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Herança maior que meu pai me deixou

O que hoje lhe impulsionaria a pintar, meu pai? A buscar? Como entenderia as facetas da falsidade obrigatória deste mundo? Se esconderia, como eu, nos livros, nos filmes, no apartamento? Brilharia, como a arte lhe ensinou? Acreditar na arte, meu pai, em sua capacidade de transformar tudo, foi a herança, aliás, que me deixou. Que o céu brilhe mais só porque seus olhos o veem da grande altura onde está. Parabéns.

De profundis

Paulo Netto no show “Coração Selvagem”, Centro Cultural São Paulo, em 29 de junho de 2024

Sempre achei difícil definir meu encanto pelo @paulonettocantor. Mas hoje, depois de assistir a seu show “Coração Selvagem”, entendi melhor minha afeição pelo artista. Ele, pernambucano, interpreta no show o repertório musical saído da rádio da vizinha em Condado, onde nasceu. A vizinha o intrigava: como poderia cantar feliz aquelas histórias tão tristes? Mas eu, nascida aqui em São Paulo muitos anos antes, ouvia a mesma ladainha nas férias nordestinas, e minha vontade era, pelo contrário, sorrir diante de letras tão originais que pareciam derramar-se! Desde o sol, naquela região do Brasil, tudo se espalha, comove, brilha, engrandece.

Como explicar? É prazeroso o desmanchar-se. E talvez você só consiga entender isso direito quando o próximo show “Coragem” aparecer, ou o novo álbum de Paulo Netto sair. Será possível perceber então como ele interpreta com amor sentido os muitos momentos da canção profunda brasileira, seja de Márcio Greyk (“Impossível acreditar que perdi você”), Fernando Mendes (“A desconhecida”), Tierry (“Gerusa”) ou dele próprio com Martins (“Nossa dança”), legando-nos sempre um sorriso na intensidade, como a provar a distância mínima que existe entre uma lágrima, uma gargalhada e o dia quente sobre as calçadas de pedra onde se dão as serestas.

“Impossível acreditar que perdi você”
“A desconhecida”
“Gerusa”
“Nossa dança”

Dona Cadu, que era a própria alegria

Pensei nela algumas vezes nesta semana, ontem mesmo. E morreu na madrugada de hoje, dia 21 de maio de 2024, aos 104 anos. Encantou-se dona Cadu.

Louceira e principalmente sambadeira do Recôncavo Baiano, tornou-se a guia poderosa para tantos, certamente para meu pobre espírito. Não tenho religião, mas conto com dois guias dessa imensidão em minha vida: Chagdud Rimpoche, que acalmou minhas preocupações de grávida e abençoou meu filho, e dona Cadu, que me sorriu e sorriu (e vocês podem notar isso nestes vídeos que fiz dela em 2017, em Coqueiros, e no ano passado, durante evento sobre as louceiras/sambadeiras do Recôncavo, durante o qual dançou com o filho Balbino).

Estou muito triste, mas sei que a sua será uma subida gloriosa, e que ela já habita, aquece e preenche nossos corações. Obrigada por tanto, dona Caduzinha, que era a própria alegria da vida.💜

Diante de sua oficina de cerâmica
em Coqueiros, 2017
Sambando em Saubara, no
Recôncavo Baiano, em 2027
No palco do Sesc 24 de Maio,
São Paulo, em abril de 2023, feliz
por ser sambista…
Dançando com o filho Balbino
no palco do Sesc 24 de Maio,
em São Paulo, abril de 2023

Uma tela de De Kooning inspirada em um filme de De Santis

“Escavação”, óleo sobre tela de
De Kooning, 1950

A pintura “Escavação” foi realizada por Willem de Kooning em 1950, inspirada no filme “Arroz amargo”, dirigido no ano anterior pelo italiano Giuseppe de Santis com as interpretações centrais de Silvana Mangano, Doris Dowling, Vittorio Gassman e Raf Vallone. Segundo o pintor estadunidense nascido na Holanda (1904-1997), o ponto de partida da pintura foi uma cena do longa-metragem neorrealista em que mulheres trabalham em um campo de arroz.

No óleo sobre tela estão sua pincelada expressiva e a organização distinta do espaço em planos soltos, com contornos abertos. Apropriadamente intitulada, a composição do artista expressionista abstrato reflete o processo de elaboração da pintura. Trata-se de uma construção intensiva. As camadas de tinta da superfície foram raspadas durante meses até que o efeito desejado surgisse.

A estrutura dinâmica de linhas caligráficas em forma de gancho define partes anatômicas – formas de pássaros e peixes, narizes, olhos, dentes, pescoços e mandíbulas humanos – e revela a tensão particular entre representação realista e abstração, inerente ao trabalho de De Kooning.

(Com informações do The Art Institute of Chicago, onde a tela está exposta)

Doris Dowling (segunda a partir da esq.) e Silvana Mangano (quarta a partir da esq.) em cena de “Arroz Amargo”, de De Santis, 1949

Enquanto seu Monange não vem

As perfumarias aqui do centro têm imensos corredores vazios com prateleiras cheias de ofertas. Por isso não entendi a fila de hoje de manhã, que se dobrava muitas vezes na entrada da loja.

Estariam vendendo ingressos pro samba? Sorteando presentes? Contratando lojistas?

Cheguei-me à menina de top e shortinho acompanhada de uma senhora de óculos que talvez fosse vizinha ou parente, evangélica, possivelmente, e perguntei:

– Black friday?

– Não.

– Vão dar presentes pra vocês?

– Que presente o quê! Até parece que eles dão alguma coisa pra gente. Vamos é comprar na promoção.

Não perguntei mais. Precisei me recuperar da cutucada existencial. De onde viemos, onde estamos e pra onde vamos a bordo de nossos carrinhos de Impala e Monange?

sem madonna sou

não sintonizo a globo jamais, porém no passado assisti ali deliberadamente à transmissão do início da invasão de bagdá, uma vergonha com hora marcada.

não vejo jornal nacional, portanto, nem telenovela nem huck, graças a deus.

as últimas coisas da emissora percebidas por mim, durante ocupada juventude, quiçá tenham sido o funeral do tancredo, o show do joão gilberto com a rita lee e a morte do sena.

já me diverti com a madonna no passado, mas nunca a levei a sério, jamais constituiu meu ícone pra coisa alguma (quem me liberou foi wilhelm reich), embora admire seu racional, o saber lidar com as massas & sua psicologia.

ela é mais velha do que eu e talvez por isso minha coluna vá melhor que a dela.

não gosto de show de dublagem, embora assista sem muito gosto, eventualmente, aos lip syncs do reality da ru paul.

a primeira vez que vi a imagem de marielle no telão foi durante um show emocionante dias depois da sua morte, dado pela brilhantíssima neneh cherry, com a presença paga de seus grandes músicos, sim, no sesc pompeia.

nascida também há seis décadas, igualmente sabedora de nós, a linda afilhada do don cherry tocou assim no dedo quente da ferida brasileira sem que bebel gilberto, ao abrir a apresentação, tivesse se ocupado minimamente do brutal assassínio.

dito isso, e não necessariamente na ordem/desordem acima, que todo mundo possa encontrar diversão no que é de divertir, ver o que quiser ver e amar quem deseje até dizer chega, como falava minha tia alzira do nordeste e do coração.

Pasolini sobre Chaplin e outros fundamentais

Em 16 de abril de 1889, nascia Charles Chaplin. Aqui Pasolini escreve sobre a importância de Carlitos e outros diretores na formação de seu cinema:

“Não pertenço a nenhuma corrente cinematográfica, exceto de forma muito vaga.

Não sou profissional de cinema e por isso não fiz o noviciado, não estagiei, não tive professores, não me encaixei numa corrente. Eu vim de uma área completamente diferente e, portanto, agi de forma bastante irregular.

Mas eu tinha uma constelação de nomes comigo: em primeiro lugar eu diria Carlitos, seguido, mas em alguns aspectos diria até superado, por Buster Keaton. A outra constelação é a de Carl Dreyer, eu diria mesmo que é a mais importante de todas. E depois um artista absolutamente obsoleto para um diretor italiano, ou seja, o diretor japonês Mizoguchi.

Não sei se formam uma corrente, mas formaram, pelo menos nas linhas externas, aquela estrutura e aquele jeito estilístico típicos de mim. Tanto em Chaplin como em Keaton, em Dreyer e talvez em Mizoguchi, porque nunca estudei bem Mizoguchi em câmera lenta, faltam os típicos planos-sequência que são a principal característica do neorrealismo.”

PIER PAOLO PASOLINI em “Il mio sacro è qui”, ensaio de 1970 publicado por “Avvenire” em 2014

via Città Pasolini

Coppola, à espera de um lugar ao sol de Hollywood para seu “Megalopolis”

À véspera de completar 85 anos no dia 7 de abril, o diretor Francis Ford Coppola apresentou seu novo filme, “Megalopolis”, cujo projeto iniciou em 1983, em uma sessão especial para magnatas da distribuição, da exibição e da publicidade. O filme explora os embates entre sonhadores e pragmáticos durante a reconstrução de uma cidade acidentalmente devastada. Adam Driver, Shea Le Boeuf e Jon Voight estão no elenco.

Ao final da sessão, apurou o “Hollywood Reporter”, os poderosos não disfarçaram o mal-estar. Eis um produto impossível de vender. O filme não distingue bandidos de mocinhos, mostra umas esquisitices indie lá pelo meio e se desenvolve em mais de duas horas sob um ritmo longe de ser frenético.

Nos bastidores, os magnatas consideram que o pessoal alternativo deveria cuidar do bebê. O problema para que isso ocorra, já se pode imaginar: os alternativos não têm os 100 milhões de dólares que Coppola calculou necessários para a distribuição, a exibição e a publicidade. O diretor precisa retornar o que gastou sozinho para produzir o filme, alegados 120 milhões de dólares obtidos com a venda de parte de sua vinícola estimada em 500 milhões. Quanto ao streaming, só ele não faz tudo.

O cineasta deve estar habituado ao processo. “O Fundo do Coração”, lançado em 1981, faliu seu estúdio. A história se repete como farsa, quiçá alegoria para o fim de um sonho de cinema. Coppola terá energia para empreender via crúcis semelhante depois quatro décadas, ademais no ambiente de derrocada atual? Ele deve se lembrar todos os dias do que leu entre os escritos deixados pelo filho roteirista, morto em um acidente de carro: “A arte não dorme”. Tantos deuses do crepúsculo quebraram estúdios no passado sem deixar de ser deuses.

Já preciso ver este filme, que no mínimo deve ter funcionado, aos magnatas, como um espelho.