Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!

Angela Davis, o julgamento, o documentário

Eu confesso que não sabia muita coisa sobre este julgamento até terminar de assistir, agora, ao documentário “Libertem Angela Davis”, de Shola Lynch (2012).

Na verdade, muito sobre a filósofa era de meu total desconhecimento, razão pela qual, ao ver o filme, me arrepiei diante da altivez da personagem, sua serenidade e beleza, não menos importantes que a consciência política em seu coração.

Talvez não seja exagero dizer que o sopro de resistência desta intelectual se estende a nossas vidas depois de presenciarmos, no filme, suas palavras calmas e a ação decidida por justiça.

Assistam!

Está em cartaz de graça no streaming do Sesc Digital, não sei até quando.

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

Humor com humor se paga, Will Smith

Amanhã será engraçado o que hoje foi triste.

Então riremos muito dessa atitude melancólica do Will Smith, que, no Oscar deste ano, socou o apresentador Chris Rock porque fez uma piada sobre sua mulher.

Uma piada fraca, é verdade, francamente estúpida, mas que não matou ninguém. O humor não nasceu pra matar, razão pela qual é desproporcional a agressão física para responder à piada de alguém. A única maneira justa de responder à piada ruim é com uma piada melhor.

Will Smith nasceu da comédia televisiva, onde é preciso improvisar. Mas naquele momento, tocado pelo sofrimento da mulher, esqueceu-se como faz. Ou estava bem alterado. De toda forma, é um grande ator ou não é? Parece que sim. E a cerimônia do Oscar é trabalho, exige improvisação. George Clooney, que surgiu para a fama como galã numa série de tevê sobre um pronto-socorro, é bem mais rápido neste quesito, e melhor.

A agressão do Will Smith, francamente, pareceu-me coisa que vi muito no nordeste brasileiro, onde o macho vai tomar satisfação quando um engraçadinho faz pouco de sua mulher, sua propriedade.

Deixasse Jada, ela própria, responder à piada ruim, certo?

Ou respondesse ele depois, com o Oscar na mão.

Cena roubada

Achei triste quando no passado não só o Ivo Pitanguy como o Zé Sarney entraram na ABL. E quando chegou a vez do Paulo Coelho, pra mim tudo aquilo virou grêmio escolar, onde personalidades do espectro político, ora reaças de verdade, ora neoliberais da arte, revezam-se para ocupar o lugar dos grandes escritores, estes que já vinham fora do clube e fora permanecerão.

Não vi o discurso da Fernanda nem vou ver. Bastou que eu soubesse que usou seu poder para declarar seu não-voto à presidência, o que não fez sentido pra mim. Declara-se o voto quando se tem um ou não se declara nada, certo? Como personalidade, você tem um peso, exerce influência. Sem contar que estamos afundados neste Brasil. Entrar para a eternidade das artes assim talvez não tenha sido o melhor pra ela, mas que sei eu?

Eis uma atriz de respeito, uma dama de excelências, claro, soberba em “A Falecida”, embora capturada em algumas situações, por um Othon Bastos, por exemplo, que, sem dizer palavra, roubou a cena ao contracenar com ela em “Central do Brasil”. Fernanda deve sempre levar outros atores a querer superá-la, e isto deve ser uma coisa maravilhosa, tenho certeza.

O risco

Me retratei nesta imagem há dois anos e poucos meses, antes de uma conversa que fiz a pedido do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, sobre a obra da fotógrafa estadunidense Susan Meiselas.

Eu estava mais do que feliz naquele dia com o convite para falar ao público ao vivo, ademais no solo do museu que pra mim é um fundamento. Mas me sentia apreensiva também.

As conversas na biblioteca do IMS, eu percebia, não situavam muito o assunto fotografia como eu o via, antes se centravam nos temas desenvolvidos por seus realizadores – e quando o assunto é fotojornalismo, como no caso desta grande profissional, talvez não se pudesse nem devesse fugir deste enfoque, pois o assunto e seu viés dizem tudo sobre a grandeza política, a ética de um autor.

Ainda assim, me pus a falar sobre o que fazia sentido pra mim, não somente sobre a atividade de strippers nas caravanas daqueles anos 1970 que Meiselas acompanhou, mas também sobre a luz, as escolhas de um fotógrafo, o que o ampara, linhas, prontidão, sua formação visual, a construção de seu olhar.

Eu talvez não erre ao dizer que a conversa foi um sucesso, já que o público maravilhoso (muitos homens e mulheres da vida comum, velhos, jovens, alguns lindos amigos e a turma do educativo do museu, tão nova) estava aberto a ela, até ansioso por ouvir meus pensamentos, entender minha leitura da fotografia, influenciada que é, entre outras, pela obra e pela genialidade do fotógrafo-pensador paulistano Carlos Moreira.

E então, logo em seguida a este evento, veio a pandemia e anulou minha sensação de que eu poderia levar adiante meu intento, o de promover a modesta organização de um curso sobre a ação das mulheres artistas na fotografia, bem antes e bem depois de Meiselas. O IMS não me chamou para refletir sobre isto, até porque passou a haver uma onda de estudos acadêmicos sobre o assunto, e meu “orientador” (mais que isso, pai, irmão, amigo), apesar de ter sido um professor exímio na Escola de Comunicações e Artes da USP, não escreveu livros, não provou sua tese aos pares acadêmicos e muitos fotógrafos brasileiros ignoram o grande artista que ele foi.

É claro que, diante da derrocada de tudo, pensei em fazer algo por mim mesma, ainda mais em meio a esses tempos que provaram a serventia disciplinar do zoom, mas ainda não consegui. Não apenas porque me alimenta o calor das presenças físicas, mas porque não sei empreender negócios em meu nome como deveria saber. Ainda espero levar isso pra frente, contudo, assim como espero organizar um minicurso para os amigos interessados na comédia italiana, esta que foi tema do meu doutorado na História da USP.

Eu sou um pouco distante dos modos presentes de fazer as coisas, talvez não tenha a proatividade exigida, como eles dizem, mas sei que isto, mais que um problema, é uma circunstância que um dia chegarei a remover como quem estende as roupas no varal ou prepara a mesa pra comer.

Além do mais, a vida é esse risco todo mesmo, esse perigo que a gente sabe quem detectou, e não há como viver sem resistir.

A redescoberta da morte, por Kenzaburo Oe

Neste texto que escrevi originalmente para o Estadão, descrevo a obra “A Substituição ou As Regras do Tagame”, em que o romancista japonês dialoga com a ausência

Kenzaburo Oe em foto de 2002

Nascido na pequena ilha japonesa de Shikoku, em 1935, o autor do romance “A Substituição ou As Regras do Tagame” passou a maior parte da infância imerso no ambiente hostil provocado pela guerra contra os aliados, certo de que, conforme lhe ensinou um professor, a figura imperial equivalia à de um deus pelo qual valeria a pena morrer. Kenzaburo Oe era uma criança circundada pela imaginação, mas, em lugar dos livros, preferia o modo contagiante pelo qual a avó lhe transmitia as histórias da tradição familiar. O pai morreu ao combater no Pacífico em 1944 e a mãe logo apresentou ao filho “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain, um clássico de predileção paterna. Ao ler a obra, o menino maravilhou-se com a literatura em papel, mas jamais pôde confessar aos professores sua admiração por um autor dos Estados Unidos, país contra o qual o Japão lutava. E foi assim que, nas suas conversas escolares, Twain virou alemão.

Se a guerra transforma a verdade em primeira vítima, não apenas o garoto mentira a seus mestres sobre a nacionalidade do autor estadunidense, como o imperador, ao contradizer publicamente a figura divinizada, fizera pouco caso da crença que os fieis lhe devotaram. A guerra acabou para Kenzaburo Oe não somente quando duas bombas atômicas foram jogadas contra seus compatriotas, mas quando o líder do país, ao aceitar a derrota, permitiu que os Estados Unidos ocupassem seu terreno. 

Antes de completar 30 anos, em 1961, Oe era já um escritor reconhecido que não temia discorrer livremente sobre assuntos como o assassinato, no ano anterior, de um político socialista por um estudante de extrema direita para quem o imperador representava deus. “Seventeen” (incluído no volume “14 Contos de Kenzaburo Oe”, editado no Brasil pela Companhia das Letras) desagradou aos dois lados do espectro ideológico japonês, ora acusado de zombar do legado imperial, ora de glorificar um terrorista.

Até aquele momento, o escritor, que estudou literatura francesa na Universidade de Tóquio e se apaixonou por Rabelais, definia-se como um existencialista, advogando as causas que sempre o acompanhariam, como o antimilitarismo, o pacifismo e o combate ao ultranacionalismo. Não só admirava Jean-Paul Sartre como, pertencente a uma família de jornalistas, chegou a entrevistá-lo.

No início dos anos 1960, com a
esposa e o filho que tudo mudou

Em 1963, contudo, todo o apego às causas universais arrefeceu nele. A literatura e principalmente a vida seriam outras após o nascimento do primeiro filho com a esposa Yukari. Vítima de um problema neurológico que dificultava sua comunicação com o mundo, Hikari, nome que em japonês designa Luz, fez o escritor pensar em ser um homem muito melhor, de modo a acompanhá-lo também por meio da literatura. Assim como descrevera em ensaio as chagas de Hiroshima, agora passaria a fazer do filho, de quem cuidaria por toda a vida, seu interesse central, numa autoficção permanentemente temperada pela realidade.

Dito assim, pode parecer que sua escrita de nobres propósitos tenha resvalado para um tédio engajado, mas nada poderia estar mais distante desta suposição. O artista que faz das pessoas próximas, personagens, inventando-lhes novos nomes e modificando episódios reais, aplica encanto filosófico à história de superação familiar sem deixar de propor que os caminhos para esta cura se estendam a toda a sociedade.

A academia sueca que designa o Nobel entendeu o seu recado e lhe entregou o máximo prêmio literário – “por criar um mundo imaginário onde a vida e o mito se condensam para formar uma imagem desconcertante da situação humana atual” – em 1994, seis anos antes que este “A Substituição ou As regras do Tagame” fosse publicado.

O cineasta Jûzô Itami, autor de “Tampopo: Os Brutos também Comem Spaghetti”, que vira Goro neste romance a examinar seu suicídio

A escritura do livro tem uma razão central, que é o suicídio em 1997 de seu cunhado cineasta Jûzô Itami, intitulado Goro no romance (enquanto Kenzaburo Oe vira Kogito, em referência explícita a Descartes, de “penso, logo existo”, ou “cogito, ergo sum”). Por meio de Goro, Itami, que foi roteirista e diretor do filme “Tampopo: os Brutos também comem spaghetti” (1985), torna-se um personagem intenso. Kogito o acompanha desde a escola, muito admirado por seu porte, beleza, talento, pelas coisas que lhe diz e faz. Goro pensa transformar em filme um episódio narrado por Kogito, mas, antes que isto possa ser ao menos planejado, o cunhado, embriagado de conhaque Hennessy, joga-se da janela de um prédio sem uma razão aparente.

O suicídio do amigo o leva a pensar não em seu fim, antes em sua permanência, como uma alma que jamais percebe a morte, mantendo uma existência ingênua por meio das fitas que gravara antes do fim e que Kogito ouve em fones de ouvido com o formato de um besouro chamado Tagame. É com o Tagame, agora entendido como todo o aparelho de reprodução sonora, que o narrador conversa, respondendo a Goro mesmo em sua ausência, ou por causa dela.

O romance é tecido a partir de uma escrita direta e corre entre o bom humor e a tragédia, enquanto Kenzaburo Oe analisa com deliciosa derrisão a si mesmo e aos fatos, aos personagens, às situações vividas em ambiente literário, político, erótico, corporativo, com ou sem a violência dos yakuzas que certa vez atentaram contra a vida de Goro. Uma qualidade narrativa, quem sabe, herdada do jeito particular de sua avó ao contar histórias.

Ex-ator, o cunhado é a febre japonesa por excelência, mas seu cinema o afasta a cada dia do sucesso, já que ele se esmera em planos longos e evita os close-ups, a seu ver erroneamente direcionadores da sensibilidade de quem olha. Tampouco Goro quer realizar o cinema usual, responsável por retratar o homem invencível, pois, argumenta, ao verem esse tipo de heróis, os espectadores se esquecem da própria fragilidade. Além do mais, é preciso operar a substituição a que o título do livro alude, e em todos os campos, da vida à arte. 

Os novos heróis desejados por este romance são as pessoas periféricas e partidas, à moda do filho do protagonista, Akari, um personagem de extrema sensibilidade musical e argúcia emotiva, características estas que excedem o romance, uma vez que no mundo real o rebento de Oe se transformou em um dos compositores eruditos mais famosos do Japão. Akari constitui o estranho contraponto de bom senso à intensidade do próprio Kogito, que de Descartes, no fim das contas, tem pouco, a ponto de lidar mal com a morte da tartaruga destinada a seu jantar, numa passagem eletrizante do romance. É preciso então que o bom senso esteja a cargo do filho e principalmente da esposa, Chikashi, a irmã de Goro que sustenta a dignidade familiar.

Trata-se de um romance sobre o tempo ou sobre a morte? Para Kogito, a questão nem existe, já que o tempo buscado pelo escritor francês Marcel Proust, tão referencial para ele, equivale mesmo a sua percepção de que passará. Em lugar de “O Tempo Redescoberto”, o livro do escritor francês deveria se chamar “A Morte Redescoberta”, entende Kogito numa epifania, pois “a morte é o tempo!” 

Quem leu Proust vai entender Kenzaburo Oe, mas deparará em suas linhas com alguma coisa mais contemporânea, que é a urgência de transpor (outra forma de substituir) os velhos preceitos político-sociais por uma mentalidade rejuvenescida, capaz de salvar o futuro do ser humano sobre a Terra. A forma do romance, muito original, evoca a reinvenção operada justamente por Proust. Estamos diante de uma narrativa que se desfolha aos poucos, quase desordenadamente, emendando as situações onde não as imaginaríamos unidas. Tal literatura é principalmente, ou continuamente, uma reflexão sobre a arte literária. “O que” e “como escrever”, diz o narrador, são duas trepadeiras entrelaçadas. E o ato de escrever se constitui em ir aos poucos desembaraçando-as.

para furar nossos olhos

Eu me lembro que, jovem, não morria de amores por homem bonito, não. Nem queria saber. E nem eles, é verdade, queriam saber de mim. Homem bonito não servia pra nada, enrolado em si.

A gente chamava os meninos de Alain Delon pra sacanear, especialmente quando eram feios e se achavam, ainda por cima.

Cresci e me amedrontei de Delon porque não era um ator deste mundo. Sem medo algum. A câmera que se virasse em segui-lo. Não se submetia a nada, furava nossos olhos de espectadores e seguia na maior calma.

Valerio Zurlini o chamou pra trabalhar com ele naquele monumento que foi “A Primeira Noite de Tranquilidade”, queria estar com seu aparato de arte pra discutir o papel, jantar e almoçar, e qual o quê. Delon ia dormir.

E depois, como todo homem bonito demais, varou as mulheres sem qualquer preocupação, até prometendo amor. Romy Schneider, Mireille Darc, Norma Bengell, vixe! E talvez se apaixonasse mesmo por elas por muitos segundos intensos. Com Monica Vitti, eram dois moleques em cena, uma entre mil razões pelas quais acho a Vitti um caso tão especial, pra não dizer sozinho.

Pra mim, Delon é um italiano de alma, e dos brabos. Com a imensa vantagem de não ser um italiano de verdade, com todo o meu perdão aos italianos, eu que sou neta de um Danielle que conquistou minha vó Guilhermina lá dos Açores justo por ser, no entendimento dela, um veneziano bonitão.

Eu tive amigos capazes de delonizar o coração da gente não por serem bonitos como ele, mas por nos arrastarem até seus olhos, mesmo em situações inglórias, sei lá, debaixo de um erro colossal como o Minhocão. Homem bonito é uma qualidade interior. Encontro bonitos todos os dias na rua e meu facebook está cheio deles. Mas são sacanas, ousados diante desta vida miserável que vivemos, como o Delon foi?

Então, adoro falar dele como amo gastar algum minuto a pensar em Sidney Poitier, Geraldo del Rey, Paul Newman, homens tão maravilhosos do cinema. Tenho certeza de que se tornaram bem mais interessantes quando envelheceram, sabedores. Ninguém mora com alegria nos palácios do passado, a menos que desista do encantamento da vida, como Delon desistiu.

só um pouco mais, delon

sim, Delon, você tem razão quando diz que envelhecer é uma merda e que tem o direito de escolher, por meio da eutanásia, o momento de partir.

certeza que não chegarei a seus 86 anos e que se tivesse sido você nesta vida muito teria lamentado a perda do meu rosto magnífico, da minha sabedoria nascida nos arrabaldes, do meu olhar sem fim.

desejo-lhe o melhor processo para que sua tristeza atual acabe, mas por meu egoísmo, por reconhecimento de seu imenso talento e de sua presença na arte e no sonho, desejo também que fique entre nós e que possamos ouvi-lo ainda um pouco mais.