Diante da beleza

Quando penso em mulher bonita, talvez por eu mesma ser mulher, não me vem a imagem de uma Lupita Nyong’o, com aquela exuberância e nobre perfeição, nem a de uma sensual Scarlett Johansson, embora considere esta uma atriz muito inteligente, a ponto de estar casada com um comediante.

Alguém muito bonita pra mim é como a Chantal Akerman era, com esses olhos translúcidos de paixão e sofreguidão, corajosa e doce ao mesmo tempo, ousada em expor o ritmo da vida e das paisagens, além daquilo tudo que se passa dentro de nós mulheres comuns e explode em gestos de apreensão e demora.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.