O veneno das espumas

De volta para meu futuro

O mar é o meu maior medo. Maior que a morte, talvez. 

Sempre fantasio que morrer é um passo em falso até o chão. Morro metaforicamente uma vez por ano ao cair nas calçadas paulistanas, lá onde aprofundo pouco a pouco minha frouxidão ligamentar. Um tropeço, o cimento, o nada: eis a morte pra mim.

Minha visão do mar parece mais aterrorizante porque, ao contrário do que ocorre no chão, dificilmente vejo o fim chegar. Se o mar me engolir, não vou parar em destino sabido. Cairei em um precipício onde me aguardarão arraias de três cabeças, peixes com presas de mamute e espumas venenosas. E o balé não acabará aí. Ainda haverá o tribunal de gorilas carnívoros a cercar o trono flutuante, uma etapa a mais do pesadelo a que serei submetida. 

O presságio da morte em água salgada nasceu quando eu era criança. Tinha 4 anos quando minha mãe me levou para pular as ondas na beira da praia do Futuro. Em Fortaleza, o mar não é para amadores, e minha mãe, que não sabia nadar, caiu num buraco comigo. O vento soprava com tal fúria que a praia parecia mudar de formato constantemente. Eu submergia. A cada par de segundos, minha mãe tentava me levantar pelos braços, o que, ao contrário do esperado, me fazia afundar mais. Lembro-me do maiô preto de helanca que ela usava, com o decote em V. Sua cabeça estava onde eu não podia ver.

Em súbita arremetida, contudo, vi meu pai chegar em nosso socorro, ele que aprendera a nadar quando um dia lhe atiraram ao Tietê. Sua técnica de braçada não funcionava direito porque a cabeça estava sempre fora d’água. Era como se ele se debatesse também.

Como sobrevivemos, não sei. O vento deve ter congelado as arraias, os peixes e os gorilas para nos deixar passar. Curioso que agora eu me sinta tão feliz no mar da Bahia, contra tudo e contra todas as evidências do veneno das espumas.

Muito a esquecer

Sorrio, estou na Bahia!

Na balsa, vou de carro.

Ocupo o banco de trás do veículo, já que meu tornozelo maltratou-se outra vez. Robocop é pros fortes. Minha vontade de ser e retribuir não vê caminho a percorrer.

Levo um tempo pra perceber o zunido de conversa atrás de mim, entre o motoqueiro branco e o barqueiro negro sobre cujo boné lê-se “marinheiro”.

Não têm cabelos. 

Mentem?

– O Lula falou que ia revogar tudo. Cadê? Óleo a 9? 

– Quando Bolsonaro ia pro estrangeiro, ficava no quartel. Agora, quando o Lula sai, é pra hotel de bilhões.

– É só ver o estado dos Correios. Tinha valor bilionário. Depois que Bolsonaro saiu, olha a merda que ficou.

Estou a certa distância de atirar a bota com meu pé junto. Aos poucos, com uma ponta de crueldade sanguínea, e um mínimo de visão de pontaria, iniciaria a primeira gaza da minha vida.

0 vento me salvou.

esqueço quem sou.

me esqueçam!

Ubertale

das ubertales

e/ou 

das coisas que só eu ouço por aí

Pego o Uber Comfort, o mais barato no momento. O motorista não sabe o caminho. Tento explicar. Não me ouve. E do nada:

– Minas Gerais não é como aqui.

– Você é de Minas?

– Belo Horizonte. Faço Uber pra pagar as despesas quando venho de viagem.

– Ah, claro – digo. E penso: deu pra ver.

– São Paulo é uma bagunça.

– Hum. Onde não é?

– Em Minas, as coisas são certas.

– Certas?

– Em Minas, quem manda é a polícia.

Quero dizer tanta coisa. Que democracia isso, que três poderes aquilo, que polícia não manda, cumpre, e que, se manda, é bandida. Mas quando olho pela janela vejo o Basquiat. A cara dele. Fico quieta. Deixa o louco se complicar sozinho, mulher. 

Ah, esses céus

Das coisas que só eu escuto por aí.

Chovia e nos protegíamos sob a marquise.

– Que tempo é esse? – me perguntou a senhora agasalhada, de coque grisalho. Mas era como se falasse consigo mesma.

– Desequilíbrio climático, difícil – respondi o que me veio, sabendo que ela não parecia ter me perguntado nada.

– Choveu tanto, tanto, ontem, no Jardim Paulista – prosseguiu.

– Alguém morreu? – me interessei.

– Não.

– Primeiro foi o fogo – ela voltou.

– Onde? – perguntei.

– O Edir Macedo já disse. Primeiro foi o fogo. Agora é a vez da água do Apocalimpse.

A chuva diminuiu. Saí de fininho. Ah, esses céus.

Carnaval que é bom…

Sou da geração do Prince. Ouço algo dele quase todos os dias. Por isso estou aqui na minha rede, encolhida, com suas músicas no último volume do fone de ouvido, enquanto um bloco de pré-carnaval passa lá embaixo na São Luís, a tal avenida-folia paulistana. Não que toquem só o que é do carnaval por aqui, claro. Ô mania de alardear tudo, menos o samba, que este povo tem. E no volume mais ensurdecedor, of course. Mas amanhã vai chegar. Amanhã, o dia de eu fazer ioga para velhos no SUS. (Isto se não chover o mundo outra vez, que o salão do Anhangabaú não suporta a choradeira e se entope da sujeira das lágrimas.) Amanhã vou de bermuda ciclista seguir as manobras ditadas por minha jovem professora de óculos, magra e austera. De bermuda, sim, para enfrentar o mundo que me estranha. Que se danem, ok? Foi o que respondi delicadamente para aquela colega ao final de uma dessas aulas. Virou-se para mim, a espoleta, nos seus 70+: “Hum, tá bonita ainda, hein, olha essas pernas, aproveita!” Concluo que aquela idade com que eu sonhava secretamente chegou. “Que se danem”, respondi. Quase não ligo para mais nada nem ninguém. Se é elogio, como no caso da colega, não é: antes uma ameaça, um desdém. E de homem então é que não espero nada – assalto, talvez? Meu carnaval é o teatro das ruas do centro de todos os dias. You Sexy Mother Fucker, Prince. Bad girls, Donna. Michael, don’t stop ‘til you get enough. (E obrigada pela escuta atenta: a raiva de hoje vai passar, amém.)

Quando o abuso é grande

Desde estudante sofri assédio sexual e moral. Como qualquer mulher, suponho.

Na universidade, um professor me reprovou duas vezes, e quase não me formei, porque ele me queria disponível. Dizia que eu escrevia bem, que a ideia do trabalho era boa, mas sempre me desestimulava em algum ponto, me fazendo recomeçar (um sujeito futuramente importante na hierarquia uspiana, devo dizer). 

Uma vez, no atendimento para o trabalho final, procurei-o em sala, como o exigido semanalmente a todos os alunos da graduação. Enquanto eu falava, precisei levantar, sobre a camisa, a alça do sutiã que havia descido. Ele achou nessa hora um caminho pra me desqualificar. “Não precisa disso pra passar comigo”, disse, como se levantar a alça do sutiã fosse um sinal de oferecimento sexual. 

Entendi na hora que, depois de muitos embates anteriores em torno da defesa de minha pesquisa, ele não mais dispunha de argumentos intelectuais para diminuir sua aluna e tentava a última cartada para derrubá-la. Saí da sala dele para não voltar. 

Precisava ainda passar pelo inominável, contudo, se quisesse tirar o diploma. Me inscrevi de novo na disciplina, mas fiquei sem coragem de cursar. Acabei reprovada pela segunda vez. Se isto acontecesse novamente eu seria jubilada, segundo o regimento da universidade então. Fui salva, na terceira tentativa de obter aprovação, pelos próprios colegas. O professor estabelecia a média do trabalho final a partir de duas notas, a dele e a dos alunos. Cientes então de meu problema, os colegas me deram nota 10 final e ele, zero. Passei. Muitos anos depois, o professor me encontrou por e-mail e passou a me mandar suas newsletters, sem mais.

No trabalho, foram assédios morais constantes. Humilhações e tramas de bastidores nascidas do simples fato de eu ser mulher e conseguir desempenhar a contento minhas funções (“homem escreve melhor” era um pensamento verbalizado em redações da minha juventude). Muitos homens e mulheres correram atrás do meu pequeno lugar. E houve assédio sexual também. Um belo dia, na redação de um jornal diário, recebi a mensagem do editor: “Não gostei de você hoje sem batom. Pinte esse bico, por favor.” Mandei ele me procurar na esquina e continuei a fazer meu trabalho sem mais importunações.

Tudo isto para dizer que as coisas mudaram bastante. Na juventude eu não acreditava no recurso da denúncia, que hoje se encontra mais facilmente disponível. Achava que ninguém se fiaria em mim se dissesse o que se passava, logo eu que usava saias curtas. E, se dissesse, eu teria de me desgastar pessoalmente, o que me parecia inconcebível: ou dava meus pontapés ou não fazia nada. Contudo, quando não fiz nada em um caso de constante assédio moral, ocorrido quando eu era já bem madura, sofri. Eu tinha dois filhos em idade escolar, difícil a situação financeira, o equilíbrio existencial. Errei ao me calar.

Hoje penso que, em caso de humilhação no trabalho ou na escola, a denúncia é um bom caminho. Mas se o sujeito tem a mesma hierarquia que você, dê-lhe um chute imediato naquele lugar, passe a denúncia a seus colegas hierárquicos e, principalmente, a seu superior. Você sofrerá menos pesadelos depois.

Mulheres até o fim

Imensamente feliz por nossas mulheres olímpicas. Quem não estaria? São pessoas que vestem a luta, habituadas a presenciar a lida de mães e avós. Seus olhares parecem voltar-se a tudo em torno, sem se esquecer do que é próximo. Difícil ser mais bonito como povo do que agora, com essas pessoas diante de nós.

Segunda-feira cedo, contudo, eu pensava diferente. Atrasada, a caminho do metrô para a fisioterapia semanal, me perguntava o que São Paulo fez das mulheres, insistentemente abandonadas no centro da cidade. Nossos governos, municipal e estadual, habituaram-se a exercer a crueldade com elas, como quem não larga um vício. Mas e nossas mulheres, desistiram de lutar?

Bem, ainda não. Lutam de um outro jeito, talvez.

Três delas me pediram ajuda no trajeto para a estação próxima de casa. Um número incomum até para mim, que transito por essas ruas todos os dias. Não usavam os filhos. O pedido, como de uso, era por dinheiro-não, mas uma coca-cola, por favor. Eu me recuso a distribuir coca-cola e meu estoque de barrinhas de cereais para doação acabou. Passei pelas mulheres a abanar meu sinal de não. Às vezes saio para distribuir roupa e comida a quem aceite, mas não naquele dia. Não.

Grande padre Júlio que circula por lugares muito difíceis, munido da concha de sopa que é a espada dos justos. Mas eu não sei fazer um grão do que ele faz em regiões como a estação da Luz à noite, por exemplo. Estou na praça da República, mas já aqui, onde as coisas nem são tão ruins, vejo que, para essas mulheres, não se trata apenas da dificuldade em sobreviver. Elas vêm aqui para morrer. E isto é ainda mais difícil conseguir. Um processo custoso, lento. 

As três que me procuraram em um intervalo de menos de dez minutos tinham idades variadas. Uma trans de vestido vermelho longo, grandes brincos de argolas, sorridente, não chegava aos 20 anos. Uma religiosa sem dentes, talvez aos 50, clamava “pelo amor de Jesus” dentro da estação do metrô. Uma noia desbocada e impaciente, quem sabe aos sofridos 30, agitava as mãos e abria os olhos em minha direção, na avenida Ipiranga, sem que eu pudesse entender o que dizia. 

Muitas mulheres, cis ou trans, religiosas ou noias, já me imploraram ajuda antes, mas não tão cedo, ou não fora da hora de almoçar, como nessa segunda-feira. Sofriam demais. Achei que me procuravam com intensidade (a religiosa quase segurou meu braço) porque sou mais velha do que elas. Buscavam solidariedade na senhora de alpargatas, óculos escuros pretos e redondos, bolsa de mesmo formato e tecido africano, camiseta branca e calça pantacourt preta, gentil com os pobres, difícil para o mundo. Mas por que só mulheres atrás de mim?

O que sei: me viram desde longe, caminhando, e me surpreenderam com sua aproximação. E isto me lembrou eu mesma quando detecto um personagem à distância e chego arriscadamente mais perto dele para fotografá-lo e ao seu entorno. De certo modo, me escolheram por meu jeito de me movimentar e vestir. Fui um palpite.

Não quero comparar meu modo de tirar fotografias ao delas quando esmolam. O que quero dizer é que compartilhamos a atmosfera da cidade, razão pela qual usamos estratégias algo parecidas de aproximação.

Hoje sou uma pessoa um tanto isolada, por entender que não triunfei na maioria das relações humanas, e não desejo, a partir de agora, me estender nelas mais do que o necessário. Prefiro a família próxima, os amigos antigos, meus livros, meus filmes, minha música, minha cozinha. Posso preferir. Tenho o que essas mulheres nem sonharam ter.

Contudo, nossa atitude em comum é não temer tanto assim o estranho, aquele desconhecido que será, para nós, o meio de alcançar um objetivo. Não sofro por morar no centro, não ainda. Gosto dessas pessoas. Unimo-nos por instantes tão breves. Somos um fluxo de intuições, incertezas e tentativas, o sol às nossas costas, até a hora do fim.

Estas mulheres em mim

Com qual delas me pareço mais, não sei. Mas estou certa de que ainda crescem em mim.

Vó Guilhermina, neste desenho de meu pai, eu não conheci. Morreu aos 50 anos, diabética, na passagem do ano, depois de uma “melhora da morte” de que meu pai recordaria por toda a vida, sempre em lágrimas. Ele que era então menino pequeno nunca se recuperou da perda dessa mulher nascida nos Açores, sua mãe demais, enquanto não se conectava com o pai, veneziano e grave. Guilhermina dizia ter-se apaixonado pela beleza de meu avô, uma história bonita: Daniel deixou a família e a possível pequena herança em terras para se casar com ela, revoltado com os parentes que não queriam a união (e por que não, meu deus?). De olhos tristes e puxados, as roupas sem qualidade ou adorno, minha avó era a submissão à família, à lida camponesa de início e à carga proletária suburbana que viria depois.

Vó Wadiha parecia ser quase o oposto. Nascida no Líbano, despertara o amor de meu avô sírio Dib ao passear com seus olhos violeta, adolescente, pelas ruas de São Luís. Sempre me pareceu altiva e doce a um só tempo. Devota de se ajoelhar na rua diante das imagens dos santos católicos que apareciam pelo passeio, era muito vaidosa também, pronta a encarar uma foto sem medo. Convivi com ela nas férias em Fortaleza até os meus 10 anos. Wadiha bem que tentou me ensinar crochê. À mamãe, disse várias vezes que minha pele era especialmente macia, o que bastou para me tornar orgulhosa, sei lá, imodesta, sobre esta parte de meu corpo, a maior e mais escondida.

Sinto sua ausência e presença a um só tempo. Uma transcendência feminina, enganadoramente leve como as nuvens num dia de sol.

Enquanto seu Monange não vem

As perfumarias aqui do centro têm imensos corredores vazios com prateleiras cheias de ofertas. Por isso não entendi a fila de hoje de manhã, que se dobrava muitas vezes na entrada da loja.

Estariam vendendo ingressos pro samba? Sorteando presentes? Contratando lojistas?

Cheguei-me à menina de top e shortinho acompanhada de uma senhora de óculos que talvez fosse vizinha ou parente, evangélica, possivelmente, e perguntei:

– Black friday?

– Não.

– Vão dar presentes pra vocês?

– Que presente o quê! Até parece que eles dão alguma coisa pra gente. Vamos é comprar na promoção.

Não perguntei mais. Precisei me recuperar da cutucada existencial. De onde viemos, onde estamos e pra onde vamos a bordo de nossos carrinhos de Impala e Monange?

Instantâneo do racismo

Sob o sol de rachar, o preto africano de túnica vê o branco sem camisa estendido em um pequeno canteiro da rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo.

O descamisado, que no entanto calça tênis, tem um pano enrolado na cabeça e pede esmola em voz alta. O preto africano lhe oferece uma garrafa de água tampada, que mal começara a beber. O maltrapilho grita, balançando a cabeça: “Quero isso não! Você está suado, porra.” O africano em túnica brilhosa parece não entender, recolhe a garrafa e segue em frente.

A estrutura do racismo brasileiro é macabra, gente. Desenhada todos os dias pra gente ver.