Um filme sobre Ken?

Digamos que a indicação ao Oscar de Ryan Gosling como melhor ator por “Barbie” está de bom tamanho, já que o filme constrói a jornada do personagem por ele representado rumo à aceitação

“Barbie”, de Greta Gerwig, me pareceu evocar “Mulheres perfeitas” (The Stepford Wives), o ótimo filme de Frank Oz. São rosas plásticas muito semelhantes por toda parte naquele filme de 20 anos atrás, responsável por encenar uma revolução de mulheres. A diferença é que, sem fazer publicidade de produto, o longa de Oz ousou tornar os personagens masculinos vilões malsucedidos em mecanizar suas esposas. “Barbie”, pelo contrário, transformou Ken em herói, construindo sua jornada rumo à aceitação.

Alguém disse pelo Instagram que, apesar de ter sido aplaudido por seu alegado feminismo, Barbie levou o patriarcado de Hollywood a indicar Ken (o ator Ryan Gosling), não Barbie (a atriz Margot Robbie), ao Oscar. E eu penso que agiram logicamente. No fim das contas, é um filme sobre Ken.

Não sei se a Robbie, igualmente produtora do empreendimento bilionário, tem razões pra reclamar, tamanho o número de indicações que o filme recebeu. Ok, Greta Gerwig não foi levada em consideração, mas quando a gente constata que Frank Oz, tampouco, a menção a Ken fica de bom tamanho. Por fim, o que Robbie e Gerwig dizem sobre o massacre de mulheres em Gaza, só pra saber?

Não atiram pra matar

Assim via Millôr Fernandes os humoristas, célebres nos stand-up atuais de língua inglesa e mestres do gênero no Brasil passado

Stand-up comedy.

Gosto muito.

Especialmente quando é um maestro quem faz.

Espero bastante desse regente de rosto maleável, elástico como o de um Totò (ou, sendo isso impossível, na direção dele), pontuando a história ao microfone com o ritmo do olhar, das mãos e dos passos no palco, perfeito condutor de uma orquestra invisível.

Amava Zé Vasconcellos e Chico Anysio nessa função. Que infância eu tive! Esses humoristas brasileiros, tão bem-sucedidos no teatro e no disco, contavam casos alucinantes na tevê para os pobres feito eu, às vezes sem o auditório para medir o alcance de seus voos. Eram perfeitos ao exercer o ritmo do absurdo, mirando nos comportamentos durante a fala, cientes de que no verdadeiro humor a crítica é o centro, o pequeno esmaga o grande, o mais fraco vence o mais forte e o oprimido destrói o opressor.

Em entrevista, já bem doente, Chico Anysio me disse que o stand-up brasileiro começou no rádio. E que começou justamente com eles dois, grandes escritores da expressão humorística. Os deslocamentos de sentido, que eram produzidos por esses humoristas no rádio segundo o ritmo da voz, passaram a ganhar a corporalidade quando a tevê chegou.

Zé Vasconcellos, um nocaute no sentido comum

Zé Vasconcellos fazia a história enrolar-se juntamente com os lábios aflorados. Seu embeiçamento vinha acompanhado da barriga projetada pra frente, representando indignação, até que – pimba! – os olhos se esbugalhavam num desfecho impiedoso, que deixava seus personagens, já enrolados, no chão. Era como um Patolino eletrificado, que nocauteava e invertia o senso comum pra nos fazer rir.

Chico Anysio, cientista do humor

Chico Anysio, não. Parecia tão mais calmo. Boa voz. Encanado, filosófico, sério. Um cientista do humor. Enquanto descrevia imbróglios inacreditáveis, em certo ponto da narrativa punha a língua pra fora, de lado, como se se esmerasse nos aspectos miúdos dos personagens atrapalhados. Seu tipo predileto era o malandro brasileiro da coisa pequena, metido nas causas maiores do que si mesmo – lançar um foguete, por exemplo. A perplexidade resultante do humor, em Chico Anysio, nascia dele mesmo, de sua ascendência nordestina, da escassez vivida na infância, da vontade de se provar melhor.

Adoro esse stand-up brasileiro do “causo”, do personagem enraizado. E amo aquele um dia feito nos Estados Unidos por George Carlin e Richard Pryor, cuja crítica sem rodeios contra as instituições, o governo, a classe média e o racismo feriam como faca as consciências bem pagas, cristãs e supremacistas do americano médio.

Me cansa um pouco, contudo, o stand-up atual do estadunidense ou do inglês, celebrados por rirem da vida moderna. Mas é isso o que realmente fazem? Não sei dizer. Me parece haver mais “eu” do que “nós” em tudo o que ensaiam criticar. De todo modo, assisto ao que me oferecem esses célebres apenas por nostalgia das sinfonias da infância. A Netflix parece lotada deles, é só escolher.

Dave Chappelle está lá. O mais bem-sucedido humorista stand-up, espécie evolutiva de Eddie Murphy, ele repete o espanto do preto estadunidense diante da alegada frescura dos brancos, esses que podem ser transexuais sem que a polícia bata neles até matar.

Em “Sonhador”, Chappelle é impiedoso com os trans porque os vê como brancos esnobes. Um bando de frescos à moda de Jim Carey, que um dia teve a oportunidade de conhecer no estúdio de cinema. Mas Carey não foi Carey ao conversar com ele! O ator treinava para ser Andy Kaufman até nos bastidores, falando e reagindo com Chappelle como se fosse o humorista Andy. E onde estava o Jim Carey que ele esperava encontrar, então?

Segundo o raciocínio de Chappelle, um trans é como Carey – um ator, não a pessoa de verdade que ele gostaria de conhecer. No último especial que vi, caiu matando em cima deles, como de uso, mas também distribuiu porrada em outros públicos. Causticou os milionários mortos no submarino em visita ao Titanic e até mesmo os deficientes físicos – no caso, um parlamentar republicano branco, de cadeira de rodas. Estará tão errado assim?

Acho que Chappelle é o melhor escritor de stand-up da atualidade. Muito preciso. Tudo o que diz tem a duração certa e ficamos ligados até o fim. Sou grande o suficiente para entender o que diz, ele que um dia recusou milhões do show business e se retirou dos palcos de modo a se manter fiel a si mesmo.

E o que Chappelle diz é que todos os aspectos da branquitude nos Estados Unidos giram em torno do privilégio. Milionário, trans, político, todo branco dos Estados Unidos merece que lhe passemos o rodo. Talvez por isso ele tire alguns pretos da jogada. Por exemplo, quando se refere ao tapa de Will Smith em Chris Rock, Chappelle diz que entende as razões dos dois, algoz e vítima. Mas que, para seu gosto, algum amigo de Chris Rock deveria tê-lo vingado ali mesmo, no palco, e não deixado Smith ficar na cerimônia até o fim. Errado de novo? A meu ver, aí sim seria show.

Chappelle é um bom maestro. Não um Richard Pryor, mas um dos bons.

Ricky Gervais, agora em Armageddon: pedido torto de desculpas

Me impacientei mesmo foi com o Ricky Gervais desta vez. Amo este humorista, mas descurti o show. Um “Amargeddon” para ironizar gays e deficientes? Ou apenas para ensinar o público a se comportar diante do humorista, aquele ser que, segundo Millôr Fernandes, não atira pra matar? É um didatismo que dá em nada, no fim das contas. A piada precisa ser muito boa para passar incólume. E talvez Gervais tenha feito piadas ruins nos últimos tempos, não sei. Mas se Chappelle não se desculpa, até intensifica a crítica no stand-up seguinte, por que Gervais recua? Minha hipótese é que, rico em demasia, tendo doado parte da receita de seu show à proteção dos animais, ele se sinta um tanto culpado. Mas de quê? Da acidez que ele diz não fazer mal a ninguém? “Armageddon” me pareceu isso, um pedido torto de desculpas que reluto em aceitar.

Preferi muito mais Wanda Sykes em “Meu Negócio é Entreter”. Uma humorista que ri dos pintos, finalmente! Dos negacionistas! Que ironiza o medo de que os trans invadam os banheiros femininos, como se os banheiros femininos fossem santuários sem balbúrdia… Uma mulher a dar a medida do sofrimento do preto nos Estados Unidos mais ou menos assim: ser preto é não poder ter dias ruins em público, pois seu dia ruim pode ser o último, a depender de como o poder armado o interprete. Wanda sabe muito! Sabe como aproximar uma questão complexa do cotidiano do público de modo a se fazer entendida, embora a duração de certas histórias às vezes atrapalhe o ritmo do show. Não é perfeita, certo? Tampouco tem do que se desculpar.

Instantâneo do racismo

Sob o sol de rachar, o preto africano de túnica vê o branco sem camisa estendido em um pequeno canteiro da rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo.

O descamisado, que no entanto calça tênis, tem um pano enrolado na cabeça e pede esmola em voz alta. O preto africano lhe oferece uma garrafa de água tampada, que mal começara a beber. O maltrapilho grita, balançando a cabeça: “Quero isso não! Você está suado, porra.” O africano em túnica brilhosa parece não entender, recolhe a garrafa e segue em frente.

A estrutura do racismo brasileiro é macabra, gente. Desenhada todos os dias pra gente ver.

Higienópolis, shopping Higienópolis, a sacola do sonho acabou

Uma amiga veio de passagem ao Brasil e quis me ver antes de voltar para a casa estrangeira. Conhecedora de São Paulo, onde morou e trabalhou por anos, desta vez ela pareceu receosa de me visitar no centro, como se fosse uma turista recente, porém avisada dos perigos do subdesenvolvimento. Marcamos então um almoço em região acessível a ela, Higienópolis.

Embora eu não more assim tão longe do bairro, é como se nós dois, o bairro e eu, nos medíssemos em léguas, corporalmente avessos, mentalmente distantes. Esses lugares de São Paulo onde mora a gente de bem, eu os entendo assustadores. Estudei como bolsista em colégio de rico, conheço o pessoal e, em sua maioria, para resumir, não sou fã. Eis por que Higienópolis, para mim, é o lugar de ricos (ou dos quase ricos, ou dos donos temporários do dinheiro) aonde vou apenas quando tenho de me consultar com o otorrino do convênio na Angélica, essa espécie de avenida off dos higienopolistas.

É um bairro bonito? É histórico. A beleza, a história lhe dá. Os casarões dos barões, dos mecenas, a arquitetura dos grandes, isso a gente sorve bem. Tudo conservado em alguma medida – das cercas para dentro, quero dizer. Porque o abandono existe naquela área da cidade sempre quando a vemos sob o ponto de vista público. Testemunhei ruas alagadas nas ladeiras e, ao percorrê-las, os homens pretos carregavam os mesmos cartazes de papelão nos quais, aqui no meu centro, sinalizam a vontade de comer.

Andei por quarenta minutos de casa até o shopping onde iria almoçar. Um percurso embranquecedor, do relativo miserê ao nariz alto. Quando cheguei ao restaurante do shopping, agradeci pelo ar condicionado, que secou o suor vexaminoso em meu vestido. Estar ali com minha amiga era como pular na piscina azul, splash das alegrias da infância. Nem sei dizer o quanto anima meu coração sentir sua proximidade. Meus amigos estão espalhados pelo mundo, Jamaica, Índia, Grécia, Vila Olímpia, não sei mais o que fazer para conversar com eles e desfrutar decentemente de nosso amor! Ainda bem que desde alguns anos meus queridos de todo dia são vocês, embora a gente só se veja pelas redes sociais. Mas nos temos, certo? Agradeço tanto.

Pois então. Higienópolis. Shopping Higienópolis. A coisa ali é mais funda do que apenas não haver negros entre os consumidores. (Ou dei um azar danado de não ter localizado nenhum, ao contrário do que ocorre em qualquer loja, shopping ou restaurante da região onde moro.)

No Higienópolis, parecem-se todos, ou a maioria deles, consumidores extraídos da própria existência. E, por isso, birrentos, à espera das respostas que ninguém será capaz de lhes dar. Assemelham-se a galhos secos vestidos nas sandálias de cor creme. Desfilam com três ou quatro sacolas nas mãos. Três ou quatro! E brigam com as vendedoras de sapatos quando apenas gostariam de ser ouvidos por elas. Enquanto isso, as lojistas sorriem para nós como se pedissem ajuda. Elas, consumidoras (os cabelos curtos se velhas, longos se jovens), têm o coração empapado de promessas não cumpridas. Simulam que existem, achei, até concluir que simular resume seu modo de existir.

Vi principalmente solidão no shopping. Vi uma dor. Tá, concordo que isso não deveria me sensibilizar. Eu sei que naqueles vestidos lima-siciliano de linho moram criaturas rasas sem asas, a tiranizar seus cachorros acomodados em carrinhos de bebê. Sei que, além de nossa alegria, os seres sem asas tiraram a dos cachorros também. Sei que engoliram tudo, toda a esperança de justiça social, enquanto emagreceram mais e mais, assegurados pela dieta gorda dos dólares. Sei de tudo isto, e no entanto… É tão comovente. Tanto. Choro ao caminhar entre eles. Três, quatro sacolas de compras todos os dias, pense! E, naquele dia chuvoso, eu obrigada a testemunhá-los, trancada para dentro das cercas douradas… Uma dor. Três dias desde que tudo isso aconteceu, desde que a visão desses mortos barulhentos me perturbou e dilacerou, mas, ainda hoje, uma dor.

samba no céu

moro diante de uma praça onde há samba toda noite. bom samba, devo dizer.

mas é que o samba de verdade diz as dores, não as coisas de gente satisfeita, e acho difícil suportar essas dores refletidas todo santo dia em mim.

e reclamo, porque aquele som microfonado estourado, quem merece?

hoje porém está lindo.

sei cantar todos os cartolas, vanzolinis, robertos ribeiros, ivones laras, silas de oliveiras…

é como se eu morasse no céu.

O humor alerta em “As Mulheres, os Hormônios e Eu”

Rosa Rosah e Walmir Pavam
no palco da sala Alberto Guzik,

na SP Escola de Teatro

Assisti à última apresentação da peça “As Mulheres, os Hormônios e Eu” agora à noite com a expectativa de que fosse uma comédia ruidosa e liberadora. Constatei ser liberadora, embora o ruído, um pouco mais grave do que antecipei. Trata-se não propriamente de comicidade, mas de humor o que está presente no ótimo texto de Nanna de Castro, aqui dirigido por Lilian Domingos. Humor no sentido pirandelliano da reflexão. Não mulheres à beira de um ataque de nervos, mas um homem, um ginecologista em pânico diante do quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. 

Meu irmão, Walmir Pavam, é o ginecologista Sigmar em crise e a divertida e versátil Rosa Rosah, sua terapeuta à beira da menopausa. Eles se entreolham em seus problemas e complexidades. Walmir por vezes me lembrou o italiano Alberto Sordi mais enlouquecido, assumindo o grotesco da persona representada. Rosah soube ser inconformada, engraçada, triste, uma generosa atriz.

É tudo o que posso dizer para que vocês se animem a ver esta peça numa próxima temporada, quem sabe ano que vem. De modo a concretizar esta montagem, eles contaram com o espaço da SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, e com uma campanha de crowdfunding para a qual me emocionei de ter contribuído. Tudo é emoção, aliás, neste mundo em que a arte, para ser exercida, precisa de nós.

Não percam a próxima ocasião!

Unapologetically me

Sou ouvinte e paciente. E aceito quase o impensável das pessoas de que gosto. Até que um dia, exausta e desperançada de seu narcisismo, desisto delas. E ainda, se quiserem saber, explico-lhes por que parto, muito consciente de que não me entenderão.

Não é o melhor jeito de agir, imagino. Com os anos, vamos perdendo até mesmo quem deixar… Mas não sei. Esta sou eu. Unapologetically me. Com as dores e as delícias implícitas neste ser a quem no passado já entenderam “terrível” ou “difícil”.

Mas eu tenho uma boa qualidade, ao menos. Sei rir. Rio alto comigo e de mim mesma. Hoje é sábado, curto uma leve ressaca, o café me fez feliz e neste momento sinto um friozinho sob o ventilador do teto.

A vida pode ser um carinho e tanto, às vezes.

A Testemunha, química do romance

Harrison Ford e Kelly McGillis
no filme de Peter Weir, 1985

Uma entre tantas coisas de que sinto falta no cinema de Hollywood é a capacidade de expressar a química intensa do amor sem diálogos, gritos ou mesmo nus.

“A Testemunha” me fazia arrepiar em 1985. Mas parecia ainda mais velho. Uma espécie de filme mudo com trilha sonora onde tudo caía bem, tiro, porrada, sangue, a estrada do tempo, os contrastes sociais e luminosos, os olhos grandes da infância, as perdas, os ganhos, os ciúmes da vida adulta, tudo com aquele ritmo notável do vagar das memórias.

Às vezes tenho vontade de escrever um livro inteiro sobre ele. Só às vezes, porque a vontade não é suficiente para superar os obstáculos à concretização. Os livros que nunca escrevi, porém, continuam a viver em mim, à espera de que alguém precise deles, quando notadamente ninguém precisa. Deixo-os aqui dentro, quentinhos, alimentados com o sol da manhã e os passeios a pé, por serem tão meus.

Os contrastes luminosos, a estrada do tempo, o amor sem palavras

Dos Irmãos Marx aos Irmãos Warner

Groucho Marx, gênio da palavra

Quando os Irmãos Marx estavam prestes a estrear “Uma Noite em Casablanca”, em 1946, receberam uma ameaça legal da Warner pelo uso de Casablanca no título, uma vez que o estúdio lançara quatro anos antes o famoso filme de Michael Curtiz intitulado com a palavra.

Groucho, um dos irmãos Marx, pôs-se então a preparar uma resposta ao grande estúdio. Eis aqui o teor da carta, enviada aos proprietários Jack e Henry Warner e atualmente depositada na Biblioteca do Congresso, em Washington.

(Vale esclarecer que depois desta missiva, e de outras duas de teor semelhante, a Warner Bros. não reclamou mais e o filme dos Irmãos Marx pôde ser intitulado “Uma Noite em Casablanca” sem problemas.)

Eis a carta:

“Caros Irmãos Warner

Aparentemente existe mais de uma maneira de conquistar uma cidade e mantê-la sob seu domínio. Por exemplo, até o momento em que pensamos em fazer ‘Uma Noite em Casablanca’, eu não tinha ideia de que essa cidade pertencia exclusivamente a vocês. No entanto, poucos dias depois de anunciar o nosso filme, recebemos o seu longo e sinistro documento legal no qual nos ordenavam a não usar o nome Casablanca. Parece que, em 1471, Ferdinand Balboa Warner, seu tataravô, ao procurar um atalho até a cidade de Burbank, tropeçou pela costa da África e, erguendo a bengala, batizou o lugar de Casablanca.

Sinceramente, não compreendo essa atitude. Mesmo que estivessem pensando em um renascimento para seu filme, tenho certeza de que o fã médio de cinema acabaria aprendendo a distinguir Ingrid Bergman de Harpo Marx. Não sei se eu mesmo conseguiria, mas certamente gostaria de tentar.”

Bill Withers em busca do sol

Bill Withers (1938-2020) escreveu a música “Ain’t No Sunshine” aos 31 anos, em 1969, quando trabalhava em uma empresa fabricante de assentos sanitários para aviões. Withers gravava fitas demo com o próprio dinheiro e tocava em vários clubes à noite.

Quando estreou nas rádios com “Ain’t No Sunshine”, recusou-se a largar seu emprego, certo de que a música popular era uma indústria inconstante. Mas a canção fez tanto sucesso que ele ganhou um disco de ouro. Como presente, a gravadora lhe presenteou com um vaso sanitário dourado.

Em 1985, aos 47 anos, Bill Withers decidiu abandonar a carreira. Ele sentiu que as gravadoras com as quais trabalhava tentavam exercer cada vez mais controle sobre sua sonoridade, de modo a vender mais discos. Sentiu-se rotulado e não quis mais fazer parte do mundo da música.

Withers foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame em 2015. Na ocasião, alegou não se arrepender de sua decisão e refletiu sobre sua vida posterior: “Sempre fui sério assim, tentando evoluir para um estado mais consciente. Sempre desejei menos luxúria, mais compaixão, menos ciúme. Creio que é preciso ajustar esses botões até chegar às configurações originais. Em certo sentido, as configurações originais são exatamente o que estou procurando – um retorno ao cara tranquilo. Eu era assim antes de meu mundo ficar complicado. O cara legal que aceitava as coisas como elas surgiam e ria tanto que a tristeza ia embora com o vento do verão.”

via African and Black History AfricanArchives