Alma fake

Participei hoje de um debate na Unicamp.

Ouvi os professores do Instituto de Estudos Avançados que participaram do evento.

A fake news direcionada por robôs derrotou os marqueteiros políticos, eles concluíram.

E só um software livre nos salvaria agora ou no futuro do fascismo.

Um software que não filtrasse as notícias a seu bel prazer…

Esperança quanto a obter este software?

Não tenho nenhuma.

Tudo o que se sabe até agora sobre os adesistas de WhatsApp é que eles identificam as notícias apuradas, os textos com mais palavras do que um meme, com um malefício.

Não adianta tentar conversar com eles sob o princípio da notícia, exceto sob os moldes da falsificação!

Se tivéssemos prestado atenção a isto – à alma fake de nosso jornalismo que originou este inferno -, estaríamos jogando nas mesmas bases para derrotá-lo.

Ou não estaríamos?

Me parece que o fake não é um jogo que aceitemos jogar.

Não ainda.

Sciuscià

Vou dedicar o dia das crianças ao Éverton. Ele é este menino lindo de 15 anos. Achei que tivesse menos.

Vocês talvez vejam pela foto que ele segura um lanchinho e que entre suas pernas está o caixote de engraxate.

O lanchinho ele comeu hoje, porque me pediu. Eram 11h30, eu passava pela rua Pamplona e ele tinha fome. Não quis entrar comigo na lanchonete e comer lá mesmo.

Veio de Santo Amaro pra esta região de carona. Está tentando trabalhar como engraxate porque já fez isto outras vezes.

“Sciuscià!”, gritavam os órfãos aos soldados americanos durante a Segunda Guerra. Assim os meninos italianos compreendiam a palavra “shoeshine”, que significa “lustrar sapatos” em inglês. Com o tempo, “sciuscià” virou sinônimo de engraxate, como eternizou Vittorio de Sica em seu belo, duríssimo filme de 1946.

Éverton me respondeu que não o deixaram engraxar na Paulista. Parou às oito na Pamplona e, depois de três horas sem cliente, sentou-se no degrau do edifício. Perdeu um dia de aula inteiro, porque estuda sim, como me garantiu, na escola Oswaldo Aranha. E hoje não deu pra ir.

Tudo isto ele disse sem sorrir nenhuma vez. Menino articulado, soube falar e me ouvir.

Sugeri que de uma próxima vez fosse ao centro, já que há mais engraxates por lá, espalhados pelos calçadões. Ele não sabe onde é o centro. Ensino-lhe como fazer a partir do ponto em que estamos, caminhando, já que não pode pagar passagem.

Mas, claro, digo tudo isso encabulada, sem ouvir a mim mesma.

Pergunto-lhe se não acha melhor vir a esta região acompanhado. Diz que sim. É irmão do meio entre seis. A mãe não trabalha mais, porque tem um problema na mão. O pai abandonou a família. Eles podem perder a casa.

Tenho uma confiança no Éverton que não sei de onde vem. Do seu modo de falar sem rodear. Da roupinha puída que colocou com jeito. Dos olhos tristes que não temem, mas estão cansados.

Dou-lhe o dinheiro da minha carteira. Ele agradece sério.

Me despeço e viro o rosto pra ele não me ver chorar.

Vou subindo a rua, olho pra trás, faço um aceno com a mão. Ele não devolve o gesto, mas me dá um sorriso de ladinho.

Te desejo tempo, meu menino.

O sentido que faz

Um amigo traz este raciocínio. Se esperto for, o cujo nos primeiros meses vai dobrar as possibilidades aos pobres. E não matá-los de fome logo no começo. Seu projeto é familiar. Os filhos têm de continuar no poder por muitas dinastias. Quem vai sentir no começo é justamente a gente como você ou eu. Minimamente pensadores, artistas, intelectuais.

Faz um sentido terrível.

Afasia

Vejo amigos envolvidos na sincera tentativa, às vezes desesperada, de mostrar aos outros no facebook o perigo de seu voto indiferente ou anulado (porque com os bolsonaristas de face ninguém consegue mais falar).

Há quem sempre retruque a meus amigos alegando exageradas as suas preocupações. “Ah, mas você está assim porque é petista”, costumam dizer. “Use bem a palavra fascismo”, é outra alegação, “não serve”…

Meus amigos preocupados não são comunistas. Muitos até mesmo vilanizaram Dilma e Lula no passado. São apenas pessoas que leram e escreveram em sua vida, gente culta, gente que entendeu The Wall e bem mais.

Como dizer a eles e a nós que o que vemos surgir não é fascismo? É o fascismo sim, piorado ainda mais pelo entreguismo, porque nenhum destes novos fascistas é nacionalista. O cujo jura lealdade à bandeira americana, e esse é o seu fascismo colonizado de caricatura. Sua anatomia da destruição, acompanhada da informação distorcida e inventada (que havia fartamente antes), floresce agora nas redes sociais.

De resto, tudo bate com o conhecido. Um homem desarticulado que para as massas funciona bem. Que precisa delas, do espírito de conquista sempre acelerado, não importa a situação, para ser impulsionado. (A guerra é um componente vital para o fascismo.) Eu arriscaria Edir Macedo como um de seus goebbels. Hitler também não entendia patavina de economia.

Todas as agressões ocorrem para satisfazer esse ímpeto espetacularizado. Militantes fascistas esfaquearam e balearam quem quiseram, em qualquer hora do dia ou da noite, em milícias de todas as cores. Incendiaram casas, livros, jornais.

A legalidade no fascismo é pra gosto externo. Ela existe para o outro, não pra mim. E por isso, no fascismo, a justiça é aparelhada, enquanto na vida pratica-se a morte, a exclusão, o confinamento dos indesejados.

Cujo não quer o debate, mas o espetáculo tão bem-vindo aos nazistas. No Brasil, espetáculo chinfrim, mas ainda assim sob o necessário intento da militarização, aquela que favorece uma indústria internacional, enquanto destrói as reservas de minério do país e expande o tráfico, este que num primeiro espetacularizado ato neste ano matou Marielle.

O fascismo ilude igualmente ricos e pobres, como acontece aqui. Na Alemanha e na Itália enganou judeus, que no início o financiaram. Aqui engana igualmente judeus, mas, versão caricata, os negros pobres também sonham que os fascistas farão sua segurança.

Creio que meus amigos são heróicos em conversar com seus pares de classe média sobre fatos tão graves aos quais são indiferentes. Porque ela é o que é, desde a formação. A média que espalha a ideologia do mais forte, porque não tem mais nada senão o medo de perder o que considera sua proteção, sua fonte de riqueza.

Enfim, digo tudo isto agora depois de um pesadelo em que eu sofria de afasia e não podia retrucar…

Mas vamos seguindo, vamos sabendo.

J’accuse

Chama-se Fiscal de Táxi.

Diante do hipermercado Extra, é ele quem cuida da fila e encaminha as compras dos passageiros ao bagageiro dos motoristas.

Deve ter uns 58 anos.

Mas pode ser mais, 60.

Negro, alguns cabelos brancos.

Um homem sereno, naturalmente elegante, educado.

Foi bonito na juventude, me pego a imaginar.

Nunca sei que gorjeta dar a ele.

Toda contribuição me parece irrisória, como se ele a aceitasse por gentileza de caráter.

Hoje a fila está grande por conta do EleNão na Paulista.

Os táxis demoram a voltar.

De repente chega um, esbaforido.

“Muito movimento lá?” – pergunta o fiscal ao motorista, enquanto abre o bagageiro.

“Uma confusão!”

“Caramba.”

“Imagine isto. Descobri que o Haddad está usando o verde-amarelo.”

“Como assim?”

Riem-se.

Quase parto pra cima, lembrando que o verde-amarelo é meu também.

Mas não falo nada.

O estômago muda de lugar.

Nem quero pensar no que aconteceria se fosse minha vez de entrar naquele táxi.

Não sou de ferro.

Acuso vocês.

Trigais de imaginação

confesso que escrevo muito a pulso neste blog, movida por uma emoção qualquer do momento, afetividade, riso, dor. e não reviso direito, não construo muito o texto, porque imagino conversar com amigos.

e então estive pensando agora.

quando eu era muito jovem, não admitia o voto útil. o voto tinha de ser no que eu acreditava. eu havia passado tantos anos sem poder exercer esse direito que não conseguia aceitar eleger o menos pior.

vi o PT nascer como partido da classe trabalhadora numa época em que a única oposição massiva ao Brasil era feita pelo MDB, agremiação respeitada por meus amigos, mas que o tempo me fez constatar não atender a meus anseios de mudança.

como nunca tive medo de mudar, meu primeiro voto pra presidente foi pra Lula, com muita alegria. e nem entendi direito por que ele perdeu.

ele era meu espelho.

sou filha de classe média baixa, nascida num bairro paulistano que à época tinha conotação periférica. meu pai, artista cheio de ideais, perdia o emprego a toda hora.

não raro minha mãe, formada em farmácia mas impedida de trabalhar porque não tinha quem mais pudesse cuidar de nós, pedia à vizinha açúcar pra adoçar o café.

não possuíamos carro, telefone, tevê em cores, queijos amarelos, boneca susie. a bicicleta da família veio da rifa que minha tia ganhou. eu nem mesmo tinha um quarto. dormia no sofá da sala.

assim que seu patrão descobriu que minha mãe estava grávida de mim, demitiu-a. não havia lei para protegê-la. uma mulher não deveria vacilar. quando eu tinha doze anos, minha mãe passou num concurso público e a nossa situação mudou um pouco.

na minha infância, naquele bexiga ainda descendente de Alcântara Machado, eu experimentei outra periferia. a rua ainda era minha, gaetaninha. a gente brincava de esconde-esconde debaixo dos carros sem temer o perigo. é bem verdade que uma colega de escola foi morta pelo namorado PM, mas só alguns anos depois.

eu era muito feliz até a escola chegar. não percebia nossa pobreza. mas tivemos de estudar como bolsistas num colégio particular, porque o Caetano de Campos, público, nos recusou a vaga, e só então nosso despossuir o mundo ficou visível.

meu ímpeto de lutar começou nessa escola que não nos deixava frequentar a piscina nem com atestado médico, enquanto as crianças ricas – separadas de nós por um corredor humano de professores que nos proibia de ir à cantina (“pobre não tem dinheiro pra gastar em lanchonete”) – nadavam sem exame livremente.

sempre precisei contar com a ajuda de professores sensíveis a nossa causa. sempre lutei por nossa visibilidade. eles gostavam de mim porque eu era pobre e estudiosa, com energia pra compreender e pra reclamar.

ganhamos, com menos aulas que os estudantes do ensino pago, a primeira olimpíada de matemática da escola. (mas eu não era boa em matemática; tínhamos um gênio na turma).

a medalha nos trouxe benefícios. continuamos a ter menos carga horária que os ricos, mas a escola aceitou nos ensinar línguas (vínhamos proibidos de aprender inglês e alemão, ao contrário do que ocorria com os ricos, até a sétima série).

tantas restrições à igualdade construíram em mim um caráter lutador. “I’m a responder and a survivor”, disse Quincy Jones no documentário da netflix. uma frase ótima, que me explica em parte.

tudo isto resumidamente pra lhes dizer que vou resistir como puder a esse estado bárbaro, de negação ao que somos e representamos, e que lembra minha infância difícil (embora feliz). é uma maneira de ser que pertence a mim.

as mulheres brasileiras não merecem o que vivem. a ninguém deveria ser permitido estampar no rosto as cicatrizes da irracionalidade.

votei útil no candidato ao governo estadual que agora se recusa a apoiar a única oposição possível ao retrocesso. e estou bem chateada, porque, como disse a vocês, eu não era disso e concedi.

contudo, é o que o tempo nos faz. ele não nos traz sabedoria, como dizia o hemingway, mas espírito de cautela. é bom ocasionalmente exercer esse espírito, mas na maioria das vezes, constato, não tem serventia ser cauteloso. não adianta querer calcular o futuro, controlá-lo. o sistema trabalha direitinho pra si, mas principalmente pra si.

com relação ao governo do estado, penso apenas, neste momento: que se devorem os candidatos. há muito tempo vivemos politicamente sob sequestro. a briga é entre eles. vamos pensar pra frente.

porque eu sinto ainda ter uma bicicleta, que seja aquela da rifa, para percorrer assoviando os trigais imaginários, rindo deles.

Bufão de Deus

“São Francisco”, de Roberto Rossellini, é um dos mais belos filmes da história dos filmes.

A fotografia, a atuação dos franciscanos, o roteiro do diretor e de Fellini, a costura de episódios retirados das historietas medievais do santo e de dois outros de seus discípulos, comoventes ou engraçados, dão a medida da difícil simplicidade do diretor.

O título igualmente genial, e que nunca foi traduzido corretamente, é “Francesco, Giullare di Dio”, Francisco, Bufão de Deus. No Brasil, saiu “São Francisco, Arauto de Deus” e assim permanece desde 1950.

Hoje é dia do santo, certo? Não sou religiosa, então prefiro entender que hoje é dia de ser divertido, enquanto olhamos para o próximo com amor.

Aqui vai um link da obra-prima. Em italiano, com legendas em inglês.

https://youtu.be/AkFP0zl1oCQ

Todos por nós

Vejo o desânimo no rosto dos amigos e os compreendo.

Ninguém imaginou um dia ter de enfrentar o fascismo novamente, em sua faceta caricata e brutal.

E este foi o nosso problema.

Não demos relevo ao surgimento desta corja quando ela queimou as primeiras bandeiras e simplesmente roubou a nossa, nossa simbologia de país, roubou a nossa representação.

Este fascismo em nova modalidade, não nacionalista, como na origem, mas entreguista, demolidor de nossos próprios recursos, nós o entendemos mal nesse início.

Nós, os que estudamos e politizamos, não podíamos ter acreditado que, depois do golpe institucional que imaginávamos ter data de validade, tais grupos cresceriam a este ponto, apesar de o fascismo não ser uma novidade pra ninguém.

(Foi para Marx!)

Não dissemos #elenão antes.

Mas tínhamos de tê-lo feito agora.

Não somos culpados, na contramão destas tristes “análises a posteriori”, de termos nos insurgido pacífica e firmemente com o #elenão.

Nós o fizemos da maneira que conhecemos.

Aberta.

É a nossa maneira.

Não visitamos os esgotos pra fazer política.

Não nos tocamos que os mais baratos planos de telefonia móvel, hoje em dia, oferecem WhatsApp ilimitado, e que este é o canal para conversar sobre os temas sérios com quem não tem formação, dinheiro, internet, esperança.

Enquanto eles mandavam fakes para os aturdidos e consumidos, nós, pt, pdt, psol, rede, universidade, gente do bem, deveríamos tê-los alertado da maneira certa.

Devíamos ter propagandeado nossos ideais humanistas.

Mas vocês também compreendam uma coisa, por favor.

Estamos lidando com uma força internacional.

É ela quem quer se meter aqui e nos destituir como nação.

Quem paga Bolsonaro não são as vaquinhas de seus eleitores, embora eles possam fazer isso, como pelo jeito fizeram depois do atentado.

Quem paga Bolsonaro são os grupos religiosos que lidam com o tráfico internacional, as mineradoras que expulsam os índios, a indústria armamentista a favor dos ruralistas.

O mais arcaico dos capitalismos.

Se o bispo Edir Macedo quer, ele consegue uma força de coerção inimaginável contra nós.

Mas somos fortes também.

Nossas ideias não morrem.

Dizemos não.

Dizemos sim.

Temos o que dizer.

Sabemos dizer.

Não vamos deixar que digam por nós.

A estrela no meu uber

Não dirijo, vou de ônibus, uso metrô e ando muito (vocês percebem pelas fotos). Pouco frequentemente preciso de uber. Mas quando pego, aproveito.

Puxo pelas histórias e às vezes levo os tombos que eu mesma causei, surpresa por ter minha visão de mundo contrastada. Nunca, porém, me arrependo de abrir as portas. As histórias chegam até mim e sempre sou agradecida por elas. (Entendam que não gasto a palavra gratidão em muitos contextos.)

O motorista de hoje à tarde tem quase 40 anos e trabalha pelo aplicativo há cinco meses, desde que foi despedido do hotel Hyatt.

Por vinte anos Anderson atuou como cozinheiro no Fasano, no Rubayat. Só no Hyatt, trabalhou uma década. Começou a profissão lavando pratos. Não tem sotaque nordestino e sua pele leva a cor do branco brasileiro. Chegou a chef. Nos eventos teve de comandar estressantes equipes de até 40 pessoas.

– Muito tenso o trabalho na cozinha, não? Aquela gritaria.

– Senhora, não vejo assim. O Master Chef não é a realidade.

– Que bom! – respondo, embora nunca tenha assistido a um Master Chef.

– Na cozinha do hotel, eu mantinha a ordem. Eu dizia: se for pra brigar, é lá na rua. Não me interesso pela vida de vocês fora daqui. Porque, a senhora sabe, tem muita lâmina correndo naquele lugar.

– Nossa, sim.

– Só uma vez. O cara descobriu que o outro pegou sua mulher.

– Os três trabalhavam lá?

– Os três na cozinha.

– Meu deus.

– Levantaram as facas. Ela gritando. Todos demitidos.

Anderson ganhava sete mil reais de salário e fazia um total de dez se houvesse eventos.

Depois de três anos de espera, há cinco meses, a adoção ligou dizendo que sua filhinha de um ano e um mês havia chegado. Foi uma alegria.

– Olha ela aqui.

Menina de pele negra no collant cor de rosa, mais beleza não se dá.

– E então me demitiram logo depois de eu ter usado os três dias de direito pra ficar com ela, assim que chegou pra nós.

– Não…

– A senhora sabe o que foi isso, né?

– Acho que sei.

– Um racismo difícil de provar.

(Na hora só penso que a ferida naqueles olhos vai doer a vida inteira.)

– Me deram a rescisão, guardei uma parte do dinheiro, a escolinha dela custa mil reais por mês. Um pouco menos do que me ofereceram de salário no Buffet Colonial: dois mil e quinhentos. Preferi o táxi, ganho o mesmo trabalhando só umas horas da tarde. Um dia ainda vou fazer o que sei num negócio meu.

Eu já de lágrimas quando o carro chegou.

– Está tudo bem – soube dizer. – Fique forte pra proteger sua menina quando ela crescer. Você sabe que ela vai precisar.

– Obrigada, senhora. Sei sim.

Nunca havia recomendado um motorista ao uber antes, além da marcação das estrelinhas.