sempre o jornalismo

se eu sou a repórter, pergunto a que merda de música brasileira o Milton se refere.

e certamente tenho uma resposta melhor, menos sensacionalista, à pergunta feita.

porque a música brasileira tem sido maravilhosa, não tem?

embora não, certamente, a maioria da música que é produto da indústria cultural.

(é merda ou não, em geral, aquela que a Globo veicula?)

e que música brasileira ouve o Milton?

nem sei se a turma da Mônica (Bergamo) tinha essa resposta e não a usou. mas se tinha e não a usou, ou se não fez a pergunta, precisa refletir sobre seu jeito de entrevistar e editar as declarações.

Tua vida não é minha

Quando Moser lançou sua biografia de Clarice Lispector, eu a li e não compreendi o relevo que dava a específicas interpretações crítico-filosóficas, estas que pareciam se sobrepor sem sentido à história de vida da escritora, já tão bem contada antes pela professora Nádia Battella Gotlib.

Pareceu-me que a vida de Clarice lhe fazia sugerir uma questão sobre o desenraizamento judaico, que muito antes já o preocupava pessoalmente, por conta de uma ascendência familiar. E que ele usava a oportunidade de uma biografia de Clarice pra veicular suas próprias ideias. Porque nada do que dizia no livro parecia encaixar-se no que Clarice foi.

Marquei uma entrevista com o autor na sede da editora do livro, a Cosacnaify. Então um jovem educado e gentil, Moser me recebeu muito bem. Mas, de novo, não me convenceu da tese do livro (se havia propriamente uma) com suas respostas a minhas perguntas. Eu fazia uma reportagem, não uma crítica, porque não sou especialista acadêmica em Clarice. Ainda assim, eu intuía uma roubada.

Pareceu-me então que, fascinado (não sem razão) pela escrita de Clarice, ele teve uma iluminação pra iniciar o trabalho, que incluía Spinoza, e dela não arredou pé no transcorrer da pesquisa, mesmo que os fatos andassem em outra direção. Ou talvez quisesse discorrer sobre Spinoza e usou Clarice para isso, sem devidamente pesquisar os fatos da vida da biografada que o contradissesse.

Por fim, e mais terrível, me parecia que ele tivesse um plano. Depois de sua biografia, as obras da escritora estourariam no mercado americano, e ele seria o responsável por tal fenômeno… Triste dizer, mas me senti assim: usada como brasileira. Mais um gringo esperto achava ser o primeiro a descobrir nossa riqueza “selvagem”, com o objetivo enviezado de crescer a partir dela.

Como sempre, nessas horas, minha avaliação é raramente compartilhada por nossa crítica local, que nem existe, a rigor. Indulgente, deslumbrada… Naquele caso, também orgulhosa da amizade com um estrangeiro de projeção…

E parece finalmente que agora Moser fez um caminho parecido em relação a Susan Sontag, pior ainda, de modo a incriminá-la por alguma coisa. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/10/cultura/1568114545_419957.html Não deve gostar da Sontag como talvez gostasse de Clarice… Ele culpa Susan, por exemplo, de trair a causa de sua homossexualidade… Mas ela era bissexual. Mas ela achava que discussão particular de gênero não definia sua escrita.

O interessante (e demolidor) é que agora Moser não fala para brasileiros passivos, antes para um público de intelectuais e jornalistas do mundo com voz alta para rebatê-lo.

Não tenho mesmo como saber se o crítico do El País, tradutor da obra de Sontag para o espanhol, está sendo justo com o biógrafo. Não lerei este texto de Moser, quase certamente. (Livros são caros e tenho tanto ainda, a vida que me resta, pra experimentar…) Mas, pelas razões que exponho aqui, acredito que o crítico infelizmente não esteja muito longe de ter analisado o trabalho com acerto.

A coach coachella

Desde que soube que Biroliro se casaria com uma psicóloga, comecei a imaginar o consultório dela. A decoração mesmo. Tons pastel, paredes brancas, um quadro com foto azul do Caribe, um busto de nossa senhora tingido no artesanato, próximo do janelão que dá pro Corcovado.

Imaginei também uma sala contígua onde a profissional daria palestras, com carteiras para anotações. E uma secretária-recepcionista negra de brincos argola e cabelo curto rente, ereta e afiada no excel, a receber os candidatos com futuro (grana).

Depois imaginei o público. Pacientes, quero dizer. Arrivistas. Juventude doirada dos trigais do Rio, homens feitos com os cabelos penteados molhados pra trás, camisa social por dentro da calça jeans slim. Mulheres com estampas Animale alouradas na progressiva, brincos pequeninos de zircônia, colares fininhos de ouro com pingentinhos de lua e tao.

As consultas seriam pura praticidade. Um rosário de incentivos, melhor seria dizer comandos: você pode, você deve, você merece. Você, você. Uma citação aqui e ali de comédias românticas. Lição de casa: ver Ryan Gosling na netflix.

Há muito tempo que certa “psicologia”, chamemos assim, foi tomada pela mentalidade coach. Se bem que no caso da esposa do Biro, está mais pra coachella. Uma coachella gospel. Mas, admitam, os coaches chegaram pra amarrar os descabidos. Ou é coach ou é química, você escolhe.

Não li a matéria que o grupo Globo publicou, e agora comicamente condena, sobre a alcova de escritório. E nem sei por que não li. Talvez porque tenha pensado: “Mas já sei como essa mulher é, já sei como decorou seu consultório”. E essas matérias, por nada terem de um Joel Silveira, nenhuma elucubração imaginativa de escritor, e por serem mais como listas de inventário, falam pra leitores que não eu.

Sei, contudo, da frase genial que marcou o texto pra história. Aquela em que Coachella diz ao repórter que Biro é seu “case de sucesso”. É de dar match, como disse a jornalista tinder no roda viva. Uma das frases do ano, se ainda fazem frases do ano nas retrospectivas.

Então por que condenar o repórter? Tenho pena porque primeiro ele foi incentivado e convencido a fazer, agora se viu escorraçado, se não ameaçado de morte, justamente por ter cumprido sua tarefa. Isto não se faz, Globo. Você não anulou o perfil do Astrólogo do balacobaco, também obtido sem consentimento. Tenha a decência.

Uma vez, nos meus vinte e tantos anos, quis saber como a TFP funcionava por dentro e bati numa porta deles, simplesmente pedindo pra entrar. E o cara: você é jornalista? Fiquei brava. Como me descobriu na lata? A TFP veta mulheres, e eu não queria acreditar.

(Uma curiosidade é que muitos figurões não dão entrevista pra mulher. Delfim Netto nunca quis me dar. Em sua biblioteca só entravam homens. Seria um texto sobre seus livros, a pedido de um dos ases da direita adocicada: Daniel Piza. Nem assim.)

Nunca fiz uma matéria nesses moldes incentivados pelo grupo Globo, mas se insistissem comigo, por meu emprego, talvez fizesse. E não fiz talvez porque tenham visto de cara que não sairia boa. Sou muito transparente, longe de uma expert em teatro ou fingimento pra improvisar um personagem e ser convincente dentro dele.

Ah, Rosane, mas como fica a moral? Não acho que questão moral impeça jornalistas. O jornalismo é moralmente injustificável. A frase é do Paulo Francis, das poucas que ele disse bem.

O berço da marginalidade é também o da inocência

Farley Granger e Cathy O’Donnell em “Amarga Esperança”, de 1948.

Que direção a de Nicholas Ray.

Um balé de luz.

Os gestos precisos de adeus.

Os olhares desses grandes atores que também nos veem.

O ritmo da narrativa, que aperta o coração.

O movimento incessante.

Do alto, em um helicóptero, a câmera acompanha os carros na estrada, sinalizando que os donos da história não são os que se atracam no chão…

Supomos a tragédia, mas não controlamos sua intensidade.

O berço da marginalidade é também o da inocência.

Não preciso de filmes que me encorajem.

Quero que o cinema me diga a verdade.

Robert Frank especular

Por ele mesmo.

O artista (1924-2019) que perdeu os dois filhos disse não suportar que o fizessem posar para fotos.

Contudo, de uma estranha maneira, esteve sempre lá, diante das lentes dos grandes.

E seus autorretratos não tiveram fim.

Viveu a contradição permanente, mandou os acomodados a passeio, exerceu a inteligência, o desafio era um motor.

E o humor sempre aquele, tão seu.

Por Walker Evans.

Por Louis Faurer, 1947.

Com Edward Steichen, 1952.

Por Jakob Tuggener.

Por ele mesmo.

Com Mary, 1950.

Por Louis Faurer.

Com Jack Kerouac.

Por Jack Cohen.

Por Wayne Miller

Por Thomas Hoepker.

Por Andre D. Wagner

Por Walker Evans, 1955.

Vida longa às palavras mudas

É estranho comemorar os 70 anos da edição um ensaio? Talvez neste caso não. Em 3 de setembro de 1949, a revista Life publicou “A grande era da comédia”, um texto de James Agee (acima) no qual o escritor dedicava estas palavras a Buster Keaton (no alto):

“O rosto de Keaton quase equivalia ao de Lincoln como o de um arquétipo americano. Ele era assustador, bonito, quase inacreditavelmente belo, ainda que engraçado de maneira irredutível. E tornava tudo melhor porque, ainda por cima, usava um chapéu horizontal, tão achatado e fino que lembrava um disco na vitrola.”

Meninos mimados não governam o Brasil!

Esta é Alessandra Leão durante o lindo show de lançamento do seu disco “Macumbas e Catimbós”, sábado, 24 de agosto, no Auditório Ibirapuera.

ATENÇÃO para o que ela diz, maravilhosamente:

https://www.facebook.com/rosane.pavam/videos/2439333719516979/

“Salve a força, a fé, e o vigor e a coragem!

E a resistência!

E a resistência do povo indígena nesse Brasil.

Salve a força da floresta que está há tanto tempo de pé, e que vai continuar de pé, se a gente assim deixar, se a gente assim brigar pra que ela continue de pé, e não queimando desse jeito.

Que cada árvore que caia doa em cada um de nós.

Que cada índio que morra doa em cada um de nós.

Que cada negro que morra doa em cada um de nós.

Que cada gay, cada lésbica, cada trans que morra doa em cada um de nós.

Que a gente tenha o direito de existir e ser o que deseja ser.

Ninguém está aqui para abaixar a cabeça, ninguém está aqui para dar o lombo pra apanhar mais.

E a gente vai ficar de pé.

Porque meninos mimados não governam a nação.

Meninos mimados não governam nada!

Viva o Brasil!

Viva esse Brasil aqui.

É esse!

Viva os índios, viva os negros, viva os gays, viva as lésbicas, viva as trans, os trans!

Viva o povo brasileiro, viva o respeito, viva o povo de santo, que a gente vai ficar de pé até o fim.

E a gente briga cantando, dançando.

O corpo espanta a miséria, meu povo, é festa!

É disso que eles têm medo, e que a gente faz.

A gente briga e a gente celebra.

A gente dança.

A gente canta.

A gente goza a vida.

E é isso que dói, a gente estar de pé.”

Memories can’t wait

Digressão.

Do caos às lembranças.

Memories can’t wait, cantavam os Talking Heads…

Pois bem.

Muito saudável, Barbara Eden faz 88 anos hoje.

A atriz protagonizou a série Jeannie é um Gênio, que eu amava absolutamente.

Era propaganda americana, mas também humor físico encenado por ótimos comediantes.

E tinha motivação sensual liberadora para uma menina católica sob o furacão ditatorial.

Parabéns, Barbara!

Eu nunca soube de uma Barbie inspirada no seu personagem.

E, se soubesse, meus pais jamais teriam tido dinheiro para comprar o brinquedo.

(Nem pra Susie tinham!)

Mas semanas atrás deparei com este exemplar no centro e me perguntei:

Se 500 reais me sobrassem, transformaria esta boneca no meu rosebud?

Me respondi que não, sem saber por quê.

ilusão vitoriana

o fenacistocópio (“espectador ilusório”, em grego) foi inventado em 1829 por joseph plateau de modo a confirmar sua teoria sobre a persistência na retina.

o dispositivo consistia em uma sequência de imagens com posições ligeiramente diferentes entre si (inicialmente 16 delas, número adotado depois, no início do cinema) sobre uma placa circular lisa.

quando a placa girava diante de um espelho, criava a ilusão da imagem em movimento.

tornou-se um brinquedo amado e disputado pelas crianças da era vitoriana.

variações para um sonho-máscara

as amigas me diziam reservadamente muito tempo atrás que chegando aos 50 eu iria entender a necessidade de me maquiar, eu que só usei batom, e às vezes, na vida.

os 50 chegaram e passaram e eu nada de nada de mover um pincel… não que jamais tenha sentido a necessidade, claro. necessidade senti. mas tenho mais o que fazer. ou não fazer!

agora, se o desenho for assim, quem sabe?

a maquiagem é inspirada nos bordados da elsa schiaparelli, uma rival da chanel a meu ver muito mais interessante que a chanel, louca-extravagante-decadentista-romântica-art-déco que fez o casaquinho nos anos 30 com a parceria de jean cocteau, o vestido-lagosta com salvador dalì e a máscara de seda furada no olho com van cleef & arpels, que confeccionou um broche imitando sobrancelha.

já que é pra pintar, né?

que seja bordar um sonho-máscara sobre a triste realidade!

(prontofalei)