Tudo pode dar certo: minha entrevista com Geraldine Chaplin

Em outubro de 2015, aproveitei a rara chance que a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo me dava e, tremendo nas pernas, entrevistei a atriz Geraldine Chaplin, hoje com 78 anos. Me avisaram de um dia para o outro que eu teria dez minutos apenas para conversar com ela no saguão do hotel Renaissance da alameda Santos, em São Paulo. Cheguei lá antes, fui a primeira e abusei da sorte – de dez passei para vinte minutos de conversa, e ela não reclamou. Pessoa rara, raríssima, não recusou responder qualquer questão, riu comigo e me deixou fotografá-la com o celular, imagem que posto aqui. Todos os grandes são simples! Alguns dias depois, tentei entrevistar o diretor Wolfgang Becker, de “Adeus, Lenin”, filme no qual ela atuava, e ele foi tão diferente, um porco comigo, com perdão aos porcos. Quis que eu pagasse a cerveja que tomava no Maksoud Plaza e reclamou de só haver Heineken no bar. Paguei foi nada! Mas o filme com Geraldine era razoável, até muito bom quando ela aparecia nele. Na entrevista a seguir, a atriz atribui sua carreira à sorte. Diz que seu pai jamais quis lhe ensinar atuação, embora ela muito solicitasse. Chaplin, ela conta, demonstrava muito menos bom humor que sua mãe, Oona. Ele não sabia quem era Ingmar Bergman e só se interessava pelos próprios filmes. Cinéfila, Geraldine amou ter conhecido “Limite” e toda a fatalidade a envolver Mário Peixoto, seu diretor.

Com a camiseta das
Tartarugas Ninja e o crachá
da Mostra, posando para
meu celular: os grandes
são simples

Um mar de tranquilidade cerca Geraldine Chaplin. Aos 71 anos, sem jamais impacientar-se, a atriz enfrenta o burburinho em direção à mesa do saguão do hotel paulistano onde conversará sobre sua vida e seus filmes. A presidente do júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tem os cabelos pintados de preto e sua franja se vê encimada por um par de óculos de sol de cor laranja, que ela usa como uma tiara. Veste calça, tênis e uma camiseta com a estampa do desenho animado Tartarugas Ninjas. Uma estrela em “Kaminsky e eu”, o primeiro filme dirigido por Wolfgang Becker depois de “Adeus, Lênin”, de 2003, ela sorri sempre e fala rápido. “Humor é a única maneira pela qual você pode lidar com a tragédia da vida”, acredita, disposta a enfrentar qualquer pergunta, mesmo as inevitáveis a envolver Charles Chaplin, seu pai.

A filha maior em
“Luzes da Ribalta”, dirigida
por seu pai

Diz-se que o diretor mal viu os filmes em que ela atuou, mas a atriz assegura o contrário. Por exemplo, Chaplin assistiu a “Doutor Jivago”, no qual ela interpreta Tonya, em 1965. Era sua segunda participação em um longa-metragem depois de ter sido escalada, no mesmo ano, para estrear ao lado de Jean-Paul Belmondo em “Par um beau matin d’été”, de Jacques Deray. Ela havia seguido a carreira de bailarina depois de uma breve aparição, aos 8 anos, em “Luzes da Ribalta”, dirigida por seu pai. Mas o balé, que exercera com brilho até mesmo no circo, não lhe dera compensação financeira. “Não podia voltar para casa assim sem nada, não teria como encarar meus pais. E então pensei: ‘Talvez possa me tornar uma atriz.’ Eu tinha um bom sobrenome, não é? Aquele que me abriria portas. E saí atrás de empresário, simples assim.”


Em “Doutor Jivago”, seu segundo

longa: o diretor David Lean
a escalou porque ela
se parecia com uma russa

“Doutor Jivago” surgiu de um acaso. “O diretor David Lean me viu na capa de alguma estúpida revista feminina e, ao saber que eu era uma Chaplin, disse a sua produtora: ‘Ela parece russa, vamos testá-la’.” O longa correu animado, como sua carreira em mais de uma centena de filmes. “Toda a minha vida foi sorte, sorte, sorte”, diz, sem ironia. “Mas o sobrenome Chaplin não tem a magia de antes. Minha filha Oona, uma atriz maravilhosa, bem o sabe.” O fato é que depois de não se entender estupenda em “Doutor Jivago” pediu ao pai as orientações que auxiliariam seus futuros desempenhos. “Oh, você é a melhor coisa do filme”, respondeu-lhe aquele cujo nome, à época, talvez estivesse próximo de significar todo o cinema. “Queria seus conselhos e ele não me dava. Nem ligava para o que eu fazia ou apenas agia como meu pai.” De todo modo, ela desejou ser atriz, apaixonar-se pela profissão. “Mas não é uma carreira fácil, sabe? O estudo dos seres humanos que fazemos. Os deserdados que representamos. Como chegar até eles?”

No filme “Peppermint Frappé”,
do então marido Carlos Saura:
Chaplin amou

Talvez tenha se sentido atriz pela primeira vez ao lado do diretor espanhol Carlos Saura, com quem esteve casada por doze anos, e para quem atuou em clássicos como “Cria Cuervos”, de 1976. Quando partiu para viver com ele sob a ditadura franquista, seu pai arregalou os olhos: “Você enlouqueceu?” E ela sentiu então de perto a diferença entre lutar contra o totalitarismo imersa no regime ou a milhas distante dele. “Todos na Espanha odiávamos o dramaturgo Fernando Arrabal, porque ele atacava a ditadura acomodado em Paris”, recorda-se. “Percebi, naqueles anos com Saura, que os filmes poderiam ser mais, quem sabe mudar o mundo. Hoje é preciso reconhecer que provavelmente os filmes não mudem o mundo. Se assim fosse, vários deles, como os de meu pai, talvez tivessem transformado alguma coisa.”


Chaplin, que esteve na Suécia para receber um prêmio,

viu um filme de Bergman, gostou,
mas não tinha ideia de
quem fosse o diretor

Ao contrário do que sugerem relatos de época que informam o apreço de muitos diretores, como Vittorio de Sica, às avaliações positivas do criador de Carlitos sobre suas obras, Chaplin não assistia a muitos filmes. “Só os via quando estava escrevendo os seus, porque tinha de escolher com quem trabalhar. Caso contrário, nada de filmes, exceto os que ele fazia.” Uma vez foi à Suécia receber algum prêmio e, quando voltou, perguntou à esposa: “Vimos esse filme, tão bonito, tão incrível, daquele, como é o nome mesmo?” E Geraldine: “Ingmar Bergman?” Para que Chaplin respondesse: “Acho que é esse mesmo”. Ele não tinha a mínima ideia de quem fosse quem no cinema. Seu marido, Saura, Chaplin conheceu por necessidade, e gostou muito de “Peppermint Frappé”, de 1967, em que ela atuou.

Como uma documentarista
em “Nashville”: a única
orientação do diretor
Robert Altman foi que
ela o seguisse e imitasse

Um pouco à moda do pai, Geraldine buscou a originalidade, e suas interpretações mesclaram graça, profundidade e estranheza. Muitas vezes, um papel inesquecível representado por ela nasceu de uma orientação inesperada. Em “Nashville”, por exemplo, ela surpreendeu ao interpretar uma documentarista que sai atrás dos nomes da cena country estadunidense. “Eu não conhecia o trabalho do diretor quando aceitei o papel. Uma amiga que trabalhava com ele sugeriu meu nome”, conta. “Ao me aceitar para o filme, Robert Altman deu apenas esta indicação: ‘Siga-me e me imite.’ Fiz como ele pediu. Alguns dos filmes de que participei são muito bons, e eu fiquei tão feliz por ter atuado neste. Ninguém imaginou que virasse o que virou. Uma obra-prima, ao contrário de ‘Mash’, do mesmo diretor, que envelheceu.”

Na direção oposta à do pai, Geraldine tem muito a dizer sobre o cinema, novo ou antigo. Sentiu-se maravilhada, por exemplo, ao descobrir “Limite”, realizado por Mário Peixoto em 1931, restaurado e exibido durante a mostra. “Foi um choque completo para mim. Os planos são mágicos nesse filme melancólico, tão poético. E de pensar que, velho, o diretor ainda tentasse explicar essa magia jamais retornada, como se fosse um Arthur Rimbaud retirado da poesia, mas aos 21 anos.” Apesar de tão observadora, nem sempre deu sorte com os filmes de que participou, especialmente os dirigidos pelos novos. Ela destaca um raro caso de felicidade ao aderir a uma obra de estreia. Em 2007, interpretou uma médium em “El Orfanato”, um sucesso de crítica e público na Espanha. O diretor Juan Antonio García Bayona a quis para “A Monster Calls”, com lançamento então previsto para 2016, por sentir que ela lhe dava sorte. Contudo, de início, não tinha o que lhe oferecer. “O papel disponível era o de uma professora chinesa de 25 anos. E então Bayona decidiu que deveríamos esquecer que ela era chinesa e tinha 25 anos.”

Em 1952, entre Chaplin e Oona,
além da irmã Jacqueline: a
engraçada da família era a mãe

A atriz aderiu alegremente a “Kaminsky e eu”. Adorava o filme anterior de Wolfgang Becker, um diretor que lhe garantiu ter feito muito dinheiro no cinema e não ter pressa. “Ele me perguntou se eu aprenderia alemão para atuar, respondi que não. E no filme falo a língua apenas foneticamente. Mas Wolfgang se entusiasmou com a performance a ponto de me pedir para adicionar uma pronúncia francesa a meu alemão. Fiquei incrédula.” Seu personagem neste filme é um entre tantos que interpretou à margem da vida. “Tentei atuar como um computador que deu errado. Tudo estava lá, mas algum botão… Bem, não entendo nada de computadores. Vejo meu marido, o diretor Patricio Castilla, reclamar dizendo que perdeu tudo dentro deles, e eu penso como isso se dá. Então sou como um computador neste papel. Estou lá, mas não estou.”

Por não saber cantar, nunca enfrentou uma carreira na Broadway, como fizera seu irmão Sydney, embora tenha atuado ao lado de Anne Bancroft na bem-sucedida peça “The little foxes”, de Lilian Hellmann, dirigida por Mike Nichols. “O teatro é diferente demais, exige outra técnica. Cinema é o que sei fazer.” Uma arte naturalmente equilibrada entre o riso e a melancolia, como ela a entende. “Sempre vi o humor correr pelo sangue da família, mas jamais fui ensinada a desenvolvê-lo. Muito mais que meu pai, minha mãe nos divertia com seu senso de humor extraordinário. E somente Oona conseguiria rir das situações mais trágicas, como os funerais.”


Com o pai, que jamais quis
lhe ensinar a atuar

Um original inédito de Lygia

Lygia Fagundes Telles escreveu a meu pedido este texto em torno de um dos Dez Mandamentos, “Não cobiçarás”, incluído em uma publicação especial do Caderno de Sábado, suplemento literário do antigo “Jornal da Tarde”, em 1994, e não mais publicado. Ao digitar a ficção, produzida originalmente em máquina de escrever sobre duas folhas de papel sulfite, com correções manuais a caneta, mantive a grafia e a pontuação originais da escritora

A rubrica de Lygia, ao final do manuscrito

OS MANDAMENTOS

NÃO COBIÇARÁS

Lygia Fagundes Telles

As duas folhas de papel sulfite em que foi produzido o texto “Não cobiçarás”, para o Caderno de Sábado

Ele tinha apenas seis anos quando propositalmente deixou sua bola no quintal do vizinho e levou a bola do amigo. Assim que chegou em casa, escondeu-se debaixo da cama e ficou olhando deliciado a bola do outro que era mais descorada e menor, disso estava certo. Mas foi com renovado prazer que correu para brincar com ela.

Era quase um adolescente quando ao sair da escola, viu o pai estacionar o jipe para apanhá-lo. Parou e ficou a uma certa distância observando o pai todo amassado naquele jipe amassado fazer aquela manobra até ficar atrás do Jaguar do pai do seu colega. Apertou os olhos turvos. Apertou a boca pálida. Esperou que o colega entrasse no Jaguar (último tipo) e só então aproximou-se do jipe empoeirado, verdolengo. Tudo bem, filho? o pai perguntou. Fez que sim com a cabeça e apertou com força os maxilares e teve vontade de gritar, Não venha me buscar nunca mais nunca mais! Ficou em silêncio, mordiscando o lábio até sentir gosto de sangue na boca. Relaxou a posição tensa quando viu o Jaguar lá na frente desaparecer na esquina. Quis pedir licença para fumar. Ficou quieto. O pai iria fazer parte daquele discurso proibitivo e o melhor ainda era fumar sem permissão, o verdadeiro prazer no ilícito. No escuro.

A vocação (tão nítida!) o impelia para a medicina. Não atendeu ao chamado porque viu o primo que fez sucesso na arquitetura, dinheiro, glória. Melhor estudar arquitetura que estava na moda e oferecia tantas possibilidades, o primo tinha um escritório pomposo. E convites para viagens. Seu casamento foi um casamento de amor? Na festa em que comemoravam os quinze anos de casados (três filhos, projetos importantes, tanta ansiedade!) sentiu de repente um agudo prazer de estar dançando com a cunhada, era excitante demais o contacto quase cerimonioso com aquela que no dia seguinte estaria nua e inteira ao lado, inteira, ô! gozo pleno. Insubstituível. E o curioso é que essa cunhada não era nem mais bonita nem mais jovem do que sua mulher e no entanto com que intensidade o atraía. Eu te amo! quis gritar enquanto cortesmente perguntava se ela não queria mais um copo de vinho. Quer dizer que amor é transgressão?


Na doença (tão longa!) irritou-se quando lembrou que o irmão (aquele) tivera uma doença mais simpática, existe doença simpática? Pois ele tivera essa doença. Estranhou também a solidão, mas onde estavam todos? É verdade que a mulher há muito já tinha ido embora e os filhos, bem, aqueles filhos um tanto rejeitados estavam sempre distantes, sabiam que não eram os filhos sonhados, aqueles. Sabiam que o pai não vira neles os modelos ideais e foram se afastando aos poucos. Sim, não pudera esconder desses filhos que os quizera diferentes, assim como os outros, os primos tão festejados. Tão perfeitos. Mas por quê a vida melhor era sempre a do outro? ele pensou. E concluiu sem remorso, Eu não me amei. E se não consegui me amar é claro que não podia mesmo amar o meu próximo, esse próximo que teve uma porção maior do que a minha. Um quinhão melhor do que o meu. Abriu ao acaso a Bíblia e leu: Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertence. Não tenho boi mas tenho cavalo, disse à enfermeira quando ela chegou para aplicar-lhe a injeção. Uma criação de cavalos de raça, acrescentou e a enfermeira sorriu e cochichou com a outra, Ele está delirando. Antes que a enfermeira saisse, comentou ainda que não tinha a criação sonhada porque essa era a do haras do vizinho onde estavam os mais belos cavalos de corrida do mundo, se vivesse mais conseguiria esses cavalos. A enfermeira concordou, Sem dúvida, sem dúvida. Quando abriu a porta do quarto para sair, ele estranhou, que barulho era aquele ali no corredor do hospital? Ela hesitou um pouco. Mas achou melhor contar, o doente do apartamento vizinho tinha acabado de morrer e a família, os amigos… Ele apertou os olhos e apesar da névoa ainda tinham esses olhos a mesma expressão daquela manhã em que o menininho levou a bola do amigo. A expressão ávida com que enlaçou mais tarde a mulher do irmão, Vamos dançar? E depois e depois. Teve um breve gesto para reter a enfermeira, Quer dizer que esse vizinho morreu e a família, os amigos, estavam todos por perto? Perguntou e percorreu com o olhar o brancor vazio do próprio quarto. Quis ainda saber, qual tinha sido a doença desse vizinho? Ouviu a resposta, um problema cardíaco, a morte fôra rápida enquanto dormia. Ele ficou pensativo e disse a última frase da noite. A última da vida, Quisera eu ter uma morte assim feliz.

O envelope com o timbre da Academia Paulista de Letras onde o texto de Lygia foi incluído, entregue a mim pelo funcionário do jornal Armando, que foi pegá-lo a meu pedido

Odisseia paulistana

O imenso escultor grego Nicolas Vlavianos, radicado em São Paulo há seis décadas, morreu hoje nesta cidade que considerava sua, aos 93 anos, de insuficiência respiratória. Quando chegou aos 80, ele me concedeu esta entrevista, em maio de 2009, na qual descreveu sua revolução pelo aço, mas não só. Conversar com este artista foi um grande privilégio meu. Aprendi como poucas vezes no jornalismo, antes ou depois, o sentido da arte em um tempo que inviabiliza o esforço físico e no qual a escultura não cabe mais.

Em foto de Patrícia Stavis, o escultor Vlavianos segura uma miniatura, ele que foi o artista da grande escala

POR ROSANE PAVAM

Sob seus olhos há pequenas bolsas e os cabelos brancos estão gentilmente rebeldes, mas o escultor grego Nicolas Vlavianos ainda pensa como sorri, de um jeito jovial, aberto às utopias. Ele habita São Paulo há quase cinco décadas, os pais e a esposa morreram aqui e os filhos Myrine e Gabriel prosseguem o caminho que ele abriu na arte. A cidade é seu lugar e sua revolução.

Homenageado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte em abril, Vlavianos tem 80 anos, 40 deles como professor e coordenador cultural da Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap. Mas nada disso talvez conte tanto para ele quanto esta metrópole, toda por sua desde que o artista foi selecionado à VI Bienal Internacional de Arte. “São Paulo me deu a oportunidade de não sentir falta de alguma coisa”, raciocina Vlavianos, inclinado a terminar sua narrativa com frases excelentes, um homem educado que se senta em seu escritório na Faap em meio a pequenas esculturas nas prateleiras, uma mesa com papéis, folhetos e livros de arte e um computador.

Menino em Atenas

Vlavianos contava 32 anos naquele 1961, não era casado, não tinha filhos, não terminara o curso de Direito e seus pais, Charilaos e Evangelia, continuavam tabeliães em Atenas, de onde ele saíra cinco anos antes para habitar Paris. Por sua natureza de escultor, jamais pulou de lugar em lugar, sempre fixado à forja dos ateliês. Não era surpreendente, portanto, que de toda a Grécia só conhecesse a capital, até deixá-la, em 1956, aos 28 anos. Na cidade francesa, suas exposições adquiriram fama para além do estúdio que alugara em Montparnasse. Ele era uma nova realidade nas mostras do Museu Rodin, um artista finalmente moderno, contra tudo o que seu país lhe proporcionara.

É preciso não exercer a tentação de associar a imagem de Vlavianos à de todos os grandes escultores gregos dos quais aprendemos histórias. Vlavianos não é Fídias, não constrói imagens de adoração que parecem uma coisa quando vistas de perto e outras diferentes se observadas do sopé da montanha. Vlavianos não é um clássico, assim entendido o artista como um homem da Antiguidade. Ele nunca persegue a velha escola. Ontem como hoje, olha para o depois.

Paris aconteceu em sua vida porque os gregos deixaram de ser como seu conterrâneo Fídias, do qual não restaram obras, apenas relatos. Desde meados do século XIX, os gregos eram alemães da Bavária no campo da arte, e Atenas não pertencia politicamente a si mesma. A escultura neo-helênica, surgida nos últimos dois séculos, fora influenciada pelo neoclassicismo alemão. Os gregos, então, obedeciam curiosamente a quem reinterpretava sua luz antiga. “Não existia arte moderna em meu país”, diz.

O artista e sua lida, na cidade que lhe possibilitou a revolução pelo aço inoxidável e lhe deu um ambiente artístico atento, ameno, solícito

O Brasil do artista grego não tinha passado e seu futuro parecia certo aos estrangeiros. Como todos os que correram para cá naqueles anos, Vlavianos não enxergava limites nas terras brasileiras. A língua portuguesa não lhe parecia difícil, ele que falava francês, e além disso o jovem a sofisticava de tempos em tempos com a leitura da coluna do Vão Gogo, na verdade Millôr Fernandes, na revista O Cruzeiro. O clima era quente e os homens e mulheres, amenos. Todos, neste particular, eram um pouco gregos também.

Bastava conversar com uma profissional especializada como Felícia Leirner, a ele apresentada por um amigo grego comum, para que todo o mundo da arte se abrisse a Vlavianos. Havia críticos na São Paulo de então para notar sua existência e convocá-lo à contribuição no panorama das artes. Walter Zanini o percebera como escultor e se tornara seu amigo pessoal. Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz acompanhavam entusiasmados a solidez do artista. A partir de pessoas como essas, a amizade com Cacilda Becker lhe surgiria como um novo degrau. A atriz de Pirassununga aproximara-se do escultor com uma proposta teatral.

Em 1963, Vlavianos já alugara um ateliê, em razão da encomenda feita por um funcionário da Bolsa, Fernando Leite de Barros, que desejava ter um cavalo de bronze em tamanho natural, parecido com aquele fincado no Edifício Itália. Para fazer a escultura por boa quantia, Vlavianos não viu outra opção a não ser alugar um estúdio, encontrado à rua Espártaco, para diversão do escultor. O gladiador de origem trácia liderara a maior revolta de escravos da Roma Antiga e entrara no imaginário popular alguns anos antes por meio da interpretação de Kirk Douglas no filme Spartacus, de Stanley Kubrick. Enquanto Vlavianos fazia o cavalo no estúdio da Lapa, Cacilda lhe pedia armas para a montagem de César e Cleópatra, uma peça de Bernard Shaw que se revelaria um fracasso de público em 1964. Vlavianos compôs escudos, capacetes e espadas para os personagens ensurdecerem em cena os poucos espectadores.

Por essa época, as esculturas do artista começaram a mudar. Em sua sólida base terrena, sem jamais aspirar à leveza de quem voa pelo céu ou o procura, as obras ganharam flexibilidade, pregos, furos, humor. E aço. São Paulo deu-lhe o que, para Carlos Drummond de Andrade, havia de sobra nas calçadas da mineira Itabira, e também nas almas. “Em Paris, eu usava bronze e alumínio”, conta. “Mas São Paulo me deu o aço inoxidável.” E não somente ele. “Aqui achei eletrodos para soldar, lixas para lixar, todo o maquinário destinado a esculpir.”

Esta foi uma revolução para Vlavianos e para a arte do Ocidente, embora poucos se dessem conta do enorme fato. Até os anos 1960, não havia quem se atrevesse a esculpir integralmente em aço em todo o mundo. O material e o equipamento para manejá-lo, fartos na capital paulista, impulsionaram essa revolução.

“Sempre falamos mal de São Paulo, e eu também. Mas considere isso. A cidade tem de tudo.”

Aqui também houve centros para estudar a arte. O grego foi convidado a dar aulas na Faap em 1969, depois de recusar o convite do amigo Zanini para ensinar na Escola de Comunicações e Artes da USP, pobre em ateliês e recursos. Na Faap também dava aulas sua mulher, a artista Teresa Nazar. Ele via com bons olhos o trabalho estável, que ainda lhe rendia mais espaço para planejar as esculturas. Contudo, não tinha qualquer didática a oferecer à garotada. “Ainda não tenho. O que eu sei fazer, até hoje, é trazer os alunos para produzir as coisas. Nunca falo ‘o seu projeto é uma merda’. Eu digo: ‘Dá para melhorar’.” Ele não se recorda de um nome extraordinário saído de suas aulas de escultura, mas reconhece ter tido bons alunos pintores.

Isso porque a pintura, no seu particular modo de ver, é um estágio para um crescimento tridimensional. A arte começaria pela poesia. Dela seria possível chegar ao desenho e, posteriormente, à tela com cores. E, desse estágio, existiria a chance de alcançar a escultura, primeiramente feita com materiais maleáveis, como a madeira e a pedra-sabão de Minas Gerais, depois com os blocos rígidos.

A questão importante, para ele, é que hoje em dia não há nem mesmo uma possibilidade real para quem deseja alcançar o estágio de um escultor. “A escultura não é para nossa época”, sentencia. “Ela requer um grande esforço físico, mas nós perdemos essa capacidade de nos esforçar fisicamente.” O computador daria soluções mais rápidas e desacostumaria o artista com a lida. “É um instrumento que estreita o pensamento. Não é o computador que entra na sua maneira de pensar, é você que entra na maneira de pensar do computador.”

Para Vlavianos, que experimenta, contudo, parcerias para esboçar projetos nesse formato, tal meio técnico inibe até mesmo a avaliação de um problema, quando ele surge. E é só compreendendo o problema corretamente que se pode solucioná-lo. A solução, na escultura, acontece quando usamos a cabeça e as mãos, não quando clicamos o mouse, defende.

O computador também responderia a uma necessidade que a época tem por reagir de forma menos agressiva às coi- sas. “Quando o sapo é jogado na água quente, pula de imediato. Mas não percebe a ameaça se é cozido em fogo brando. Quem percebe o aquecimento global, a menos que tudo aqueça demais?”

Vlavianos compara esse estado de coisas na arte ao jornalismo, que incluiu gastronomia no cardápio, quando antes só admitia, e em casos específicos, a publicação de receitas de pratos. “O que vou fazer? Brigar por isso? Para brigar, seria necessário uma razão que o tempo não me dá.”

O espírito do tempo pede a acomodação, não a polêmica, o debate de ideias, afirma Vlavianos, como quem se resigna. Uma vez que a crítica acabou, o que é artístico se torna também negociável. A arte encarece com a necessidade atual de patrocínios, transporte, seguro, fotografia. Há a figura especialmente intrigante do curador. Ele é o homem do conceito, mas e se o conceito estiver errado? “Um conceito errado, por exemplo, é o de arte brasileira. Se colocamos estrangeiros para fazer arte brasileira, o que isso significa? Não existe arte brasileira. Existem os artistas do Brasil. Existem o carnaval e as mulatas.”

Vlavianos não tem conselhos a dar ao artista novo. Exceto, talvez, aquele de trabalhar de forma incessante, sem esperar enriquecer. “Se você quer dinheiro, abra um bar. Os bancos são os caminhos mais fáceis para isso. Para fazer arte, ou seja, expressar uma pequena parte do que pensa, você não pode exigir descanso. Se eu fico parado, tenho ideias muito boas de vez em quando. E daí? Daí, nada.”

O artista nunca soube o exato significado de seu nome de família. Talvez, em grego, algo “vlaviano” equivalha a algo “fiel”. O qualificativo faria sentido para ele, já que, neste mundo, a coisa que suporte mais dificilmente seja a perda de “quase todos os amigos”. Restaram-lhe as utopias. Ele ainda espera, como um sonho, correr um rio e conhecer a França inteira.

Um neoliberal fascista

Assim o historiador italiano Enzo Traverso entende Jair Bolsonaro, um presidente contra os pobres e a favor da mentira como base da política

Traverso: “No Brasil de hoje, o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista”

POR ROSANE PAVAM

Aos 64 anos, o italiano Enzo Traverso é uma estrela em ascensão. Ele mora nos Estados Unidos, onde ensina história política e intelectual na Universidade de Cornell, e embora não se entenda midiático, é um autor cujos livros escritos de maneira direta instigam o pensamento na direção da compreensão geopolítica e da ação crítica.

Historiador, Traverso não teme tocar nas feridas do presente. Ele constata um momento “pós-fascista” internacional, que seria caracterizado não exatamente pelo nacionalismo, marca de um fascismo antigo, mas pela submissão às leis financeiras internacionais. Mais que isso, o descompromisso com os fatos seria o fundamento de ação dos pós-fascistas, quando, para o fascismo clássico, imaginar um futuro grandioso embasava a ação política. 

Suas palavras para o Brasil atual são aterradoras. Um presidente como Jair Bolsonaro, abertamente submisso ao capital financeiro e espelhado na ditadura militar, seria, segundo Traverso, mais do que um pós-fascista, antes um neofascista liberal que exerceria um populismo personalista, trabalharia para a extinção do pobre e exerceria o racismo sem pudor, enquanto a extrema direita europeia, por comparação, ainda precisaria instigar o pavor ao Islã para implantar sua xenofobia.

A seguir, os principais trechos da entrevista com o intelectual.

Em seu livro “As novas faces do fascismo – Populismo e a extrema direita”, o sr. propõe intitular o momento presente de pós-fascista, já que a extrema direita assume o poder em alguns países sob novo formato, ainda em desenvolvimento. Mas chamá-lo de pós-fascista não diminuiria sua força?

A extrema direita é uma constelação muito variada e tem características distintas em diferentes países. Na Europa, distanciou-se do fascismo e sua ascensão depende em grande parte de sua capacidade de aparecer como uma alternativa – nacionalista, conservadora e xenófoba, mas ainda uma alternativa – às políticas neoliberais da União Europeia e do banco central europeu. Quando entra no governo, ela busca a mediação, mas seu perfil não é neoliberal. No Brasil, a situação é diferente: Bolsonaro afirma sua filiação à ditadura militar e sua política é abertamente neoliberal. No Brasil estamos diante de uma forma específica de neofascismo neoliberal ou neoliberalismo fascista.

O Brasil de Jair Bolsonaro de algum modo evocaria a Itália de Benito Mussolini?

O populismo, o estilo demagógico, os comportamentos transgressivos são típicos de uma certa retórica fascista. Sob muitos pontos de vista, Bolsonaro lembra Mussolini, mas esses são aspectos formais, externos. Mussolini não era um agente do capital financeiro, ele havia integrado o capitalismo em seu projeto de expansionismo militar, colonial, e lançou uma campanha contra a Liga das Nações que impôs sanções econômicas à Itália fascista após a guerra na Etiópia. Bolsonaro defende uma política neoliberal e uma guerra contra os pobres, se considerarmos suas políticas públicas em termos de saúde, educação e serviços sociais. Seu autoritarismo não é apenas nacionalista, mas abertamente fascista.

Nesta sociedade pós-fascista, as redes sociais têm feito usuários acreditarem em “verdades” que não passam de falsidades, às vezes muito evidentes. Como um absurdo desses pôde se estabelecer? 

Em sua vigência, o fascismo fez “sonhar” e pintou um futuro mítico. Hoje, o pós-fascismo é incapaz de projetar a sociedade no futuro – seu imaginário não tem uma dimensão “prognóstica”. Mas ele inventa uma realidade paralela que espalha pela mídia, cria enredos e transfigura seus inimigos, pintando um retrato que absolutamente não corresponde à realidade. Existe uma continuidade entre Bolsonaro ou Trump e o fascismo? Sim, seu traço comum são as mentiras, eles não suportam a verdade.

Seria possível propor uma regulamentação das redes sociais para o bem do regime democrático? Sob quais condições?

A regulamentação das redes sociais é um assunto delicado. Por um lado, é necessário: as redes sociais devem estar sujeitas às mesmas leis que regulam a imprensa escrita e a televisão na maioria dos países democráticos; não se pode mentir impunemente, insultar os adversários, inventar tramas. A ética da discussão exige regras em um país livre. Por outro lado, se um poder autoritário regula as redes sociais, o risco é censurá-las, amordaçá-las, como ocorre na China. Acho que existem duas soluções: por um lado, deveria haver órgãos de controle independentes do governo ou da presidência, não sujeitos ao poder político; por outro lado, deveriam existir leis contra o monopólio das redes de televisão, porque elas constituem uma alternativa às informações controladas pelo poder financeiro e político.

No Charlie Hebdo, algo que o historiador não gostaria de ver

O sr. afirma que o secularismo é o caminho percorrido pela extrema direita para exercer o racismo contra os povos islâmicos na Europa. E que, portanto, o exercício da blasfêmia deveria ser evitado em países seculares. Por que a liberdade de blasfemar não pode ser preservada? 

Nunca propus leis contra a “blasfêmia” ou contra a sátira. Sempre considerei as caricaturas do jornal francês Charlie Hebdo islamofóbicas, sexistas e racistas, mas jamais propus censurá-las. A sátira política é indispensável em um país livre. O problema é fazer bom uso dela. Defender a liberdade de expressão significa defender o direito dos inimigos de se expressarem livremente. 

Caricaturas “blasfemas” são transgressivas e têm potencial crítico nos países muçulmanos, onde muitas vezes se veem censuradas e incomodam o poder. Nos países democráticos da União Europeia, as caricaturas contra a religião islâmica estigmatizam em muitos casos uma minoria, as classes populares, os imigrantes, os “diferentes”. Gostaria de estender o exemplo: a sátira contra o obscurantismo dos rabinos é divertida na imprensa israelense; na Alemanha nazista, ele apenas fez rir os antissemitas.

O sr. vê algum problema no crescimento das políticas identitárias? 

Nada tenho contra as políticas identitárias se elas não forem concebidas como a reivindicação de identidades isoladas, separadas e incapazes de dialogar com os demais componentes da sociedade e as demais forças interessadas em uma transformação social e política. A solução não está na negação das identidades, mas na sua coexistência. O conceito de interseccionalidade permite que as identidades sejam articuladas em formas não hierárquicas, mas igualitárias, evitando que entrem em conflito. Identidades de gênero, classe e raça podem coexistir. Acredito que a noção de interseccionalidade é muito importante para um país grande como o Brasil, onde coexistem minorias e comunidades muito diferentes. Essa diversidade é sua riqueza.

O sr. se considera um intelectual midiático? Que problemas existem em trabalhar com a mídia atual?

Eu sou historiador e não estou muito na mídia de nenhum país. Certamente não sou um “intelectual midiático”. Mas acho que precisamos esclarecer o uso das palavras. O conceito de intelectual nasceu há mais de um século, na França, com o caso Dreyfus, e ao mesmo tempo em outros contextos linguísticos. Na época, os intelectuais eram uma elite, porque detinham o monopólio da expressão escrita, quando a grande maioria da população era excluída e a cultura, dominada pela imprensa. Régis Debray a define como a era da “grafosfera”, que terminou na década de 1960. Hoje, graças à universidade de massa, a cultura não é mais monopolizada por uma elite. Além disso, vivemos agora na esfera do vídeo, onde a cultura é dominada pela imagem. Posso dizer que sou um intelectual, porque meu trabalho é ler, escrever livros e artigos e ensinar, mas certamente não poderia dizer que integro uma elite. Isso seria bastante ridículo. Os “intelectuais midiáticos” geralmente não são intelectuais, não exercem nenhum espírito crítico, são agentes da indústria cultural e gerenciam a comunicação do poder.

Como pode um intelectual exercer livremente a crítica para sensibilizar a população sobre seus problemas? Depois de Jean-Paul Sartre, o intelectual ainda deve alertar essas consciências?

Não quero idealizar Sartre, uma figura que deve ser historicizada e cujas contradições não podem ser ignoradas. Mas acho que o intelectual ainda tem um papel a cumprir: ele deve falar a verdade, por mais incômoda que seja, criticar o poder, defender os fracos e não se preocupar com a própria popularidade. Se esse é o papel do intelectual, no Brasil de hoje o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista.

No totem das coisas sinistras

Eu não sei de nada, que sei?

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

E serão cínicos, justamente porque o tempo passou.

Quando mataram um brasileiro em terras estrangeiras, um jovem inexistente socialmente no metrô, à toa, aquele trabalhador!, ninguém teve culpa, lembra? Mais acidentado e inoportuno, nosso Jean Charles foi, que uma vírgula entre verbo e sujeito.

Então agora, me desculpem, não vejo o mundo indignado suficientemente só porque um inglês bem visto pelo lado de sua consciência ambiental, da doçura de coração e sorriso, morreu. Está bem, concedo que ele não será a mesma vírgula brasileira indevida entre duas funções gramaticais. Será talvez as cores de um sonho triste, do excesso, do luxo impensável de amar o Brasil.

Dito, sentido tudo isso, eu penso que não, que pescadores a pegar no rio moedas de pirarucu douradas para cumprir o pedágio do tráfico, não, impossível que esquartejassem os corpos só porque fotogravavam seu crime pelo celular. Não existe, entende? Essa força tem berço, sangue frio, compensação, trabalhada e construída no totem das coisas sinistras.

E nem preciso nomear o inominável para entender por que justifica o crime, e não só faz isso, culpa as vítimas, diminui seu intelecto, troça, cospe, asseia metaforicamente o sangue estancado nas suas roupas encontradas rasgadas, fotografa com hálito essas cenas cabíveis mentalmente – mentalmente? – no interminável varal lustroso do seu museu de horrores.

Eu não sei de nada, que sei?

Nem mesmo li as notícias do dia.

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

Mandioca, doce vingança

Eu queria ser melhor do que sou. Melhor no sentido de ser pior.

Hoje fomos à feira. Eu parava nas bancas, escolhia e pagava. O que íamos comprar, eu e o Maurício havíamos discutido antes, em casa. Tudo certo. Maior alegria e harmonia acompanham nossa ida à feira dominical, muito boa, aliás, na região do centro onde moramos.

Chegamos à banca de mandioca e o olho cresceu. Não havíamos planejado comprar. O Mau me perguntou se eu achava que combinava com a tainha que ainda iríamos pegar. Pergunta desnecessária, ele sabe. Amo mandioca e pra mim ela combina com tudo.

Decidimos então pegar um saco plástico com pedaços dela já descascada, em água, quando o vendedor da banca, um gordinho de cabelo rente, se aproximou pra sugerir:

– Leva dois pacotes por 12 (!). Se vc não usar o segundo saquinho agora, é só tirar ela de lá e colocar no congelador. Vale a pena. Esta mandioca é uma manteiga.

Pensei: tá cara mas tudo tá caro. E alimenta. E vai durar. E é uma manteiga! Compro.

Ele fez menção de estender a máquina do cartão pro Maurício, o “doutor”, pagar. E eu brinquei, já que meu marido gentilmente segurava as sacolas, e eu, não ele, seria a pessoa em condições de manejar o cartão:

– Eu que vou pagar. Eu que sou a doutora aqui rs.

O vendedor fechou a cara rotunda e com seu jeitão miliciano mandou ver:

– Eu sou doutor, ele é doutor, todos somos doutores perante deus, o salvador, ele que está acima de todos nós, ele que nos guarda, o todo-poderoso, valei-me senhor, bom domingo.

Já tinha pagado a bonitinha, então levei. Não era manteiga, não. Mas serviu.

Jamais compro com ele de novo, porém queria ser má o suficiente, a pior do mundo, pra tretar com esse machista evangélico da próxima vez.

– Tem mandioca manteiga de verdade agora, meu velho? – eu diria. – Ou vai me devolver o que paguei a mais por aquela da semana passada, que levou horas pra cozinhar no fogão?

Quem dera esses inomináveis se fodessem muito em outubro. Mas não morro de esperança. São atrevidos, babacas e violentos até o fundo do seu ser, que é um não-ser, com toda a sua comunidade igrejeira de não-existências. Vou ter de ser muito pior do que sou pra lidar com eles.

Mas como?

Hei de descobrir.

John Waters: “Fazer o outro rir é fazê-lo ouvir”

POR TYLER MALONE, do LA Times

O diretor de cinema John Waters, 76, lança nos EUA “Liarmouth – A Feel-Bad Romance”. Embora seja seu primeiro romance, Waters escreveu quase tantos livros quanto filmes – incluindo os best-sellers nos Estados Unidos “Role Models”, “Carsick” e “Mr. Know-it-All”. Ele diz que sempre se considerou um escritor em primeiro lugar – e um ávido leitor também. Colecionador de livros desde os 14 anos, tem mais de 11 mil espalhados por suas casas em Baltimore, Nova York e São Francisco.

O romance de Waters está cheio de personagens selvagens e reviravoltas chocantes – lifting facial de animais de estimação, cultos de trampolins, um falo falante – mas a primeira ideia que lhe ocorreu foi uma mulher que roubava bagagem em aeroportos. “Alto conceito”, ele diz. “Estou acostumado com a indústria cinematográfica, então sempre preciso de um título e uma descrição em uma frase.”

As façanhas de Marsha Sprinkle – ladra de malas, vigarista, mentirosa inveterada – poderia ter sido um filme. Ela e os outros dramatis personae de “Liarmouth” parecem ter acabado de sair de um roteiro de Waters; a narrativa entrelaça as perspectivas em diferentes locais de uma maneira que se assemelha a um corte transversal cinematográfico.

Em entrevista ao “LA Times”, o cineasta explica o significado da dita “moralidade perversa” presente em toda a sua obra, nesta também:

“Existem regras no meu mundo. As pessoas certas vencem: aquelas que acreditam em si mesmas, que exageram o que os outros podem pensar que é errado, que aceitam e não se importam com o que os outros dizem, mas não são críticos ou ciumentos. As outras pessoas imitam-se, são amargas, julgam outras pessoas, tentam agir como ricas – quando os ricos de verdade escondem que são ricos.”

Um dos maiores pecados no mundo de Waters é se levar muito a sério. Com os defensores do “politicamente correto”, ele expressa principalmente solidariedade, mas a “justiça própria” é a única coisa com a qual não concorda. “Usávamos humor para lutar quando eu era jovem.”

E acrescenta: “Nós nos revoltamos pela liberdade de expressão!” Ele ainda a mantém como um princípio absoluto, mesmo quando isso o coloca na mira de seus compatriotas mais à esquerda. Ele parece legitimamente preocupado com o fato de os estadunidenses ficarem cada vez mais isolados, cada vez mais falando apenas com pessoas com quem já concordam.

É por isso que ele lê jornais conservadores: recentemente foi ao programa de Greg Gutfeld na Fox News e se tornou amigo – entre todas as pessoas no mundo – de Andrew Breitbart, o falecido provocador de direita.

Breitbart, após uma gravação de “Real Time With Bill Maher”, disse a Waters: “Sou igual a você; aprendemos tudo com Abbie Hoffman. Estamos apenas em lados diferentes. É tudo showbiz.” Waters gosta de entrar no que chama de “território inimigo” porque acha importante “fazer o outro rir, que é a maneira de fazer o outro ouvir”.

Peço sua opinião sobre o julgamento de difamação envolvendo Johnny Depp e Amber Heard. Ele o compara a um filme de Douglas Sirk. Tudo o que ele dirá diretamente é: “Só conheço Johnny de quando ele estava com Winona Ryder, Kate Moss e Vanessa Paradis. Todos esses casamentos terminaram, e as três ex-mulheres dizem coisas boas sobre ele agora. Eu nunca vi ele ser horrível com uma mulher.”

Que tal trabalhar com Woody Allen? “Foi ótimo. E não devolvi o dinheiro. Eu gastei.” Ele trabalharia com o cineasta novamente? “Não sei, mas paguei para ver os dois últimos filmes dele.” Waters não acredita em “cancelar” pessoas porque “a maioria dos artistas seria cancelada”. Ele acrescenta: “Eu perdoei gente que cometeu assassinato, então não estou julgando ninguém”. Waters fala sério: ele é amigo da ex-integrante da “família” de Manson Leslie Van Houten e lamenta aquela que considera a prisão “ilegal” da protagonista de “Cry-Baby” Amy Locane por dirigir embriagada e causar uma morte.

Waters sente-se bem até o momento com o governo Biden, embora Obama seja seu favorito. “Mesmo que Michelle Obama tenha me vencido no Grammy de melhor álbum narrativo. Todo aquele lobby que ela fez!” Ele se sente um “patriótico low profile”. E confessa: “Acho que os Estados Unidos são os melhores do mundo. Só não fico dizendo isso por aí. Em que outros lugares eu poderia ter tido essa carreira? Em muitos, certamente não.”