Um jogo de armar

“Fotospoéticas”, de Zuleika de Souza e Antônio Paulo Barêa Coutinho, propõe um mergulho nos vestígios do tempo

 

vaso
A MORTA SOMBRA
A sombra homem
à sua volta
a flor que some
e já vem torta
um vulto sem nome/ quem se importa?
fará insone
a natureza morta

De que serve um livro sem imagens? Ou, pior que isso, sem poemas? Mas este não é só um livro.

As páginas memoriais de “Fotospoéticas” descrevem o decorrer do tempo. Zuleika de Souza, a autora das fotos, faz poesia a partir de vestígios. Antônio Paulo Barêa Coutinho, o escritor, propõe narrativas expressivas a essas criações visuais que sussurram múltiplos sentidos, por vezes saturadas e contrastadas. 

E o que estes dois autores fazem juntos é desmontar o processo conciso em que se dá um poema. A vida é um jogo, como diz Coutinho, e não um sonho. E lá se vão os dois jogar, desfazendo os códigos da visão.

“Fotospoéticas” joga para evocar Cortázar. Leia apenas os poemas e narrativas e você sairá feliz dele. Veja apenas as fotos, na ordem em que for, e a alegria será igual. Tudo se multiplicará quando você ler os dois.

Cada imagem do belo volume remete a uma pequena descrição de Coutinho para além da foto de Zuleika. Ou, melhor dizendo, para dentro dela. Cartier-Bresson dizia que fotografar não é identificar, mas penetrar. Claudio Versiani, que assina o prefácio, sugere que enxergar é identificar, e ver, penetrar – e que a verdadeira fotografia deveria ver.

memoriagua
MEMORIÁGUA
Depois da chuva
a memória da água
escorreu
no vidro de lembrar
permitiu
um tempo que não vivi

Sim, Zuleika tem uma visão penetrante, como se descascasse não só as paredes, mas as nuvens e as sombras, em busca do objeto que elas escondem. Ela vê o jumento na rua, mal amarrado: à espera de quem? As caixas de correio, não se sabe por que permanecem ali, tão bem pintadas. A sombra do vaso com flores evoca um torso. 

Suas cenas são pinturas questionadoras com um traçado áureo. Dá pra entender por que Coutinho, economista e doutor em Ciências Sociais, sempre procura o homem quando descreve as fotos. O homem, sua imanência, sua memória, encaixam-se nessa sofisticada geometria das coisas, embora o poeta não deixe de lembrar: “As palavras não se atrevem com certas paredes.”

coada 2
NO FUNDO VARANDA
O fundo da casa, a frente da casa.
A casa que, no fundo,
é uma luz que entra coada,
uma saudade avarandada
vaga.

A inspiração barroca de Coutinho contrasta com o classicismo de Zuleika. Sua verve intensa de escritor diz paradoxos aparentes, descreve de forma deslocada, rebusca-se com concisão. As águas são tontas, os prazeres, firmes, a esperança, calma, a luz, coada… E, enquanto isso, as linhas das fotografias buscam a eternidade. 

Eis a maravilha desta obra, ter sido composta entre eles a partir um drible constante, de um jogo que nos faz mergulhar.

 

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