A quem se destina

Aproveite a chance rara de assistir de graça a “Todas as horas do fim”, o documentário sobre Torquato Neto que é só poesia

Nosferatu como um profeta triste

Há três anos apareceu com imenso lirismo este filme dirigido a partir de depoimentos, da pontuada narração de Jesuíta Cardoso e de outros filmes – os de Torquato Neto, em super-8, e aquele de Ivan Cardoso, por exemplo, em que o poeta da literatura e da música do Brasil é um vampiro convicto, de sandálias e cabelo longo.

Três anos e este “Todas as horas do fim”, dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando, ainda dói na gente. Em quem é gente no Brasil. Em quem não se cansa de penar para entender por que um poeta da vida tenha escolhido a morte, suicidado com gás, aos 28 anos, em 1972.

E no entanto Torquato surgia pleno no mundo, gênio precocemente, poeta desde os 9, filho único de pais amorosos, magro, seco e severo como eles na Teresina que era a sina de todos…

E mesmo sendo pai de Thiago, outra realização de amor, marido de Ana, sua santa, isto não o impedia de imaginar que, tendo concluído sua obra, viver não seria mais preciso… E o que dizer daquela ditadura que não parecia ter mais fim, nem nada de si?

Caetano e Gil eram seus amigos da Tropicália, em que Torquato nem mesmo acreditava de início. Hélio Oiticica podia dizer-se fartamente admirado por ele, assim como Glauber Rocha, assim como o cinema. Um poeta a observar toda a arte, toda a vanguarda, todo o sentido.

É um filme de ritmo e canção, que busca a poesia com simplicidade, razão pela qual a encontra, embora não a discuta nas linhas próprias de Torquato Neto nem trace os paralelos entre elas e os versos, por exemplo, de um conterrâneo como Mário Faustino.

É madrugada, passou das três, e eu tive de reescrever isto tudo! O texto primeiro, o blog comeu…

Torquato, é você aí?

Poeta desde os 9 anos que ele foi

Aqui vai o streaming do documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, dentro do projeto “Em Casa com o Cine 104”:

https://vimeo.com/460725286

senha: torquato_104

Até as 20h de 9 de outubro de 2020

Um amor em cada porto

O filme “Martin Eden” transpõe para a Itália heroicamente desiludida a obra de Jack London sobre o engajamento das palavras

Luca Marinelli é Martin Eden, entre ferozes utopias

Metade deste Martin Eden (2019) é só o Jack London que amo e seus Estados Unidos da América, aqueles onde o escritor viveu, entre 1876 e 1916. A outra metade é a Itália idealizada, amada igualmente, onde este filme foi escrito a partir do livro homônimo e em parte autobiográfico de London, máxima ficção sobre a honra perdida do jornalismo, minha profissão e meu descontentamento.

Então é muito o que peço a este filme desde seu início, que faça jus ao que espero, na verdade anseio, aquilo por que luto e pelo que vivi por tantos anos, desde a adolescência tardia embebida pelos textos mágicos do escritor, alguns deles que também ousei traduzir (no volume 11 da coleção Para Gostar de Ler, 5 reais na Estante Virtual).

Jack London, no reino dos fortes

Martin Eden, por favor, não é apenas a história amorosa e aventureira de um marinheiro alçado ao fervor das palavras, estas que já sentia suas mesmo antes de deparar com o insólito universo liberal dos letrados. É antes um filme-estudo sobre a promissora ascensão socialista, que logo cederia lugar à Primeira Guerra, fagulha a acelerar a mais nova, infame e persistente ameaça à igualdade, o fascismo.

Jack London acolhia as ideias de Spencer, bem explicitadas neste filme, e traduzidas pelo escritor numa espécie de socialismo utópico que deveria ser conduzido por indivíduos fortes como ele próprio. Este indivíduo político que London lutou pra ser durante seus intensos 40 anos de vida e uma literatura tomada pela paixão que contamina, rasga e exaspera os sonhos, acabou um dia, adivinhe, a se diluir na autoimagem condescendente estadunidense, aquela segundo a qual a todos em sociedade se dá a oportunidade de tornar-se o que bem projetar. De pensador temperamental em prol da justiça social, Jack London, melhor dizendo, sua aura pública, foi então aos poucos associada a uma imaginária essência voluntariosa e benéfica do capital competidor.

Em que pese o fascismo

Minha alegria diante deste filme nasceu primeiramente disto, de ele não se deixar cooptar por nenhum capitalismo. Não reconstrói Martin Eden para o bom palato estadunidense. O homem foi e será para sempre muito difícil de engolir, nos diz. Bruto, verdadeiro. Antiliberal. Para dar conta de seu protagonista, o diretor e roteirista do filme (junto a Maurizio Braucci), Pietro Marcello, chamou o forte ator Luca Marinelli, de longo nariz e olhos azuis. Ele é Martin porque é o Éden também. Um ator para fortalezas e nuances.

Com Elena (Jessica Cressy), sonho azul
Com Margherita (Denise Sardisco), um vermelho furor

Ele briga, ama, peleja na siderurgia, envia mais e mais originais às redações, sempre rejeitados, quer bem à irmã como London também quis, para só depois de muita humilhação e acolhimento proletário se tornar um profissional sem qualquer escusa, sem jamais aceitar o posto no escritório que lhe apontava sua noiva rica, ilustrada e delicada para palavrões.

A imensidão que engendra a revolução

O filme perturba os tempos. A indefinição de onde nos encontramos, dentro dele, é uma de suas porções adoráveis. Quando proletário, Martin Eden é também o mundo dos pobres italianos desde as greves piemontesas até aquele dos anos 1970 em que a televisão se infiltra aos poucos como adorno principal unificador. Quando se mete entre os ricos, o filme penetra facilmente no século 19 onde esta história começa, com seus salões vastos e sua preciosa decoração imperial. Você nunca perceberá exatamente em que ano estará, exceto quando descobrir que é este o jogo do filme, desenraizá-lo até que atinja a realidade dolorosamente imutável de nossos próprios tempos de desilusões.

Nápoles para marinheiros

Ambientado em Nápoles, que espertamente substitui a fria Oakland do livro, Martin Eden fala principalmente sobre a fúria heróica que acometeu o italiano no pós-Segunda Guerra. Um heroísmo fatalmente sucedido pela vilania pequeno-burguesa (bem pequena) do boom econômico, segundo a forma cinematográfica paciente com que Mario Monicelli a descreveu. É isto mesmo o que parece. Por vezes o belo ator Marinelli adentra o terreno abraçado por Alberto Sordi na dura commedia all’italiana… Estará ele a reviver o jornalismo idealista e o ardor militante fulminados pela paixão impassível de Uma Vida Difícil, de Dino Risi? Toda a parte final do filme é um grito do grotesco que acomete os bem-sucedidos, todo o épico do horror cômico em que os sonhos findam…

O mar que marca

E isto tudo com tamanha textura nas imagens, uma granulação a evocar os impressionistas, o azul sobressaído, os homens a se movimentar na multidão!

Que filme surpreendentemente atual com que gastar suas horas tristes.

MARTIN EDEN
Diretor: Pietro Marcello
Itália, 2019, 129 min
Onde: bit.ly/2EKJJx8 [até 10/9]

John Huston, por que o senhor faz filmes?

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John Huston no set de Moby Dick, por Norman Parkinson

Da série Maravilhas no YouTube.
O diretor John Huston é perguntado aqui sobre por que faz filmes.
Bem, ele diz, faz filmes porque é fascinado pelo meio em si.
Para ele, o cinema descreve melhor o processo do pensamento do que os livros.
E olha que Huston foi um excepcional leitor.
Ele diz também que não procura passar qualquer mensagem em seus filmes (não, segundo saiba, conscientemente).
John Huston dirige filmes que de alguma forma lhe interessem, esperando que haja, no público, alguém como ele, ou que ele seja igual a seu público.

Ninguém derruba a história

“Fantasmas em Roma”, clássico de Antonio Pietrangeli, ronda o YouTube em versão original

As assombrações se divertem, capitaneadas por Mastroianni

“Fantasmas em Roma” é um filme divertido, crítico e bonito de Antonio Pietrangeli (como, de resto, todos os que ele fez), além disso bem-sucedido nos cinemas paulistanos à época de seu lançamento, em 1961, quando todo o bom cinema merecia um circuito comercial na cidade. Redescubro-o no YouTube em sua versão original sem legendas (“Fantasmi a Roma”), com música de Nino Rota.

O diretor Antonio Pietrangeli

Pietrangeli começou como roteirista e auxiliar de direção de Luchino Visconti em “Ossessione”, versão italiana de 1943 para o clássico noir de James M. Cain. Este romano escreveu para muitos outros máximos diretores de seu país, como Pietro Germi (Gioventù Perduta, 1948) ou Roberto Rossellini (Dov’è lá Libertà, de 1954, com Totò). E foi crítico dos bons.

Morreu de maneira trágica, como tragicômica era a maioria de suas histórias, à moda da mais famosa, “Io la conoscevo bene”, de 1965, na qual Stefania Sandrelli vive uma jovem impedida de realização social pelo preconceito que então rondava a mulher. Pietrangeli morreu afogado quatro anos depois de realizar este clássico, enquanto filmava a sequência final de “História de um Adultério”. Aos 49 anos, caiu de um penhasco onde se colocara para orientar seus atores.

Duas almas contra um especulador

Este “Fantasmas em Roma”, excelente representante da aguda commedia all’italiana, escrito por ele, Ettore Scola, Ruggero Maccari, Ennio Flaiano e Sergio Amidei, heróis do roteiro cômico em duas gerações, é atípico de uma carreira dedicada a compreender a complexidade feminina. Mas, sempre um ácido crítico do consumismo especulador, Pietrangeli mostra aqui a farsa embutida na tentativa de derrubar a história (personalizada por um velho casarão) para nela construir um supermercado.

E o papagaio do príncipe não recitava Lampedusa…

No palazzo em que se passa a trama, mora um príncipe decadente (o grande ator e dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo), que fala sem sucesso com seu papagaio morto, incapaz de declamar Lampedusa, como haviam lhe prometido. Don Annibale di Roviano vive entre os fantasmas de sua família, embora não possa vê-los, nem saber que eles o protegem. Os Roviani são a ruína (“rovina” em italiano) que persiste com seu respaldo. O fato de ser um príncipe que não trabalha ainda lhe dá uma posição em sociedade.

Marcello Mastroianni interpreta Reginaldo di Roviano, o fantasma de uma espécie de Casanova, e mais dois outros papéis – o de um de seus tortos descendentes e o de um terceiro debiloide que ele não suspeitava pertencer a sua linhagem. Vittorio Gassman é o fantasma irascível de Caparra, pintor rival de Caravaggio, chamado pelos outros na batalha contra os novos ocupantes.

Vittorio Gassman é o pintor
diante de uma Sandra Milo que se
suicidou por amor

À parte a vistosa aparição de Valentina Cortese, vivente enlouquecida pela traição do marido, a esmolar nos restaurantes sob o apelido de Rainha, uma doce Sandra Milo representa o fantasma de jovem que se suicidou de paixão. Um menino (Claudio Catania), irmão mais velho de Don Annibale, morto criança, ronda rindo os espaços do casarão, da escola (onde ajuda uma protegida) e da rua, para onde Sandra Milo vai todas as noites atirar-se novamente ao rio. Enquanto isto, o Frei Bartolomeu (Tino Buazzelli), morto pela boca, que ardia por um polpetonne, ainda fareja o melhor prato de comida entre os vivos.

Com eles ninguém pode

Estas assombrações são molecas, felizes, vestem as roupas prateadas das estrelas invisíveis, riem-se, enfurecem-se, erram os costumes. (Mastroianni se interessa por uma cantora que descobre ser um cantor…) Mas que ninguém ouse ocupar o retiro dos fantasmas. Se depender dos Rovianni, não vai ser desta vez que a história será destruída por uns maços de dinheiro da velha corrupção.

Um pensamento amoroso

Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.

A cinemateca, sozinha nesta noite

não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.

há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.

uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.

como vai ser?

vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?

Menos que porcos

O 31º Curta Kinoforum exibe três pérolas do cinema brasileiro no alvorecer dos anos 1990

“A Ilha das Flores”, de Jorge Furtado

É usual que o tempo vença os filmes, porque nem todos foram feitos para durar. Mas aqueles capazes de retratar uma era, nem tanto pela linguagem inovadora, são os invencíveis. Três curtas-metragens, VIVER A VIDA (de Tata Amaral, 1991), CARTÃO VERMELHO (de Lais Bodanzky, 1994) e ILHA DAS FLORES (Jorge Furtado, 1989), revelam um estranho país.

Não, o Brasil não era melhor no alvorecer dos anos 1990. Ainda permanecíamos sequestrados pela ausência mediadora da justiça, da igualdade social, do respeito à diversidade. E debochávamos sob risco. Vestir um tênis novo, por exemplo, chamava a morte.

“Viver a Vida”, de Tata Amaral

Tata Amaral mostra o office-boy negro bem calçado que, ao fazer render malandramente o dinheiro do transporte, é driblado na cara do gol. Não importa que Kid Vinil exaltasse a dureza do ofício num hit, nem que o jovem periférico pulasse os obstáculos com humor. O desejo de consumir e sobressair-se, que horizontalizou a sociedade, não era só seu.

“Cartão Vermelho”, de Lais Bodanzky

A menina futebolista entre os meninos, de Lais Bodanzky, parece ainda mais perturbadora. Desde a infância, uma mulher suspeita não poder cobiçar o jogo dos homens. O que resta a esta personagem, senão viver um gosto sob inadequação?

O filme de Jorge Furtado é o mais conhecido entre os três, talvez por não psicologizar nada, por não ter outra intenção exceto documentar, por meio de um sarcástico conto cumulativo, a miséria legada aos habitantes de Ilha das Flores. Estávamos abaixo de porcos? Sim, e isto era coisa demais.

VIVER A VIDA
Diretora: Tata Amaral
Brasil, 1991, 12 min

CARTÃO VERMELHO
Diretora: Lais Bodanzky
Brasil, 1994, 14 min

ILHA DAS FLORES
Diretor: Jorge Furtado
Brasil, 1989, 13 min

Onde ver:
https://bit.ly/2XAfZt7

QI de abelha

Não me emociono se penso que Toller votou no Tolo. Ou deixou o Tolo ganhar. Ou se nada fez para que o Tolo perdesse, até ganhando causa de 200 mil contra Haddad e o PT pelo uso (que ideia mais boba do partido, gente) da canção do QI de Abelha na campanha.

Nana também votou em Bolsonaro. Toquinho também. Djavan também, talvez. Desejo a Nana e a Toquinho toda a felicidade. Djavan está em mim. Vou ouvi-lo sempre, forever and ever.

E Toller, meus amigos, bonita ou não, conservada ou não (todas nós cinquentonas podemos nos orgulhar de nós mesmas neste aspecto, certo?), nunca habitou meu panteão.

Mas se habitou o seu, não ligue pra nada disso. Essas pessoas escrevem e interpretam canções, não necessariamente veem a vida como nós.

Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini

Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.

Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

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“É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados”

HIERARQUIA

Pier Paolo Pasolini, 1971

Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.

 

Depois o incógnito.

Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer

(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho

é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,

e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.

A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)

Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,

a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.

 

Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –

Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida

(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.

De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –

É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)

Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.

 

Sobre “Dora e Gabriel”

amei o convite pra escrever 💜

Via Cinemas Luz

DORA E GABRIEL
por Rosane Pavam

Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história. Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue.

Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento nem liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada. É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.

“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.

O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.

Rosane Pavam é jornalista, autora de “Ugo Giorgetti – O Sonho Intacto” (2004)

DORA E GABRIEL
Diretor: Ugo Giorgetti
Brasil, 2020, 90 min

Em exibição até as 23h59 de 27/6

Quanto: R$ 10 (20% do valor destinado à APRO – Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, que vai auxiliar os profissionais de cinema afetados pela pandemia).

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