nada mudou para mim.
todos os dias,
tenho um sonho
ou um desapontamento,
expresso um viva
ou um desejo de
não haver me
colocado onde estou.
todo dia, um
arrependimento
se cola ao meu ardor.
não há peste que altere
o lento, por vezes radiante,
mastigar das coisas.
Torturado espelho
Água como aquela que o filtro obtém do barro,
fria.
Arrepia meu coração
como se eu jamais tivesse nadado antes.
Sido antes.
O pavor de ser quem sou.
Velha, imensa.
O pavor de já ter sido.
Água, torturado espelho, meus olhos mergulhados em sua calma.
Oração

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.
A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.
E nem os sapatos me servem mais.
Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.
Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.
É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.
Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.
Um deserto para os sonhos que tive.
Só eu sei o que é dizer sim quando no meu profundo há um não.
Nunca soube obedecer.
A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.