Samba na filosofia

Documentário mostra a história de Porfírio do Amaral, um sambista negro quase desconhecido (como muitos ainda devem ser), mas um prosador-pensador como poucos no Recôncavo puderam testemunhar

Porfírio do Amaral aos 55 anos, em 1971, durante a realização
do programa da TV Cultura que jamais foi ao ar

O pai queria lhe dar um nome que remetesse à realeza. Decidiu chamá-lo Porfírio, aquele que vinha revestido de púrpura, a cor das roupas do rei. Por estar certo de que seu filho triunfaria, não ligou quando uma cigana sentenciou à mãe, diante da criança ainda pequena: “Nunca deixe esse menino cantar. A morte acompanha a sorte dele”. O pai era um poeta racional numa Bahia mística. Mas, a partir daí e por toda a vida, Porfírio do Amaral se sentiu nervoso para colocar a voz. Diretor na TV Cultura de São Paulo, Fernando Faro chamou-o para um piloto de seu programa sobre música brasileira e nunca pôde exibi-lo, porque Porfirio, o compositor, não conseguia cantar as próprias canções, sempre nascidas do sofrimento. Ele falava como um filósofo, na verdade um rei da filosofia, mas, quando se abria ao canto, surgia a gagueira das emoções. Ou do medo.

A neta Letícia, que estuda cinema no Recôncavo e trabalha sobre a memória do avô Chô

O cineasta Caio Rubens descobriu a gravação de 1971 e a incluiu neste documentário, que só por isso já valeria o vislumbre. Porfirio fala dramaticamente as coisas mais lindas e duras, sem receio, por exemplo, de chamar de golpe o que a televisão da época intitulou revolução. Com paciência para os testemunhos, mesmo para aqueles que não dirão diretamente de Porfirio, como o de Elza Soares, o diretor amplia o contexto do samba e do Recôncavo. Muita gente depõe, de Roberto Mendes, Carlinhos Brown, Nelson Sargento, Mateus Aleluia e Chico Buarque ao ator Antonio Pitanga (um elo entre Porfirio, então porteiro da TV Cultura, e Faro) e à neta Letícia, que gravou em VHS a intimidade com o avô Chô, do apelido Choriça que lhe deram por ser magrinho.

Porfírio e suas netas, em imagem captada em VHS por Letícia
Uma interpretação em VHS para a rotina do compositor e percussionista

O personagem se delineia aos poucos, enquanto Margareth Menezes, Gloria Bonfim e outros intérpretes apresentam suas canções. Apesar de não constar no google, nem mesmo no Dicionário Ricardo Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Porfirio existiu entre 1917 e 2008, e existe cada vez mais. Compositor de melodia triste para prosa alegre e de melodia alegre para prosa triste, foi precursor de pagodes e sambalanços, homem da cuíca que chorava lancinante, das chulas e cantos de senzala que pressupõem a aglomeração e a comunhão. Samba não é um gênero, dizia. Há muitos sambas que são gêneros por si. E ele não foi só um sambista, mas um homem que nasceu para refletir.

Com Fernando Faro, que acompanhou sua carreira
  • PORFÍRIO DO AMARAL: A VERDADE SOBRE O SAMBA
    Diretor: Caio Rubens
    Brasil, 2019, 83 min
     
    onde: bit.ly/2Zy4LGJ [até 20/9]
     

A cinemateca, sozinha nesta noite

não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.

há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.

uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.

como vai ser?

vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?

Menos que porcos

O 31º Curta Kinoforum exibe três pérolas do cinema brasileiro no alvorecer dos anos 1990

“A Ilha das Flores”, de Jorge Furtado

É usual que o tempo vença os filmes, porque nem todos foram feitos para durar. Mas aqueles capazes de retratar uma era, nem tanto pela linguagem inovadora, são os invencíveis. Três curtas-metragens, VIVER A VIDA (de Tata Amaral, 1991), CARTÃO VERMELHO (de Lais Bodanzky, 1994) e ILHA DAS FLORES (Jorge Furtado, 1989), revelam um estranho país.

Não, o Brasil não era melhor no alvorecer dos anos 1990. Ainda permanecíamos sequestrados pela ausência mediadora da justiça, da igualdade social, do respeito à diversidade. E debochávamos sob risco. Vestir um tênis novo, por exemplo, chamava a morte.

“Viver a Vida”, de Tata Amaral

Tata Amaral mostra o office-boy negro bem calçado que, ao fazer render malandramente o dinheiro do transporte, é driblado na cara do gol. Não importa que Kid Vinil exaltasse a dureza do ofício num hit, nem que o jovem periférico pulasse os obstáculos com humor. O desejo de consumir e sobressair-se, que horizontalizou a sociedade, não era só seu.

“Cartão Vermelho”, de Lais Bodanzky

A menina futebolista entre os meninos, de Lais Bodanzky, parece ainda mais perturbadora. Desde a infância, uma mulher suspeita não poder cobiçar o jogo dos homens. O que resta a esta personagem, senão viver um gosto sob inadequação?

O filme de Jorge Furtado é o mais conhecido entre os três, talvez por não psicologizar nada, por não ter outra intenção exceto documentar, por meio de um sarcástico conto cumulativo, a miséria legada aos habitantes de Ilha das Flores. Estávamos abaixo de porcos? Sim, e isto era coisa demais.

VIVER A VIDA
Diretora: Tata Amaral
Brasil, 1991, 12 min

CARTÃO VERMELHO
Diretora: Lais Bodanzky
Brasil, 1994, 14 min

ILHA DAS FLORES
Diretor: Jorge Furtado
Brasil, 1989, 13 min

Onde ver:
https://bit.ly/2XAfZt7