MAô pro mundo

Eu não escrevo pra ser bonito, escrevo pra entender. Armo um esquema no arame para atravessar uma ponte e alcançar aquele lugar onde antes não estive.

E o que procuro entender (ou descrever) agora é a felicidade deste dia em que sai MAô.

Nem posso assegurar que o Mau, autor da proeza, se lembre disso, mas pedi tanto, pela vida, que fizesse um disco seu!

(Vida que caminha nos trinta, e trinta anos em comum, embora o ministro talvez desconheça, não são três… Há intimidade e unicidade. Somos dois ou um?)

Talvez esse meu pedido pelo disco tenha caminhado em silêncio por seu grande coração. Sabemos quão imenso ele é! E a arquitetura final, então, nascido da necessidade, da convivência, de um apelo.

Anteontem, durante a audição no estúdio, muitos amigos seus se disseram surpresos com a expressão autoral deste produtor. E ainda menos agora, num certo Brasil…

Um deles, escritor, tinha lágrimas nos olhos porque o disco, além de tudo, trazia uma inesperada alegria; uma outra, música, agradecia que Mau não tivesse se fechado em egotismos na hora de fazer um trabalho que se comunica com o mundo, com todo mundo.

Principalmente, muita gente não sabia que o antigo integrante do Nouvelle compunha, além de tudo, tantos sambas…

Mudei de casa recentemente, tudo é um caos, mas aqui estão as fotos que encontrei hoje. É quase certo que a música popular lhe tenha sido apresentada pelo pai, Orlando, descendente de italianos com a alma em Nelson Cavaquinho, as palavras em Cartola e o rosto, sem que desejasse, no imaginário do cinema.

Nos fins de semana naquela chácara que alguns amigos conheceram, a música era o sol para seu Orlando e para nossa família estendida. Os instrumentos se trocavam, os músicos entravam e saíam, como numa roda. Samba se faz em comunidade, me ensinaram. Tínhamos uma…

O Mau escreve música todo dia, não necessariamente no papel. São tantas que você talvez ainda ouça muitas delas. As rosas não falam enquanto ele pisa macio nesta terra de todos e de ninguém.

Bem-vindo, MAô, nossa luz!

Você veja como vivemos na escuridão.

Nos Estados Unidos, o Metgala, evento da moda no Met, reúne o escambau de personalidades sob o tema camp.

Cada célebre veste sua interpretação para o exagero maneirista que começou a surgir com os tenebristas, passou pela art nouveau e é abraçado pelo mundo drag. A roteirista e atriz Lena Waithe aparece no tapete vermelho com a provocativa declaração bordada: “As drags negras inventaram o camp”.

E então vem o Twitter a incendiar interpretações sobre o que cada modelo está usando (eles amam sem saber o nosso Clovis Bornay…) ou sobre a pertinência ao tema de Lady Gaga e de um sem-número de artistas…

Críticas, trocas de impressões, e de repente uma drag do Ru Paul espalha um pdf com o famoso texto de Susan Sontag sobre o assunto…

Um pdf via Twitter, pessoas! Pra orientar o pensamento! Um texto para que o mundo pop use como referência!

Quando veremos esta simples coisa (ler e sugerir leitura) ser feita de forma natural por aqui?

Quando?

Sejamos sinceros: o anti-intelectualismo é nosso companheiro bem antes do ministro kafta, do conje moro ou do fã bozó!

Estamos tão f.!

Duas crianças para dois líderes

Na primeira foto, em meio às montanhas de seu retiro na Baviera, o chanceler Adolf Hitler abraça sorridente Rosa Bernile Niernau, com 6 anos de idade naquele 1933 em que ele ascendia ao cargo de premiê da Alemanha. A avó de Rosa era judia, mas, mesmo depois de descobrir o fato, Hitler se recusou a cortar laços de amizade com a menina. As flores sobre o papel fotográfico foram pintadas por Rosa, apelidada pelos nazistas de “a criança do Führer”. Hitler guardou a imagem tirada por Heinrich Hoffmann depois de inscrever, em seu verso: “A querida e considerada Rosa Bernile Niernau, Munique, 16 de junho de 1933.” A peça foi leiloada em Maryland no ano passado por 11,5 mil dólares e o colecionador, não revelado.

Na foto abaixo, de Sérgio Lima, Jair Bolsonaro sorri extasiado ao erguer nos braços Yasmin Alves, 8 anos, durante a visita que fez a sua casa na região de Estrutural, uma das mais pobres do Distrito Federal. A justificativa oficial para a visita, realizada neste abril de 2019 em que Bolsonaro completa três meses à frente da presidência do Brasil, é desfazer o mal-entendido de que anteriormente a criança tivesse se negado a cumprimentá-lo. Yasmin é negra, ele sabe disso e nós também.

Todo político faz fotos com crianças.

O político populista as utiliza para propaganda.

E só o tempo, ou a história, ensina o que eles decidiram propagar.

O álbum de fotos de Brecht contra o fascismo

 

Oito meses antes de morrer, o dramaturgo editou na Alemanha Oriental imagens da guerra anteriormente publicadas por revistas como a “Life”, acrescidas por seus poemas-legendas

 

Brecht Hitler
“Esta coisa dominou o mundo uma vez.
Seus conquistados o superaram.
Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;
o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

A faixa estendida neste 24 de abril de 2019 na praça Loreto, exato local de Milão onde o corpo de Benito Mussolini se viu exposto de cabeça para baixo, há 74 anos, renova os alertas à ameaça fascista. Na faixa, leem-se a frase “Honra a Benito Mussolini” e a assinatura “Irr”, abreviação de “Irriducibili”, nome da principal torcida organizada do time de futebol Lazio.

 

O último 20 de abril marcou também o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 130 anos. E talvez, com seus atos, os torcedores fascistas do time mantivessem implícita uma vibrante comemoração às ideias do ditador, duvidoso “irmão” do Duce.

 

De qualquer maneira, na praça Loreto, neste 24 de abril que antecede em um dia a comemoração da libertação da Itália na Segunda Guerra, os fascistas usaram a saudação romana, simbólica do regime de Mussolini, para manifestar sua torcida pelo time, que hoje joga contra o Milão pelas semifinais da Copa da Itália.

 

O dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) cansou-se de alertar sobre o perigo fascista, que atos como esse apenas demonstram ser permanente. Ele deixou sua Alemanha em 1933, ano em que o chanceler Hitler foi eleito, rumo à Dinamarca, à Suécia e depois à Califórnia, por conta da perseguição a suas ideias marxistas e a seu teatro libertador (e nos Estados Unidos se viu caçado pelos macartistas; mais tarde narro a vocês aqui no blog um episódio que ilustra a perseguição).

 

Brecht era também um apaixonado pela fotografia. Desde os anos 1920 compilava em grandes cadernos de esboço as imagens publicadas por revistas como a Life sobre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, e vencendo a censura, o dramaturgo fez publicar em 1955, por meio de uma editora satírica da Alemanha Oriental, a Eulenspiegel, uma coletânea de 85 dessas imagens, intitulada “Krigsfiebel” (bíblia ou guia da guerra). As fotos exibidas pelo volume, editado em dezembro de 1955, oito meses antes de sua morte por ataque cardíaco, mostravam líderes nazistas e aliados, a destruição urbana causada pela guerra, os civis desolados e os inimigos mortos.

 

Contudo, ele acreditava que as imagens, embora potentes, não exprimiam sozinhas realidades complexas. Eis por que decidira acompanhá-las de “fotogramas”, como as intitulava, com uma densa, às vezes irônica, legenda em quatro versos. Como fazia em suas peças, coordenava então imagens e palavras de modo a provocar o leitor a pensar criticamente e a questionar seu conhecimento limitado sobre o fascismo e o capitalismo.

 

Quando as vendas do livro decaíram, Brecht o ofereceu a bibliotecas e outras instituições, sob a alegação de que a “louca supressão de todos os fatos e julgamentos sobre os anos de Hitler e a guerra” deveria ter um fim. Ele planejava acompanhar o livro de um outro volume, “Friedensfibel” (guia ou bíblia da paz), mas tal obra ficou inacabada.

 

A foto que publicamos aqui, retirada de seu livro-álbum e de autor ignorado, mostra Hitler em um pronunciamento de 1934. Na edição estadunidense, cujo título é “War Primer”, e que ganhou republicação em 2017, lê-se a legenda com o nome do ditador alemão e sua data de nascimento: “Hitler: 20 de abril de 1889”. Embaixo da foto, segue um fotograma em quatro versos, cuja tradução aproximada é esta, retirada do livro “Literature and Photography”, organizado por Jane M. Rabb e publicado em 1995 pela University of New Mexico Press:

 

“Esta coisa dominou o mundo uma vez.

Seus conquistados o superaram.

Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;

o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

Um facebook a céu aberto!

Já estou naquele ponto em que não consigo compartilhar com vocês certas declarações e notícias do país a pular pela minha sempre agitada timeline.

Penso três vezes antes de clicar. Vou ou não vou propagar esses rejeitos? Mas e se a lama chegar perto e meus amigos não estiverem sabendo?

É muita escória, uma danação contínua, sóis da meia-noite, gente sinistra…

Tão sinistra que se extravasa pelas ruas…

As coisas que a gente ouve no ponto de ônibus, não é?

Um facebook a céu aberto!

Socorro, Tim!

E Noel, Dolores, Assis Valente, Ivone, Tom, Cartola, Zé Kéti, Lupicínio, Geraldo, Ismael!

Meus heróis, amém!

Meu humorismo

Creio que haja tantas ideias sobre como o humor deva funcionar quanto piadas de loira burra.

Nunca conheci uma loira burra, mas fico com uma ideia.

Minha ideia é de que o humor funciona apenas quando momentaneamente (o momento sublime da tirada, da piada, do dito) liberta o oprimido de sua condição, aliviando-o do fardo de viver. Não acredito no humor do coronel, do opressor se rindo de quem é oprimido ou de quem luta por ele. Isto pra mim não é humorismo. Talvez assassinato, extermínio.

“O humor deve visar à crítica, não à graça”, me ensinou o Chico Anysio.

E meio que dessa ideia não abro mão.

O livre pensar de Gentili não é pensar, nem livre

Meu respeito pela artista Laerte não poderia ser maior. Nos quadrinhos, que ela diz não mais fazer, e na charge, que ainda pratica, eis alguém que ampliou os sentidos e as ambiguidades, o pensamento e a intuição. Uma artista grande a ponto de ter mudado o panorama mental que rege o fazer no Brasil. Hoje são mais e mais os sofisticados desenhistas como ela, a alargar o que vemos. Graças à Laerte, talvez, hoje tenhamos Quintanilha, entre outros emocionantes narradores de síntese poética.

A Laerte célebre e opinativa, contudo, me atrai certamente menos. Eu que talvez tenha me tornado mulher há mais tempo que ela não me interesso por sua apreciação em torno de atos de agressores verbais e intelectuais de outras mulheres como nós. Sua terna defesa daquele Iavelar que usou a influência como professor para assediar e ameaçar alunas, e a maneira como ela transforma a injúria de Gentili em um ato de livre expressão, a seu ver perigosamente cerceado com a decretação da prisão, me fazem sentir uma tristeza teimosa.

Porque Gentili, no vídeo contra a Maria do Rosário, apenas replica em outro registro canalha o que anteriormente dissera Bolsonaro contra a parlamentar na Câmara, um ato infelizmente e absurdamente sem punição, pelo qual até hoje, como sociedade, pagamos. Gentili, segundo a Laerte afirmara antes, apenas morde e assopra, e é inofensivo como comediante.

Sim, como comediante é inofensivo, mas apenas porque não faz comédia. Aquilo que praticou contra a Rosário e outras (a mulher que amamenta, a parlamentar gorda) não é humor. As penas por agressões dessa natureza devem ser decididas pela justiça em instância democrática, e é uma pena que Gentili não tenha sido severamente inibido antes, ou jamais agiria como age hoje.

Não me coloco contra ou a favor da prisão, mas certamente a favor de uma responsabilização. Me sinto distante dessa atitude da Laerte contrária à decisão, e sua apreciação do caso apenas me pareceu perigosamente aparentada a um corporativismo.

Mas Laerte é mais que uma celebridade opinativa, felizmente. E lerei sempre seus livros, charges, histórias, tudo isto que a liberdade de pensar ainda me permite fazer.

Oh Shelley

Adoro Shelley Winters, amo Marilyn Monroe. Tão brilhantes, sábias atrizes.

Shelley conta nesta edição (https://youtu.be/cRvwjm3eq3g) que morou por um ano com Marilyn, aos 18, quando a diva ainda era Norma Jean. Uma jovem extremamente inteligente, ela conta, que não se sentia atraída por homens com menos de 50 anos, suas figuras paternas que substituíam a do pai.

Seu role model, por assim, tornou-se Shelley… E esta se culpa por não ter estado perto de Marilyn quando ela morreu (a atriz já havia tentado suicídio duas vezes; não tinha família; rompera com arthur miller; tinha 36 anos, mas os produtores queriam que ela tivesse para sempre 25.)

Shelley, que também foi bombshell, conta ter aceitado um conselho que salvou sua vida e sua carreira: aos 33, aceitou interpretar alguém 20 anos mais velha. E daí por diante teve trabalho sempre. Mas ninguém fez por Marilyn o que fizeram por ela. Sendo Marilyn uma intelectual, praticamente…

Shelley, que, ao contrário de Marilyn, adorava homens bonitos, casou-se com Vittorio Gassman. E trabalhou num filme importantíssimo de Monicelli, “Um burguês muito pequeno”, no qual interpretou a mulher de Alberto Sordi, afásica após a morte do filho e a crescente insanidade do marido… Claro, entre muitos outros personagens que interpretou.

Shelley é dez. Como não amar essa vida? E ela fala ofegante, como se tivesse muito a expor e expressar… E eu entendo esta parte…

pudor da história

só na biblioteca a gente pode mesmo respirar um consolo pra esse mundo ruim… borges, dos meus autores mais relidos, sempre tem algo a ensinar. deparo com este trecho de “o pudor da história” que eu não “enxergara”; é como se eu seguisse um procedimento que o escritor descreve aqui e do qual também, alguma vez, foi vítima; a gente precisa ler para entender, mas não somente, também para olhar o que antes não vimos:

“… desconfio que a história, a verdadeira história, tem mais pudor e que suas datas essenciais podem ser também, durante longo tempo, secretas. Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente pelo fato de ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos veem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre.”

Há algo que não terei visto hoje e que se passa secretamente diante de mim. Algo de bom. Preciso fechar os olhos pra ver?

A fenomenal e os dez mangos

Que pena.

Morreu a Mariza, que era mesmo fenomenal. Artista de primeira. Seu físico me lembrava o do Miles Davis nos anos finais, um “tô passando por aqui, nem aí pra vocês”.

Resolvia qualquer pepino que fosse preciso ilustrar no Caderno de Sábado, por exemplo, o suplemento semanal cultural que o JT extinguiu bem antes de dar um fim a si mesmo (tenho a impressão de que se foi tb por desprezar a cultura…). Ela sabia interpretar o fato e levá-lo além.

De vez em quando, vamos lá, quase sempre, pedia dez mangos pra quem estivesse perto e sumia com eles. Se eu tinha, dava, fazer o quê? Uma vez, o ilustrador principal do JT, me fugiu o nome, perguntou a ela antes de lhe emprestar, sorrindo: “Mas você devolve, né?”