“não se adoente”

há dois dias, depois de uma quinzena de trabalho insano diante do computador, e ainda por cima em troca de dinheiro miúdo, minhas costas travaram completamente.
nem me virar na cama conseguia, então imaginem minha noite…

ontem fui ao médico, acompanhada pelo filho maravilhoso.
pegamos uber e abrimos as janelas.

o motorista, coitado, gordinho e atormentado por essa maldição, não deixava ninguém falar.
andamos 300 metros e ele já nos contou que seu amigo de 37 anos morreu de covid, assim pá-pum.
mas me garantiu que a sua própria família está bem.
o filho de 16 anos não dá a mínima se precisa ficar em casa todo o tempo.
(a vingança dos nerds).
e foi ele, o motorista, quem disse à esposa que filho seu não iria enfrentar presencial, não.

dou-lhe parabéns efusivos e chego ao médico.

um grande médico.

eu o conheci há duas décadas, quando desesperadamente procurava uma boa alma científica para curar uma tendinite incapacitadora.
todos os seus colegas disseram que eu não teria chance só com fisio, e que seria preciso operar, mesmo amamentando ainda.
até o tal de Osmar de Oliveira, lembram dele?
o comentarista corintiano de futebol.
ele me atendeu fumando e fumando permaneceu quando soube que eu editava o caderno de sábado do JT. “Quem lê aquilo?”

mas voltando ao ortopedista querido, esse que finalmente não precisou usar o recurso da operação para me estabilizar…
nunca antes fui atendida tão rapidamente no seu lindo consultório, desta vez vazio.

me examinou, receitou anti-inflamatório e me pediu:

“não se adoente que a coisa tá feia”.

e eu: “quem diria que a gente chegaria nesse ponto?”

e ele: “nunca foi muito melhor”.

e eu, riso amarelo: “ahhh”

jamais imaginei que ouviria um médico me dizer pra eu não ficar doente, em suma.

tudo muito aterrorizante, né?

mas amei esta chance que o travamento me deu de olhar de novo a cidade pela janela.

aliás, muito movimentada ainda para o que passamos, viu?

apartem-nos

saudades do meu pai, sinceramente.
um homem pouco adaptado ao mundo.
um ingênuo, transparente na sua humildade.
creio que mal soubesse o significado de ser contrário, de ser de esquerda.
mas era um homem bom.
bom a ponto de sacrificar o que quer que fosse seu
por nós.
modos e bigodes de tempos em que tudo isto compunha elegância, refinamento simples.
hoje vejo esses sujeitos que se creem adultos desfilando com graxa no olhar, pisando sobre todos.
não, meu pai não era um homem assim.
tão límpido como um riacho antigo, coitado!
um menino.
o pulo, a graça, a vitalidade infantis.
o respeito profundo pelas brincadeiras, pelos lápis de cor.
hoje entendo uma boa parte de você, pai, antes tão inalcançável.
acho que pertenço a seu imaginário e a seu sorriso bom.
tudo o mais me assusta e estupidifica.
os exageros, as contenções.
das desmedidas às menores, as ambições me causam estupor!
esse silenciar o afeto para se submeter aos números…
esse não ser o que se é, em busca de aceitação…
quis tanto que a vida desse certo pra você!
como quis que desse pra mim.
que nos deixassem no fim do arco-íris, pois nosso interesse não estava nas moedas, mas nas luzes.
ninguém vai compartilhar conosco esse sentimento, vai?
e o que teremos nós a ver com isso, pensando bem?
apartem-nos do que vocês construíram!
estamos no lamaçal brincando de escorregar.

Hora de dormir, não consigo desaparecer

tem horas, como agora, que é duro pensar no que somos, todos nós, um a um, neste momento que gira nossas cabeças.

tristes, cansados, brasileiros, bêbados.

(e minhas costas doem.)

em que dimensão nos jogaram, Doug? onde o túnel foi parar?

hora de dormir, e não consigo desaparecer.

essa tragédia que não ensina nada a ninguém não sai diante dos olhos, entra pelos sete buracos da minha cabeça, essa presença, essa ausência.

estava assistindo a “La ronde”, do Max Ophüls, 1950, e de repente a bicicleta no carrossel (sim, havia uma bicicleta no carrossel) girava e girava e me ligava diretamente aos ciclistas da rapi andando sem máscara.

“La ronde” é uma ciranda de amor, uns contos de amor entrelaçados em que um cavalheiro se segue a outro em sua perdição amorosa cotidiana, e as mulheres são irônicas, e os ridicularizam, pois nada mais podem fazer, e todos voltam ao mesmo lugar…

Estruturas de sonho de Arthur Schnitzler, o autor da peça de origem.

(Prazeres tolos: é a tolice, não o prazer, o pecado.)

Há um momento em que um desses homens se torna risível ao lado de uma mulher casada na cama – e sabemos disso porque lá fora um fusível do carrossel pifou.

me senti aquele fusível!

e ele também, o personagem, é claro. ele cita stendhal pra dizer que amor demais pode derrotar… mas ela só levanta os grandes olhos, pobrezinho, não foi desta vez.

divertida essa peça de Arthur Schnitzler, a gente supõe, tanta coisa inventiva que o Ophüls faz a partir dela. O muito com tão pouco, os reflexos pela janela num cenário repleto dos badulaques burgueses, mimos e cristais! Vejo hoje que as comédias italianas citaram tão bem esse estado de coisas, que Buñuel, que não é bobo bem nada, foi atrás disso no anjo exterminador.

Essas iluminações rosíneas me alegram, às vezes é tudo o que eu tenho de meu, mas não, agora não, nada me traz paz.

depois do filme, é preciso mais uma percorrida no celular (quem mais nos engana, quem agora nos quer mal?), mais um texto, mais um poema, ou nada vai acontecer.

ciranda, carrossel, cavalo, bicicleta…

estamos sós!

E Anitta, terá visto Hopper?

Era uma live sobre uma pintora que amo, pela mulher firme que foi e pelos caminhos artísticos que não temeu seguir, desafiando todas as formas do aceito.

Quero muito ler o que este jovem pesquisador, Carlos Pires, escreveu sobre Anita Malfatti neste pós-doutorado no IEB, a partir de seus diários, e que certamente acende novas luzes sobre o trabalho dela.

Pires é sério ao discorrer, mas bem-humorado, ciente de que ela sabia o que fazia e que o Monteiro Lobato não a derrubou, não, ao contrário do que muitos imaginam. O texto deve ser ótimo, imprescindível!

Porém, ele não soube responder a essa pergunta que me intriga faz muito tempo. Pesquisa-se Anitta na França, raramente nos EUA. Mas quero crer que ela conheceu Edward Hopper, sim, o assunto de minha curiosidade. E que ficaram conversando sobre faróis…

A alegria que se foi

Morreu o Diet, o jornalista mais doce

Chamavam o Marcos Filippi de Diet como antes os pretos eram Chocolate. Não havia razão para essa chacota pra cima de um menino tão do bem. Era preciso ser forte na redação do JT. E ele nasceu sabendo como fazer. Para lutar por seu trabalho, sorria com eles, não deles.

O gordinho é figura descolada neste planeta ou não sobrevive. O Diet lutava do seu jeito. Ouvia uma piada e assimilava o soco com o air bag do humor. Era um mascote, ganhava mais carinhos. Precisavam dele na cultura. Sabia tudo de rock e falava inglês, se me recordo bem. Não era pra todo mundo naquele tempo.

Mas ele assimilava a zona toda, sorridente sempre, sorridente eu não sabia bem de quê ou principalmente por quê. Talvez de tudo e de si mesmo. E talvez porque fosse mais simples. O sorriso inclui, o sorriso conquista e faz esquecer.

Sofria sozinho diante do computador, contudo, que eu via, e suava bastante, sempre prestativo até não poder mais. Eu era subeditora, adorava pegar texto dele pra fechar, mas ele ficava tenso sempre: “Deu certo?” dizia pra gente com os olhos.

Nosso Diet, o jornalista, como poderia ser esquecido? Soube pela Paula Medeiros que ele morreu hoje de um infarto fulminante. No fundo, não vou acreditar.

Um jornalista tão inteligente que não tinha turma na redação! Não tinha lado.

Bem, tinha um lado, sim. O Santos Futebol Clube.

Esse lado, nós dois compartilhávamos. Ele era santista, como esta linda foto de perfil no face faz questão de mostrar. Conversávamos então sobre isso. 

Digo, eu puxava o assunto, porque queria entender o que rolava, quais eram as contratações prometidas, de que jeito o time levaria o jogo na próxima partida. Futebolês que sempre amei. Ainda não havia a conquista de 2002, mas nós já tínhamos Giovani de quem depender ou por quem lamentar.

E eu ficava feliz porque, sendo mais velha que o Diet, vinda de um outro mundo de expectativas, podia compartilhar ao menos suas dores e glórias futebolísticas. Sofríamos calados quando tudo dava errado (isto é, quase sempre) e, quando nos saíamos bem pra cima daquele mar de tifosi de outras bandeiras, porque a única coisa que se fazia naquela redação era mesmo torcer, o regozijo vinha bem maior.

Saí do JT e não soube mais o que foi feito do menino feliz.

Espero só isto mesmo. 

Que tenha sido feliz.

Get lost

A foto que sempre retorna pra gente sorrir, pra matar a inveja que temos dos grandiosos, pra liberar a eterna opressão de sermos sempre esmagados, os últimos mesmo nesta vida…

Não adianta você ser esse Mick Jagger tão especial, o mais cool deste mundo, com suas meias de cores diferentes e sua linda calça cor de rosa: você em algum momento vai ter, sim, a atenção roubada pelo careta mais lindo vestindo um brilhoso terno modelo antigo.

fia na pia

daí eu me esforço pra ser leve, rôsinha paz e amor, e posto aquele tuíte ótimo, “se eu votei no lula quando ele era ladrão imagina agora que ele é inocente”, uma coisa bem feita, arte pela arte que vc pode apreciar por si, e de repente a mulher de nome maria pia (será piedosa ou será um tanque?) retruca: “escolhe outro candidato, fia”! e eu nem comento, arranco sua torneira na hora, jogo a fia na pia, meu deus, que se torça, que se dane!

Pra que serve um editor?

Com Chico Anysio em seus últimos dias, no apartamento da Barra, 2010

Adorei umas partes do discurso do Lula, que li só agora. Esta me fez levantar da cadeira:

“E eu, como acho que tenho um pouco de experiência, fiquei feliz com a verdade, porque é pra isso que servem os meios de comunicação. Jornalista não existe pra sair pra rua pra cumprir a ordem do editor.”

Certíssimo!

Quantas vezes me senti coagida a escrever a verdade “exigida”, enquanto redatora de notícias? E aceitei isso pra garantir a droga do pagamento?

E quantas vezes, por outro lado, quando editora, pedi para os repórteres me trazerem a notícia e eles me retrucaram “que notícia”, achando que não tinham sido pautados direito? Como se eu tivesse que saber de antemão as coisas que eles deveriam descobrir? E quantas vezes meus chefes, editores executivos e diretores de redação, quiseram mudar o que eu escrevi enquanto repórter e colocar a sua própria “verdade factual”, simplesmente, no meu texto? Como se a verdade fosse uma questão de hierarquia? Como se eles pudessem mudar o fato, por exemplo, de que Tom Jobim foi um compositor importante?

Uma vez a coisa ficou até engraçada, porque escrevi minha reportagem sobre o Chico Anysio, humorista que eu entrevistei lá no Rio, e tive de mostrar meu texto pro diretor de redação ler, o Senhor Democracia, o SDM. E ele me disse o seguinte sobre determinado trecho: “o Hélio Souto não foi o cara que inspirou o Chico Anysio a fazer o Alberto Roberto”. E eu retruquei: “mas foi o que o Chico Anysio falou”. Mas ele: “Mas não é verdade.”

E eu: “Seu SDM, foi o que o Chico disse e acho que ele sabe mais do que nós o que ele próprio fez. Se o sr. quiser, o sr. tira o trecho todo, porque ninguém vai precisar dessa informação pra viver. Mas eu só vou assinar esta reportagem se nela estiver escrito o que o próprio Chico Anysio me contou sobre a origem de sua criação”.

E pronto.

E ele deixou eu publicar como eu tinha escrito.

“Deixou” eu publicar a verdade, entende?

Então eu amo ouvir isto partido de Lula – isto de que o repórter não tem de obedecer à verdade que o editor quer ver publicada -, embora morra de rir sabendo que Lula é amigo de SDM e lhe dita as pautas por telefone.

A vida é assim, o Brasil é assim, e o jornalista… O jornalista é menos que assim!

E é mesmo para desobedecer as tantas vontades pessoais sobre a verdade que o jornalismo deveria existir.

💜

O desejo ardente silenciado

“Junho Ardente”.

A obra-prima de Lord Frederic Leighton foi concluída no final de sua carreira, em 1895.

A sensualidade de sua figura central resplandece na cor laranja do vestido drapeado.

Ela dorme ou está no limiar da morte, conforme talvez simbolize o ramo tóxico no canto superior direito do óleo sobre tela.

As prováveis modelos da obra foram as atrizes Dorothy Dene e Mary Lloyd, retratadas por vários artistas pré-rafaelitas.

“Junho Ardente” começou como motivo para adornar uma banheira de mármore em outra obra de Leighton, “Descanso de Verão”.

Mas ele amou tanto seu personagem que decidiu recriá-lo numa pintura separada. 

Leighton realizou pelo menos quatro esboços antes de pintar a figura central e lutou para fazer o ângulo de seu braço direito parecer natural.

A naturalidade era importante nesse movimento inglês de “arte pela arte” (art for art’s sake) ao qual aderira, em que as qualidades artísticas importavam mais que o tema das pinturas.

Mas como não ver importância neste tema?

A figura central não consegue acordar, como se seu desejo, evidente na cor radiante, estivesse reprimido entre o sono e a morte.

É ou não uma magnífica maneira de entender a repressão à sexualidade feminina numa Inglaterra vitoriana?

E em tantas eras que se seguiram?

Arte pela arte, estamos igualmente diante de uma representação excepcional.