A visita da velha senhora

Nos anos 1980, apenas para visitar apartamentos em São Paulo com o objetivo de escolher qual deles alugaria, tive de mentir aos porteiros dizendo que era uma noiva prestes a casar, além de levar meu “noivo” às visitas.

Ninguém alugava apê decente para as solteiras.

Nas redações, por essa época, era quase certo que quem lhe desse carona de noite, após o trabalho, tivesse intenções adormecidas.

A gente não podia fazer muito a respeito então, exceto driblar os zagueiros, como uma Sofia Loren nas comédias. Ou procurar a justiça masculina, sem chance de gritar “me too”.

O mundo andou, mas o preconceito ainda constitui uma praga, amizades. Se você é jovem, como a Manuela D’Ávila, querem lhe calar, porque não deve saber mesmo o que diz… E se você não é jovem, como eu, nem conservadora politicamente, como seria de esperar, acham que você não entende do que fala, porque envelheceu.

Vocês não imaginam o machismo que sofri para editar cultura em nosso jornalismo, sempre caçada por meninos famintos, conservadores ou não. E o “ageísmo” é mesmo aquele de que falou Madonna num discurso. As mulheres frequentemente o praticam contra mulheres. Passe dos cinquenta anos pra ver.

Li que 104 países ainda proíbem por lei a mulher de realizar certas atividades (como levantar mais de 20 quilos, no Brasil) e achei bem normal, pra ser sincera.

Queria era ler uma pesquisa como essa em torno de mulheres com a coragem de envelhecer publicamente enquanto lutam no mercado de trabalho. Mas pelo jeito ninguém ainda se ligou de que esse é um assunto a considerar.

Auf Wiedersehen

Vocês são chatos e desinformados.

Temos um Philippe Coutinho extraordinário no time.

Um Paulinho que faz gol memorável, mas não comemora nem sorri.

Um Thiago Luiz sem choro desde o desastre de 2014.

O mesmo Thiago declarou hoje, em entrevista oficial à Fifa na saída do campo, que seu mestre (Tite, imagino) lhe disse que ele ainda precisa aprender a sofrer.

Vocês têm a acne do goleiro hipster de olhos claros.

Vocês podem pronunciar o melhor nome de jogador brasileiro em muitos anos, Ca-se-mi-ro, um menino criado exclusivamente pela mãe, como é, em grande parte, a educação dos meninos do futebol no Brasil.

Vocês possuem histórias em cascatas, hipérboles e anedotas.

Mas vocês acabam sempre em gifs de Neymar rolando em campo até a Patagônia.

Que coisa mais velha, mais John Travolta em meme de Pulp Fiction!

Criadores, de que servem suas criações?

Vocês não perceberam ainda?

Vou ser obrigada a lhes explicar até isso?

Não tem nada de novo no rolinho do Neymar, camaradas!

FUTEBOL É ENROLAÇÃO!

Contanto que o goleiro fique no gol…

Auf Wiedersehen!

A praça dos enforcados

Vi pouco o Roda Viva com a Manuela D’Ávila. Não sei dizer se foi mal ou bem. Pelo que entendi, ela fez o que pôde. Foi irônica e sorridente contra a cavalaria.

Acho que não é possível sair bem daquele círculo, especialmente se o entrevistado for ponderado e tiver firmeza em suas boas convicções, como parece ser o caso da candidata.

Não gosto do programa, construído como armadilha: o entrevistado deve falar rápido, é constantemente interrompido e não dispõe de tempo para responder a contento as perguntas pré-formuladas de jornalistas e “filósofos” (quem é o barbudo, gente? um novo mbl?). Tudo fica dito pela metade.

Eu vejo constrangimento nos jornalistas dos veículos de direita que fazem suas perguntas não ao candidato, mas de modo a assegurar os próprios empregos, reprodutores que são do pensamento patronal. Vejo que suas perguntas, que têm a intenção de desestabilizar a solidez do entrevistado, usualmente não dispõem de armas limpas (informação) para proceder a esse desmonte. São perguntas que seu chefe, ou patrão, espera que façam. Eles precisam formulá-las, nem que seja por graça. São pagos para tal.

Vejo o Otavinho plantado na cabeça daquela jornalista da Folha. Vejo um mediador sempre sorridente, temeroso e com a corda no pescoço, a cuidar da própria retaguarda, porque responderá certamente ao tucanato depois do jogo e se sair da linha terá o cargo ameaçado.

(Uma vez o secretário de cultura João Sayad me contou que José Serra, então governador, pegara no seu pé por conta de uma pergunta feita inadvertidamente por Eliane Catanhêde ao Gilmar Mendes, a única a deixá-lo desconfortável naquele Roda Viva; podem acreditar, a Catanhêde presenteou o povo cheiroso com uma ínfima liberdade de pensar, e nunca mais, como sabemos, repetiu a ousadia).

Como a Manuela iria conseguir falar alguma coisa que prestasse numa situação assim? Ela sabe debater, mas ninguém ali espera por um debate. É um jogo de aparências. No Roda Viva, só funciona quem quebra as paredes, não faz o prometido, desrespeita o tempo de resposta, dá trabalho ao mediador. Manuela me parece cheia de vivacidade, mas muito educada para o rito.

E falo do que sei: já estive entrevistando no Roda Viva de 25 anos atrás. Escrevi as perguntas em um pedaço de papel e os dois entrevistadores ao meu lado, à esquerda e à direita, ROUBARAM minhas questões, precipitando-se diante da câmera antes que eu educadamente tivesse permissão de falar, dada pelo mediador Jorge Escosteguy. E no final os graúdos embusteiros ainda se explicaram a mim, na saída do estúdio: “Acontece assim mesmo, não tivemos tempo pra preparar perguntas e isto aqui é tevê.”

Não vou dizer quem são os tipos, mas provavelmente alguns de vocês os considerem críticos de valor, jornalistas sérios ou até pensadores. O que penso de jornalistas que roubam minhas ideias é… deixa pra lá.

Sugiro que mudem o nome do programa para pelourinho, corda no pescoço, praça dos enforcados. Tais expressões fazem mais jus simbólico ao que o Roda Viva realmente é.

Libertem sansão

A piada do cabelo deu o que tinha de dar

Sou uma curiosa do futebol. Na infância joguei no gol apenas por ser maior em altura que muitos meninos. Uma colega habilidosa, mais baixa que eu, encarava o ataque. Naquele tempo não vivenciávamos o jogo entre as mulheres e participávamos ocasionalmente das partidas dos garotos. Então, como forma de compensar a falta de bola no pé, dávamos tudo no handebol, onde éramos permitidas. Apesar disso, joguei botão com meu irmão e seus amigos. Mais que o álbum de figurinhas, o botão me trouxe a história do futebol. Um fã de Leônidas, meu pai foi o primeiro a me contar o passado do esporte no Brasil.

Vai daí que desde menina sei o que é vaidade de jogador. Jamais conheci um deles que evitasse se apresentar bem apessoado. Exceto alguns de pele branca, talvez, que em campo podiam se dar o luxo de chegar de cara lavada. Bellini, por exemplo, tinha os lábios torneados, o cabelo num quase topete natural, a pele clara, a ascendência europeia, a perfeita ossatura do rosto. Não dependia de mais nada para se estabelecer. Heleno de Freitas precisava dar mais duro, e orgulhava-se disso. Uma brilhantina e tanto naqueles cabelos. A elegância como um mandamento.

Quando retornou de uma temporada americana, nos anos 1960, Paulo Cézar Lima virou Paulo Cézar Caju. Sim, ele pintava de cor caju a cabeleira black em homenagem aos Panteras Negras. Junior também adotou o black power por longo tempo. Os bigodes eram fartos em Toninho Cerezo. A cabeleira solta de Falcão representava irresistível encanto para as mulheres. Sócrates também tinha cabelão e barba dos quais não arredava pé. A prática dos cabelos era muito importante para eles. E afirmativa, inusual em relação ao que ocorrera uma geração antes, quando os curtos de Pelé vigoraram. Ir ao cabeleireiro sempre existiu em futebol.

Sócrates compôs a gloriosa seleção de 1982, que perdeu para uma Itália mais eficiente em campo. E não me lembro de ninguém culpar o cabelo de Sócrates pela derrota. O Brasil perdeu, me disse certa vez o treinador de goleiros Valdir de Morais, porque o Batista, que deveria preencher a lateral, machucou-se. E porque, acrescentou, aquele não era mesmo o dia de ganhar. “A gente ouvia as moscas voando sobre nós depois do jogo”, me disse, entre outras coisas que talvez um dia eu coloque neste blog.

Parece idiota falar sobre isso porque, se a gente pensar em sucesso nesse esporte, jamais ligará o cabelo a ele.

Às vezes tenho vontade de dizer a meus amigos de facebook: deixem o cabelo do Neymar fora disso. Todo mundo cuida do seu, certo? E estamos quites. Os chargistas andam mal-humorados e repetitivos. Têm ódio de Neymar por motivos engraçados. E repetem a piada capilar não como catarse, sentido do humor, mas como uma espécie de vingança coletiva. Essa catexia, contrária à catarse, como ensina Elias Thomé Saliba, não nos libera nem alivia. Nos deixa sem graça, isso sim. É energia demais direcionada a um ponto só.

Se vocês frequentassem salões de beleza, saberiam que neles a gente relaxa um bocado. Enquanto usufruímos de cuidados, meditamos sobre a vida. Os salões podem até funcionar como salas de terapia. Contudo, enquanto os cabeleireiros existem para quase todos nós, os terapeutas são ocasionais.

Neymar vai ao cabeleireiro e por isso não joga o esperado?

Não consigo entender esta explicação cartunística.

O que se sabe é que, machucado, ele não pode treinar mais. Seu técnico avalia suas possibilidades no time. Tite é quem deve mandar. E não está nem aí para o penteado que ele usa, até onde eu sei.

Sendo um craque raro e igualmente rentável para empresa de seu pai, Neymar tampouco pode desprezar jogar uma copa do mundo, mesmo que sua condição física esteja distante da ideal. Estou quase certa de que ele não está roubando do treino pra cuidar do cabelo. Neymar cai? Cai bastante e é caçado em idêntica proporção. Neymar fala palavrão, propagandeia lingerie e cerveja? Até isto vi contar contra ele em um texto postado no facebook. Por fim, há quem diga que Neymar é feio, o que para mim não se sustenta, exceto por um gosto muito pessoal de observador, quiçá simples preconceito.

O futebol tornou-se um negócio imperativo. Neymar é estrela desse business que joga com muita sede. Mas não me prendo a isto para considerar seu futebol. E não é isso o que lamento nele enquanto figura pública. O que me entristece em Neymar é que se encontre cercado de mimos e ignorância, sonegue a receita e apoie o candidato que prometer livrá-lo do fisco pra sempre. Me parece lamentável o cárcere de conhecimento em que ele vive. Mas mesmo um encarcerado poderá jogar futebol na prisão. Aposto que um dia, quando tudo tiver fim, Neymar sentirá o que perdeu.

Não tem mais bobo no futebol

Na sala de espera do consultório do oftalmo, o senhor vestido de terno diz à senhora elegante, na mesma faixa etária dos 70, sentada a seu lado:

– Já que seus olhos estão ruins mesmo, eu te levo pra casa e vc não vai saber se está na sua casa ou na minha.

Ela se vira.

– Mas que cantada mais antiga! Isto nem pode ser chamado de paquera! E vamos logo ao jogo, porque esta pode ser a última copa do Iniesta.

Um defeito de cor

Sei lá, gente.

Os penteados dos brasileiros de origem negra sempre foram importantes para o futebol.

Não só penteados, maquiagem também.

Pó de arroz vem disso: alguns jogadores brasileiros maquiavam a cor da pele pra ser aceitos pela sociedade racista e violenta que prestigiava os jogos.

Ou seja, faziam-no para simplesmente sobreviver.

Porque, pasmem, nem sempre os brasileiros negros foram autorizados a jogar nos campos profissionais.

O Vasco furou o bloqueio nos anos 1920 e se deu bem.

Era preciso então exercer um certo disfarce se você fosse negro e se sentisse apto ao futebol no Brasil.

Quando o faziam, no início, os jogadores também batalhavam pelo direito a comer o café da manhã (pão com manteiga e café com leite) todo dia no clube.

Ainda assim, a torcida jamais perdoaria seus mínimos erros.

Barbosa, o goleiro negro de 1950, pagou em vida pela derrota contra o Uruguai, embora não tivesse sido o responsável por ela.

Pelé se irritava quando o chamavam de chiclete de onça. Mas eis como ele era: um insulto desses o fazia pensar ainda mais rápido que os outros.

Quando ostenta seu yakisoba na cabeça, então, o Neymar não esconde de onde veio.

Ele age como seus predecessores, que botavam banha pra alisar os cabelos e se ver livres desta, digamos, marcação social.

Com os cabelos assentados, sentiam-se dignos de pisar em campo, quase brancos a pairar sobre as diferenças…

Um deles até destacou que fora negro “antes”.

Hoje, nossa calopsita de frente leva dois cabeleireiros pro mundial.

É uma afirmação de poder, talvez inconsciente, contra as marcas de uma escravidão prolongada. Mas Neymar e Ronaldo Fenômeno agem como se não se dessem conta do sofrimento de seus pais. Nem devem achar que “foram negros antes”.

Isto talvez porque o futebol seja aquela escada rápida, praticamente um elevador, contra a invisibilidade. E o talento tenha colocado esses dois num atalho rápido para as adulações.

Problema deles, infelizmente.

Tudo isto pra dizer que, segundo entendo, o jogador tem direito de fazer o que quiser com sua cabeleira.

Não censuro penteados nem me emociono com as charges sobre o mesmo tema.

Alguns cabelos do futebol são mais que lindos!

Os do Maldini, os do Afonsinho…

Em campo, todos sabemos que não necessariamente a adoção de um luminoso capacete prussiano fará qualquer jogador ganhar a guerra contra os franceses.

Quem dera pudéssemos entender uma coisa de uma vez por todas.

Futebol é menos gel que batalha, menos lágrimas que sangue.

A velha camisa branca da paz

Não adianta brigar com o futebol, moçada.

Ele é nossa representação de brasileiros.

A representação do abandono, de um povo que, mesmo invisível, esquecido pelas mediações institucionais, dribla o jogador corpulento e de repente marca um gol.

O futebol é mais forte do que nós.

Sugiro aprender com ele e com a copa, à moda do que vocês vivem me dizendo aprender com os santos e as religiões.

Não perdemos de 7 a 1 à toa em 2014, como sabem.

Perdemos porque tínhamos muito a perder.

Pessoalmente, não me oponho à copa porque desejo saber o que ela nos dirá agora.

E embora a considere uma espécie de oráculo, jamais usaria o amarelo neste momento para assistir a um jogo da seleção.

O amarelo, que evoca a diarreia na história brasileira, não é a cor original de nossa camisa.

É a branca mesmo.

A velha camisa branca da paz.

Na praia dos abutres

Jornalistas. Teria tanto a contar sobre eles. Amei de cara Balzac porque os entendeu muito especialmente. O crítico loiro de ilusões perdidas, por exemplo, encontrei em todas as redações que frequentei…

Teria tanto a contar, mas não conto. Talvez nem mesmo em romance à clef, tão praticado pelos narcisistas que, claro, acham-se mais que jornalistas.

(Você já se imaginou por aí entregando as estrelas de suas próprias profissões? Nunca, né? Além disso, no caso do jornalismo, algo que nem existe mais, que interesse poderia haver nessas histórias? Humorístico? Sou péssima pra contar piadas.)

Às vezes, contudo, dou com a língua nos dentes e me arrependo instantaneamente de ter atingido o ídolo de alguém. Fico toda “bem, mas calma, ele tem ótimas qualidades”…

Meu parceiro do coração para essas histórias era o maior gênio que conheci no jornalismo: o Renato Pompeu. Até hoje me lembro de seu sorriso de criança quando eu aparecia com uma nova. Uma honra para mim se pensarmos que ele sabia tão mais do que eu em qualquer campo.

Renatão morreu, não tenho com quem conversar sobre esses assuntos, mas me lembrei de um minidiálogo que travei com um sujeito na redação certa feita. O Renato me daria um sorrisinho pra esta. A história exemplifica quão despreparada eu sempre estive para entender o patrão.

O chefe me pergunta:

“Você conhece quem cubra bem o mercado de luxo, Rosane?”

E eu:

“Luxo? Em que sentido?”

Eu realmente não achava que luxo fosse assunto pro jornalismo, exceto como denúncia ou por gozação. Mas eis que tal “segmento de consumo”, que poderia incluir “vinhos”, havia se tornado, sem que eu percebesse, tão importante para os patrões quanto “família real” ou “turfe”. Se eu quisesse editar “cultura”, então, não poderia me negar a tratar dessa prioridade.

O que me leva, não sei bem por quê, a um episódio ocorrido quando o Renato Pompeu e eu trabalhávamos no Jornal da Tarde.

O Renato vê entrar pela redação o então célebre jornalista Miguel de Almeida ao lado de um sujeito de óculos escuros, vestido com casaco de couro. Me cutuca:

– O Miguel de Almeida anda de guarda-costas, agora?

Eu olho e solto uma gargalhada que dura até hoje.

– É o Ivald Granato, Renato! O artista plástico!

E o Renato:

– Quem?