HINO AO JUIZ

Arte de Rodtchenko para a capa
do livro “Maiakóvski Sorri,
Maiakóvski Ri”, de 1923

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré,
Na galera a gemer os galés, um por um.
Com um rugido abafam o relincho dos ferros:
Clamam pela pátria perdida – o Peru.

Por um Peru-Paraíso clamam os peruanos,
Onde havia mulheres, pássaros, danças,
E, sobre guirlandas de flores de laranja,
Baobás – até onde a vista alcança.

Bananas, ananás! Peitos felizes.
Vinho nas vasilhas seladas…
Mas eis que de repente como praga
No Peru imperam os juízes!

Encerraram num círculo de incisos
Os pássaros, as mulheres e o riso.
Boiões de lata, os olhos dos juízes
São faíscas num monte de lixo.

Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,
Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul:
Na mesma hora virou cor de carvão
A espaventosa cauda do pavão.

No Peru voavam pelas campinas
Livres os pequeninos colibris;
Os juízes apreenderam-lhes as penas
E aos pobres colibris coibiram.

Já não há mais vulcões em parte alguma,
A todo monte ordenam que se cale.
Há uma tabuleta em cada vale:
“Só vale para quem não fuma.”

Nem os meus versos escapam à censura:
São interditos, sob pena de tortura.
Classificaram-nos como bebida
Espirituosa: “venda proibida”.

O equador estremece sob o som dos ferros.
Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.
Somente, acocorados com rancor sob os livros,
Ali jazem, deprimidos, os juízes.

Pobres peruanos sem esperança,
Levados sem razão à galera, um por um.
Os juízes cassam os pássaros, a dança,
A mim e a vocês e ao Peru.

VLADÍMIR MAIAKÓVSKI, 1915

em “Maiakóvski Poemas”, ed. Perspectiva, 2017.

Tradução de Augusto de Campos

O heróico MST na vertigem do cinema

O novo documentário de Adilson Mendes aproxima de nossa compreensão os seres humanos que integram o movimento e que, como consequência, comandam a zeladoria do planeta

As mãos do trabalhador sem-terra Jussimar Luís Dalenagare, presentes no documentário De quanta terra precisa o homem?

Pode-se dizer que um quarto de século se passou entre o brilho que o MST causou a primeira vez nos olhos do cineasta e historiador Adilson Mendes e a feitura do documentário único que é De quanta terra precisa o homem?, de sua autoria, sobre o movimento. Adilson procura o cerne das coisas, das boas e dos problemas, com muita beleza e um ritmo espetacular, a vagar e ecoar como o barulho das águas, sempre presentes nos seus filmes. É dos nossos mais promissores jovens documentaristas, sem fazer caso disto. Considera-se apenas um pesquisador que filma, um cineasta da história, por ela e com ela. Mas a sua é uma história inusitada, uma vez que contém poesia. E talvez seja deste modo poético que um único artista do filme acabe por representar o cinema inteiro.

No ano passado, durante a 45 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor apresentou seu talento ao público pela primeira vez, em “Tempo Ruy”, sobre a obra e o pensamento do grande cineasta que é o homem do Atlântico Ruy Guerra. O filme se faz a partir de um diálogo com suas ideias e termina por ser um editorial sobre a solidão empreendida, acompanhada das memórias. O documentário será mais bem sorvido no futuro, porque hoje andamos a ensaiar nossa cegueira e ainda não o vimos suficientemente…

Agora, o que Adilson Mendes fez e apresenta nesta 46 edição da Mostra é muitíssimo importante, mais uma vez. No momento perturbador em que vivemos, com as tantas ameaças a nossa democracia, o diretor mostra a face e as mãos dos sem-terra que fazem o MST. Geralmente tendemos a vê-lo como um movimento indistinto, de gente importante, por certo, mas sem o rosto que nos impele à empatia. Ou as mãos. Adilson mostra esses homens e mulheres com ênfase na sua racionalidade, mas também nas suas histórias de vida. Quem é sem-terra nunca está só. Sua produção mira a comunidade e, mais que isto, a saúde do planeta. 

De quanta terra precisa o homem? faz o contraponto necessário entre esses heróis brasileiros, que sobrevivem mesmo às duras penas de um governo miliciano, e a entrada, no movimento, do ex-banqueiro Eduardo Moreira, importantíssima voz da esquerda atual. Será ele a empreender o crédito que libertará o trabalho na terra do azedume do poder.

Na abertura do filme, um drone observa o desenho que um trator dos sem-terra faz nas águas, como se o veículo fosse um pincel de aquarela. Mas, antes, é uma epígrafe a conter um trecho de texto do crítico Paulo Emilio Salles Gomes a nos emocionar: 

Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da história brasileira.

A seguir, a entrevista com o diretor Adilson Mendes.

A sem-terra Lúcia Marlei Rodrigues, no filme de Adilson Mendes

Fale-me um pouco, por favor, sobre o projeto do filme. Como ele surgiu? Como você conseguiu empreendê-lo? De quanto tempo precisou para fazer o filme, desde a pré-produção?

De quanta terra precisa o homem? é um filme de baixíssimo orçamento, encomendado por Eduardo Moreira. O filme é uma encomenda no sentido clássico e o esforço foi atender a uma demanda individual, mas principalmente a uma demanda social. Fazer uma homenagem ao MST é um desejo antigo. Desde 1998 que acompanho o movimento, quando – estudante de História em Assis – fui até Brasília com eles para protestar contra FHC. A ocasião da homenagem em forma de filme surgiu quando Moreira me convidou para colaborar em seu Instituto Conhecimento Liberta. Durante a pandemia, Moreira e sua equipe criaram uma plataforma de cursos online e me convidaram para realizar algumas atividades: a) ministrar disciplina sobre Cinema e Sociedade, b) organizar uma coleção de ebooks [Coleção Grandes Filmes do Brasi], c) criar um programa de bolsas para produção do audiovisual periférico [O Brasil de Verdade oferece bolsas de cinquenta mil reais para jovens da periferia do Brasil e teve, entre seus bolsistas, o cineasta do Capão Redondo, Lincoln Péricles, que, em 2021, fez um lindo curta-metragem, Mutirão] e, por último, d) realizar esse documentário.

A decisão de fazer De quanta terra precisa o homem? se deu quando Moreira me mostrou uma série de materiais audiovisuais que ele próprio produziu em suas viagens pelos rincões do Brasil, junto a povos indígenas, quilombolas e sem-terras. Mesmo tendo sido feito de forma amadora, o material de Moreira sobre o MST me interessou particularmente. Além disso, ele como personagem me pareceu estimulante para pensar as forças sociais em ação no país neste momento. Sua singularidade de novo rico recentemente convertido a causas sociais me pareceu uma mediação possível para apresentar o MST. Moreira está no centro de uma operação no mercado financeiro em que o movimento social adquiriu títulos de dívida com juros baixos.

A ideia de fazer o documentário surgiu em 2020, pouco antes da pandemia. Para compor o retrato do movimento foi preciso filmar seu lugar de origem, a região Sul do país. As filmagens das plantações de arroz e suas cooperativas estruturam o filme e absorvem o material produzido de forma amadora por Moreira. A pandemia atrasou a produção e o filme foi concluído apenas em setembro deste ano.

Você pergunta a um dos personagens qual filme ele queria ver feito, e seu documentário o contempla. Foi o filme que você quis fazer? Entre o projeto inicial e o resultado, quais caminhos novos você descobriu?

Você tem razão: o objetivo foi contemplar o MST. O personagem em questão é Jussimar Luís Dalenagare, ele foi decisivo para o filme. A maneira como Jussimar e sua companheira Isabel Cristina Dalenagare internalizaram o ideário do MST é de uma profundidade surpreendente, transferindo para a vida as práticas da agroecologia. E a agroecologia é tomada por eles como proposta de renovação da vida social, não apenas como técnicas de plantio. Este para mim é o maior ensinamento desse filme.

Como o documentário procura ouvir e atender à demanda do MST, busca converter uma encomenda individual em uma encomenda coletiva, o diálogo com os membros do movimento foi estruturando o filme ao longo do processo. Desde o início ele foi pensado para se desenvolver conforme o avanço do diálogo com o MST. O diálogo é que estrutura o roteiro, mesmo se Felipe de Moraes e eu, a partir das preciosas indicações de Miguel Stédile, estabelecemos linhas básicas para abarcar os temas centrais do movimento. O que eu não sabia era que o diálogo com o MST transformaria não apenas a forma do filme, mas toda a equipe de De quanta terra precisa o homem?, que sentiu de perto o ethos da coletividade. A propósito, esse filme não seria possível sem a incrível equipe reunida por Juliana Lira, a produtora executiva. A delicada fotografia de Carine Wallauer que busca a luz inquieta do movimento. A música de Dino Vicente, que constrói com uma viola atualizada. Fábio Costa Menezes é o montador também de Tempo Ruy.

A díade indivíduo/coletividade ganhou proporções inesperadas e o filme investiga o contato de um movimento social com um “estranho” ao mercado financeiro e as consequências desse encontro para a guinada pessoal, ética e política. Ou seja, o filme quer ser um elogio do coletivo, e pretende que nosso futuro enquanto sociedade está relacionado com nossa capacidade de reunir, sem preconceito, as forças sociais democráticas em nome de um projeto comum. Ninguém nasce um socialista empedernido ou um capitalista voraz. Ou seja, diante da degradação atual da sociedade brasileira, uma figura como Moreira tem sua relevância.

Você encontra uma belíssima citação de Paulo Emílio Salles Gomes e a usa como epígrafe que expõe seu objetivo no filme, quiçá no seu cinema, que é o de dar voz a quem foi calado pelo poder, neste caso o trabalhador sem-terra. Como a citação lhe veio para esta epígrafe? É o trecho de um livro?

Acho engraçado você falar em “meu cinema”, quando o que faço é um produto audiovisual que é resultado de minhas pesquisas enquanto historiador do cinema. Alguém que sempre está a investigar a memória audiovisual, a misturar vestígios de arquivos com a memória do presente. Eu não sou um cineasta, eu sou um pesquisador que faz filmes.

Você tem razão mais uma vez, a citação de um texto da fase política de Paulo Emilio na juventude, quando o intelectual se dividia entre a vida cultural e a vida política, orienta sobre as pretensões do filme. A citação foi colhida em um manifesto, escrito em 1945 para a União Democrática Socialista [publicado no livro Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente] e informa que a formação da nação exige que as classes falantes se calem e ouçam a palavra dos trabalhadores do campo. Paulo Emilio Sales Gomes é o grande nome da memória audiovisual brasileira. Graças a ele temos uma cinemateca nacional, seu pensamento influenciou gerações e continua bastante vivo, como se os problemas de nossa “situação colonial” não deixassem de se repor. E Paulo Emilio ronda sempre minhas buscas. A citação foi extraída de um contexto antifascista, em que as diversas forças da sociedade deixavam de lado as diferenças para se unir contra a barbárie…

Gostaria de entender melhor a inserção do personagem renomado, ex-banqueiro branco de classe média que agora, tornado à esquerda, contribui criando crédito ao movimento. Por que ele percorre todo o filme?

Sim, foi Moreira quem encomendou o filme, seu trabalho também passa pela legitimidade proporcionada pelo audiovisual. O que não vejo como mero oportunismo. Sua guinada ética é sincera mesmo se os cacoetes de sua classe continuam presentes. O plano que encerra o filme, inspirado na estética do cinejornal [a clássica pose do patriarca e sua família no alpendre] e na máxima lampedusiana, aponta para a necessidade de mediações que ampliem as relações pessoais. Ou seja, sem Estado não há ação individual ou empenho coletivo que prevaleçam, as coisas mudam mas voltam para o lugar onde sempre estiveram.

Mas para além de sua presença como “dono da bola”, Moreira comparece como representante da ordem citadina, que vem de fora para sondar uma realidade singular e nós, como espectadores, nos identificamos diretamente com ele, com sua dicção, seus trejeitos, sua força econômica. Ele serve ao documentário como um duplo do espectador, estimulando-o a ver o MST sem os filtros do militante engajado e dono de uma narrativa estabelecida pelo movimento social. Moreira serve ao filme como elemento estrangeiro ao movimento social, que permite um olhar mais livre do preconceito cristalizado pelos meios de comunicação. João Paulo Pacífico, outro artífice da operação junto ao mercado financeiro, tem papel semelhante, assim como outras personalidades entrevistadas no filme. Por isso, Moreira acompanha o filme como elemento romanesco que cede espaço a uma temporalidade mais dilatada, histórica, que o antecede e o ultrapassa.

Acho extraordinária a abertura, um trator que se movimenta na água, visto de cima por um drone, como se a repetir o movimento de um pincel de aquarela. À parte ser um importante e aparente paradoxo, o de citar a água quando ao falar do sem-terra, visto ser ele um “zelador da natureza”, como esclarece Stédile em uma de suas falas, o elemento parece ser uma assinatura sua, presente também no início do documentário sobre Ruy Guerra. Por que escolheu a água para abrir este filme?

Pode ser que a água seja uma figura de estilo inconsciente. Tenho estudos sobre Jean Vigo e Leon Hirszman que destacam o elemento essencial. É verdade que a água é um aspecto da poética de Ruy Guerra, no caso as águas do Atlântico Sul. É verdade também que água é um tema caro ao MST, visto que a “zeladoria da natureza” que eles promovem cuida da terra e, necessariamente, da água. Nas cercanias de Porto Alegre estive em um grande açude recuperado pelo movimento que atendia não apenas a suas plantações, mas também a pequenas cidades. Por isso, mais do que uma figura de estilo, o plano de abertura do trator procura evidenciar o quanto o filme busca se aproximar do meio ambiente para evidenciar a grandeza do projeto de preservação, produção e habitação do MST.

Seleni de Fátima de Lima e Heleni Terezinha de Lima, filha e mãe a integrar o Movimento Sem-Terra

Um objetivo importante do filme, conforme diz João Pedro Stédile a certa altura, parece ser o de constituir uma fonte de informação para o “povão”, que jamais terá a oportunidade de conhecer o movimento por dentro, pelo que ele realmente é, através dos meios de comunicação de massa brasileiros, tão comprometidos com o capital financeiro. Me parece que foi um objetivo cumprido belamente na feitura do filme. O que está pensado como distribuição para este documentário, para que ele seja conhecido amplamente?

Sim, o filme busca uma forma simples, uma forma humilde capaz de narrar o MST. O filme tem a consciência de que é apenas uma entre outras homenagens cinematográficas possíveis ao movimento. Como disse, a estrutura do filme foi se consolidando ao longo do processo de filmagem, em diálogo com os membros do MST. O filme quer estar a serviço do MST, quer ser um produto comunicativo, mesmo se para isso evita o sensacionalismo.

Como uma encomenda, a produção pertence ao Instituto Conhecimento Liberta que decidirá sobre as formas de distribuição, em conjunto com a Lira Filmes, a companhia responsável pela produção executiva do filme.

O historiador Adilson Mendes, que dirigiu De quanta terra precisa o homem?

Você já tem outros projetos fílmicos engatilhados depois deste? Imagino que continue com sua carreira como professor? Como pretende equilibrar essas atividades?

Tenho muitos projetos que pretendo realizar, que estão ligados a resultados de minhas pesquisas enquanto historiador. Documentários e filmes de ficção. Mas está muito difícil produzir qualquer coisa no Brasil. O campo do audiovisual foi desmantelado nos últimos anos e quem persiste em produzir precisa ter uma couraça bem forte. Como dizia Kulechov em seu manual de direção: “Requisito número um para a direção cinematográfica: saúde.” No caso brasileiro, onde a saúde sempre é pouca e as saúvas, muitas, é preciso muita sorte para se encontrar a parceria adequada.

Neste momento preparo um filme sobre a formação da favela de Heliópolis. Um documentário feito com moradores históricos e jovens habitantes da maior favela de São Paulo. O filme é feito coletivamente, de maneira totalmente independente e com total parceria com jovens universitários moradores de Heliópolis.

Como equilibrar a feitura de filmes com o trabalho de pesquisa e docência? Eis uma questão para a qual não tenho resposta. Apenas busco a complementaridade e não ficar na mediania de um e de outro.

Exibições do filme durante a 46 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo:

SESSÃO 1

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1       

28/10/22 – 21h15

SESSÃO 2

CINE MARQUISE Sala 2     

 31/10/22 – 16h45

DE QUANTA TERRA PRECISA O HOMEM?

Brasil

2022   cor   74 min.   

Documentário  

direção Adilson Mendes

Roteiro Adilson Mendes, Felipe de Moraes 

fotografia Carine Wallauer

montagem Fábio Costa Menezes

design de produção Magda Figueiredo

música Dino Vicente

produção Juliana Lira

produzido por Lira Filmes

então pronto.
eu me admito triste.
desde domingo não sou a mesma.
dor de cabeça, de corpo.
energia zero, sem dormir e lutando pra cumprir o mínimo.
mas isto não importa.
dá pra fazer tudo igualzinho com ou sem dor.
não que resolva muito, mas continuo denunciando fake news nas redes sociais.
discutindo com uberistas e porteiros se for o caso.
enchendo os amigos com as informações que tenho e trocando o que tenho pelo que me dão.
f-se.
não vou parar de viver só porque essa meia dúzia troncha de vizinhos resolveu que eu não sirvo.
essa meia dúzia é que não me serve, ela que não aguentaria um minuto de discussão com a gente.
vão achando que canhões matam ideias, vão!
nunca dei bola pra classe média paulistana, não ia ser agora.
espero que acordem, mas se não acordarem, que pena.
até a xtébtis sabe diferenciar um pato de um laranja!
e se a minha pessoa querida, minha conhecida, que perdeu seu filho pro Brasil já voltou a lutar, como eu ficaria quieta?
é tudo difícil como sempre foi.
e a gente sabe mais que ninguém que está lutando por nossas vidas, por nossa comida, nossa saúde, nossa escola, nosso impossível!
ainda temos tempo, sim.

Pra cima deles com nossos vermífugos, moçada

Por que as pesquisas eleitorais erram? No caso atual, há pelo menos uma explicação. Os institutos tiram suas conclusões a partir de um mapeamento do país proporcionado pelo censo. Mas, por certo, perdemos o censo! Ele foi tirado de nós, em tempo, para que não soubéssemos quem somos até a eleição.

Véus.

Uma vez que a canalhada escondeu o país onde vivemos (encolhidos e humilhados, por sinal), nós nos desatualizamos sobre nós mesmos. Quem somos? A base de dados desatualizada não ajudou ninguém a compreender o país antes de inquiri-lo nas pesquisas eleitorais.

Todas as informações relevantes, como aquelas sobre nossa saúde, por falar nisso, estão ocultas há tempos. É muito sigilo correndo solto, não somente sobre os crimes e o cartão corporativo da família verminácea – simplesmente nossas vidas têm sido obliteradas, sem que nos demos conta da proporção voraz em que isto ocorre.

Somente essa falta de informação proposital na área da saúde pública, por exemplo, já teria sido motivo para impeachment do governante uns dois anos atrás. Mas nada é feito neste país quando todas as instituições, como a imprensa, estão tomadas pelo desinteresse em mudar. A imprensa, a Procuradoria-geral, o Congresso, a Justiça – todos os que deveriam lutar por nós não querem fazê-lo. O espaço público, queridos, encolheu.

Enquanto isso, outro encolhimento, o cognitivo, prossegue lancinante por meio da existência zapeada dos brasileiros, em especial a dos pobres, mas a dos remediados também. É pelo zap que circulam livremente as notícias alucinatórias, fakeadas, que remodelam o conceito de opressão aos oprimidos, para fazer com que ela lhes pareça natural – até justa! Já viram sem-teto bolsonarista? Pois hoje meu marido deparou com um deles remexendo o lixo…

(Um dos memes mais fantásticos que vi nos últimos tempos é aquele que, sobre a ficção distópica “1984”, de Orwell, coloca estas palavras: “Este livro era pra ser um alerta, não um guia”.)

Aceitamos a cegueira porque vivemos nela. É um golpe carniceiro o que transcorre, como vocês sabem. E sofisticado no último, porque se baseia na anulação de nossa habilidade de reagir. Estamos aqui, pequenos, lutando uns contra os outros nos cabos de guerra da internet, onde não cabem os olhos, os sorrisos, o cheiro, os argumentos, a conversa, além disso impondo o pouco que realmente sabemos e percebemos, censurando a mínima oposição, apenas para que sintamos algum poder sobre o outro. Que tal, em vez disso, conversar cara a cara com ele? Talvez tenhamos esquecido como se faz. Mas seríamos tão mais felizes se o fizéssemos.

Eu não sei como isso pode mudar. No fundo do coração, nem creio que seja mais possível.

Ontem, ao consultar o Facebook de minha família bolsonarista, deparei com um vídeo do papagaio pelado da Havan, que pelo jeito é o novo filósofo-astrólogo a substituir o fumante que partiu desta, espero, para pior. Naquele vídeo, um dia antes da eleição, ele pede para que seu espectador vá ao quarto dos filhos e netos, cubra-os e beije-os na cama e depois se ponha a pensar numa só coisa: na Venezuela. “Você quer que os seus sofram como sofrem as pessoas naquele país? Então, se não quer, se deseja um futuro aos seus, veja lá o que vai fazer amanhã na urna, hein?”

Foi das coisas mais assustadoras que vi antes de o dia amanhecer. Até o metrô mais próximo, duzentos ou mais metros, não vi ninguém de vermelho feito eu a caminho da votação. Antes, vinham todos na contramão, assustados ou desafiadores, às vezes animados, mas fingindo não me perceber. E isto para mim significou apenas uma coisa: estamos encolhidos, conforme esses monstros pelados nos ensinaram a ser. Não ousamos mudar o passo, porque, bem, sabe-se lá o que nos espera.

Vamos continuar assim, talvez? Eu desejo que não. Mas, de novo, sem qualquer esperança a circundar meu pensamento… Sou boa de ação, contudo, muito otimista pra agir! E talvez por isso espere de todos nós a guerra de trinta dias para mudar este presidente que é a própria maldição, mesmo que estejamos habitados por nossos medos. Por que, caso contrário, que saída teremos?

Só posso lhes propor isso, ademais no abstrato de suas intuições. Vamos desligar os vermes. Vamos meter-lhes os vermífugos invisíveis de nosso conhecimento, sem dó. E voar alto, por sobre seus canhões.

Onde vai se esconder da enorme euforia?

Eu não ia à aula de hidroginástica do Sesc havia algum tempo, quase três meses desde que me estabafei na calçada de casa, rompi totalmente um ligamento e só não precisei operar por um triz.

Voltei ao movimento sexta passada e constatei que nosso piscinão continua cheio. Uns trinta alunos pelo menos. Vi que tiraram o professor brincalhão de quem eu gostava. E puseram no lugar uma professora séria, disposta a que os velhinhos de todas as idades fortaleçam braços, abdômen e pernas com trilha sonora do passado, sem conversinha nos intervalos.

É chato, mas, quer saber? É bom também. Decidi ficar cantando baixinho, sozinha, enquanto sigo cuidadosa com os pés. Sei a maioria das letras. Hoje teve Wando, RPM, Sidney Magal, Rita Lee, Caetano, QI de Abelha, etc. No passado eu talvez reclamasse. Mas hoje isso é coisa demais. Amei de paixão ouvir o cringe todo que recheia nossa saudosa música popular.

No fundo da piscina ficam os mais altos e os que sabem nadar. Em uma classe com 30 pessoas, somos quase meia dúzia naquela região: eu, o senhor preto de mais de 80, a preta linda de uns 48 e duas senhoras de 80 muito altas, loiras e que me dão calafrios, pois imagino suas altamente hipotéticas simpatias nazistas. (Eu não consigo calar minhas fantasias, elas andam sozinhas.)

Bem, mas hoje, no alongamento, durante os cinco minutos finais de aula, a professora pôs “Apesar de você” pra rodar. Foi tão libertador. Uma das alemãs saiu. Eu chamei a professora no canto pra aplaudir a escolha. E ela: “Fiz de propósito! Vamos nos livrar domingo, com a bênção de deus!”

Ninguém mais comentou. Nem cantou, feito a boboca eu. Até que, no caminho pro chuveiro, me procurou a segunda alemã pra dizer: “Gosto tanto desta professora!” E eu, cautelosa: “Sim, ela é séria!” Para seu protesto: “Mais que isso, ela anima a gente!” Ecoei alívio: “Ô se anima!”

Que bom que enfrentei a manhã fria e escorregadia para curtir este momento delicioso de nossas vidas.

O único senão foi que, parafraseando Borges, não tiro mais da cabeça este mapa da Hungria:

“Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia.
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar.”

E o querido de Hitler era Mickey Mouse

Em entrevista realizada na década de 1970, a cineasta Leni Riefenstahl conta que o ditador nazista usava dublês, amava Hollywood e ganhou de Goebbels, no Natal, animações com o personagem da Disney

“Mickey e Hitler”, litografia
em papel do austro-irlandês
Gottfried Helnwein



O jornalista Maximillien Lafayette entrevistou a cineasta e fotógrafa alemã Helene Berta Amalie, conhecida artisticamente por Leni Riefenstahl (1902-2003), em 1972, em Munique. E publicou sua entrevista, sete anos depois, no livro “Últimas palavras de Leni Riefenstahl sobre Hitler, Goebbels, Nazistas e os Judeus”, reeditado em 2014 pela Times Square Press. Durante a entrevista para Lafayette, a diretora que colaborou com Hitler por meio da direção de filmes, entre eles “Olympia” (sobre a Olimpíada de 1936) e “O Triunfo da Vontade” (sobre o congresso do partido nazista,
em 1935), declarou desconhecer os campos de concentração enquanto atuou para o ditador. E ainda sustentou nada ter contra os judeus, que teriam sido trabalhadores, ao lado dela, na realização de seus filmes.

Hitler com Leni Riefenstahl durante as filmagens de “O Triunfo da Vontade”


Nesta entrevista, cujos trechos republico aqui, a cineasta elege “A Luz Azul” (“Das Blaue Licht”, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu” (Die weiße Hölle vom Piz Palü”, 1929), que dirigiu com G. W. Pabst, seus melhores filmes. E embora o autor do livro em questão garanta ter obtido dela a palavra final sobre sua colaboração com os nazistas, a diretora voltaria ao assunto outras vezes, especialmente em entrevistas para a televisão, jamais renegando a própria obra cinematográfica, mas dizendo ter ignorado as atrocidades contra os judeus. Ela alegava filmar para os nazistas como um meio de posteriormente fazer os próprios filmes. E lembrava que se negou a filmar os combates, ao contrário de outros diretores, por horror à violência nos campos de batalha.

Seus dois filmes prediletos como cineasta foram “A Luz Azul” (acima, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu”, que codirigiu com G. W. Pabst (1929)


Leni, que dizia nunca ter sido filiada ao partido nazista e que na juventude desejava ter seguido a carreira de dançarina, começou como atriz no cinema depois de sofrer uma contusão. Os filmes que protagonizou e que encantaram Hitler utilizaram-se da dança e de suas qualidades como esportista, especialmente no alpinismo. Era impetuosa, na vida e na arte.

A musa etérea e a esportista nas
montanhas geladas, entidades
vividas como atriz

Para realizar suas películas como diretora, exigia máquinas e lentes especialmente concebidas para ela, além de uma grande equipe de técnicos excepcionais.


Ela sabia que Hitler a admirava como mulher, mas com o ministro da Propaganda, Josef Goebbels, que ela intitulava “clown intelectual”, suas relações pessoais eram difíceis. Leni o acusava de assediar as mulheres, especialmente as do cinema, apesar de casado com Magda. E dizia jamais ter tido qualquer relação íntima com ele, assim como com Hitler. E talvez por isso Goebbels não a tenha deixado em paz…


Entre as coisas que Leni Riefenstahl afirmou durante a entrevista, algumas o jornalista considerou especialmente “delirantes”:

1.”Hitler tinha muito respeito pelas mulheres. Ele as achava mais criativas que os homens em um nível artístico. Admirava Zarah Leander [atriz e cantora sueca que fez sucesso na Alemanha entre 1936 e 1943], a quem chamava Divina Zarah, o que deixava Josef Goebbels com um pouco de ciúme… Tinha um carinho especial por Magda, a esposa de Goebbels, que considerava a “mais perfeita mulher alemã”; por Eva Braun, com certeza; pela aviadora alemã Hanna Reitsch; pela princesa austríaca Stephanie
Marie von Hohenlohe (ela era judia), a quem deu presentes e um castelo;
e por mim, até certo ponto.”

2. “Josef Goebbels não era um ‘ariano puro’; ele era meio judeu.”

3. “O próprio Hitler tinha algo de judeu em seu sangue. E criou uma nova árvore genealógica apenas para esconder aquele segredo que o perseguira por toda a sua vida. Seu sobrinho, William Patrick Hitler, sabia disso e o chantageava constantemente.”

4.”Hitler e Eva não morreram no bunker em Berlim; eles escaparam com Martin Bormann, dois dias antes de os russos entrarem no bunker. Eu sei disso com certeza. Não sei todos os detalhes, ninguém sabe.”

Leni Riefenstahl explicita a admiração de Hitler por Hollywood, especialmente por filmes com Mickey Mouse, feitos pela Disney. Goebbels, que tratava de incrementar a formação cultural de Hitler, deu-lhe até mesmo animações com o personagem em um Natal… E, entre outras coisas, Leni diz aqui estar certa de que Hitler, a quem de início admirava, pelo que “muito havia feito pela Alemanha”, tinha um ou mais sósias, e que não morreu no bunker, como a História registra.


A seguir, trechos da entrevista.


Maximillien Lafayette: Hitler usava o serviço de sósias?

Leni Riefenstahl: Claro que sim.


ML: Como você soube disso?


LR: Como eu soube disso? Claro que eu soube. Goebbels… Nossa, Goebbels de novo! Sendo uma cineasta conhecida na Alemanha e a diretora favorita de Hitler, e porque trabalhei com Goebbels em dois ou três documentários e alguns filmes, além de conhecer muito sobre maquiagem, o ministro da Propaganda me perguntou sobre as melhores formas ou “técnicas” para disfarçar uma pessoa ou fazê-la parecer outra. E começou a me fazer mais perguntas. Se eu gostava de filmes de Hollywood, se eu gostava de Clark Gable, por exemplo, de outras atrizes… Perguntas como estas.

Hitler era fã de cinema e amava Hollywood. Goebbels criou uma grande cinemateca para ele, porque sabia exatamente de que tipo de filmes gostava e não gostava. Hitler adorava desenhos animados, amava Mickey Mouse. Goebbels deu-lhe uma dúzia de filmes do Mickey como presente de Natal. E criou um departamento especial sobre filmes americanos considerados pró-judeus ou antijudaicos. Pediu-me para ajudá-lo a selecionar alguns desses filmes e eu recusei. Disse a ele que era cineasta, não historiadora do cinema. Então ele me perguntou se eu iria para os Estados Unidos e me encontraria com diretores de cinema em Hollywood para descobrir que tipo de filme eles estavam fazendo sobre Hitler e a Alemanha. E eu disse não. Finalmente, Georg Gyssling (cônsul da Alemanha em Los Angeles) foi escolhido para fazer isso. Gyssling escolheria filmes de Hollywood e os enviaria a Goebbels.

Com o cônsul Georg Gyssling,
que selecionou filmes de

Hollywood para Goebbels assistir

Você sabe, Goebbels era o responsável pelo cinema alemão durante o Terceiro Reich e ele conhecia muitas atrizes. Não se interessava por atores homens… e uma pergunta levará a outra.


Ele também me questionou sobre o que havia de especial no rosto de Hitler. Eu gostava de seus bigodes? De suas expressões faciais? Adolf Hitler exagerava dramaticamente ao fazer seus discursos? Finalmente me perguntou se com minhas técnicas cinematográficas eu poderia duplicar seu rosto. Se usasse maquiagem de cinema ou de teatro em alguém eu poderia fazê-lo se parecer com Hitler? Fiquei muito surpresa ao ouvir esse tipo de pergunta. Como assim, se eu poderia fazer uma pessoa se parecer com Adolf Hitler? Candidamente, perguntei-lhe se planejava produzir um documentário especial sobre Adolf Hitler ou uma peça de teatro em que uma pessoa devesse se parecer com Adolf Hitler. E ele disse que sim. E eu acreditei nele.


Então Goebbles me perguntou se entre os extras que usei em meus filmes haveria uma pessoa que pudesse atuar muito bem como Hitler e se parecer com ele… até certo ponto. Eu disse que não. Então me perguntou se eu conhecia alguma atriz que se parecesse com Eva Braun. E eu disse que não. Mas sem pensar ou ter qualquer suspeita sobre o que ele me dizia, pensei que o rosto de Eva Braun não seria difícil de duplicar. “Com um maquiador de cinema ou teatro profissional poderia fazer uma atriz se parecer com Eva Braun.” Ele sorriu e disse: “Excelente”. Perguntei quem estava escrevendo o roteiro do filme ou da peça, e Goebbles respondeu: “Eu! Eu quero surpreender o Führer. Vai ser uma boa surpresa. Não diga a ninguém. Isso é um segredo. Você promete?” E eu respondi: “É claro.” Antes de sair, perguntei se poderia ler o roteiro, caso ele estivesse considerando que eu fosse a diretora do filme. E ele respondeu: “Você terá notícias. Mas, lembre-se, é um segredo. Não estrague a surpresa.”

Ele nunca mais me ligou. E eu me esqueci totalmente de tudo isso, até que fui presa e interrogada pelos americanos por horas horríveis e intermináveis sobre se Hitler usava um sósia ou não. E de repente algo passou pela minha cabeça. Algo me atingiu. E eu sabia o que era. Em segundos, lembrei-me de todas aquelas perguntas de Goebbels. O interrogador militar me perguntou: “Adolf Hitler usou um sósia?” Eles repetiram a mesma pergunta duas ou três vezes. Mas eu estava em outro lugar. Foi um pesadelo. Perguntas após perguntas após perguntas, sem parar! Acho que desmaiei.


ML: E agora, depois de todos esses anos, e o que você ouviu e leu sobre o duplo ou os duplos de Hitler, você mudou de ideia?


LR: Sim. Agora tenho certeza. Adolf Hitler usou um sósia.


ML: Leni, por favor, olhe essas duas fotos. Diga-me, esse homem é
Adolf Hitler ou seu sósia?


LR: Este NÃO é Adolf Hitler!! (Leni depois de olhar as fotografias por menos de cinco segundos).


Um sósia de Hitler, segundo
Leni, morto em 1945

ML: Um dublê então?


LR: Sim! Definitivamente um dublê. Oh meu deus, ele se parece exatamente com ele. Mas posso dizer. Não é Adolf Hitler.

ML: Como você sabe?


LR: Primeiro, as orelhas. Essas não são as orelhas de Adolf Hitler. Em segundo lugar, o sorriso, este não é o sorriso de Hitler. O lábio superior… Não, não. Este não é Adolf Hitler. Uma réplica muito boa, um dublê muito convincente! Tirei mais de 3 mil fotos de Adolf Hitler de todos os ângulos. Conheço muito bem a cara dele. Espere um minuto, eu vi essa foto em um noticiário, me lembro agora… É realmente incrível.


ML: E esta fotografia, Leni? Esse homem é Adolf Hitler?


LR: Não! Um duplo! Eu conheço cada centímetro dessa face. Eu o treinei para meu filme “O Triunfo da Vontade”. Eu o dirigi, criei e filmei cenas especiais para se encaixar nas expressões dramáticas de seu rosto. E posso lhe dizer que o homem nesta fotografia não é Adolf Hitler. Este homem é um dublê de Hitler.


ML: Você está me dizendo que na época em que trabalhou ao lado dele nunca soube que tinha um sósia ou suspeitou de alguma coisa sobre isso?

LR: Eu não sabia. Mas suspeitei de algo. Não acho que alguém soubesse naquela época, exceto, é claro, Goebbels, Muller (General Muller), Bormann e o artista da maquiagem.
Este homem (apontando para a foto) ainda está vivo?


ML: Ele foi baleado na cabeça. Assassinado.


LR: Quem atirou na cabeça dele?


ML: Não sabemos. Sem testemunhas. Mas muitos estão apontando o dedo para Martin Bormann.

LR: Eu conheço cada centímetro do rosto de Hitler. E posso dizer que o homem nesta fotografia não é ele. Este homem é um sósia. Você está escrevendo um livro sobre o Terceiro Reich?


ML: Não, não estou trabalhando em um livro. Mas talvez eu possa fazê-lo um dia desses, daqui a alguns anos.


LR: Tenha cuidado. Nunca se atreva a dizer nada de positivo sobre Adolf Hitler. Sem mais comentários.


ML: Por que deveria dizer algo bom sobre Adolf Hitler? Alguns dos meus parentes foram mortos pela SS!!


LR: E se você decidir escrever um livro e publicá-lo em breve, quero ler tudo o que você escreveu sobre mim antes de imprimir o livro. Entendeu? Quero ler e aprovar cada palavra que você escreveu, por favor. Diga a verdade. Não exagere. Não dramatize as coisas. E não me cite mal e não diga mentiras. Não sou Max Schmelling [boxeador alemão que ganhou o campeonato mundial de pesos-pesados em 1930 e 1932], mas vou dar um soco na sua cara o mais forte que puder (sorrindo).


ML: Hitler cometeu muitos erros. Na sua opinião, quais foram os maiores?


LR: Hitler cometeu quatro erros grandes, muito grandes.
O primeiro e maior, como todos sabem, foi o Holocausto Judeu. Poucos tinham conhecimento sobre o assassinato em massa de judeus. Certamente eu não sabia nada sobre essas atrocidades. Hitler nunca me falou sobre os judeus. O segundo grande erro foi sua teimosia. Ele nunca deu ouvidos a seus generais, era um líder civil imponente, mas um péssimo estrategista militar. O terceiro grande erro, claro, foi quando ele declarou guerra à América. E o quarto grande, quando atacou a Rússia.

Ciro, o cavaleiro negro e o rei

A insistência do Ciro em bater no Lula não deixou apenas grande parte de seus eleitores em 2018 indignados. Ela também rachou a coligação PT-PDT no Ceará, e os Gomes podem perder o governo do estado.

Em lugar de abrandar seu rancor por Lula, Ciro continua arriscando (ou será riscando) seu futuro político, dando murro em ponta de faca e sangrando mais.

Quer saber?

É da vida, da bílis, não me meto.

Mas penso: de onde virá o dinheiro para o futuro deles?

Um primo que mora no Ceará me diz que, além de ter ganhado bastante na última década, a família vai continuar retirando de outras fontes, cargos, projetos para as prefeituras, facilidade de empréstimos…

E será só isso?

Não sei. O Brasil da politicagem não é pra amadoras feito eu.

De todo modo, o Ciro me faz lembrar o Cavaleiro Negro do Monty Python. Vocês lembram do personagem, não? Um abusado. Ele guarda a merreca de uma ponte sobre um riacho e não quer deixar o Rei Artur passar. Vai esgrimando por sua missão até perder todos os membros e esguichar por todos os buracos, sempre reiterando que as feridas não passam de arranhões. O cavaleiro luta até se transformar num toco pregado no chão, mas ainda assim segue ameaçando o rei, que continua a viagem.

Então.

Só peço ao meu inconsciente que não me deixe sonhar com uma armadura preta numa poça de sangue, vade retro.

O que não é unânime

Eu também não gosto de algumas unanimidades. Mas não falo muito sobre isso, especialmente em cima da morte da unanimidade de que não gosto. Se não se trata de alguém do mal, dou um tempo.

Mas é curioso como o ódio manifesto a quem morreu invariavelmente prossiga com a enumeração das preferências do odiador, em falsa oposição ao que o odiado representou.

Por exemplo, um dos meus chefes na Folha reagia sempre do mesmo jeito a cada vez que eu dizia gostar de um novo Godard:

  • Prefiro E o Vento Levou!

Ah.

E eu com isso, meu amor? O que uma coisa tem a ver com outra?

Me dava vontade de dizer:

Você acha que Godard, o cinema, a história do cinema, se importam com sua opinião?

Tenho certeza de que ele achava que sim.

Na banheira do Gugu Ciro

Enfurecido com o apoio de Marina a Lula, Ciro dá pito em Marina, como se desejasse lhe ensinar a fazer política.

E o pior nem é isso. O pior é que no meio do pito coloca outra mulher na discussão, a Heloísa Helena, essa que tradicionalmente se sente traída por Lula e vai apoiar Ciro.

Ou seja, Ciro dá pito em uma mulher citando o exemplo de outra, como se rebaixasse a discussão para o entendimento desses seres inferiores.

Parece o Gugu jogando mulheres na banheira para ensaboamento.

Até onde vai essa macheza odienta, Gugu Ciro, meu bem?

Marina não vai se ensaboar por você…