A tríade emotiva

Na foto em que Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Federico Fellini aparecem juntos, um Monte Rushmore do cinema se descortina

Tenho algo a comentar sobre esta foto, cujo autor infelizmente desconheço, na qual Vittorio De Sica (1901-1974), Roberto Rossellini (1906-1977) e Federico Fellini (1920-1993) estão reunidos.

Acho a imagem estonteante por muitas razões. A principal entre elas, para além da ausência de mulheres diretoras (sendo que a aurora do cinema dramático foi feminina, também na Itália), é o fato de que De Sica seja a figura referencial entre os três.

Fala-se muito em Rossellini e Fellini como pais fundadores de um novo cinema de autor, mas quem dá ainda hoje a De Sica algum reconhecimento nesse campo?

Claro que isto nem sempre aconteceu assim…

Embora tendo sido o criador do cinema moderno, um diretor de onde tudo partiu, até hoje insuperável como talento individual, Rossellini olha para De Sica como quem tem a aprender. Com muito amor, eu diria.

De Sica era bem maior que Rossellini, ao menos como personalidade célebre, na época simultânea em que os dois surgiram como diretores de primeira ordem de longas-metragens ficcionais. De Sica havia atuado no teatro e sido galã das primeiras comédias realistas do cinema italiano, com Mario Camerini. E Rossellini, que jamais havia adentrado esse seu mundo, respeitava o ideário social e a naturalidade da atuação deste homem, a quem chamou para protagonista em “Generale della Rovere” (De Crápula a Herói, 1959).

Nada que De Sica tivesse feito (e ele na vida precisou driblar até mesmo Goebbels, que o queria cineasta na Alemanha, e nesse processo o diretor salvou muitos profissionais condenados do cinema, algo que posso comentar aqui depois) era menor para Rossellini.

Por sua vez, Rossellini teve um diretor-assistente chamado Fellini que, embora fosse sua aposta de futuro, um dia o decepcionou. Essa mania de Fellini de comentar tudo sob uma perspectiva pessoal de criança impressionável não agradava Rossellini, assim como era detestada por Mario Monicelli, seu discípulo torto na commedia all’italiana…

Então, para voltar à foto, De Sica era amado por Rossellini, que no entanto a essa altura tinha dificuldades com Fellini, uma figura auto-alijada da vasta busca neorrealista (e neste sentido Rossellini seria um pouco como Freud e Fellini, como seu discípulo Jung).

Fellini olha De Sica protegendo-se ou não? Além disso, De Sica um dia disse não a Fellini, que no filme “Os Boas Vidas” (I Vitelloni, 1953) o queria no papel de um diretor de teatro homossexual…

Não é demais imaginar tudo isto resumido numa fotografia?
O registro de um monte Rushmore, no entanto cheio de sutilezas e farpas não visíveis, mas, ainda assim, perceptíveis?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s