambicana em 2021. Na ocasião, o júri destacara a vasta produção e a boa recepção crítica da obra desta autora, uma das vozes da ficção africana mais conhecida internacionalmente.

Ao receber seu prêmio em Lisboa, Chiziane lembrou que, vinda “de lugar nenhum”, onde “aprendeu a escrever na areia do chão” e usou “o primeiro par de sapatos com 10 anos”, só poderia se sentir “muito feliz” por ter sido agraciada. “Para quem vem do chão, estar aqui diante do governo português, do governo brasileiro, do corpo diplomático e de várias personalidades é algo que comove profundamente. Caminhei sem saber para onde ia, mas cheguei a algum lugar, que é este prêmio”, disse, antes de agradecer aos seus leitores, “em Moçambique e em todos os países que falam português”.

Em outro trecho, Chiziane discursou pela “descolonização da língua portuguesa”. Após citar alguns exemplos de palavras definidas no dicionário de forma diversa dos seus usos correntes – como “matriarcado”, que aparece como “costume tribal africano” –, ela disse: “A língua portuguesa para ser nossa precisa de um tratamento, de uma limpeza, de uma descolonização.”

Quem ainda não viajou por seus mundos literários, que vá sem hesitar. Seus livros são meditações sobre a terra, esse misterioso lugar onde se realizam os sentidos da mulher, conforme ela os vê. Por conta da grande distância que persiste em nos separar das literaturas africanas de língua portuguesa, mal a conhecemos no Brasil, embora a Companhia das Letras tenha editado aqui três de seus romances, “Niketche: Uma história de poligamia”, “Ventos do Apocalipse” e “Balada de Amor ao Vento”.

Desabo, desabafo

Semana intensa que desaba em tontura na manhã de sábado, quando nada é urgente e se espera descansar.

Temos.

Mas temos também:

  1. Crianças vendendo bala pelos bares do centro, cobertas de moletons finos, na noite gelada de sexta.
  2. Três enormes peruas brancas de “apoio à remoção” da guarda civil militar paradas na praça Dom José Gaspar findo o dia, o que significa que quem dorme na rua não vai ter onde dormir.

Apoio à inclusão? Acolhimento aos miseráveis deitados de cara pros Oxxos?

Não temos.

Eu acho que às vezes simplesmente acordo em vertigem por não ter colocado um colchão para essas crianças em sacrifício dormirem aquecidas na minha casa.

E às vezes acho que quem precisa de remoção imediata desse mundo ruim sou eu, que jamais serei Zilda Arns nenhuma, padre Júlio nenhum.

Mas passa.

Passa sempre.

Dou barras de cereais ou pão ou o que seja para os meninos que me abordam pra vender. Converso com eles, se me deixam.

Até cantar eu sei.

A redenção humana segundo Kurosawa

Os atores japoneses Toshiro Mifune, Takashi Shimura e Bokuzen Hidari encontram-se aqui em uma sequência de “Escândalo”, filme dirigido por Akira Kurosawa em 1950, mesmo ano em que realizou “Rashomon”.

“Escândalo” é um deslumbre, especialmente pela atuação de Shimura como um advogado corrompido cuja filha, à morte,
representa a porção angelical de um universo em declínio. É o pintor Mifune quem acredita nesse advogado e quem, contra todas as expectativas, vê nele o homem bom para representá-lo no processo contra um periódico que mentira sobre seu suposto romance com uma cantora.

O quarto poder, enlameado, contra a criatura comum! Como é bonita, nesse período, a discussão em torno da ética jornalista… Mas aqui Kurosawa faz mais do que analisar o exercício moralmente indefensável do jornalismo (aparentemente, o próprio diretor tivera a honra atacada por um mau veículo). Ele não constrói apenas um drama moralista, mas existencial, a pontuar a crença numa porção rara e boa da humanidade, mesmo depois de uma guerra que tudo fizera para desacreditá-la.

O drama é urbano e contemporâneo, contra a novelização das vidas sob a imprensa. Para promover essa crítica, ele se serve da base hollywoodiana de representação, plena de closes de estúdio. Deseja criticar o sistema servindo-se de sua própria linguagem, mas não só… Além de megulhar o drama existencial numa ambientação cômico-dramática, na linha do cinema de Frank Capra, Kurosawa nos surpreende com simulacros expressionistas extraídos de cenários fabricados e sombrios.

Um show cinematográfico no qual o diretor japonês exerce a velha-nova procura pela redenção das vidas humanas, ele que parece tê-las investigado em todos os seus rumos.

Poltergeist de Elis

Nos tempos em que eu fazia jornalismo cultural diário ou semanal, tinha de brigar com a opinião do povo sobre tudo, porque cultura é como time, todo mundo torce pra um lado e todo mundo entende de futebol.

Por exemplo, eu gostava de We are the world, mas na redação da Folha não podia dizer isso. Achava um porre Aquarius, mas na revista de Senhor Democracia, um proselitista que detestava qualquer arte brasileira, nem poderia ousar. Um dia escrevi que Chico era muito melhor compositor que escritor, e alguém que amo me perguntou: “Por que vc faz isso consigo mesma?”

Até que chegou um ponto em que eu não dizia mais o que pensava. Só procurava descrever alguns momentos importantes dos livros, discos, filmes, mergulhando minha opinião na ambiguidade (ou ironia, mas prefiro ser ambígua, é tão bom e difícil).

Ainda bem que não preciso mais escrever minha opinião ao grande público, porque o que seria de mim diante desse comercial com a Elis revivida pela inteligência artificial? Setenta anos da Volkswagen do Führer! Que coisa tétrica, que medo daquele sorriso em movimento prestes a saltar da boca, gente.

Como é bom a gente dizer o que pensa nas redes sociais.

Ops.

🫢

Luz ancestral

“Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre os caminhos”, óleo sobre tela de Antonio Obá, 2021

“Revoada” é uma das mais belas exposições que vi neste ano. Vou escrever sobre ela brevemente, e enquanto isso espero que vocês a incluam em suas possibilidades. Aos sábados, gratuitamente, pode-se visitá-la depois de adentrar o lado esquerdo da Pinacoteca, voltear o fundo do café e experimentar o maravilhoso passeio pelo parque da Luz até chegar ao prédio da Pina Contemporânea.

Obá tem uma luz! Ele flutua para nos trazer um novo entendimento da beleza ancestral.

Perca não.