A viagem ideológica, por Beatriz Sarlo

A ensaísta argentina Beatriz Sarlo, morta agora aos 82 anos, concedeu-me esta entrevista em agosto de 2015, na qual advogou o “turismo iluminista”, responsável, segundo ela, por mesclar o conhecimento à experiência

A intelectual argentina Beatriz Sarlo
a caminho das minas de Oruro, em 1971

Beatriz Sarlo havia grudado o mapa de Viena na cabeça antes de conhecer a Áustria. Eis por que, se lhe pedissem, seria capaz de desenhar sobre um guardanapo as ruas em torno da Michaelerplatz. Ler era tão importante quanto viver, e o ensaio Viena fin-de-siècle: Política e Cultura, de Carl Schorske, havia lhe dado as pistas para todos os monumentos de um sonho de liberdade. As estações de metrô, os prédios de apartamentos, os bancos e os pavilhões desenhados em dura geometria pelo arquiteto Otto Wagner a arrebatavam. Haveria um lugar especial para sua catedral de São Leopoldo, a oscilar entre o ocre e o púrpura, quando finalmente conhecesse a cidade. Foi o que ela fez em 1995. Dentro do monumento de religiosidade, em um fim de tarde de outubro, subiu e desceu escadas. Mas não se deu conta de que o horário de fechamento se aproximava, tanto quanto um homem de avental e touca azuis, a lhe tocar o ombro por trás.

A maior ensaísta e intelectual argentina da atualidade, a mesma que em 1978 fundara a revista Punto de Vista e por meio de suas questões culturais, sob pseudônimo, driblara a censura ditatorial, esquecera-se de que São Leopoldo pertencia a um hospital psiquiátrico. O homem de azul, portanto, era um interno, um excluído que desejava aproximar-se. Tão logo o desconhecido se aproximou, contudo, Sarlo correu na direção das grades e ganhou a rua, à maneira do que fez o interno em direção oposta. Isto reafirmou, nela, uma crença importante. O imprevisto se impunha. A viagem era o que não se podia explicar. Senão, como interpretar aquela breve e intensa experiência física capaz de suplantar a beleza dos vitrais de Kolo Moser? Por muitos anos, a professora havia sido uma falsa especialista em Viena, ela não compreendera nada. 

Aos 73 anos, Beatriz Sarlo ainda exalta este momento como seu enigma de uma vida inteira. E, impulsionada por ele, reinventa a juventude de seus fantasmas do passado. A narrativa vienense é o preâmbulo a seu Viagens – Da Amazônia às Malvinas (e-book e-galáxia, 300 págs., R$16,90), um livro escrito com falsa simplicidade, mas investigativo de uma complexa identidade latino-americana, esta que ela investigou a fundo a partir da década de 1960, em viagens anuais de dois meses nas quais enfrentou os altiplanos ou o planalto central do Brasil. Tudo o que vivera em momentos esparsos, o decorrer do tempo tratou de ampliar. “Não poderia argumentar que esses relatos são testemunhos neutros”, escreveu. “Não se tratam simplesmente de recordações, mas de formas nas quais a experiência me modificou a cada momento.”

Uma complexa identidade latino-americana, belamente discutida neste e-book da e-galáxia

Sarlo conta que se decidiu por este livro depois de receber um “encargo” de dois amigos. O primeiro deles, arquiteto, fora um de seus tantos companheiros nessas viagens de juventude, ansioso por retraçá-las. Ela nunca estivera só por esses caminhos e, segundo sua argumentação, formara com os colegas um grande coletivo, razão pela qual, posteriormente, não daria seus nomes no livro, incomodada em assumir sua perspectiva, em “falar pelos mortos”. O amigo lhe mandara, oito anos atrás, cerca de 150 fotografias daquele período, e em tantas delas Sarlo não conseguira se reconhecer. “Quem era aquela menina que, em meio às montanhas do sítio arqueológico de Samaipata, na Bolívia, apoiava-se numa construção de cimento vestida com uma camisa branca?”, perguntava-se.

O outro “encargo” para a escritura deste livro lhe foi feito por uma amiga, que lhe inquirira sobre outra viagem ao passado, à Amazônia peruana, e lhe indicara um livro de Philippe Descola em torno do assunto, As lanças do crepúsculo. Nele, o antropólogo francês discorria sobre seu conhecimento do lado equatoriano da mesma região. Aparentemente, Sarlo e seu grupo foram os raros visitantes, na porção peruana, da comunidade indígena dos jíbaros. O livro tornou-se, deste modo, quase inevitável por seu ineditismo, pela possibilidade que ela viu, ali, de valorizar uma investida exploratória passada, sem, contudo, embriagar-se de nostalgia. 

Parecia-lhe motivador que pudesse de certa forma reviver, por meio de seu trabalho, a escrita do ativista e presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) sobre a América, comparável à de Alexis de Tocqueville. Ou que reeditasse a seu modo a primorosa narrativa de Victoria Ocampo (1890-1979), uma intelectual que, como Sarlo, realizara inúmeras viagens por Buenos Aires, Paris ou Nova York, e como ela se dedicara a difundir o pensamento cultural em uma revista, no seu caso, a Sur. Isto tudo sem contar que, pelo louco desconforto de suas empreitadas, Sarlo relacionasse as próprias viagens com as absurdas investidas do escritor Robert Louis Stevenson (1850-1894) pelas savanas do Quênia, sobre uma mula.

O livro, ela conta, começou por este grande desconhecido, para o qual não havia reunido anotações suficientes à época da viagem, quase cinco décadas antes. Na sua juventude, para ela e seu grupo, funcionava mais a “metafísica da presença”, uma crença misteriosa de que, apenas por estarem onde poucos estiveram, teria lhes sido possível vivenciar uma outra história, sonegada pela oficial. Seus muitos anos de estudo acadêmico e viagens como aquela à Áustria reforçaram a crença de que era preciso somar o saber das bibliotecas àquilo presenciado pelo viajante. No livro, Beatriz Sarlo reinventa-se na busca desse oxigênio mental do século XVIII europeu e constrói viagens que classifica como ideológicas, fundadas não apenas em guias ou mapas, mas em livros de história e política, manifestos e periódicos. 

“Confrontar o conhecimento com a vivência é uma proposta periódica feita à humanidade, ou pelo menos ao Ocidente inteiro”, ela diz. “Durante o Iluminismo, pensou-se que o momento da compreensão intelectual era fundamental para a compreensão da experiência. Mas convenhamos que, embora isto ainda me atraia particularmente, é impossível de ser feito hoje. As escolas globalizadas não educam massivamente para a vida, como no século que passou. Em meu país, nos anos 1920, a escola distribuía cultura, mas agora, não mais, porque essa distribuição cultural é feita de maneira globalizada, incontrolável. O maior hit televisivo no meu país, neste momento, não é A Escrava Isaura, mas uma telenovela turca.”

 Suas viagens são radicais. Em lugar do turismo de consumo e prazeres, advoga o imprevisto e os sobressaltos como a grande importância de viajar. Algo semelhante ao que fez nas Malvinas em 2013 durante a votação do plebiscito pela soberania em relação ao governo inglês. Sarlo se hospedou na casa de uma família radicalmente contrária à determinação argentina sobre a ilha e acompanhou de que modo esses habitantes optaram pela segurança militar britânica. Em uma ocasião, uma criança da família tolheu seu intuito de acompanhá-la até a escola, onde o diretor restringiu a visita da educadora argentina à sala da diretoria. 

Veio ao Brasil na esperança de aqui encontrar modernidade, ainda que capitaneada pelo Estado. Brasília anunciava o futuro, embora seu presente estivesse fincado sobre desigualdades “bestiais”, essas que ela não testemunhara no próprio país. Havia uma enorme diferença entre a Praça de Maio, em Buenos Aires, e a Praça dos Três Poderes. “Sua beleza nos deixou pasmos enquanto caminhávamos de um extremo ao outro pelas esplanadas”, escreve. “A diferença era que estava deserta. Seu simbolismo se originava na potência do gesto arquitetônico e construtivo, na confiança da política fundacional, não nas camadas de passado que ainda não haviam tido tempo de se depositar sobre aquelas superfícies perfeitas. Na Praça dos Três Poderes, a decisão de um Estado e o gênio de Oscar Niemeyer haviam substituído a história que é a grande arquiteta das outras praças latino-americanas.”

Tão viajado

Coisas que só eu ouço por aí.

Estou no vestiário do Sesc quando duas senhoras se põem a conversar.

– A gente nunca sabe o que vai ser.

– Nunca.

– Viu aquele repórter? Não está bem.

– Qual?

– Aquele feio, que fazia muita entrevista… Kubrusly?

– Ah, sim, Mauricio Kubrusly. Passou no Fantástico tem duas semanas, já.

– Puxa. E a mulher com ele! Quem imagina que vai acontecer uma coisa dessas com um homem assim…

– Pois é.

– … tão viajado!

    Para quem precisa

    Hoje acordei de um sonho explosivo. Pessoas do mal me metiam num jogo de morte, mas, de forma miraculosa, eu conhecia as regras e sobrevivia a seus ataques. Acordei suada, sentindo um alívio tremendo.

    Fui ver que horas eram. Na tela do celular, abriu-se a manchete: a palavra “Lula” estava unida à expressão “hemorragia cerebral”. Por pouco não fui eu também a espalhar sangue pela cabeça. Vivo sobressaltada. Aposto que todos nós.

    Dois cafés depois do sonho, desço à rua e deparo com quatro PMs numa ponta da praça vizinha. Ao lado de suas motocicletas estacionadas, olhavam os celulares. É uma tradição. A puliça faz ponto na avenida mas não coíbe assaltos. Certa vez, à noite, apelamos para que uns soldados, igualmente estacionados ao lado de suas viaturas, respondessem ao apelo de um ciclista que presenciara roubo de celulares na vizinhança. A resposta dos policiais: “Não podemos sair daqui e deixar os carros sozinhos.”

    Antigamente, pela manhã, eles se exibiam naquela ponta da praça ao lado de seus cavalos, deixando a bosta dos bichinhos para alguém limpar. Hoje, os quatro policiais motoqueiros ali presentes tinham, como sempre, uniformes e tênis novos. Olhei para suas motos estacionadas e vi a marca: BMW, meu povo.

    Entendo que se exibam com motos desse porte para demonstrar força. E intimidar. Na noite em que apareceu o filme do jovem arremessado da ponte, as viaturas zuniam pra lá e pra cá. Eles parecem estar sempre no cio. Ainda bem que o tombo de Lula não teve consequências piores e que meu inconsciente parece convencido de que eu sei jogar.

    Eu não sei

    Sabes de uma coisa?

    De nada sabemos.

    A saca de sal nos olha indiferente, à espera de que a dividamos e liberemos suas pedras em água pura.

    No duro isolamento, com sorte, somos sóis.

    E os cristais desagregam-se antes de passar por nossas mãos.

    Enfrento os demônios do ódio

    Bebendo com carinho perpétuo

    As gotas de ternura que a beleza oferta.

    Me tomas pela dura arrogância e pequenez que vês em mim,
    Não por quem realmente sou.

    O choro no banho é minha imensidão delicada.

    Minha fraqueza de amor.

    Renad, meu sonho

    Nunca vi a chef Renad, de 10 anos, chorar diante da câmera. Ela sorri até mesmo quando nos explica que os israelenses não têm outro plano exceto extingui-la e aos seus. Não conheço ninguém igual e a amo como a palestina percebida por mim como uma filha, uma neta, uma prima, uma irmã ou eu mesma. Aqui, ela abre uma caixa de produtos básicos de limpeza como se fossem tesouros, que de fato o são diante do sufocamento cotidiano sentido (por ela e por nós) como um genocídio. Que ela consiga ainda estar aqui por muitos anos, estudar, florescer, amar e sentir o cheiro da hortelã pelas manhãs.

    Chiclete de Boulos

    Visto-me de vermelho e roxo, coloco o adesivo “Boulos 50, Machistas não Passarão” e ando tranquila pelos noias miseráveis sob o viaduto, até minha zona eleitoral e literal. Um homem de 50 anos, que se parece com um garçom, me diz: “Força aí”. Outro de mesma faixa etária, com cara de quem lê, exclama ao passar bem perto, quando eu nem o havia notado: “É isso!”

    Chego confiante à seção, que está completamente vazia, sem filas. Os mesários parecem felizes ao me ver paramentada. Pergunto-lhes se esse é o nível de comparecimento até agora. Ele diz encabulado “não sei como está la fora” e ela, sorrindo: “Parece que hoje eles estão com preguicinha”.

    Me dá uma tristeza lembrar que estamos tão fudidos. Como assim, preguiça? Andei cinco mil passos pra votar. Tô ansiosa de não dormir ao pensar que O Amigo da Onça prepara um coronel para ocupar a secretaria de Educação e agradar ao Minto. Como assim, preguicinha, com estas ruas imundas e essa gente do corote falando sozinha?

    Volto pra casa em longo caminho e um homem de uns 60 me para, perguntando se votei direito. Sim, votei direito, meu querido. Me pede dinheiro pra comer, não tenho, dou-lhe barra de chocolate. “Ah, chocolate, ainda bem que não é do seu chiclete. Sugiro que a senhora não chupe, porque isso engana seu estômago, o ácido úrico pensa que a senhora está digerindo e fura seu estômago causando úlcera ou coisa pior, gastrite ou morte…” Eu mereço: “Úrico, meu querido? Não será clorídrico? Só faltava isso na minha vida, morrer de chiclete.” E ele: “Ah é, clorídrico! Mas, olha, a senhora tá parecida com a Marta Suplicy!”

    Eu mereço, né? Úlcera, gastrite ou morte?

    Capitães de abril

    A Revolução dos Cravos por quem a fez e foi esquecido, segundo relata a diretora Maria de Medeiros em “Capitães de Abril”, presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

    Capitão Maia, representado por
    Stefano Accorsi: mais um herói esquecido

    Muitos brasileiros talvez ignorem que a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, aquela responsável por libertar os portugueses de uma ditadura de 41 anos, foi militar. Como assim, militares bons!? Mais ainda, talvez não desconfiem que integrantes subalternos do Exército português fizeram essa revolução – para no fim serem invisibilizados e esquecidos hierarquicamente por seus generais.

    “Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, explica esse processo de maneira iniludível. Ela é uma intelectual como muitos de seus posteriores não conseguiriam ser. Seu senso de popularidade hollywoodiana (trabalhou em “Pulp Fiction”, entre outros feitos) ajudou-lhe a erigir um monumento histórico português que não prescindiu do humor. Os heróis da revolução retratados em “Capitães de abril” foram substituídos, no calor dos fatos, por militares de alta patente. Morreram jovens ou muito doentes. O fato de Medeiros tê-los ressuscitado para o cinema a coloca no prumo heróico. Sim, Maria é poder.

    Capitão do bem versus general do mal

    Filha de um pianista, irmã de duas mulheres artistas, ela fez aqui a proeza de filmar todos os heróis em closes de ação. Não são portugueses, contudo, os atores escolhidos para encenar a proeza: Stefano Accorsi, nascido em Bolonha, faz o capitão Maia. O capitão Manuel (Frédéric Pierrot) nasceu na França e Lobão (Fele Martínez), na Espanha. Contudo, há um acento português nos seus intentos puros. Filmada de perto, a “malta” de Medeiros é um trunfo historiográfico e um acerto artístico. 

    A diretora Maria de Medeiros

    Sessão no Frei Caneca System 6 (às 19h15 do dia 28)

    Permanência em lugar nenhum

    O filme de Tsai Ming-Liang presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo discorre sobre um princípio do cinema, o movimento

    Por Washington DC, o caminhar lento
    do ator Lee-Khang Sheng,
    presente em todos os filmes do
    cineasta desde os anos 1980

    Meu querido, admirável amigo Wesley Pereira de Castro, o único crítico de cinema que acompanho, me disse sobre “Permanência em lugar nenhum” que era desafiador, porém bom. Wesley, contudo, disse sentir falta do que o diretor Tsai Ming-Liang, da Malásia, fazia antes de iniciar, cerca de uma década atrás, a série de filmes sobre as andanças do monge Xuanzang, da dinastia Tang.

    As pedras não são obstáculos

    Interpretado por Lee-Khang Sheng, presente desde os anos 1980 em todos os filmes de Ming-Liang, o andarilho de pés descalços e cabeça raspada usa um manto vermelho para percorrer o mundo. E o filme capta seu andar em meio à paisagem, sempre muito lento. Com os braços em suspensão, ele inclina o corpo levemente para trás e coloca primeiro o calcanhar, depois o restante de um pé no chão; o outro pé faz o mesmo movimento e o corpo se inclina para frente de maneira que a passada seja concluída. 

    Um pé de cada vez

    Não conhecia o diretor, portanto não sei o que fazia antes dela série “Walker”. Mas este filme não me pareceu difícil de ver, até pelo contrário. Ao fundo e ao redor, enquanto Xuanzang caminha, está Washington DC, o obelisco tanto quanto a estação de trem, entre outras paisagens amplas. Ninguém o interrompe, às vezes nem o percebe, exceto alguns turistas que param para fotografar. Os dias podem ter sol ou garoa, pode haver piscinas de água ou regatos com pedras a transpor, e o monge estará sempre a caminhar do mesmo jeito. O filme é isso, sem música exceto no final, mantendo o barulho original do lugar – às vezes pessoas falam e os passarinhos cantam, às vezes é a chuva que cai.

    Olhando para as coisas

    De maneira paralela, há o forasteiro interpretado por Anong Houngheuangsy a conhecer a cidade, olhando seus interiores e preparando seu miojo. Onde os dois se encontram? É um filme bem editado, em diferentes planos longos entre si, com fotografia solar. Um filme sobre o movimento, princípio do cinema. Um filme-meditação.

    O diretor Tsai Ming-Liang

    Sessões no Cine Sato (18h do dia 26) e no Cinesesc (16h50 do dia 28)

    A cozinha

    Estava na hora de a chatice dar o ar da graça na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 

    Rooney Mara, loira desejada, e Raúl Briones,
    mexicano sangue quente:
    os estereótipos fazem a festa

    “A cozinha” não é um filme sobre cozinha. Duro dizer isso, mas não é. Em alguns momentos, enquanto assistia a minha sessão no Reserva Cultural, um cinema do Jardins paulistano, me perguntava por que o diretor mexicano Alonso Ruizpalacios, de 46 anos, não havia usado seu terceiro longa para cair matando sobre o gosto culinário decadentista do burguês. Ettore Scola já havia dado a dica em “Hostaria!”, maravilhoso episódio do filme “Os Novos Monstros” (1977) onde tudo acaba… em farinha. Mas assim não foi.

    Ruizpalacios trabalhou o roteiro a partir de uma peça de Arnold Wesker que desconheço. Preferiu, em lugar de falar sobre cozinha, fazer um filme sobre cozinheiros. Partidos de todas as nacionalidades subjugadas – marroquina, mexicana, preta do Brooklyn – a restar emparedadas na Estátua da Liberdade, que os renegou às estações de comida de um restaurante fast food, eles não têm histórias no filme, mas estereótipos. Os mexicanos são esquentados, machistas como convém. O patrão sádico é o senhor Rashid. E a estadunidense do filme, a garçonete loira disputada por todos os homens, interpretada por Rooney Mara, pede a seu amante, o cozinheiro Pedro (Raúl Briones), que fale com ela eroticamente em espanhol. Foi a parte do filme que me fez rir.

    Overreacting. Todo mundo se inerva demais, grita demais, fala demais, colocando as entranhas (hum) para fora quando menos se espera. Não há clímax. Não há ritmo. Tudo é pequeno e já é muito. Um gesto bruto corresponde a uma tragada intensa, que vai resultar num prato quebrado, seguido de uma cuspida no chão, uma estante de alumínio amassada com soco e o bater das mãos acoplado a uma risada mortal (um detalhe é que Rooney Mara vem a ser a esposa de Joaquín Phoenix, bastante conhecido por seu papel como Coringa).

    Há também o famoso aborto traumático, não assimilado pelo latino que quer ser pai e pela grávida que sangra no pós-clínica. Mas é melhor eu não me estender nas objeções. Na sessão a que compareci, os espectadores aplaudiram ao final. Porém, me pergunto de que adianta filmar para não fluir. Um filme que não pensa nos encadeamentos nem nas falas, em que os atores trabalham cada um por si e em que a fotografia, a maioria em PB (fica azul numa sequência no frigorífico), parece filtro, não arquitetura. Fazer um filme chato pra quê?

    O diretor Alonzo Ruizpalacios

    Sessão no Espaço Augusta 1 (21h10 do dia 29)

    Através do fluxo

    Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor Hong Sang Soo borra os limites entre narrativa, autoderrisão e blague

    A mesa, o vinho, a conversa, as intenções escondidas

    Se você nunca assistiu a um filme do coreano Hong Sang Soo, talvez se pergunte, após a sessão de seu novo longa, “Através do fluxo”, se foi cinema exatamente o que viu. Sua dúvida talvez não seja solitária. Aos 64 anos, Hong Sang Soo pode concordar com você.

    Seus princípios de elaboração da história são seus fins. E quem age assim no cinema? Esboços preparados a partir de improvisos dentro de seus sets, que sempre parecem incorporar um banco diante de uma paisagem da natureza, à qual os personagens dão as costas, ou uma mesa onde os amigos compartilham soju ou vinho (eventualmente uma enguia grelhada, como neste filme), e assim formam situações e personagens.

    São filmes, este também, que teimam em copiar o tempo real. Este é o primeiro fluxo. Eles fluem bem, nos divertimos com os diálogos nos quais há autoderrisão. Frequentemente, depois de algum tempo, a câmera decide se movimentar para o lado, como se não tivesse entendido bem a cena, ou faz um zoom abrupto, amador, e nessa brincadeira, nessa gramática que parece errada, mas é uma gramática, de repente o filme acaba. Para quem acompanha seus filmes, os fins abruptos são esperados e sabidos.

    Os personagens hesitam como na vida, ensaiando o que realmente querem dizer. Polidos, contudo enganadores, dispostos a esconder um trunfo, os personagens de Hong Sang Soo, interpretados com frequência pelos mesmos atores em diferentes filmes (mas sempre o mesmo filme), conversam, bebem e fumam antes de entregar a que vieram, seus pensamentos e intenções. 

    O professor que pegou suas alunas, e Kim Min-hee

    O segundo fluxo, no caso deste novo longa, refere-se ao córrego próximo a uma universidade feminina sul-coreana (ah, a Coreia) onde o filme se passa. O professor que preparava uma peça de teatro com suas alunas havia se relacionado amorosamente com três delas em diferentes ocasiões no espaço de um mês, causando estupor e, como decorrência, sua expulsão da instituição.

    Em razão dessa falta, a professora e artista têxtil Jeo-nim (interpretada por Kim Min-hee, a esposa do diretor, muito presente em seus filmes) decide chamar o tio, dramaturgo famoso cuja carreira foi enterrada, para encenar uma peça inteira em dez dias com estudantes amadoras. Um importante festival acontecerá e a universidade precisará comparecer com uma apresentação.

    O tio é interpretado por Kwon Hae-hyo, que sempre faz um tipo de alterego em seus filmes: veterano bem reputado no campo das artes, ele não se sente seguro sobre seu ofício e frequentemente se envolve amorosamente com as mulheres com quem trabalha.

    À beira do córrego, um esboço

    O córrego faz sentido. Pode ser entendido como uma metáfora sexual (a corredeira do amor) ou como o fluxo do inconsciente dos personagens, sempre desejoso de ser revelado.

    Hong Sang Soo é um blagueur, um tirador de sarro, um artista inspirado nos filmes de Robert Bresson. Mesmo sem entender o que ele pretende, um espectador pode divertir-se ao tentar.

    O diretor Hong Sang Soo

    Sessões no Cinesystem Frei Caneca 2 (19h30 do dia 26) e n Instituto Moreira Salles (20h15 do dia 30)